Leia agora
A Queda d'um Anjo

Universo da obra

A Queda d'um Anjo

Capítulo 31 · A Queda d'um Anjo

Como ela o amava!

31 de 37 ≈ 7 min de leitura

O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida que deu ao mestre-escola.

A sua felicidade era daquelas que o possuidor receia, a cada hora, perder; e o desacordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores grandíssimos. De todos, o de que ele mais se temia,--o dissabor por excelência monstruoso--era a vinda de Teodora a Cintra, a isso aguilhoada por o professor de primeiras letras, azedado pelo desprezo. Envergonhava-se ele, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de Travanca lhe aparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o estômago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara encavernada em um chapéu de 1832, que lá chamavam barretina, de imensas orelhas de palha amarelada pelo rodar dos anos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de toda a gente, e especialmente aos de Ifigênia.

Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo, embarcou em o vapor, e do Porto para cima acelerou as jornadas, repousando poucas horas. Contava ele anticipar-se ao mestre-escola. Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto.

--Tua senhora desmaiou de alegria, primo--disse-lhe Lopo de Gamboa--estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira. Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá... Olha que o patife do mestre-escola veio contar tudo!

--Já chegou?!

--Hoje às cinco da tarde.

--Que disse?

--Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda...

--Que infame embusteiro!--clamou o fidalgo--Chama-me um lacaio, que lhe vou mandar cortar as carnes, com um tagante!

Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi!

Assim dialogando, entraram à sala em que D. Teodora estava ainda muitíssimo entalada de soluços.

--Então que é isto, Teodora?!--perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe as pontas dos dedos na face.

Ergueu-se ela arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:

--Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!

--És tola, és tola, prima!--disse ele, assaz incomodado com o apertão do abraço--Pois eu não havia de tornar?! Quem te meteu essa na cabeça?

Teodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu em um choro desfeito.

--Que tens tu?--perguntou ele.

--Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!... Corta essas barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo, Deus me perdoe!...

Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. Naquele instante alanceou-o mortalmente a saudade de Ifigênia. Aquela casa de Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, daquele inferno alagado e frio de que fala o padre A. Vieira.

Começou a passear na sala, e a despedir baforadas de ansiada respiração do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em quando arrancava um ai das entranhas.

--A falar verdade--observou Lopo de Gamboa--estás um homem completamente diferente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem andas corcovado, nem tens aquela proeminência da barriga. Olha os ares de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!

Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquilo, sorrindo-se. Tirou da algibeira um charuto, e acendeu um fósforo. Eis que a mulher rompeu em mais desentoada choradeira, dizendo:

--O meu homem a fumar!... Que feitiçaria te fizeram, Calisto!...

--De maneira, disse o morgado vencido pela impaciência, de maneira que me recebes com choradeiras, e observações estúpidas, Teodora! Ora acabemos com esta feia comédia, e manda-me preparar jantar, que preciso comer e dormir.

Saiu Teodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se, pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que tudo aquilo nela era rudeza e bondade do coração.

--Bem sei, bem sei...--disse Calisto Elói, e recolheu-se à sua biblioteca, a principiar uma carta, que dizia:

«Minha querida Ifigênia.

Não te asseguro três horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui viver três dias. Não é enjoo, é pior, é horror o que me faz tudo isto! Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração, salva-me, resgata-me, arranca-me deste túmulo! Ó consoladora desta agonia sem nome, vale-me, tem mão nesta vida, que me foge...»

Entrou Teodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir à cesta dos ovos, de andar à pilha da mais gorda galinha.

Correu a abraçar-se outra vez nele com mais possante entusiasmo, enquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia o retrato.

--Meu Calistinho--suspirava a esposa palpitante--meu amado marido, não tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!...

--Que remédio senão ir, Teodora!...--disse ele--Sou obrigado por esta desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.

--Não é isso, não é isso!--clamou ela, saindo-lhe dos braços, que a largaram facilmente--Bem sei o que é...

--Sabes o que?--interrompeu com violentada placidez o marido--Sabes as calúnias que te veio contar o Braz, o vilão que se vingou como canalha por lhe eu não alcançar o hábito de Cristo! É o que faltava! pendurar a imagem da cruz em um peito cheio de tanta porcaria!... Então que te disse ele?...

--Que tinhas lá outra... e que te viu a passear com ela.

--Viu-me a passear com uma nossa parenta, viúva de um general. Quem disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de perguntar-lho diante de ti. Manda-o chamar à minha presença.

--Agora mando! que o leve a breca!--disse Teodora com alegre aspecto--Como tu vieste, foi o que eu quis; agora, pilhei-te cá, e não te deixo ir embora. Mas tu hás de cortar estas barbas, sim? e não estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estômago, não?

O tom e gesto caricioso, com que ela dizia isto, não moveu medianamente o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos lânguidos amorinhos com que a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.

--Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda, disse ele, afastando brandamente a esposa. Vai-te embora, e logo conversaremos.

Teodora estava em um daqueles elevados grãos de amoroso sentimento, em que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repelida daquele modo, ainda as lágrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito secou-as.

--Não me podes ver à tua beira! disse ela com altiveza. Vê-se mesmo na tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a falar na ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que saíste desta casa. Já não tenho marido!...

Neste ponto, não pôde represar as lágrimas. Acocorou-se no chão a chorar, com a cara metida entre os joelhos.

Calisto saltou da cadeira em um empuxão de raiva, e passou à sala imediata, gesticulando com frenéticos sacões de braços.

Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.

O demônio da expiação já andava às cavaleiras do homem. A saudade de Ifigênia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das goelas.

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

A Queda d'um Anjo

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A Queda d'um Anjo

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Queda d'um Anjo Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 31 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Queda d'um Anjo

Capa de A Queda d'um Anjo
Continue a leitura Como ela o amava! Capítulo 31 · 31 de 37 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 37 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir