Universo da obra
Universo da obra
Chegou a Paris a boa nova, desacompanhada de pormenores desonrosos. Dizia apenas o feitor do morgado que a fidalga se retirara para Travanca, deixando tudo que encontrara, e levando tudo que trouxera. Lopo de Gamboa industriara o feitor na direção que havia de dar à carta. Faltou-lhe apurar o desvergonhamento ao extremo de continuar correspondência com o marido de sua prima.
Calisto desandou para Lisboa, prevenindo Tomazia que ocultasse de Ifigênia a indecorosa cena que sua mulher fizera.
Na volta de Paris, o morgado aposentou-se no palacete da brasileira. O passeio à Europa limpou-lhe do espírito as teias: é bom desempoeirar os olhos com a viração salutar dos ares de França e Itália. Lisboa pareceu a Calisto Elói terra pequena de mais para sacrifícios tamanhos. Emancipou o coração, e obedeceu-lhe.
Assistiu ainda o deputado a algumas sessões parlamentares. Floreou os seus discursos com as recordações do progresso industrial no estrangeiro. Enlevou-se nas delícias de França, e não andou por muito longe da frase arrobada do dr. Libório de Meirelles na apologia dos esplendores estranhos, e lamentações das misérias da pátria.
Providenciou sobre negócios de sua casa, para que os recursos lhe não minguassem nas pompas do seu viver em Lisboa, e começou um doce viver, não mareado de mínimo dissabor. Renasceu-lhe no espírito, já livre dos sobresaltos do coração, o amor à leitura de livros modernos, em que se lhe deparavam luzes e ideias, que ele, a furto, conseguia entrever nas literaturas antigas. Avermelhava-se-lhe o rosto, quando lia o seu discurso acerca do luxo, e o outro mais tolo sobre Lucrécia Bórgia do teatro lírico. A ciência moderna flagelava-o. Tinha ele escrito nos dois primeiros meses alguns cadernos de papel, no propósito de dar à estampa um livro contra o luxo. Releu com pejo a sua obra, e ordenou a um criado que queimasse o manuscrito. O criado não o queimou. Escondeu-o sem mau intento; e alguma vez saberá o mundo literário como aqueles papéis vieram à minha mão, e ainda me são deleite e lição de sã linguagem e sãs doutrinas.
Decorreram alguns meses sem sucesso que dê capítulo dalgum interesse. Fechado o triênio da legislatura, Calisto Elói foi agraciado com o título de barão da Agra de Freimas, e carta do conselho. Sondou o ânimo de alguns influentes eleitorais de Miranda para reeleger-se pelo seu círculo. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilizava a candidatura, emparceirado com o boticário. Comprou o barão dois hábitos de Cristo que fez entregar, com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na volta do correio foi-lhe assegurada a eleição, que, de mais a mais, o governo apoiava.
Por esta ocasião, Braz Lobato, religada a amizade antiga, escreveu ao fidalgo uma carta em que, pouco menos de brutalmente, reproduzia os boatos correntes acerca do procedimento da sr.^a D. Teodora com o seu primo Lopo de Gamboa.
O barão experimentou um mal-estar de espécie nova, que se desvaneceu a pouco e pouco, e só mui levemente se repetiu no dia seguinte. Eu creio que o homem aprendera em Paris dois consolativos versos de Molière:
Quel mal cela fait-il? la jambé en devient ele Plus tortue, après tout, et la taille moins belê?
Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Ifigênia e do primo. Convinha-me descobrir amarguras lá dentro, para tirar delas o sintoma da expiação. Não descobri coisa alguma, que não fosse invejável. O mais que se me deixou ver de novidade foram duas crianças loiras, lindas, alvas de neve, e amimadas entre Ifigênia e Calisto como dois penhores de felicidade infinita.
Como ali caíram dos pombais do céu aquelas duas avezinhas, que saltitavam dos braços de um para o colo do outro, não sei. Eu digo ao leitor o que as mães de recém-nascidos dizem aos filhos mais velhos: «vieram de França em uma condecinha.»
Ouvi rosnar que no solar de Travanca também apareceu um ropolhudo menino, que pelos modos, também veio em um cesto de alguma parte. Se não fossem estas remessas prodigiosas de crianças, acabavam duas ilustríssimas famílias sem posteridade. A natureza é muito engenhosa.
O barão esperava que a mulher morresse, para legitimar os seus meninos, um dos quais se chamava Mem de Barbuda como seu décimo sétimo avô, e o outro Egas de Barbuda como seu décimo oitavo avô.
A baronesa, que, digamo-lo depressa, não rejeitou o título do marido, esperava que o marido se aniquilasse na perdição dos seus costumes, para também legitimar o seu Bernabé. Chamava-se Bernabé aquele gordo menino, gordo que não parecia fruto outoniço de árvore já tão esgravinhada e resseca! O amor é tão engenhoso como a natureza.
Deixá-lo ser feliz: deixá-lo. Calisto Elói, aquele santo homem lá das serras o anjo do fragmento paradísico do Portugal velho, caiu.
Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quase todos os outros, e com mais algumas vantagens que o comum dos homens.
Dinheiro a rodo!
Uma prima que o preza muito!
Dois meninos que se lhe cavalgam no costado!
Saúde de ferro!
E barão!
Conjetura muita gente que ele é desgraçado, apesar da prima, do baronato, dos meninos, do dinheiro e da saúde.
Eu, como já disse, não sei realmente se lá no recesso dos arcanos domésticos há borrascas.
Na qualidade de anjo, Calisto, sem dúvida, seria mais feliz; mas, na qualidade de homem a que o reduziram as paixões, lá se vai concertando menos mal com a sua vida.
Eu, como romancista, lamento que ele não viva muitíssimo apoquentado, para poder tirar a limpo a sã moralidade deste conto.
Fica sendo, portanto, esta coisa uma novela que não há de levar ao céu número de almas mais vantajoso que o do ano passado.
[1] Bebes bem e vives mal. Fr. Luiz de Sousa confirma este caso, algures, na Vida do arcebispo de Braga.
[2] Nós e nosso rei somos livres, etc.
[3] L. II, Epist. II, v. 51.
[4] O bom vinho alegra o coração do homem.
[5] Marinho escreveu no período da usurpação dos Filipes.
[6] Duarte Nunes de Leão ainda via os cavaleiros de bronze cujos cavalos deram o nome ao chafariz. Historiando o reinado de D. Fernando, e a invasão de castelhanos em Lisboa, escreve a pag. 205 e seguintes, da primeira parte da crônica dos reis:
«...E ardeu toda a rua nova, e a freguezia da Madanella e de S. Gião e toda a judaria com a melhor parte da cidade. E para memoria daquelle grande incendio, tomarão h[~u]as fermosas portas da alfandega da cidade para levarem a Castella quando se fossem. E assi quiserão levar h[~u]s cavalleiros de bronze, mui bem feitos, [~q] stavã no chafariz, a que ficou o nome dos cavallos por cuja bocca sahia aquella grossa agua. Mas os cidadãos prevenirão nisso, e os guardarão [~q] lh'os não tomassem, por ser cousa publica, e [~q] sendo levado o terião por affronta. Estes cavallos que... por aquella differença [~q] os antigos tiverão sobre elles os houveram de conservar os governadores da cidade, nestes dias proximos, como poucos curiosos de antiguidades, mandaram sem proposito tirar, donde tantos tempos estiveram.»
[7] Prudência em tudo.
[8] Sede prudentes como as serpentes, e símplices como as pombas. S. Matt. c. x. v. 16.
[9] Coroemo-nos de rosas enquanto elas não fenecem.
[10] Glória aos vencidos.
[11] O orador forrageou os elegantes dizeres, que vão sublinhados, na feracíssima seara de um livro do sr. dr. A. Aires do Gouveia Osório, intitulado: «A reforma das prisões.»
[12] Esta chave de ouro do peregrino discurso foi também roubada dos tesouros do sr. dr. Aires de Gouveia, ministro da justiça. Pag. 150, 2.^o vol. da Reforma das prisões.
[13] Não sejas por demasia justo.
[14] Palavras e frases sublinhadas são plagiatos. O dr. Libório tinha vasta leitura da Reforma das Cadeias do insigne escritor, A. Aires de Gouveia, ministro da justiça, ao fazer desta nota (20 de março de 1865, meia-noite).
[15] Já se disse que os primores sublinhados são despejadamente forrageados no livro do sr. dr. Aires de Gouveia.
[16] A Reforma das Cadeias, part. I, pag. 26.
[17] Ibid., pag. 17.
[18] Antônio Ribeiro dos Santos, 1.^o vol., p. 186.--A. Aléxis
[19] É igual o sentir do padre Manuel Bernardes. Diz assim: «Adverte que as várias disposições e acidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu modo também ao espírito... Diversa feição e atualidade tem o espírito de quem vai montado em um formoso cavalo, e o do que vai em um desprezível jumento. Se o teu vestido for pobre e roto, repara que o espírito recebe daqui alguma disposição diferente da que tem quando o vestido é novo e asseado: e assim nas mais coisas. (Luz e Calor. Silva de vários ditames espirituais.)
[20] Se fores a Roma, vive à moda de Roma.
[21] Creio que os grandes efeitos desta narrativa foram detidamente estudados e calculados pelo caminho.
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