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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo 2 · Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo I

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Como depois de doze anos me vejo obrigado a dar satisfações ao público; digo o que é o respeitável público, e ensino as regras oficiais para as satisfações que às vezes é preciso dar-lhe: refiro em que situação deixei e por que deixei o Compadre Paciência; tenho ocasião de apreciar a habilidade diplomática do ruço-queimado: dou notícia da morte de meu tio e dos absurdos do testamento que ele deixou; depois de chorar com uma demasia de cinquenta por cento, desmaio em regra, devoro um peru recheado, e conversando em seguida com o meu travesseiro, adormeço súbita e inspiradamente atacado de uma paixão amorosa pela moça que mais aborrecia.

Famosa viagem que em 1855 fui obrigado a empreender para estudar no livro da minha terra, ficou, como é sabido, interrompida no fim do Capítulo IV escrito na Carteira de Meu Tio, e exatamente no momento em que o carcereiro da Vila de... trancara na enxovia o compadre Paciência.

De 1855 a 1867 correram nada menos que doze anos, tempo suficiente para uma cobra mudar de pele doze vezes, e um bom patriota mudar de partido outras tantas, e eis-me agora metido em novo empenho para dar ao público explicações relativas à interrupção da viagem, ao destino ou à fortuna do compadre Paciência, e até à publicação abusiva dos apontamentos que eu tomara na Carteira de Meu Tio.

Do que acabo de dizer, é fácil concluir que a minha educação política tem-se aperfeiçoado muito, pois que já reconheço a necessidade de dar satisfações ao público; não tenham, porém, receio de que eu minta à escola dos grandes mestres, cujos exemplos e lições me resolvi a seguir.

Primeiramente cumpre saber e determinar bem o que é o público para os políticos da escola do Eu; e depois compreender como é que os homens desta escola devem dar explicações ao tal senhor público.

O público é o povo, isto é, um animal cargueiro, uma espécie de camelo bípede capaz de carregar às costas o próprio diabo, com tanto que o peso do diabo não exceda às proporções materiais das forças do camelo; como porém o diabo tem o segredo infernal de dissimular o seu peso, o respeitável público presta-se a carregar com todos os diabos, desempenhando desse modo o seu natural ofício. Se alguém duvidar desta verdade, examine com cuidado e sem prevenções a numerosa lista dos ministros de Estado que temos tido, que sem precisar estender o seu exame aos grandes do Império, presidentes de províncias, e corpo legislativo, reconhecerá como é avultado o número de diabos que tem andado às costas do povo brasileiro.

O público é ainda um animal notável pela sua boa fé; e tem, para engolir patranhas e mentiras, goela tão larga, como para engolir os contos de réis do tesouro nacional tem imensa goela certos fornecedores do exército e os felizes exploradores da guerra do Paraguai.

O público é muito respeitável, segundo dizem, pela força e influência da opinião que manifesta; mas sempre lhe acontece que a sua opinião fica sendo a opinião de quem fala em seu nome, e em muitos casos uns afirmam que o público diz sim, e outros juram que o público diz não a respeito do mesmo assunto, de modo que em resultado o público, apesar de respeitável, acha-se constantemente exposto a não saber o que diz.

O público é uma charada sem conceito, e cuja palavra só o governo tem o condão de decifrar: é um soberano que vota como lhe mandam; é livre no exercício dos seus direitos, com tanto que pense e proceda de acordo com a polícia.

É tudo isso e assim deve ser; pode-se admitir que o público chegue a mostrar-se inteligente e instruído; mas com a condição de que em matéria de gramática há de conjugar os verbos só e exclusivamente pela passiva ou sujeitar-se a nunca ser sujeito, e a ser sempre paciente de verbo ativo.

O público é enfim ordinariamente dromedário que se humilha ante os condutores; mas também às vezes ousa ser leão que encrespa a juba e ruge. Debaixo deste último ponto de vista eu aplaudo muito os conselhos e as disposições dos meus mestres políticos: a regra é não poupar o dromedário que se humilha; e estar de sobre-aviso para fazer coro com os rugidos do leão, quando ele encrespar a juba, e em último caso para fugir, abandonando-lhe às fúrias tudo quanto não seja o nosso Eu; porque tudo mais, seja o que for, e quem for, pouco importa.

Mas como é que se devem dar explicações a este animal que se chama o público?

É realmente bem desagradável que homens de gravata lavada, estadistas, excelentíssimos ministros se vejam forçados ao ponto de dar explicações à ignóbil patuleia!

Todavia o celerado século XIX trouxe em seu ventre maldito exigências e imposições extravagantes, absurdas, loucas, a que no entanto os homens do eu têm necessidade de fingir submeter-se; zombando porém de todas elas, e sofismando-as com os recursos da sua sabedoria.

O sofisma é o mais sublime e mais santo dos atos do espírito humano; para demonstrar esta proposição basta dizer que pelo sofisma faz-se da nação que se proclama soberana uma escrava mais abatida do que a mulher do tapuia: o segredo consiste em arranjar bem o sofisma. É a sublimidade do sofisma que deve presidir a todas as explicações dadas ao animal que só por irrisão continuarei a chamar respeitável público.

A minha norma de explicações está nas explicações que os ministros de Estado costumam dar aos chamados representantes da nação.

Eis aqui as regras principais:

Primeira: mentira grossa: desfiguram-se os fatos; calunia-se a oposição e quando se faz preciso, jura-se que um homem que foi morto a tiro, ou a cutiladas, morreu de tubérculos mesentéricos, e neste caso acha-se um médico que ateste os tubérculos que não viu, do mesentério que não sabe o que seja.

Segunda: imposição de silêncio: declara-se que há negociações pendentes e enquanto o pau vai e vem, folgam as excelentíssimas costas.

Terceira: recurso extremo: apela-se para o salvatério das circunstâncias extraordinárias, e pede-se um bill de indenidade com a certeza de alcançá-lo, graças ao encanto da maioria dedicada e da mobília parlamentar.

As regras não se limitam a estas três; eu porém me contento com elas, e nem de outras há necessidade para se felicitar o país; e para as minhas explicações basta-me a primeira que aliás é a mais comum, mais vezes empregada, e já oficialmente consagrada.

Nem se diga que essa primeira regra das explicações que se devem dar ao público, sendo a mentira, é um pecado baixo, ignóbil: os atos são feios, vis, ou criminosos, conforme a posição e condições daqueles que os praticam; e tanto isto é assim que até os próprios delapidadores dos dinheiros do Estado, se trajam casaca ou farda, ou se delapidam em alta escala, não são considerados ladrões.

A mentira só se pode chamar mentira, quando sai da boca de um homem de jaqueta, ou de algum patuleia de cotovelos rotos.

A mentira de um cidadão de paletó (convém saber que o paletó é vestido eminentemente parlamentar) chama-se má informação.

A mentira de um cavalheiro de casaca chama-se apreciação menos bem fundada.

A mentira de um senhor (monseigneur) de farda ministerial chama-se — reserva ou conveniência política.

E sobretudo a mentira é um recurso indispensável: dizem que ela nodoa os lábios por onde sai: é falso! é ficção poética, é flor de retórica de péssimo gosto, é lição de moral de padre velho; se a mentira manchasse as bocas dos mentirosos, quase todos os nossos políticos tinham bocas de carvoeiros.

Ora... a mentira!

A mentira é tão útil que vezes determina a baixa ou alta dos fundos públicos na praça e duplica a fortuna ou dá grandes lucros a quem a faz correr, e que, depois de descoberta a alhada, fica com a mesma cara, e nem por isso é responsabilizado.

A mentira é a base da legitimidade da maior parte dos diplomas eleitorais dos senadores e deputados, e portanto é a base da expressão da soberania nacional.

A mentira é a madrinha do patronato e por consequência a comadre dos ministros de Estado.

A mentira é o cajado de Caim com que os tribunos que atraiçoam o povo, ferem os irmãos que não degeneram nem se deixam corromper como eles.

A mentira é a escadinha dos ambiciosos que na oposição pregam doutrinas, que subindo ao poleiro, hão de desesperadamente combater.

A mentira é o santo pretexto dos golpes de Estado; é a explicação das despesas secretas da polícia; é a espada de dois gumes que serve às oposições facciosas, e aos governos sem razão de ser nos partidos legítimos do país.

A mentira é um manjar delicioso e inocente preparado na cozinha de alguns ministérios e de algumas oposições para alimento e engodo do povo, e a prova de que o manjar é inocente, está em que eu tenho visto e estou vendo o povo brasileiro comê-lo constantemente desde longos anos, e não me consta que até hoje tenha havido caso de indigestão popular.

Por consequência viva a mentira!

Entro imediatamente na matéria, encetando estas Memórias com as explicações que devo ao respeitável público, e que vou dar-lhe com religioso acatamento; porque elas me convém e são precisas para ligar esta minha segunda e imortal obra à Carteira de Meu Tio, da qual será continuação.

É provável que nestas Memórias eu repita muitas ideias, que deixei lançadas na Carteira; é provável que eu seja não poucas vezes repetidor e plagiário de mim mesmo; isso porém demonstrará somente a pureza e firmeza das minhas convicções, e não fará desmerecer a nova obra, que acabo de empreender.

Tenho para mim que as Memórias que vou escrever não serão trabalho estéril e perdido: já vou mui adiantado, ou com boas esperanças de adiantamento no meio de vida que chamam carreira política, conto ser em breve considerado notabilidade, e chegarei não tarde a benemérito da pátria; escreverei pois apontamentos muito preciosos para os meus biógrafos e futuros admiradores.

O mundo há de ver e reconhecer que o Sobrinho de Meu Tio chegou a grande coisa na sua terra.

Eu principio.

O compadre Paciência achava-se trancado na enxovia da cadeia da vila de... e bradava como um possesso, por não sei quantos parágrafos do artigo 179 da Constituição do Império: tive mil vezes vontade de rir; o pobre coitado para escapar às garras dos fiéis e zelosos executores da lei, apadrinhava-se com uma alma do outro mundo, chamando em seu socorro a defunta!...

Homem de ordem, e respeitador dos atos legais e também dos abusos das autoridades, homem que acha sempre razão em quem está de cima e não parece ameaçado de cair, eu empenhei-me em ver se chamava aos conselhos da sabedoria o compadre Paciência e propus-lhe que escrevesse ao escrivão, dando-lhe humildemente plenas satisfações e pedindo-lhe perdão de tudo quanto se passara.

Trabalho inútil!... o cabeçudo compadre meteu os pés à parede e durante três dias fez loucuras tais que receei vê-lo processado e condenado como conspirador.

Em três dias requereu o bom do homem tudo quanto podia requerer, subindo, em escala ascendente, desde a nota da culpa até o habeas corpus, e adubando cada requerimento com as competentes réplicas e tréplicas; mas o juiz jogava o lasquenet com o escrivão e uma dúzia de amigos, e conforme ganhava ou perdia, despachava com um epigrama ou com um insulto.

Por último o compadre perdeu de todo a cabeça e agravou, e como então já estivesse com a vara um substituto, lavrou este o seguinte despacho ditado pelo escrivão: Agravante é o agravado; seja também processado pelo crime de que trata o art. 95 do código criminal; e dobre-se a guarda da cadeia; porque o réu é audaz e capaz de tudo. E dobrou-se com efeito a guarda da cadeia, sendo para esse serviço destacados por quinze dias vinte guardas nacionais do partido contrário ao do juiz e do escrivão.

Apesar das minhas relações com o compadre Paciência, devo confessar que me pareceu tudo isto muito conveniente, moralizador e político: muito conveniente, porque a autoridade policial ou judiciária nunca deve recuar do que faz, a fim de não indicar que erra, imitando daquele modo o poder executivo que tem sempre a infalibilidade do papa: muito moralizador, porque essa opressão dos réus importunos, replicantes, treplicantes e agravantes, é, embora com sacrifício das imprudentes garantias estabelecidas nas leis, um meio seguro de disciplinar o povo, e ensiná-lo a reconhecer que a autoridade sempre tem razão: muito político enfim, porque o compadre Paciência é liberal emperreado e a exagerada tolerância com os emperreados de qualquer cor política, é quase sempre funesta e provocadora de revoluções.

Nunca a ordem pública deixou de ganhar, quando se pode ver um liberal nas grades de uma cadeia. A cadeia é a melhor escola de desenganos políticos que se pode imaginar; e os liberais, como pássaros que cantam muito ao povo, merecem ficar de vez em quando na gaiola.

Notai bem que eu não quero a proscrição absoluta dos liberais: pelo contrário, considero-os até de alguma utilidade, como espantalhos, e instrumentos de ameaça contra outro qualquer partido; mas o que se torna indispensável é uma vez por outra cortar-lhes as asas, e em caso nenhum admitir no poder exclusivamente loucos tão perigosos.

Debaixo, mas sempre debaixo, os liberais podem servir ao Estado: eles têm o direito das esperanças; suas esperanças porém devem ser, sem que eles o percebam, as das cebolas do Egito.

Declaro por honra e glória do meu nome que, durante três dias, prestei ao compadre Paciência todos os bons ofícios de amizade compatíveis com a segurança e bem-estar da minha pessoa: tive paternal cuidado da mula-ruça, a quem mandei dar de milho e capim rações iguais às que recebia o cavalo de meu tio; e fui além, tive a coragem de mandar servir pão-de-ló e excelente vinho ao enfezado preso; soube porém logo depois que em observância do regulamento especial da cadeia daquela vila, que não permite a entrada de doces nem de bebidas alcoólicas na enxovia, o escrivão comia o pão-de-ló, e o carcereiro bebia o vinho, donde concluí que também em observância de qualquer outro regulamento que em todo caso respeito, era natural que o cavalo do escrivão comesse o milho, e o burro do carcereiro comesse o capim da mula-ruça do meu compadre.

Eu julgo até muito regular que o cavalo do escrivão e o burro do carcereiro comessem à custa da mula-ruça: em fato de comer à custa alheia, quando uma autoridade come, o pecado da gula se estende, pelo contágio do exemplo, aos fâmulos e ainda ao gato e ao cãozinho da casa; e desde que comem, o pão-de-ló e o capim não estabelecem diferenças, cavalo e burro, escrivão e carcereiro são iguais pelo mais delicioso dos pecados.

Tenho ouvido dizer, que debaixo deste ponto de vista a mula-ruça do meu compadre tem às vezes suas semelhanças com o serviço do Estado; mas em tais casos o pão-de-ló e o vinho não descem às humildes guelas dos escrivães e dos carcereiros.

Estava eu pois em apuros e em filantrópicos trabalhos por causa das exaltações políticas do compadre Paciência, quando na noite do terceiro dia chegou-me a toda pressa um portador com a notícia de que meu venerando tio se achava às portas da morte, e queria abraçar-me antes de passar à eternidade.

A primeira impressão que me causou esta notícia, foi na verdade dolorosa: confesso a minha fraqueza que importa uma falha na comodíssima filosofia do egoísmo: é que meu tio tinha sido sempre bom para mim; em breve porém refleti que ele era muito rico e que, por sua morte, eu devia contar com a herança de toda sua fortuna: ora é positivo que a perspectiva, ou, melhor, a certeza de uma grande herança, é a mais suave consolação para as aflições do herdeiro.

Palavra, que em dez minutos me achei perfeitamente consolado, e nem quis exprimir lágrimas diante do portador, calculando que me era conveniente poupá-las para o caso de encontrar meu tio ainda vivo e ser então indispensável que eu chorasse muito à vista dele.

Talvez haja quem me chame, pelo que acabo de dizer, coração de pedra, monstro e ainda muitos outros nomes feios: pois que chamem! é que nem todos são francos e transparentes como eu; juro porém que fico muito aquém de não poucos homens sérios que já conheço, e que são capazes não só de não chorar pelos tios que morrem; mas até de atraiçoar, ou de vender os tios que vivem.

Entretanto não havia que hesitar: escrevi uma carta ao compadre Paciência, dando-lhe parte do acontecimento e prometendo-lhe mundos e fundos; mandei selar o ruço-queimado e fazendo pôr à mesa uma farta ceia, comi tanto, como certos beneméritos da pátria que devoram imensa empada da — ajuda de custo extraordinária — posta por condição ao serviço que lhes pede o governo.

Satisfeitas assim as exigências da barriga, que em todas as circunstâncias devem estar em primeiro lugar, pus-me a caminho.

Convenho em declarar que me preocupava um pouco a ideia de chegar cedo demais, e de assistir a uma cena de agonia; mas eu tinha depositado bem fundadas esperanças no ruço-queimado; admirável cavalo! não mentiu à sua bem merecida reputação: é um cavalo sério, moroso, inalterável, contemporizador, paciente, como alguns diplomatas do meu conhecimento é um animal estupendo, raro, que só por erro da natureza saiu cavalo: se não fosse o andar de quatro pés, o mesmo fato de nunca rinchar, e não poder falar, podia assegurar-lhe os mais altos destinos na diplomacia.

Eu hei de imortalizar este cavalo que tem incontestável direito à minha, e, como alguns outros, à pública gratidão.

Gastamos quase dois dias de viagem para chegar a casa, e quando chegamos, o meu respeitável tio já não estava nela: havia vinte e quatro horas que tinha sido sepultado.

Achei a casa cheia de parentes, e aberto sobre uma mesa o testamento de meu tio. Não sei como pude resistir ao ímpeto de atirar-me ao testamento: foi uma das mais violentas lutas que tenho tido em minha vida; mas resisti! e resisti brilhantemente: salvei todas as aparências. Apresentaram-me o desejado papel... repeli-o com ambas as mãos e desatei num berreiro que comoveu a parentela toda.

Reconheci naquela hora suprema que eu tinha nascido para ser um figurão no teatro político: um homem que assim se domina, que, devorado da sede da herança, simula tanta indiferença por ela, e que perfeitamente consolado desata em furioso berreiro, nunca achará dificuldade em ser Graco de comédia ou Catão de carnaval.

Todavia a veemência da dor não podia prolongar-se muito: enquanto gritava e soluçava, calculei o tempo que devia chorar, e mitiguei pouco a pouco e decentemente o pranto: dobrei-me enfim às consolações dos parentes, e cedendo às suas instâncias, li o testamento.

Ah! que ilusão e que desengano!... meu tio era um homem que não sabia fazer as coisas; ou que as sabia fazer a preceito; pois logrou-me de um modo revoltante: arrependi-me de haver chorado tanto: aconselho aos sobrinhos que não desatem a chorar pelos tios que morrem, sem que primeiro saibam quanto lhes deixam em testamento esses parentes. A expressão da dor deve estar na razão direta da herança que se vai receber e gozar.

Ataquem embora os escrupulosos estes princípios como imorais e indignos: defendo-me plenamente com duas palavras: não quero fazer escola; já achei a escola feita; sigo as lições dos mestres, e o único pecado de que me acuso é o de me escaparem às vezes certas franquezas, que rasgam a capa da hipocrisia do chefes da escola e os deixam com os senões à mostra.

O tal velho liberal, o adorador da defunta que nunca viveu, meu tio enfim, deixara uma fortuna de trezentos contos de réis, e em vez de me declarar seu único herdeiro, que era o que eu esperava, cometera o incrível abuso de deixar a sua terça a uma sobrinha muito pobre, chamada Francisca, legara-me apenas cento e cinquenta contos de réis, e os cinquenta restantes repartira em loucos legados por não sei quantos parentes!...

Achei-me portanto despojado de trezentos e setenta e cinco mil cruzados!... dei solene cavaco. Em regra eu deveria ter chorado metade do tempo que levei a chorar. Foi um erro enorme de cinquenta por cento em lágrimas.

Mas o engraçado, o curioso é que meu tio ainda deixava a minha herança dependente de uma condição, que se compunha de três condições!

Os velhos cabeçudos têm ideias que fazem vontade de rir!

Eis aqui a sublime verba testamentária condicional que seguia logo a declaração do legado: «Como, porém, desejo que o meu principal herdeiro seja digno de mim e honre com o seu proceder em relação ao Estado a minha memória, declaro que não só recomendo e exijo em nome da pátria e de Deus que esse meu principal herdeiro, o meu sobrinho F... (e vinha estirado o meu nome todo) cumpra à risca os seus deveres de cidadão, como ainda muito precisa e terminantemente determino que ele, em presença de pelo menos de três parentes, jure, pondo a mão sobre o livro dos Santos Evangelhos, que na vida política e no exercício de cargos públicos e de posições políticas observará sempre e religiosamente os seguintes preceitos:

«Primeiro: nunca se afastará da Constituição do Império.

«Segundo: será leal ao partido político, a que se achar ligado e não mudará de partido sem fortes razões de consciência.

«Terceiro: nunca, e sob pena de maldição lançada por mim da eternidade, se venderá ou venderá o seu voto a ministério algum.

«E se o dito meu sobrinho não se quiser sujeitar a este juramento e condição, ficará privado da herança, a qual se dividirá proporcionalmente pelos outros legatários, com exceção da herdeira da minha terça.» Para provar que meu tio estava doido, quando escreveu seu testamento, eu não precisava de melhor testemunho, do que o que apresentava semelhante extravagância testamentária; mas está visto que apesar do prejuízo dos trezentos e setenta e cinco mil cruzados eu não podia pensar em propor nulidade de testamento.

O tal amor da liberdade e da Constituição quando chega ao grau de mania, é a mais perigosa de todas as loucuras. Decididamente meu tio morreu louco furioso.

Em suma, eu tinha ficado com um logro de cinquenta por cento; era porém indispensável mostrar boa cara, e não dar sinais de ressentimento: a minha atitude serena tornava-se todavia cada vez menos sustentável: desapontamento por logro em matéria de herança é coisa que transpira até pela ponta do nariz na cara de um egoísta.

A viagem me havia estafado; a choradeira fingida e forçada ainda mais; as verbas testamentárias exigiam reflexões, e, pior que tudo, eu sentia uma fome de ganhador político, que por erro de cálculo, declarou-se em oposição antes de tempo; realmente porém sou homem de recursos: tive uma inspiração, simulei uma ligeira síncope... acudiram-me... tornei logo a mim, e queixei-me de fraqueza: a boa ou tola gente que me cercava deixou-me ir para o meu quarto, para onde logo me mandou um peru assado, pão, e vinho.

Vinguei-me no peru: devorei-o todo.

Achei-me nas melhores condições para pensar fria e refletidamente.

Eu não tinha mais fome, e o meu estômago deixava portanto em liberdade a minha alma.

Deitei-me: a minha cabeça pousou suavemente no seio dos bons conselhos.

Com perdão dos senhores conselheiros de Estado, o melhor conselheiro é o travesseiro.

Senti que estava a meu gosto, que estava só, livre, independente e com a cabeça no meu travesseiro.

Porque é que o travesseiro é o melhor conselheiro?

É porque a sós, sem testemunhas importunas, o homem com a cabeça encostada no travesseiro, com o corpo suavemente abandonado às delícias de um fofo colchão e de frescos lençóis de linho, pode muito a seu gosto ouvir as três vozes, e conversar com as três misteriosas faladoras, que lhe falam de dentro do seu ser e pode apreciar qual dessas vozes deve ser mais ouvida, qual delas dá conselho mais de harmonia com a vida real deste mundo, e não com a vida do mundo dos poetas, que levam os homens aos trambolhões pela estrada dos desenganos.

E que há três vozes que nos falam de dentro de nós mesmos, não tenho dúvida alguma.

Há a voz da consciência, como a chamam os padres, e, segundo eles, voz do dever que impõe, ou do remorso que pune, e, em uma palavra, mas ainda segundo os padres, voz de Deus falando na alma do homem.

Há a voz do coração, como a denominam os poetas, e, no dizer deles, a voz do sentimento, voz dos anjos sempre generosa e pura dos interesses e das misérias da terra.

E há a voz da razão fria e positiva, voz humana que fala às realidades da terra e da vida, e que é luz que guia os homens nas sombras atrapalhadoras da viagem deste mundo.

Eu tenho opinião formada sobre estas três vozes.

A voz chamada da consciência é uma voz artificial criada pela educação perniciosa da infância, voz que nasce das histórias do tutu e da mãe-d'água — que as amas contam aos meninos para fazê-los dormir, e que se desenvolve depois pela influência das caraminholas pregadas pelos padres que dos púlpitos nos falam dos tormentos do purgatório e do inferno, como se no purgatório e no inferno tivessem eles por muitos anos morado.

A voz da consciência é uma tremendíssima peta, que nos causa grandes atrapalhações neste mundo: é um tambor de criança malcriada, é um martelo de latoeiro incansável, é um discurso eterno de oposição enfesada, é um incessante grito de araponga que não se pode suportar: a consciência é uma velha rabugenta que tem sempre de que ralhar. Eu entendo que não se deve fazer caso da consciência.

A tal voz do sentimento, além de igualmente perigosa, é estúpida. O sentimento é cego, e portanto o pior dos condutores: dizem que é a voz inocente e pura do coração em que fala o sentimento que pode salvar o homem diante de Deus, e por consequência salvá-lo no céu; pois ainda que assim seja, não quero saber das purezas do sentimento que salva o homem no céu depois de deitá-lo a perder na terra: também asseveram que a voz do coração é a voz dos anjos; mas os fatos provam que há casos em que tudo indica que o diabo entra no coração, e torna este mundo um inferno para o homem.

Eu já me habituei a examinar e julgar tudo debaixo do ponto de vista político, e é boa regra, porque o bom e o mau é necessariamente bom e mau tanto na vida particular, como na vida pública: duas moralidades diversas são duas grandes mentiras: é preciso que o homem se sujeite ao absolutismo da verdade: o tolo, o escrupuloso na vida particular, é tolo e escrupuloso na vida pública, não há distinção possível.

Que papel faria um homem político, um estadista, se desse ouvidos à voz da consciência ou à do coração, à voz do dever ou à do sentimento, à voz de Deus ou à dos anjos?... Supondo verdadeiros todos esses qualificativos das duas vozes, seguir-se-ia que o homem todo ocupado de Deus e dos anjos, do dever ou do sentimento, esqueceria as realidades deste mundo e os homens, e faria governo e política para o reino dos anjos, e dos poetas, para o paraíso e para o mundo da lua!

Ficávamos arranjados aqui na terra.

Nada: deixemo-nos de santidades e de poesias: a coisa, como vai, vai bem: o dever é uma peia, o sentimento uma fraqueza, talvez uma coisa ignóbil: o homem não deve ter consciência, que é entidade abstrata, e não real, e deve ter coração só por duas razões: primeiro, porque o coração é indispensável, segundo os fisiologistas, para a circulação do sangue e para a vida; segundo, porque o coração é uma víscera que pela posição que ocupa no corpo humano, fica exatamente por baixo da algibeira, onde se recolhe o dinheiro, e consequentemente anistiado dos crimes do sentimento, afidalgado, sublimado enfim pelas condições de contiguidade, ou pelo menos de vizinhança da bolsa que é, ainda mais do que a peça de artilharia, a soberana do mundo.

Eu portanto condeno a consciência, e, se absolvo o coração é somente em homenagem à notável circunstância atenuante de senti-lo palpitar por baixo da algibeira.

A voz da razão... essa sim!

Mas não haja confusão de ideias: a voz da razão, ao menos cá para mim e para muita gente mais, quer dizer pura e simplesmente a voz do espírito refletido que anuncia ao homem o que mais lhe pode convir nas circunstâncias e no correr da vida: é a voz prudente, previdente do egoísmo, que dança conforme toca a música do interesse, que canta em todas as claves a solfa das conveniências; é a voz cuidadosa, cautelosa, calculista que dentro do homem brada ao homem: Sentido! não te deixes levar pela honra se não queres afundar-te na pobreza! — olha! finge agora obedecer cegamente aos preceitos do dever; porque desta vez o dever está em harmonia com o teu interesse!

— Agora não! atira com o dever para trás das costas, desata a rir dos melindres do pudor, e arranja os teus negócios sem cerimônia.

Há quem sustente que esta voz, que eu chamo de razão, é a voz da desmoralização, ou, melhor, é a voz do diabo: não sei; tudo pode ser; mas se é a voz do diabo, metade, pelo menos, da gente que mais figura na minha terra, está com o diabo no corpo ou segue os avisos do diabo.

Não quero entrar nesta questão: basta-me saber que a consciência é incômoda, que o sentimento é trapalhão, e que a razão, que é o egoísmo, me felicita, ou, em caso extremo, me inspira recursos que diminuem o mal que me sobrevém.

Oh travesseiro! ó minha ninfa Egéria! consciência pela janela fora, sentimento posto de reserva para as cenas artificiais com a parentela amanhã — fiquemos a sós com o egoísmo: ó Egéria! faze-me ouvir a voz das minhas conveniências materiais.

Pus em discussão o testamento de meu tio.

Era ordem do dia obrigada.

Pedi a palavra pró e contra ao mesmo tempo.

Não se admirem: nas Câmaras já tenho ouvido oradores da maioria falarem pró e contra a mesma ideia no mesmo discurso, conforme o sorriso ou a careta do ministro que assiste à discussão, e o fato é muito justificável, porque ao sorriso ou à careta de um ministro prende-se às vezes todo o futuro de um deputado da maioria.

Pedi, pois a palavra pró e contra o testamento de meu tio.

E comecei a falar ao meu travesseiro, ou a repetir o que me dizia o travesseiro.

O testamento de meu tio continha três absurdos.

Primeiro absurdo: a terça legada à prima Francisca.

Segundo absurdo: os cinquenta contos legados aos outros parentes.

Terceiro absurdo: a condição que me era imposta.

Que remédio porém?... no nosso parlamento tem-se observado que se reconhecem absurdos em um projeto, e no entanto se vota pelo projeto por amor de pretendidas necessidades publicas: adoto o exemplo parlamentar: reconheço que é absurdo o testamento de meu tio; mas voto por ele em consideração das mais altas conveniências da família, isto é, em atenção aos meus cento e cinquenta contos.

A primeira questão acha-se resolvida: está adotado o testamento de meu tio.

Passemos aos detalhes.

Começarei pela condicional.

A condição imposta por meu tio para se realizar a minha herança tem um travo de fel, e um grave comprometimento para mim.

O travo de fel está na manifesta desconfiança da minha probidade; esta ponderação porém, não pode ter consequências: engulo o fel, e finjo que não entendo a história: estou pronto a dar a todos os meus parentes o direito de desconfiarem de mim, com a condição de me deixarem legados em seus testamentos.

Ande eu quente e ria-se a gente.

O grave comprometimento está na observância dos três preceitos da célebre condição.

Sem dúvida cento e cinquenta contos fazem o princípio de uma fortuna; mas os malditos três preceitos vêm embaraçar desastradamente o desenvolvimento e aumento dessa fortuna: de uma vez por todas declaro que não quero aviltar-me com o trabalho, e que calculo explorar a mina abundantíssima da política; não sou pior que muitos outros que têm enriquecido, dedicando-se ao serviço do Estado: francamente: eu desejo arranjar vida esplêndida, mamando nas tetas do tesouro público e, ainda mais, aproveitando a influência de uma alta posição oficial para ganhar dinheiro, que é o essencial e a grande realidade da vida.

Como porém chegarei a realizar este sublime desideratum, vivendo grudado com a Constituição do Império, sendo leal ao partido a que me ligar, e nunca me vendendo a ministério algum?...

Meu Tio era um homem sem consciência.

Que me cumpre fazer? desistir da herança? nessa não cai o Sobrinho de meu tio.

É indispensável aceitar e não cumprir a condição.

O juramento sobre o livro dos Santos Evangelhos é o menos: quem hoje dá importância a semelhante banalidade? Perguntai aos deputados de uma legislatura nova o que juraram quando todos depois do primeiro, que, gaguejando, lê materialmente todo o juramento, vêm um por um e de joelhos, pondo a mão no livro dos Santos Evangelhos, vão dizendo: «Assim o juro». Perguntai-lhes o que juraram? Poucos d'entre eles o sabem, e todavia ficam todos sendo augustos e digníssimos juramentados, e há quem diga, que durante quatro meses em cada ano do quadriênio, muitos deles perjuram como testemunhas falsas, e são infiéis à pátria como Judas foi infiel a Cristo.

O juramento sobre o livro dos Santos Evangelhos não me cria embaraço algum: a minha escola política admite e considera o juramento como um meio de mais para enganar os tolos.

Mas os três preceitos tão clara e positivamente estabelecidos?... em todo caso é preciso salvar as aparências: é preciso ver como poderei sofismá-los de modo a impor silêncio aos meus detratores futuros Primeiro: nunca me afastarei da Constituição do Império.

Deste estou salvo: eu sou materialista, e devo entender e explicar tudo debaixo do ponto de vista material. Trarei sempre no bolso do paletó a Constituição do Império: assim nunca me afastarei dela, e nem por isso serei obrigado a respeitar os seus princípios e disposições. Os ministros de Estado também conservam religiosamente nas suas mesas a Constituição do Império, e entretanto fazem dela gato e sapato.

Estou arranjado com o primeiro preceito: vamos aos outros.

Segundo: serei leal ao partido político a que me achar ligado e não mudarei de partido sem fortes razões de consciência.

Este preceito é estúpido: há sempre fortes razões de consciência para um ganhador político mudar de partido. Eu conheço não um, mas uns poucos de patriotas como eu, que têm jurado bandeira em todos os partidos e em todas as facções desta nossa terra, que são sempre ministeriais em anos de eleições, e sempre depois das eleições quando os governos repartem com eles o pão-de-ló do tesouro, e que ostentam tanta lealdade e firmeza, como os mártires da fé.

Por mim eu adoto o preceito de meu tio e vou ainda além dele: protesto que nunca hei de mudar de partido; porque eu sou do glorioso partido do meu eu: a minha bandeira está hasteada nas minhas conveniências: nas grandes lutas o meu penacho de Henrique IV será sempre o meu interesse. Malditos sejam os políticos volúveis: eu sou firme: não mudo, e nunca mudarei de partido.

Chego ao último preceito.

Terceiro: nunca e sob pena de maldição lançada da eternidade por meu tio, me venderei, ou venderei o meu voto a ministério algum.

Este preceito é que seria capaz de deitar-me a perder! Para mim e para os da minha escola equivale a um homicídio político.

Façam de conta que eu me apresento candidato a deputado: estava arranjado com o tal preceito! O preceito quer dizer polícia contra mim; polícia contra mim quer dizer — candidatura perdida!

Meu Tio era um maníaco que via o sol a meia-noite, e não o via ao meio-dia.

E suponhamos que apesar da polícia, eu era eleito deputado: estava arranjado com o tal preceito! preceito seria para mim a transformação de câmara em tormento de Tântalo, seria o pão-de-ló a cheirar e eu morto de fome a jejuar! O preceito seria o dístico escrito por Dante na porta do inferno, e para mim transcrito na porta da câmara: a Lasciate ogni speranza...»

Não; isso não: isso é demais: não me submeto a semelhante sacrifício do meu futuro.

É preciso sofismar este louco preceito...

Ah! perfeitamente! a ideia não é original; mas serve-me, e é ideia salvadora: o aluguel não é compra: o alugado não se vende.

Protesto e juro que nunca me venderei a ministério algum; fica-me porém o direito de me alugar a todos os ministérios.

Oh meu venerando tio! abençoa-me da eternidade: eu aceito a condição que me impuseste para receber a herança dos cento e cinquenta contos! Eu cumprirei à risca, e conforme os entendo, os três preceitos da tua sabedoria!

Abençoa-me, e não condenes os meus sofismas! Olha lá do alto da eternidade para a terra que deixaste, e verás, que mais franqueza menos franqueza, mais hipocrisia ou menos hipocrisia, os Sobrinhos de seus tios abundam tanto, e pensam e praticam tão uniformemente que eu seria um famosíssimo tolo, se quisesse ser exceção.

Consola-te do logro que te vou pregar, ó venerando finado! Consola-te com o Brasil; porque o Brasil é um tio velho e rico, cercado, atropelado de sobrinhos que o devoram, que o reduzem à miséria, e que se dizem patriotas, sem dúvida porque se consideram donos ou proprietários da pátria.

Assim, pois a terrível condicional do testamento ficará plenamente satisfeita, desempenhada em todas as três partes de que se compõe.

Livre desse pesadelo que me afrontava, voltei o meu espírito para os outros dois absurdos testamentários, e comecei pelo mais grave que era a terça legada à senhora minha prima.

Bem se diz que a mulher é a desmancha cálculos do gênero humano: nos meus cálculos de herança eu não tinha contado com a mulher e por isso espichei-me redondamente.

De volta da Europa não me lembrara de procurar os parentes que não me visitaram, e nem uma só vez me encontrei com a prima Francisca, que vivia com sua mãe depois que saíra do colégio, onde meu tio a fizera receber mais instrução do que qualquer homem de juízo se lembraria de dar-lhe.

Devo declarar que desde os mais tenros anos antipatizei com esta minha fatalíssima parenta.

A prima Francisca era filha de um irmão de meu tio; estava portanto nas mesmas condições em que eu me achava, com a diferença, que ainda muito criança perdeu o pai; mas ficou-lhe a mãe; e eu também ainda muito criança me acharia só no mundo, se não fora meu tio que, sempre escravo de certas regras de justiça que ele arranjava para si, entendeu que me devia amar na razão dupla do amor com que amava a sobrinha, que ainda tinha mãe para amá-la outro tanto.

Do pai que lhe morrera não herdou a senhora minha prima um real: não houve na sua casa trabalho algum com a execução do testamento, nem com o inventário; porque o finado não tivera que testar, nem deixara que inventariar: o que ele deixou no mundo para lembrança de seu nome foi a mais infeliz, a mais nociva de todas as lembranças; foi a filha, que estava destinada para usurpar-me a terça de meu respeitável e maníaco tio.

Que asneira um homem pobre ter filhas que vêm depois embaraçar a fortuna dos primos! A tal menina era uma orfãzinha sem vintém, que devia ter entrado logo para um convento a fim de não pesar no mundo.

Eu sempre pensei assim; nunca porém me animei a propor a minha ideia com receio de que por idênticas razões me destinassem para frade; porque eu também fiquei logo na primeira infância órfão de pai e mãe, órfão igualmente sem vintém, e foi meu tio que tomou conta de mim, como já disse.

O infortúnio e a caridade reuniram muitas vezes e por muitos dias os dois órfãos na casa de meu tio: a prima Francisca três anos mais moça que eu, estava como eu igualmente em um colégio, e nas férias meu tio nos passava exame e, achava sempre de que ralhar conosco; a menina porém inventava tantas e tão originais desculpas para os seus erros, que o velho acabava rindo-se com ela.

A minha ojeriza com a prima não nasceu daí, mas de motivos muito mais ponderosos: tendo muito melhor vista do que eu, ela sempre me deixava logrado, quando procurávamos frutas, correndo pelo pomar; na distribuição de doces e confeitos recebia os melhores e creio que maior porção com os seus direitos de mais moça e de menina; e no caso em que o objeto digerível era um só, e não se podia repartir, quem comia era ela; e eu ficava a olhar.

Mas o que principalmente determinou a minha invencível antipatia, foi o seguinte fato que a muitos pode parecer insignificante e pueril e que para mim é ainda hoje de grande significação moral. Um dia estávamos a brincar; a prima descobriu três ovos no galinheiro, e deles imediatamente nos apoderamos, seguindo-se porfiada disputa entre nós: eu queria ficar com dois ovos, e ceder-lhe um, e ela reclamava precisamente o contrário: furioso e receando vê-la ir procurar meu tio para juiz da causa, exclamei: — Pois vou quebrar todos os três ovos!

— Não; gritou ela: eu tenho uma boa ideia!

— Qual? perguntei.

— Vamos fazer um pão-de-ló.

Não é de hoje: desde criança eu sempre fui doido por pão-de-ló: aprovei a ideia com entusiasmo, e, ainda me lembra, fui eu que bati os ovos! fui eu que tive o maior trabalho! depois a prima ordenou a uma escrava que pusesse o pão-de-ló no forno, e no fim de pouco tempo do forno o vi sair inchado, cheiroso, provocador!...

Meus olhos brilhavam, minha boca abria-se instintivamente... eu já estendia a mão para receber o meu pedaço...

— Espere: deixe esfriar, disse-me a prima.

Esperei: o pão-de-ló esfriou e ela tornou-me: — Vá buscar dois pratos e dois talheres. Obedeci, correndo: voltei nas asas da gula; mas chegando, deixei cair os pratos no chão, e soltei um grito de desespero! A prima tinha comido todo o pão-de-ló, e ainda com a boca cheia, ria-se de mim! Nunca mais lhe perdoei este atentado. A minha antipatia se baseia pois em motivos graves e sérios; provém exclusivamente de questões que interessam ao direito de comer, e sobretudo a mais triste das desilusões em matéria de pão-de-ló, que é um doce eminentemente político e governamental. Eu não perdoo a quem perpetra contra mim um crime de lesabanfiga.

Desde aquele dia sinistro rompi com a prima, achei-a desengraçada, fria e insuportável. Não me censurem, não me acusem: a prática do mundo absolve meu justo ressentimento: o pão-de-ló varia conforme as idades, as posições e as condições do homem; mas no fundo é sempre pão-de-ló: examinai os fundamentos de certos pronunciamentos inesperados de oposição no grande mundo político, e vereis que a oposição deste se explica por ter ficado de fora na organização de um ministério novo; a daquele porque não o contemplaram candidato em uma eleição de senador; a daquele outro porque não lhe deram a presidência da província que almejava, e assim por diante, e por fim de contas sempre caso de pão-de-ló.

Portanto eu tive as melhores razões para declarar-me em oposição à minha prima. E agora ainda muito mais porque ela se transformou em golfão que me absorveu cem contos de réis: que pão-de-ló!...

E não há meio de disputá-lo o testamento de meu tio é positivo...

Cem contos de réis! com os meus cento e cinquenta contos fariam duzentos e cinquenta contos, isto é, trinta contos de renda anual ou talvez mais, renda segura, limpa, deleitosa, sublimemente anual!

Aquela prima Francisca é um demônio de usurpação!

É verdade que com a minha fortuna de cento e cinquenta contos de réis, eu posso facilmente encontrar uma noiva, cujo dote... Oh travesseiro! que ideia me sugeriste!

Por que a prima Francisca, o demônio da usurpação, não se poderia transformar em prima Xiquinha, em anjo de restituição?...

É possível, mas não é fácil nem provável que eu ache uma noiva com um dote superior a cem contos de réis; mas em todo caso mais vale um toma do que dois te darei.

Porque não me hei de casar com a prima Xiquinha?

Eu sempre chamei a prima — Sinhá Xica —; mas depois da terça deixada por meu tio, ela tem incontestável direito a ser chamada Xiquinha.

A lembrança do pão-de-ló dos três ovos está completamente prejudicada pelo projeto do pão-de-ló dos cem contos de réis.

Nas Câmaras os ministros clamam, quando lhes faz conta: «esqueçamos o passado! sacrifiquemos nossos ressentimentos pessoais e nossos ódios no altar da pátria!» Eu te direi o mesmo, ó Xiquinha! sacrifiquemos nossas desinteligências e nossas brigas de crianças no altar do teu dote!

E, coisa célebre! consultando a minha memória, que neste momento reproduz a meus olhos a imagem da Xiquinha aos quinze anos de idade, não posso deixar de reconhecer que ela era uma jovem encantadora e cheia de perfeições!

Eu creio que estou apaixonado pela Xiquinha. Decididamente devo casar-me com ela e ficam assim resolvidas todas as dúvidas e corrigidos todos os absurdos do testamento de meu tio.

Todos, menos o absurdo dos cinquenta contos legados a um formigueiro de parentes, e em sua maior parte a parentas pobres, eu não teria dúvida de casar também com todas elas para reunir a quase totalidade do espólio; as leis porém o não admitem e é caso em que não há remédio senão obedecer às leis.

Mas para minha consolação basta-me a Xiquinha.

E não encrespai as sobrancelhas, severos moralistas e pretensiosos moralizadores da sociedade! pensais que vou iludir uma donzela, fingir amor que não sinto, para casar-me, não com ela, mas com o seu dote? estais muito irritados com isso?...

Fazeis-me rir!

Vós que me censurais, acabastes de almoçar com um mocetão que era pobre, há seis meses, e que improvisando ardente paixão por uma velha de setenta anos, casou-se com ela da noite para o dia, e senhor dos milhões da noiva septuagenária, tem carros e palacetes, não lhe faltam amigos, e é já barão, ou sê-lo-á, se quiser, e quando quiser.

Vós louvais, admirais, elevais ao sétimo céu a honestidade de caráter e as virtudes exemplares daquele que, sentindo-se perdido de amor com a notícia da existência de uma herdeira de algumas centenas de contos, ajusta com um intermediário um casamento sacrílego, dá-lhe cinco ou dez contos de molhadura, e consegue assim casar com uma mulher a quem nunca vira, e por quem nunca fora visto.

Vós que me condenais, já perdoastes, e já abraçastes aquele, que por amor de um avultado dote, prestou-se aos planos de uma família algoz, e fez-se algoz de uma donzela que amava, que dera o coração a um mancebo da sua escolha, e que no silêncio da noite, e diante do altar da violência, onde se profana o Cristo, foi obrigada a dar a mão de esposa ao especulador sem brio e a tornar-se escrava de um senhor sem honra...

Oh! não me censureis, nem vos metais nessas questões de casamentos-financeiros; porque a terça parte do vosso mundo vos pediria misericórdia, e apenas as vítimas, as santas mártires vos aplaudiriam em segredo, abafando com os véus do pudor os ecos com que seus corações responderiam aos vossos estéreis clamores.

E falemos agora a verdade, confessando a realidade do que se passa a nossos olhos, e dizendo as coisas como as coisas são.

Que diabo é a mulher na nossa sociedade?

Moça solteira é uma boneca, com que se brinca: diverte-nos, tocando ao piano, e dançando conosco na sala, e se não é simplesmente boneca, é uma infeliz que começa a desmoralizar-se passeando a conversar com desmiolados, que pensam ser cortesia, namorar todas as moças.

Jovem casada calcula o futuro pela lua de mel e no fim de quatro ou seis meses se desengana, e passa as noites a chorar desenganos, enquanto o marido aplaude e namora as ninfas do Alcáçar.

Esposa e já mãe de família é a mais graduada escrava da casa; às vezes dizem que ela é rainha; mas é rainha que tem por cetro a chave da despensa.

Esta é a regra geral, e eu tenho o maior prazer em dar parabéns às exceções, que as há sem dúvida.

Mas quanto aos dotes e aos casamentos financeiros eu sou fiel à minha escola política, que acaba de acender o meu amor pela Xiquinha.

A noiva rica é uma entidade altamente política, perde o seu caráter de mulher, e passa a instrumento material das grandezas do noivo: casa não pelo que vale por si; mas pelo valor que lhe dá o dinheiro que leva em dote: não importa que seja feia, mal feita, rabujenta, e sem juízo; o essencial é que seja rica; o seu merecimento não está nas perfeições do corpo nem do coração, está nos seus cofres; considerada debaixo do ponto de vista da gramática, o seu amor é uma oração incidente, o seu casamento uma oração subordinada, o seu dote a oração principal. Se morresse um dia depois de casada, e pudesse deixar, e deixasse toda a sua meação ao marido, não faria mal nenhum, e pelo contrário facilitaria ao viúvo a perspectiva e a esperança de um segundo casamento igual. A noiva rica é o pedestal do monumento do noivo.

A noiva rica é, antes de casada, o plano, e depois de casada, o resultado de uma operação comercial; e o marido, em vez de escrever-lhe o nome no coração, escreve-lhe o dote no livro da receita.

Estas graves e muito verdadeiras considerações, em vez de aviltar, elevam a mulher, ao menos na opinião do Sobrinho de Meu Tio; porque, sem que o saiba, sem que o pense a mulher, ou a noiva rica é quase sempre um agente comercial, um agente industrial, um agente político: creio que empreguei erradamente a palavra agente, direi melhor, é um capital que se obtém pelo casamento, capital que se emprega, e que se faz render para florescimento, aumento, e glória do marido.

Eu penso assim: esta é uma das grandes teorias da escola do egoísmo, e portanto... E portanto estou apaixonado pela Xiquinha. Amanhã começarei a bater a fortaleza e hei de conquistá-la. Agora vou dormir. Oh travesseiro! inspira-me belos sonhos! eu quero sonhar com a Xiquinha.

Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Sinopse

Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.

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