Universo da obra
Universo da obra
Em que rendo cultos à verdade que não me pode prejudicar, embora prejudique aos outros, e confesso que a Xiquinha me fez esquecer o mundo durante quarenta horas: conto como despertando ao romper do dia, o noivo e a noiva, eu e ela, fomos sentar-nos a uma janela que abrimos e embebemos cs nossos olhos na aurora que despontava, e enquanto a Xiquinha enrolava e desenrolava os anéis de seus cabelos, enrolei e desenrolei o teatro político: a Xiquinha profetisa coisas muito bonitas, eu beijo-lhe as mãos, minha Tia nos percebe à janela, e por fim de contas a Xiquinha e eu não vimos a aurora.
Eu detesto a impostura e a hipocrisia, quando a hipocrisia e a impostura não se tornam necessárias para os arranjos e os negócios da vida: é um erro estúpido mentir sempre e ainda sem utilidade nem conveniência. O filósofo egoísta, o político sábio que zomba das ideias pueris da moral e da consciência, aquele que respeitando a primeira lei da natureza, trata exclusivamente de si, e sacrifica tudo e todos aos seus interesses pessoais, deve tantas vezes quantas lhe seja possível, falar a verdade, e ostentar que fala a verdade: se assim não praticar, dentro em pouco ninguém lhe dará crédito, e mais difícil lhe será enganar a humanidade, quando precisar fazê-lo.
Quando estive em França, fui amigo íntimo do redator-chefe de uma gazeta diária publicada à custa da polícia: o mísero publicista só escrevia o que os ministros lhe ordenavam que escrevesse, e por consequência mentia diariamente tanto, quanto continham os seus artigos de fundo: no fim de pouco tempo ficou-lhe a boca exatamente com o mau costume da mão que escrevia: não lhe foi mais possível falar sem mentir: os ministros tinham-lhe feito da mentira uma segunda natureza: eis senão quando um dia o pobre publicista morreu de uma congestão cerebral ao terminar um artigo que escrevera, conforme os apontamentos do chefe do gabinete ministerial — tão grande fora a mentira que produzira congestão de cérebro —: pois bem, ou pois mal: não se achou médico que atestasse a morte antes de apodrecer o cadáver!... todos os hipócrates recearam, que o morto estivesse vivo, e procurando enganá-los; e a polícia pagante tomou cautelosas providências para não fazer despesas com o enterro antes de perfeita segurança da morte do seu órgão e fiel e legítimo representante das ideias do governo na imprensa.
Não preconizo o culto da verdade: fora esse um erro ainda mais grave para os estadistas e os homens refletidos e frios: a verdade não deve ser o farol do homem; porque é farol que muitas vezes o compromete, e lhe atrapalha a viagem da vida; mas quando a verdade não faz mal a quem a diz, ainda que faça mal aos outros, pode e deve dizer-se.
E a regra dos homens sábios, dos mais preconizados diretores e tutores obrigados dos povos, é a minha regra.
Vou portanto proclamar uma verdade que não fará mal nem a mim, nem a pessoa alguma.
A Xiquinha teve o poder de dominar-me, de subjugar-me tanto, que nem na noite do nosso casamento, nem no dia e noite seguintes pude ter independência e liberdade de faculdades intelectuais para pensar em outro objeto que não fosse ela, para viver com outro pensamento, que não fosse o seu amor. Acusem-me fraqueza embora! todos nós somos pecadores, e ainda bem que eu tenho por escusa do meu pecado de fraqueza a formosura, e os encantos da Xiquinha.
Convenho em que o amor é um sentimento que abate, que avilta o homem: o famoso escritor Proudhon, que aliás nunca foi da minha escola, embora muitos dos seus princípios me convenham perfeitamente, demonstrou até à evidência, a baixeza e o aviltamento do amor.
Mas o que Proudhon não disse nem compreendeu, é que há amor e amor: amor de poeta, todo cheio de metafísicas, de sonhos, de lantejoulas, de coisas-nenhumas, sentimento que prende, que absorve a alma, e que por consequência abate e avilta o homem, que assim se esquece de que é um bicho vivo e pensante deste mundo cheio de bichos de todas as qualidades: e amor animal, material, positivo, sem mistura de sentimentos d'alma, ou apenas com essa mistura passageira, aparente, sem consequências perigosas para a independência e liberdade do homem.
É do primeiro desses amores que falou sem dúvida Proudhon, cujas teorias neste caso aceito sem restrições.
É do segundo que me vi, que me senti preso, cativo, absolutamente dominado durante o tempo que determinei.
Esta confissão é em todo caso uma homenagem que deve parecer muito lisonjeira à Xiquinha, que é filósofa e pensa exatamente como eu.
O dia que se seguiu ao do nosso casamento ainda foi de festa, a que estiveram presentes e nela tomaram parte os dois importantes padrinhos, que ficaram cativos da bondade, do agrado, e das graças da minha bela esposa. Em honra dela sem dúvida juraram-me ambos leal e eterna amizade: eu tomei nota do juramento para explorá-lo em ocasião oportuna.
No outro dia a Xiquinha e eu despertamos aos primeiros anúncios do dia, e erguendo-nos do leito nupcial, fomos sentar-nos a uma janela que abrimos com o propósito de ao lado um do outro saudarmos o romper da aurora, que começava a enrubescer o horizonte.
Éramos dois noivos, casados há quarenta horas, quando muito: eu estava envolvido em um elegante robe de chambre de seda, a minha adorada esposa tomara um peignoir finíssimo, lindíssimo, provocadoríssimo, e sobre o qual caíam em enchentes de anéis seus longos e formosos cabelos negros.
Estávamos à janela: eu apertava entre as minhas uma das mimosas mãos da Xiquinha; nossos olhos convergindo para o mesmo ponto se encontravam juntos, unidos, identificados, como um só olhar embebido nas rosas da aurora que despontava.
Era doce, suave, voluptuosa essa situação de um homem e de uma mulher por assim dizer tornados em um só ente, em um só ser, olhando, vendo, sentindo, como se não fossem dois, como se ambos fossem somente um.
Era impossível, quando nossas mãos se apertavam, nossos olhos se embebiam em um só objeto, nossos corações palpitavam em nossos peitos quase unidos, nossos suspiros voluptuosamente se confundiam, era impossível, digo, que nossas almas, também identificadas, não estivessem engolfadas no mesmo, e em um único pensamento.
E estavam, palavra de honra!
Quem primeiro manifestou, falando, esse pensamento, foi a Xiquinha. Sem arredar os olhos que se prendiam aos fulgores da aurora, apertando-me suavemente uma das mãos, e descansando com ternura a linda cabeça no meu ombro, a Xiquinha deixou sair por entre os lábios a sedutora harmonia da sua voz, e perguntou-me:
— Primo, a quanto sobe a nossa fortuna?
— Eu estava fazendo esse cálculo, Xiquinha: estamos entre duzentos e cinquenta e trezentos contos de réis, o que indica a necessidade de chegar à conta redonda.
Ela refletiu e tornou:
— Sim; mas no princípio isso é muito difícil.
— Por que?
— Porque é preciso semear para colher.
— Eu conheço muita gente que arranja para si contas redondas, colhendo o que os outros semeiam: quer ver, como isso se faz?
— Quero; respondeu-me ela sorrindo com angélica inocência.
E sem retirar a cabeça que pousava no meu ombro; e sempre com os olhos fitos na aurora, pôs-se a enrolar e a desenrolar os anéis de seus cabelos com os dedos da mão que eu lhe deixara livre.
Enquanto ela brincava com os cabelos, falei eu:
— Olhe, Xiquinha: cem, duzentos, mil pobres de espírito, trabalham durante a vida inteira com a esperança de deixar aos filhos riqueza ou pelo menos medíocre fortuna, vão semeando sempre, e ainda semeando levam aos cofres de um banqueiro habilidoso
as economias e as sobras de cada ano: eis chega um belo dia, o banqueiro declara-se quebrado, apresenta livros admiravelmente preparados, prova
evidentemente que a falência não foi fraudulenta, paga aos credores com oitenta por cento de rebate, larga-se a vapor para a Europa, e lá ostenta gozos de milionário: quem semeou? o batalhão dos logrados: quem colheu?... o espertalhão que logrou, e que fica sendo grande coisa na terra porque tem dinheiro.
— E a justiça pública? perguntou a Xiquinha.
— A justiça, de que fala, pinta-se com os olhos vendados: é uma pobre cega que quase nunca descobre os crimes dos homens de gravata lavada. Ouça mais: uma inteligência superior, um gênio nas ciências, na indústria, nas artes, faz a luz de uma transcendente descoberta, que destrói as práticas estabelecidas: utopia! brada a rotina, que é a mais teimosa e rabugenta das velhas
morre o gênio no hospital, ou em uma esteira quase podre, e no fim de algum tempo a sua descoberta que se tornou verdade sediça, enriquece os filhos dos detratores do sábio utopista: quem semeou?... quem colheu?... ah! sim: às vezes a posteridade levanta uma estátua ao gênio que morreu de fome: depois do asno morto, cevada no caso: o diabo leve a estátua.
A Xiquinha continuava a brincar com os anéis dos seus cabelos.
— Nas coisas políticas a observação tem ainda mais perfeito cabimento
semeia a imprensa, semeiam homens dedicados ao que chamam culto dos princípios, religião das ideias, semeiam em oposição, combatendo no campo da lei anos inteiros, sofrendo agora perseguições, logo injustiças, quase sempre injúrias e aleives; mas semeando sempre; chega enfim o dia da vitória do seu partido, e de súbito embrulham-se os ambiciosos e os traficantes políticos com os vencedores, em duas vira-voltas atiram os semeadores para o canto, e colhem os resultados da luta porfiada e as palmas do triunfo. E a Xiquinha enrolava e desenrolava.
E eu também continuei a desenrolar assim:
— Os conspiradores semeiam revoltas que de ordinário se afogam no sangue, ou algumas vezes conseguem derribar o governo: no primeiro caso não há colheita, e apenas vão para a cadeia os Gracos que não morreram; a patuleia que escapou assenta praça de soldado, e os grandes especuladores que acenderam a fogueira, e observaram o fogo às janelas, metem-se na moita por alguns dias para salvar as aparências, ou fazem coro com os vencedores e condenam os revolucionários: no segundo caso a patuleia vai trabalhar, os Gracos ficam a olhar, e os especuladores apressam-se a colher e colhem e comem eles sós por todos.
— Ah primo, não seja Graco! exclamou a Xiquinha.
— E ainda menos patuleia.
— De acordo: disse-me ela, tornando a desenrolar um anel de madeixa que de repente deixara.
Eu prossegui:
— Semeia o honrado capitalista que empresta dinheiro aos caloteiros que colhem, não pagando as dívidas: semeia doidamente o parvo que alimenta a ociosidade de vadios, que lhe colhem o suor, vivendo à custa de uma caridade degenerada; semeia o estudioso e abalizado chefe de secretaria projetos, melhoramentos, e bem combinados planos, que um ministro, tábua rasa ou pouco mais do que isso, apresenta às Câmaras como seus, e colhe os aplausos, e as honras que a outro que não a ele deviam caber: semeia o filósofo e colhe o prático; semeia o tolo no seu, e colhe o avisado no alheio, semeia o tempo presente, e colherá o tempo futuro; semeia o bom, e colhe o diabo. Xiquinha, eu não quero semear, quero colher na sociedade em que vivemos.
— Mas é preciso: disse-me ela.
— Xiquinha; creio que você aprendeu o latim...
— É verdade: nosso Tio quis por força que eu traduzisse Virgílio.
— E o quis com razão: eu adoro Virgílio pela discrição do banquete dos Troianos fugitivos, e pela sublime invenção das hárpias, felizes animais que podiam comer sem cessar e sem o trabalho da digestão! o inspirado poeta mantuano adivinhou nas hárpias certos políticos do nosso tempo. Xiquinha, eu te cumprimento, porque traduzes Virgílio: era preciso que na nossa idade o latim achasse um refúgio, um abrigo hospitaleiro, que o salvasse da sentença que o condena à proscrição: em outras eras salvou-se nas dobras dos hábitos dos frades; convém que na nossa época se salve nas pregas dos vestidos das senhoras. Pois bem: Xiquinha, você tem no latim de Virgílio a teoria sublime, que tenho exposto rudemente: uns semeiam para outros colher: Virgílio o disse:
Vos ego versiculos feci, tulit alter honores; Sic vos non vobis, etc.
Foi um sic vos non vobis que o poeta poderia ter estendido além das aves, dos bois, e das abelhas, a todos os animais racionais.
— Diga-me porém, primo; que ideia tem você no sentido?... perguntou-me a Xiquinha, abandonando os cabelos, e levantando a cabeça, que descansara no meu ombro.
— Que ideia? — Sim: que vida pretende seguir?
— Que pergunta, Xiquinha! eu nasci talhado e predestinado para a vida política.
— E que é a política?
— Um meio de vida como outro qualquer; um homem pode resolver-se a ser estadista, como pode se resolver a ser advogado, médico, sapateiro, alfaiate, urbano ou pedestre. Ainda não cheguei a determinar precisamente em meu espírito, se a política é ciência, arte, ou ofício mecânico: creio que é tudo isso ao mesmo tempo.
— Como?
— E talvez ciência para aqueles que entendem que se devem aplicar os preconizados e ridículos princípios da moral severa, do direito — direito ao governo dos povos, e também para aqueles mais sábios e mais hábeis, que aceitam tais princípios em teoria; mas que os sofismam na prática: é sem dúvida uma arte para aqueles que compreendendo a realidade das coisas, se convencem a tempo de que ela, a política, é uma coleção de regras arranjadas com acerto para se enganar as nações e viver e brilhar à custa delas; é finalmente um ofício mecânico para quantos em exercício de funções políticas servem sempre a todo e qualquer governo, contanto que o governo lhes pague o seu salário de cada dia. Eu quero cultivar a política como ciência, como arte, e como ofício mecânico.
— É difícil!
— Não me será difícil, se eu chegar a ser eleito deputado; começarei o meu noviciado como membro da maioria, tendo a política por ofício mecânico, se me convier passar para a oposição, cultivarei a política como arte, e quando chegar a ministro de Estado, elevá-la-ei à ciência de sublimes sofismas.
— Você espera ser ministro de Estado?
— Ora, Xiquinha! por que não? O finado padre Feijó, quando regente do Império, dizia: que enquanto passassem pelas ruas homens de casaca, teria onde escolher ministros: depois do padre Feijó a escolha desceu até os homens de paletó, e eu posso assegurar e afirmar que já têm sido ministros ilustres cidadãos, em cujos ombros penduram-se casaca e paletó, como em qualquer cabide de pau ordinário, que não tem cerne e apodrece depressa.
— Deveras?...
— Se deveras! De certo tempo a esta parte as exigências políticas tornaram-se menos severas
basta que o presidente do Conselho, e organizador do ministério saiba não muito, mas alguma coisa: os outros ministros não precisam saber coisa alguma.
— E como tais ministros dirigem as suas repartições?
— Por instinto, e por tutoria obrigada: por instinto, fazendo parvoíces de todos os calibres; e por tutoria obrigada, assinando de cruz, tudo quanto escrevem os oficiais de gabinete que chamam para lhes dar o trabalho de governar e administrar por eles. Eu já li um relatório de ministro escrito por três oficiais de gabinete, cada um dos quais tinha ideias e opiniões opostas às dos outros.
— Havia de sair bonito!
— Saiu uma torre de Babel na hora da confusão das línguas; mas por isso mesmo foi sublime! tão sublime, que ninguém o entendeu, nem o ministro que o assinou! foi como se estivesse escrito em grego, celta e sânscrito: nunca houve relatório igual: -
a oposição não pode meter-lhe o dente: havia nele recursos para tudo: com a página segunda atacavam-se as ideias da primeira, com a quarta as proposições da terceira: as outras páginas, estavam no mesmo caso: era um relatório cheio de pró e contra • era um encouraçado dos estaleiros da ilha das Cobras: não houve bala oposicionista, que o atravessasse.
— Foi portanto um relatório, que pelo menos, teve o merecimento da originalidade.
— Nem tanto assim; porque Eugène Sue, já havia feito em França, coisa muito semelhante nesse gênero.
— O que?
— O judeu que o Chourineur dos Mistérios de Paris jantou no Tapis-Franc; mas em todo caso o relatório deu ideia da capacidade do ministro, e ainda uma vez demonstrou que para ser membro de um gabinete ministerial o homem não precisa conhecer o a b c da repartição pública que vai presidir.
— Não discutamos este ponto, primo: vamos de preferência ocupar-nos, do que nos convém resolver. Você está pois decidido a adotar a vida política?
— Adotar... o verbo é muito bem aplicado.
— Mas eu penso que essa vida tem portas que não se abrem facilmente aos noviços
eu sou uma pobre moça, uma tola que não entende dessas coisas; explique-me, como se passa, e como se vive a vida política.
— A política de um Estado, Xiquinha, é a maior das comédias, representada no maior dos teatros: há plateia, camarotes, palco, bastidores, panos de cena e de fundo, todas as possíveis mutações da cena, camarins de atores, e até uma espécie de porão do teatro, onde se atiram os trastes e objetos que não têm mais serventia.
— Ainda não compreendo...
— Vá ouvindo: a plateia, que é imensa, enche-se do povo miúdo, aquele que serve somente para votar e ser guarda nacional: os camarotes são ocupados pela classe um pouco mais elevada, donde saem os subdelegados, delegados, comandantes da guarda nacional, eleitores, etc.: não preciso dizer-lhe que toda essa gente da plateia e dos camarotes é quem paga os espetáculos, e quem carrega com toda a despesa do teatro.
— E pode aplaudir e patear, como nos teatros ordinários?
— Se pode! é mesmo de regra, que os espectadores estejam sempre, uns aplaudindo e outros pateando: cada ator tem sua claque, e os partidos teatrais chegam às vezes às do cabo; esbordoam-se uns aos outros sem piedade, enquanto os atores mais astutos e ladinos, recolhendo-se aos bastidores durante a pancadaria, riem-se a não poder mais.
— Até aqui a plateia e os camarotes.
— No palco brilham os atores pregando
ou desempenhando a peça que está em cena: a intriga dramática é sempre inextricável: mas todas as peças têm a mesma intriga, e apenas há mudanças de nomes próprios e de palavras; as personagens de primeira ordem têm em torno de si numerosos comparsas, e aquelas que na marcha da comédia procuram dispor e apressar a catástrofe de que as outras devem ser vítimas, são seguidas de um cortejo muito menos numeroso; às vezes o ponto é entidade obrigada na comédia; mas nesses casos não há cúpula que esconda de todo o malandro que dirige a peça sem parecer entrar nela: os contrarregras são os jornalistas, que não pisam na cena, mas observam, avisam, falam e ralham dentre os bastidores; os puxa-vistas, e muda-panos são os presidentes de províncias que,
fazendo eleições, executam as grandes mutações teatrais para novas comédias: os empregados do tesouro público acendem o gás do lustre da plateia, têm a seu cargo trazer o óleo para as lâmpadas do palco, iluminar os camarins das primeiras personagens, e dar luz aos comparsas destes; os atores que desempenham papéis de desgostosos e de vencidos compram velas de sebo à sua custa para se vestir nos competentes camarins.
— E que mais?
— As comédias são admiráveis; mas a companhia anda sempre em furiosa briga por causa dos primeiros papéis. No palco todos os atores são mais ou menos deslumbrantes, eloquentes e bonitos.
— E fora do palco?
— Ah Xiquinha! você não faz ideia o que eles são para dentro dos bastidores, atrás do pano do fundo, e nos camarins! Aquelas fardas bordadas, aquelas finíssimas casacas que em cena pareciam tão escovadinhas e tão limpas, observadas de perto, e nos recantos do interior do teatro, têm cada nódoa que enjoa! cada remendo que espanta! e o que dizem uns aos outros, o que conversam, o que maquinam os atores, atacando-se, agredindo-se sem compaixão, é incrível! dir-se-ia um convento de franciscanos ou de quaisquer outros frades nas vésperas da eleição para os cargos das comunidades. Eis-aí o que é a maior comédia do maior teatro.
— Esqueceu a guarda-roupa e o porão do teatro. — É verdade, e até me esquecia também da orquestra. O porão do teatro é a sepultura, o abismo onde se atiram os trastes velhos e imprestáveis.
— Por exemplo.
— Há um marmanjo, a quem se faz deputado, porque é filho de seu pai e sobrinho de seu tio, notáveis influências da província, por onde quer ser eleito senador o ministro Manoel de tal: procedeu-se à eleição, e foi o ministro escolhido senador: fica o marmanjo sendo traste velho, e é atirado ao porão do teatro na seguinte legislatura. Outro exemplo: há um excêntrico que é conhecido por honrado, austero de costumes, de consciência pura, e por isso amado do povo: os espertalhões exploram a mina, tratam de adulá-lo, fingem admirar suas virtudes, aproveitam os seus serviços, abusam da sua generosidade, fazem de seus ombros degrau, se é preciso, o obrigam a ser ministro em nome do patriotismo e da causa pública; a pobre vítima ilude-se, nobre e leal aos companheiros, sacrifica-se por eles, carrega com pecados alheios, compromete-se, gasta-se; fica traste imprestável, e vai dormir no porão do teatro.
— E a orquestra?
— É imensamente numerosa: tocam nela todos os ganhadores políticos, todos os foliões e timbaleiros das últimas classes, que por ofício e costume entoam o hino ao ministério que existe, qualquer que ele seja.
— E os ganhadores das primeiras classes?
— Esses representam sempre no palco os papéis de confidentes, ou desempenham o mister de comparsas notáveis.
— Ah! e a guarda-roupa?
— Que guarda-roupa, Xiquinha! você não pode calcular as proporções colossais desse reservatório de casacas e vestidos de variedades sem conta, e variedades tanto na cor, como nas formas: para estender todas essas casacas, e todos esses vestidos à corte, à négligé, à fidalga, e à patuleia, seriam pequenos dez campos da Aclamação.
— E para que tudo isso?
— Tudo isso? pois se ainda assim não chega, Xiquinha!
— Não chega?
— Não: os atores, os figurões do palco, viram e mudam tantas vezes as casacas que não há guarda-roupa que baste!
— Ah, primo, que teatro!
— É o melhor que posso imaginar, é o mais conveniente que conheço: a companhia ainda não se queixou de falta de pagamento dos seus honorários: a plateia e os camarotes dão sempre para a despesa.
— E nunca há déficit?
— O Estado quase sempre, ou pelo menos desde muitos anos se queixa dessa moléstia; mas a companhia que representa a comédia política, ainda nem uma só vez sentiu-lhe o cheiro.
— Quem é o bilheteiro do teatro?
— É o ministro da fazenda.
— Como, porém, se arranja ele, quando aumentam as despesas do teatro político, e a receita não chega para as representações da comédia?
— Encontra sem dificuldade comparsa, que propõe o aumento do preço dos bilhetes da plateia e dos camarotes, isto é, novos tributos que o povo tem de pagar.
— E o respeitável público?
— É obrigado, e quer queira, quer não, a comprar os bilhetes do teatro, ainda que maldiga da comédia.
— Começo a compreender, primo.,: — Por consequência, devo e quero entrar para a companhia: tenho vocação para o teatro político.
— Guardo comigo uma questão importante, de que logo trataremos, e volto à principal, que ainda agora lhe propus.
— Qual é ela?
— Como entrará você para esse teatro?
— Com o pé direito ou com o pé esquerdo, isso pouco importa; o essencial é entrar.
— Bem: mas quer me parecer que haverá dificuldades a vencer para se realizar o engajamento de um novo ator. Em primeiro lugar: em que categoria pretende engajar-se? — Não farei questão disso, estou pronto a engajar-me ainda mesmo na categoria dos comparsas; não é novidade ver-se um comparsa subir aos primeiros papéis.
— Quer me parecer que você pensa bem; mas enfim... as portas do teatro político são difíceis de se abrir a um homem novo.
— É certo.
— Essas portas...
— Não confundamos as coisas, Xiquinha: para se entrar na companhia há uma porta só...
— Uma só?...
Sim; imensa, que se abre em par, e que pela sua amplidão parece abrir-se a todos, a quantos possam bater a ela, a todos sem exceção; são porém bem poucos e bem raros os que chegam e são admitidos à companhia, entrando por essa porta, ou batendo a ela. — Em tal caso vejo crescerem as dificuldades.
— Mas, Xiquinha, há portinholas de todas as dimensões, umas rudemente rasgadas, outras de fechaduras de segredo, por onde se entra, e se escorrega para dentro.
— E quem escorrega para dentro não está exposto a caír?
— Não: desde que se passa a portinhola, sempre se escorrega para cima.
— Você me embaralha
as ideias, primo:
não compreendo bem, o que me está dizendo.
— Eu lhe explico tudo em breves palavras: a porta grande, a que se abre em par, a que se oferece a todos os cidadãos, é a porta chamada legítima, grandiosa, monumental, a porta da Constituição: por ela pode chegar, e impor-se à companhia qualquer filho desta terra, onde nascemos, venha ele da mais alta, ou da mais humilde escala social; contanto, porém, que traga bilhete de entrada assinado pelo voto livre do povo, e com todas as exigências de uma coisa que se chama lei eleitoral.
— Deve ser bela, sublime essa porta!
— Sim; é porém a porta da defunta, e custa muito a chegar a ela: ministros, presidentes de província, chefes de polícia com todo o seu enxame de delegados e subdelegados que se multiplicam por não sei quantos mil inspetores de quarteirões, comandantes superiores da guarda nacional, tenentes-coronéis de batalhões, oficiais de companhias, caçadores do recrutamento forçado, quatro exércitos enfim político, administrativo, militar se formam, estacionam defronte da grandiosa porta, e a defendem com desespero, transformando-a em mundo em que não se vive, em língua que não se fala, em verdade que não se diz, em preceito que não se cumpre, em tremendíssima ilusão, ou, em português claro, em Constituição que não se executa, em defunta cujos sapatos o povo, que é o herdeiro, espera, e cansa de esperar, andando sempre com os pés no chão.
— Torno a entender agora, primo.
— Às vezes acontece que um ou outro teimoso feliz, por descuido do governo, e da tropa estacionada, tanto se esforça e tanto é ajudado pelo povo, que consegue romper as fileiras dos janízaros, e embarafusta pela porta grande a dentro; isso porém, é exceção que serve somente para provar a regra.
— E qual é a regra?
— A entrada pelas portinholas para o engajamento na companhia. As portinholas são imuráveis: há sete que têm fechaduras de segredo; essas pertencem aos ministros de Estado, cujos filhotes trepam e chegam a elas com facilidade extraordinária. Quem diz filhote de ministro, diz portinhola aberta, e novo comparsa da companhia; os comparsas desta ordem já trazem de fora a sua parte estudada para todas as comédias que se representam: são comparsas que dizem apoiado aos ministros, e que se encarregam por escala de requerer o encerramento das cenas da comédia. As outras portinholas, têm diversos donos, que são os presidentes de províncias, as improvisadas influências de cada situação política, e os compadres importantes que têm afilhados a arranjar: não há bicho careta que não possa entrar por estas portinholas; por isso em cada legislatura nova se vê a capital invadida por uma bicharia que espanta.
— Em conclusão?
— Em conclusão vivam as portinholas, porque por uma delas hei de eu entrar, e pouco me importa a porta grande, que é o sonho dos tolos, e o desengano dos utopistas que acreditam que o que se garante na Constituição, é o que o governo deve observar na prática.
— E as portinholas abrem-se facilmente, primo?
— Isso é conforme: a escritura sagrada diz: « batei, e vos abrirão »: mas o que ela não diz, e é verdade, positivo e demonstrado, é que é preciso saber bater.
— E portanto chegamos sempre à questão difícil, que se torna preciso encarar de face e resolver.
— Sim, tem razão, porque todas as portinholas têm chave; a porta grande é que não a tem, e está sempre aberta: é como a porta do céu, por onde entram poucos; porque... eu não sei mesmo porque não há do haver portinholas para se entrar no céu; é uma reflexão esta que às vezes me incômoda.
— Não pensemos agora no céu.
— É verdade, Xiquinha; falávamos de teatro e de comédia política; pensemos na terra, e no inferno: é muito mais apropriado.
— Quem lhe dará, quais são as chaves que abrem tais portinholas?...
— São diversas: ninguém mas dará; porque eu pretendo forjá-las. Já tenho uma.
— Qual?
— A nossa fortuna: com o dinheiro que nos deixou nosso Tio, daremos bailes, em que você há de ser a rainha, reuniões semanais, que multiplicarão nossas relações e nossos amigos; os padrinhos do nosso casamento são potências eleitorais, que com teus sorrisos irresistíveis, e com a minha incessante cortesia e obsequiosidade se tornaram amigos dedicados; já vê, que estamos em bom caminho. — Ah! bem dizia eu que era preciso semear para colher!
— Xiquinha, você é sábia! você é um gênio!
— Ora! eu mal compreendo essas coisas.
— Além desses meios, que me dão uma chave, há outros, que me podem servir...
— Um por exemplo...
— A imprensa.
— Segundo tenho ouvido dizer, o povo lê pouco no Brasil.
— Felizmente lê pouco o que mais lhe convinha ler: é indiferente e mata com a sua indiferença a imprensa periódica moralizadora,
idealista, séria: esquece na poeira das estantes dos livreiros o livro que contém máximas e princípios preparadores do futuro, ilustradores da população: essa imprensa, esse livro são raros; porque não achando quem os leia, não recolhem nem o preciso para pagar as despesas da impressão; e é muito justo que assim aconteça, porque tal imprensa periódica, e tais livros são os mais perigosos revolucionários do mundo.
— De que imprensa então me falava?
— Xiquinha, houve no Brasil, em um tempo em que o povo lia, houve, digo, Aurora Fluminense,
e Matraca: a Aurora, brilhou muitos anos, e a Matraca, não pode matraquear muitos meses: agora o tempo é outro: temos progredido tanto, que o povo já não quer ver Auroras; mas está sempre disposto a ouvir Matracas.
— Ah!
— Eu falava e falo da imprensa periódica, que vive, porque descompõe, que é lida, porque despedaça; falo da imprensa que ataca, atassalha, difama por sua própria conta, ou por conta da polícia: muitos especuladores preferem a primeira: porque é mais temida, e no Brasil o mais seguro degrau para subir, é fazer-se temer. Injuriar sem medida, nem consciência, misturando uma verdade com cem aleives, ostentar independência na ousadia do insulto, agredir desapiedadamente a todos e a tudo, caluniar a vida pública, morder a vida privada, ser imprensa-tigre, eis o segredo.
— E a responsabilidade?
— E os testas de ferro?
— Mas é uma imprensa que devia ser condenada.
— Esta não, porque desmoraliza, e portanto abate o povo; concordaria porém que se suprimisse esta com a condição de se matar a outra: porque a imprensa foi uma invenção do diabo para atrapalhar os governos, e embaraçar os homens de juízo que arranjam a vida à custa do Estado.
— Mas o povo que prefere a imprensa-tigre à imprensa-vivificadora não dá boa ideia de si
— Assim,
Xiquinha!
falemos mal
do povo, quanto quiseres: que a desmoralização vai chegando ao povo, é verdade, e por consequência fogo nele! não admito, porém, que censuremos o governo que com seus exemplos, sua prática, sua imprensa, seus abusos, tem levado essa desmoralização ao seio do povo.
Em todo caso poupemos por ora o governo; pois calculo com ele.
— Bem: então você, primo, pretende escrever?
— Durante um, dois, três anos, se necessário for, far-me-ei tribuno do povo, e arrasarei tudo e todos... asseguro-te, Xiquinha que o resultado é infalível: hão de querer fechar-me a boca; hão de tratar de quebrar-me a pena de publicista independente e enraivado, e então saberei impor as condições.
— E descerá de Catão a comparsa de ministro?
— Por que não? ah! Xiquinha! se você soubesse a história dos nossos Catões, reconheceria que ou por inveja ou por ambição, ou por ódio ou por vaidade, esses Catões trocam sem vergonha nem consciência da noite para o dia, de uma hora para outra o boné frígio dos democratas pelo chapéu de plumas do cocheiro do carro do governo. Entre eles e o Sobrinho
de Seu Tio há apenas uma única diferença, e vem a ser, que eu sou ambicioso sem máscara, e eles uns famosos especuladores, que fizeram da política um passeio ou baile de carnaval, em que se apresentaram trajando vestidos de Washington para esconder corações de Galalão. Eles e eu somos pouco mais ou menos da mesma escola; mas não somos iguais; porque eles são piores: somos parentes, mas não somos irmãos; eu sou simplesmente um sobrinho do povo, que quer viver e subir à custa de seu respeitável tio; e cada um deles é um enormíssimo Caim, irmão do povo que é o seu Abel, e a quem mata à traição com a queixada de burro, como diz o vulgo, com o veneno da inveja, e com a fúria da ambição, como a verdade e a experiência o têm provado; mas também é só assim, Xiquinha, que se pode ser Catão.
— E ainda há outras chaves que abrem as portinholas por onde se pode entrar para o teatro político com engajamento na companhia?
— Se há! muitas que variam segundo as circunstâncias; todas porém se classificam e resumem nos três gêneros dos latinos, porque todas são masculinas, femininas, e neutras. Abrem as portinholas com as chaves masculinas os potentados ou representantes pessoais dos potentados de província que se fazem instrumentos cegos do governo sob a condição de ser sustentada e desenvolvida pelo governo a influência legítima ou ilegítima que eles têm: abrem as portinholas com as chaves femininas os noivos das filhas ou sobrinhas dos ministros que gozam justissimamente o privilégio de fazer a nação pagar os dotes das meninas
abrem as portinholas com as chaves neutras os doutores astutos, doutores de borla e capelo de machiavelismo, que se fingem ministeriais antes da eleição, e apanhado o diploma, atiram-se na oposição, fugindo do anzol depois que comem a isca. Eis aqui três exemplos que dão ideia dos três gêneros de chaves.
— E qual será seu gênero, primo?
— Eu sou comum de três, Xiquinha.
— Mas você não pode mais ser noivo de filha ou sobrinha de ministro, sem incorrer em tentativa de crime de poligamia.
— Não tenhas receio, Xiquinha: não é preciso absolutamente ser noivo para o caso: a influência feminina faz deputados sem casamento.
— Influência feminina... ah! Lembra-me agora a questão que ainda há pouco disse que guardava comigo...
— Qual é?
— No teatro político representam somente os homens.
— Às vezes as senhoras também representam; mas por trás dos bastidores, e do pano do fundo.
— As senhoras não gozam pois as emoções da cena, não são ali jamais objeto da observação, dos louvores, da admiração dos milhões de olhos do imenso auditório...
— É certo; estão porém livres de levar pateada. — Nem isso; porque os ódios que despedaçam com a difamação seus pais e maridos, que representam a comédia, ousam subir até elas, e ofendê-las atrozmente.
— É para carambolar nos pais e nos maridos, Xiquinha.
— Até os próprios enfeites políticos são reservados exclusivamente para os homens: as gran-cruzes, e comendas que assentariam tão perfeitamente nos peitos das senhoras, não chegam, não podem chegar para elas.
— Ah Xiquinha! se fosse de outro modo, ia o mundo pelos ares: quando os homens gastam dinheiro, alugam-se, vendem-se, brigam e fazem loucuras por causa dessas teteias, faça você ideia do que haveria, se as senhoras pudessem andar de comendas ao peito! Senhoras de comenda, revolução de encomenda: aí está um anexim de primeira ordem.
— Entretanto as senhoras com a riqueza que levam aos maridos, com a influência de suas famílias, com as amizades que atraem, e muitas vezes com hábil intervenção servem muito aos interesses políticos daqueles, de quem tornam o nome: diga-me, primo, onde está a compensação?
— Você acha pouco governar sem ser governo?
— Como é isso?
— A senhora sagaz, inteligente, e de vontade forte, faz prodígios em política: enquanto o marido é candidato à deputação, ela é o seu maravilhoso recurso de cabala, arranja votos, cantando um lundu, conquista um colégio eleitoral, dançando uma valsa, e firma o triunfo da candidatura, passeando e conversando num baile com o presidente da província.
— Semeia... para o marido.
— E para ela também, que, eleito o marido deputado, faz parte com ele da maioria, ou da oposição, recebe em suas reuniões os deputados, em pouco tempo faz círculo seu, inspira, influi, aconselha a todos, manda em alguns, e eis senão quando, na primeira organização ministerial, entra um pouco, com um dos seus amigos, ou completamente com o marido para o novo gabinete.
— E depois?
— Depois governa sem as inconveniências de ser governo: com o marido ministro não traz comenda, mas dá comendas, faz nomeações, escolhe presidentes de província, elege deputados, resolve contratos de obras públicas, distribui pensões, suspende e demite empregados públicos, reforma a Constituição pelo capricho de um momento, quando se penteia, faz das leis do Império, e dos papéis do expediente que vem da secretaria papelotes para anelar os cabelos, e, finalmente, quando tem ciúmes do marido, põe o ministério em crise.
— Deveras?
— Sem dúvida: examina bem, esmerilha a marcha dos governos, indaga e procura as causas ou a origem de atos, de nomeações, que parecem inexplicáveis, e hás de encontrar em muitas épocas, e em muitos ministérios o leque da mulher dentro da pasta do ministro, e apenas lamentarás que a mulher não esteja de farda, e o ministro de saia.
— Primo, veja bem o que diz?
— Eu digo o que é verdade, digo como as coisas se passam, sustento que é assim mesmo que se devem passar, e mando ao inferno todas as teorias que aniquilam a influência política das senhoras, influência que é tão conveniente, e tão proveitosa ao adiantamento dos maridos.
—- Então eu...
— Olhe, Xiquinha, sei de senhoras que com sagacidade e força de vontade e ainda mesmo sem inteligência, têm governado sem ser governo, pondo a administração em contradança de baile, e a política em jogo de prendas: conceba o que fará você, que além de sagaz como um frade ladino, e de vontade forte, como um yankee que resolveu ser milionário, é inteligente e sábia como um presidente de conselho, que pelo fato de ser presidente do Conselho é sábio por força de lei, conceba o que fará, sendo além disso rica, o que é metade das condições acessórias, e bela, como todos os amores juntos, o que é o complemento, a magia, a maravilha da sua próxima-futura e incontestável influência política.
A Xiquinha lançou-me um olhar cheio de flamas, sorriu-se com indizível encantamento, e exclamou:
— Primo, você será eleito deputado!
— Peço a palavra! gritei, como se já estivesse na câmara.
— Juro-lhe, que você há de ser ministro de Estado!
— Qual dos membros da maioria propõe o encerramento
da
discussão?
perguntei,
ima
imaginando-me sentado em uma das sete cadeiras ministeriais.
Porque, entre parênteses, ministro de Estado e rolha parlamentar são duas coisas que necessariamente se combinam, dois namorados que se adoram, duas entidades que parecem uma só: pois não há ministro que não seja rolha parlamentar.
Mas a Xiquinha tinha-se levantado da cadeira, e pondo as mãos sobre a minha cabeça, disse com acento profético:
— Você há de subir, será grande, deputado, ministro, talvez mais...
Fui-me ajoelhando...
Ela acrescentou com suavíssima modéstia:
— E tudo isso... talvez... um pouco por mim.
Quando ela fez ponto final, eu já estava de joelhos a seus pés: estendeu-me os braços, deu-me as mãos para levantar-me: preguei-lhe dez beijos em cada uma das mãos.
Cedi à doce violência, e pus-me em pé: debruçamo-nos à janela.
Com o meu braço direito eu cingia a Xiquinha pela cintura: nossas faces se roçavam; um anel dos seus cabelos caía-lhe sobre o seio, passando pelos meus lábios.
Estávamos, como dois pombinhos que pousam juntos, unidos, e cujos bicos cor-de-rosa se tocam.
Debaixo da nossa janela se estendia um jardim.
Minha tia e sogra passou por diante de nós, e, já com melhor vista, percebendo-nos à janela, perguntou-nos:
— Então?... quiseram apreciar o romper da aurora?...
Não respondemos: contentamo-nos com o cumprimento do dever de lhe dar o bom dia.
Mas a Xiquinha interrogou-me logo e sorrindo maliciosamente:
— Primo, você vio a aurora?... — Eu não, Xiquinha.
— Nem eu.
Ah! como nos compreendíamos! Que almas fraternais! Éramos, somos dois irmãos gêmeos, como um conservador vermelho, e um liberal quando estão ambos em oposição.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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