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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo 8 · Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo VII

8 de 15 ≈ 37 min de leitura

Em que começo por abençoar a moxinifada política, passo a apresentar a nova teoria das candidaturas a deputado, e dou conta dos títulos e fundamentos importantíssimos da minha candidatura: em resultado de uma longa conferência com Xiquinha, entro em cena pela porta da imprensa, publicando a Espada da Justiça, que produz efeito maravilhoso: deixo, apesar meu, de receber patrióticas inspirações saídas dos fundos secretos da polícia por culpa da Xiquinha, que me faz assim representar o papel de Catão de máscara, e experimentar o martírio de Tântalo; falo dos visionários da imprensa livre, mostro quanto sofrem os namorados leais da filha de Gutenberg, e concluo dizendo as duas coisas que nunca serei, mas reservando-me o direito de fingir-me uma delas, quando me for preciso.

Eu não conheço no mundo país como o Brasil, onde se fale mais em partidos políticos, e onde menos se façam sentir os partidos políticos na governação do Estado.

Ouvi dizer, quando estive na Europa, a um francês velho que fora discípulo de Benjamin Constant, que os partidos políticos eram para o sistema representativo o que são as artérias e as veias para o coração do homem; como porém pertenço à escola que compreende a vida do homem político dirigida às vezes pela cabeça, sempre pela barriga e nunca pelo coração, aplaudo muito o fato de não se observar em minha pátria a doutrina do discípulo de Benjamin Constant.

O tal velho francês, apesar de francês, apontava como exemplos da sua lição os governos da Inglaterra e da Bélgica, onde, segundo ele, há mais moralidade política, exatamente porque ali fielmente se observa a condição essencial do sistema representativo, isto é, o governo franco e leal dos partidos legítimos.

A isso respondo eu com duas poderosas observações: primeiramente se assim é, tanto melhor para mim no Brasil, pois não tenho lucros a tirar, nem posições a conquistar com as absurdas teorias da moralidade política; e em segundo lugar, onde não ha, elrei o perde: se o Brasil não têm partidos políticos legítimos, o remédio é arranjar o seu sistema representativo sem eles e dar graças a Deus por ter vida constitucional de comédia em vez da realidade constitucional.

Asseveram-me que o Brasil já teve partidos políticos legítimos, vivazes, e activos, sucedendo-se no poder e tão pujantes e arrojados que no ardor das lutas chegaram à maior violência, um no provocador excesso da opressão, outro no excesso ilegal da reação, e quer em um quer em outro caso tomando os respectivos chefes toda a responsabilidade dos mais graves comprometimentos.

Eu não ponho em dúvida essa história do passado, em que tanto abundaram os tolos com a mania das crenças, das convicções do culto dos princípios, e dos sacrifícios pessoais pelas ideias dos seus partidos; mas o que a história do tempo em que começo a florecer, me ensina, é que águas passadas não moem moinho.

A verdade é que felizmente para os egoístas e especuladores políticos, entre os quais me desvaneço de contar-me, não há desde muitos anos partidos legítimos governando franca e lealmente o Estado, há sucessivamente no poder uma polifarmácia de homens que não podem decentemente entender-se, de ideias que não se combinam, de aspirações que se repelem, embroglio político que faz as delícias dos egoístas e especuladores e por consequência a fonte aberta da imoralidade política, fonte para mim dulcíssima, onde hei de beber, beber, e beber até a saciedade.

As causas determinantes desta feliz e proveitosa falsificação do sonho poético do sistema representativo do Brasil hão de ser estudadas profunda e sinceramente em um dos seguintes capítulos das minhas Memórias, dizendo-se então tudo quanto é verdade em português claro em signal de gratidão aos arranjadores deste glorioso desconchavo, de que espero tirar o maior proveito.

Patenteei a moxinifada governamental, a debandada dos partidos, a mistura incombinável de homens e de ideias, a situação provisoriamente permanente, em que uns se iludem, outros especulam, e todos, quantos não se iludem, nem especulam, todos, se precipitam ou andam às tontas; patenteei tudo isso em poucas palavras com o fim preciso e positivamente determinado de tirar a estes e aqueles o direito de dar às minhas Memórias o caráter da sua autonomia política risivelmente ostentosa.

Não quero, não admito que alguém se suponha com direito a dizer que as Memórias do Sobrinho de Meu Tio são a sátira deste ou daquele partido: porque tratam de um período em que predominou no governo este ou aquele partido.

Menos essa. Não hei de levantar semelhante aleive a partido legítimo nenhum.

O que eu tenho visto e espero ainda continuar a ver, é o mais feliz e engenhoso jogo do aí vai o papelão político, em que aí vão-se sucedendo no governo séries de homens antigos e novos, que juram, protestam ser de família diferente dos antecessores e sucessores, e que entretanto são todos irmãos gêmeos, falam todos a mesma língua, têm todos os mesmos sestros, fazem todos a mesma coisa e até se parecem perfeitamente uns com os outros naquilo que lhes falta; porque poucos deles têm religião de princípios, firmeza e lealdade de crenças, amor do poder pelas ideias, e desapego do poder pelas suas individualidades.

Convenho em que haja exceções (raríssimas) desta regra: mas tais exceções são notas desafinadas no grande coro do egoísmo.

Nada tenho pois que entender com os partidos legítimos que são almas do outro mundo, bananeiras que já deram cacho, para fortuna minha e de muitos: nem haveria hipótese em que eu me prestasse a servir à causa de qualquer deles: sobretudo nunca me sujeitaria a ser considerado liberal por mais de seis meses; preferia antes ficar viuvo da Xiquinha.

Ainda bem que acho-me livre desse perigo: a situação é como devia ser sempre favorável, propicia aos arranjos da vida e foi por isso que me resolvi a lançar a rede ao mar, porque tenho quase certeza de abundante pescaria.

A perspectiva de uma eleição geral a efetuar-se em breve prazo acariciava o mais suave e lisonjeiro dos meus sonhos.

Eu já era dentro de mim mesmo candidato a deputado da Assembleia Geral, embora não soubesse por qual distrito de qual das províncias do Império: este último problema devia ser resolvido pela opinião pública manifestada na designação do meu nome por algum ministro ou por alguma notável influência ministerial.

Eu já tinha alguns títulos importantes e fundamentos consideráveis para a minha candidatura.

Pensam alguns velhos do tempo em que os deputados e senadores iam de casaca às sessões das câmaras, e ali ficavam em suas cadeiras ouvindo, e deliberando desde as dez horas da manhã até às duas da tarde, que para um cidadão brasileiro se apresentar candidato a deputado, deve antes ser conhecido do povo eleitor pelos seus estudos e prática dos negócios do Estado, pelos seus serviços ao país, pela sua instrução e capacidade de desempenhar o grande mandato político, e enfim pela sua probidade, e pela sua moralidade.

Pois vão com essas hoje em dia! prática tão insensata só podia ser tolerada nos tempos revolucionários, vergonhosos, em que o povo, a ignóbil patuleia era quem realmente elegia os eleitores, que realmente elegiam os deputados.

Agora não; agora e desde muitos anos o sistema representativo civilizou-se, e a moda parlamentar, e a moda eleitoral são outras.

Agora são os delegados e subdelegados de polícia, e os chefes da Guarda Nacional que elegem os eleitores em nome da ignóbil patuleia, que ou se submete, ou é recrutada e apanha pancadas, e são os ministros, os presidentes de província, e os chefes de polícia que elegem os deputados em nome dos eleitores, quer eles queiram, quer não; porque ao governo sobram os meios de fazer querer contra a vontade.

Agora os senadores e deputados apresentam-se de paletó e quase de nizia com abas às sessões das suas câmaras, e especialmente os deputados, depois do ato de presença, vão às dúzias matar o tempo das sessões, comendo pastéis, e adorando as moças na Rua do Ouvidor.

E eu entendo que assim mesmo é que se deve praticar; porque o pastel que se come, representa perfeitamente o mandato legislativo, e a moça que se namora por passatempo é a melhor imagem da pátria, a quem se fazem cumprimentos, e logo depois se deixa no olvido.

Consequentemente a teoria das candidaturas à deputação também se reformou profundamente, e a sua moda é hoje outra, e bem diversa, variadíssima, e portanto impossível de se especificar em todas as suas variedades.

Contentem-se os leitores das minhas Memórias com uma espécie dessa moda de mil espécies, com o exemplo das bases sérias, legitimas, patrióticas, e grandiosamente políticas da minha candidatura em problema; contentem-se, e fiquem certos de que, como eu, há muitos que têm sido candidatos, e felizes candidatos assim.

Os títulos importantes, e fundamentos consideráveis da minha resolvida candidatura a deputado da Assembleia Geral legislativa ainda não sei por qual distrito de qual das províncias do Império, eram já os seguintes:

No dia aniversário natalício do filho mais velho do ministro da... eu no meio do banquete festivo improvisei um soneto, que me custara dez mil réis que paguei a um sempre inspirado negociante de versos, o qual vaticinou ao nhônhô um brilhante futuro igual ao de seu pai, e por signal que o soneto acabava com o verso de Camões: « Que de tal pai tal filho se esperava! » Cumpre-me declarar que ouvindo o meu improviso, o pai do nhônhô fez uma careta de sensibilidade, a mãe desatou a chorar, e o nhônhô, mais ajuizado que ambos, provocou a hilaridade da numerosa companhia, gritando: « aquilo tudo é mentira, papai! »

Havia perto de um mês que eu estava adulando uma das principais e mais vaidosas influências da situação: apenas lhe ouvia a mais insignificante trivialidade, ficava diante dela em contemplação: mostrava-me adorando esse homem como se ele fora um Cícero em eloquência, um Aristóteles em sabedoria, um Catão em patriotismo austero, e até repetia muitas vezes que lhe achava no rosto extraordinária parecença com os retratos de Malesherbes que eu vira em Paris.

Incumbi-me de comprar uma parelha de cavalos de tiro para o carro de um personagem muito considerado pelo ministério, e, comprando-os admiráveis, dei-os à S. Ex. por metade do preço que me haviam custado, o que me trouxe em consequência uma série de encomendas que me arrasaram um terço do meu rendimento daquele ano.

Além disto e de outros fundamentos menos poderosos acresciam ainda dois títulos concorrentes e de significação muito preciosa.

A Xiquinha era em todos os bailes o par efetivo na primeira quadrilha da excelentíssima influência, de quem eu me tornara agente de compras baratas.

E ainda a Xiquinha, muito amiga da excelentíssima senhora do ministro da..., aos anos de cujo filho eu improvisara o meu soneto de dez mil réis, era a conselheira do seu toilette, e chegara até a corrigir não sei que imperfeições de um vestido que aliás saíra das mãos prestigiosas de Mme... francesa.

Com tais títulos, com semelhantes fundamentos da mais alta política era impossível que a minha candidatura a deputado da Assembleia Geral legislativa não fosse adotada com entusiasmo por aqueles muito ilustres e prováveis fazedores de deputados.

Por consequência eu podia decentemente calcular para o bom resultado da minha candidatura com três abundantes, riquíssimas fontes da opinião pública:

Com o ministro aos anos de cujo nhônhô eu improvisara o meu soneto, e cuja senhora tinha por diretora ou conselheira do seu toilette a Xiquinha.

Com a importante influência política da situação, a quem eu adulava sem vergonha nem consciência, achando-lhe até no rosto parecenças com os retratos de Malhesherbes, os quais eu nunca tinha visto.

Com o personagem muito poderoso, de quem eu me havia feito o comprador barato e com quem a Xiquinha dançava a primeira contradança em todos os bailes.

Eram três esperanças, três escoras: que me falhasse uma, duas eram até de mais: que me falhassem duas, uma me bastava para o pronunciamento ardente e entusiástico da opinião pública em favor da minha candidatura.

Mas desde o primeiro dia, e a primeira hora em que pude apreciar a inteligência superior da Xiquinha, tinha-me habituado a não tomar resolução alguma sem ouvir-lhe os conselhos.

Pensando no futuro, o homem reflete, a mulher adivinha.

Eu já havia demitido de conselheiro o meu travesseiro: a Xiquinha tomara o lugar da minha ninfa Egeria, e tinha o direito de tomá-lo; porque era um abismo de sabedoria, e um milagre no cálculo das conveniências.

Antes de lançar a rede ao mar, em uma bela manhã precursora de um dia sereno e aprazível, convoquei o meu conselho de Estado, isto é, chamei a Xiquinha a conferenciar comigo.

— Xiquinha, penso que é tempo de cuidar muito seriamente da nossa candidatura a deputado da Assembleia Geral.

— Da nossa? perguntou-me ela sorrindo.

— Sim; o candidato serei eu somente; mas o negócio e os lucros seram da firma Sobrinho de Meu Tio e C.ª, e sabes que não tenho e nem quero ter outro sócio que não seja a minha bela e querida Xiquinha.

— Pois sim... seja nossa a tua candidatura.

— Dizia-te que a campanha eleitoral se aproxima e que me parece não dever adiar a minha apresentação.

— Eu o creio também.

— Por consequência desde hoje mãos à obra:

— Como?...

— Julgo que deves dizer duas palavras à tua amiga, mulher do ministro...

— Esta noite devo levar-lhe os últimos figurinos que me chegaram de Paris.

— Ótimo! atira-lhe com a minha candidatura no meio de algum penteado moderno, e dentro do corpinho do vestido mais elegante, porque assim lhe ficará ela em cima da cabeça e perto do coração.

— Só?...

— Não: sou de parecer que digas também não duas, mas quatro palavras ao teu par indefectível das primeiras contradanças.

— Amanhã é dia de reunião em casa do barão de...

— Excelente! podes fazer-me deputado em um tour-de-main.

— Em um passeio é mais lógico.

— Pois passeia.

— E você, primo?

— Eu vou nestes dias ver o que me podem render o soneto que improvisei, as compras baratíssimas que tenho feito, e a adulação que gastei até hoje e as parecenças que descobri com os retratos de Malesherbes.

— E depois?

— Achas pouco?

— Não; mas acho de mais e de menos.

— Explica-te.

— Para que sejas eleito deputado, basta que tenhas o apoio decidido ou da mulher do ministro da... ou de qualquer dos três nossos amigos, a quem temos sido tão agradáveis: há portanto aí elementos eleitorais de mais.

— Em matéria de eleições quanto mais elementos, mais certeza de resultado.

— É um erro repartir a gratidão por tanta gente.

— Em política é de regra que só se reconheça o benefício enquanto se precisa do benfeitor: a gratidão é um abatimento da alma que avilta o homem que a sente: a gratidão é sentimento que nunca me há de fazer mal.

— Não discutamos isso: prefiro passar a dizer-te o que acho de menos no teu plano.

— Vejamos.

— Serás deputado exclusivamente pela influência de alguns protetores e sem a mais leve aparência de elemento próprio, e de importância pessoal.

— E que importa isso desde que eu consiga ter assento na câmara?

— Importa muito ficarás reduzido a simples filhote de um ou de três senhores pretenciosos que se julgarão com o direito de te dar sempre na câmara o santo e a senha.

— Deixa o futuro por minha conta: tenho bons exemplos a seguir: quando o meu interesse o determinar, voltarei as costas aos protetores.

— E eles dirão em alta voz que te levantaste contra os santos; mas que não largaste a esmola.

— E eu os deixarei dizer tudo quanto quiserem, confundindo-os com o meu solene desprezo.

— Mas não é preferível em tal caso sustentar que a tua eleição teve por fundamento a tua importância pessoal?

— Mas se eu não tenho importância pessoal, Xiquinha!

— Aparenta ao menos que a tens: é um argumento que te ficará de reserva.

— E como hei de eu arranjar essa aparência?

— Ah primo! eu não sou mais que uma pobre moça tola, que, quando muito, pode discorrer sobre assuntos de toilette; no teu caso porém apelaria para um recurso, de que por vezes já te lembraste.

— Qual?

— A imprensa: explora em proveito de tua candidatura a influência dos protetores, com que contamos; mas ao mesmo tempo pública uma gazeta, e nela sustenta as ideias e os princípios, que mais convenientes te forem.

— E acreditas...

— Tenho a certeza de que o teu periódico não te dará dez votos na eleição; com ele porém, terás um pretexto para te proclamar oportunamente

— filho da imprensa — e de sustentar que não deves o teu diploma de deputado, senão a ela.

Reflecti durante cinco minutos, conversando com os meus botões: depois levantei a cabeça e disse:

— Xiquinha, ainda uma vez reconheço que tens mais juízo do que eu; o teu conselho porém esbarra diante de dificuldades muito consideráveis.

— Primo, eu tenho o defeito feminil de não acreditar no impossível, quanto mais em dificuldades que se oponham à nossa vontade.

— Resolve pois, ou anula as que te vou apresentar. Sejamos francos: eu me reconheço incapaz de redigir uma gazeta.

— E quem escreveu os teus admiráveis trabalhos publicados em Paris? quem compôs o soneto que improvisaste no banquete do aniversário natalício do nhônhô?...

— Tens razão neste ponto; mas repara que deve ser uma despesa horrível.

— Semeia-se para colher: é o meu princípio.

— Bem: esta dificuldade é fácil de vencer-se: o autor do meu soneto e mais dois ou três estudantes talentosos podem encarregar-se de alimentar com artigos a gazeta, da qual aliás me considerarão o redator em chefe. Eu dirigirei o pensamento do periódico, darei os temas principais para os artigos e ficarei com as honras e com as glórias da redação.

— Agora cabe-me dizer-te por minha vez — mãos à obra!

— Espera; que ainda falta muito a considerar. Primeira questão: qual deve ser o formato da gazeta?... cumpre que ela seja diária ou não?...

— Julgo isso muito indiferente.

Não: o século dezenove é um século assú: apesar

de dever compôr-se de cem anos, como todos os outros séculos, não é como os outros: as proporções do

seu progresso exigem que tudo nele seja grande, gigantesco: mirim é adjetivo guarani que não entra no

dicionário do gênio progressista da nossa idade;

todas as entidades mirins são esmagadas pelas locomotivas da moderna civilização. U m a das nossas antigas instituições, que não pode mais resistir ao despotismo do progresso, é a gazeta mirim e periódica: não

se tolera hoje em dia senão a gazeta gigante e diária:

o pequeno periódico do tempo passado, se ainda algumas vezes ousa sair à luz, procurando leitores, passa

da tipografia à confeitaria, é lâmpada que em breve

se apaga por falta de azeite, logo se torna em papel

de embrulho.

— Primo, você raciocina, como se quisesse fundar

uma empresa permanente, e do que deve tratar é da publicação de uma gazeta previamente condenada a desaparecer d'aqui a três ou quatro meses.

— É exato: nas vésperas de todas as campanhas eleitorais há dessas erupções de patriotismo arrojadas por vulcões que fecham as crateras apenas apanham os votos que pedem, cantando, chorando, e gritando.

— Mas além disso eu não adoto a sua tese: você calunia o século e a sociedade brasileira para não confessar a verdadeira causa do mal: o que devemos dizer é que no Brasil não há imprensa exclusivamente política; porque o povo à força de se ver mil vezes enganado, perdeu as crenças, e assiste quase indiferente às lutas: é por isso que os homens políticos que precisam da imprensa apelam para as grandes folhas diárias, que falam aos interesses do comércio e de todas as indústrias, e são obrigados a socorrer-se dos vinténs por linha que produzem os anúncios para sustentar os artigos de propaganda.

— Xiquinha, juro que aprendeste lógica e história política do Brasil.

— Continuemos a conversar, disse-me ela.

— Assim pois jornal de pequeno formato e periódica, embora não seja lida

— Não; vendendo-se, e quando não se vender, distribuindo-se grátis para ser lida.

— Grátis? essa palavra — grátis — desequilibra todo o sistema da minha vida. Eu não compreendo que se trabalhe de graça em caso algum.

— Semeia-se para colher, repito.

— Para demonstrar que a agricultura é um mister onerosíssimo basta este princípio cruel. Eu queria ser deputado sem despender um real.

— Para que então te apressaste a casar comigo?... se fosses noivo da filha de algum ministro, podias receber em dote a deputação geral, ou alguma outra alta posição oficial.

— Sei, e todos sabem isso; mas não há tesouro, que iguale o teu merecimento.

— Temos alguma outra questão a resolver?

— Sim: de que espécie deve ser o meu periódico?

— Quantas espécies ha?

— Muitas mas limitar-me-hei a falar-te das principais: há a gazeta excepcional, a gazeta séria, que discute as questões, aprofundando-as, que não faz arma da calúnia, nem da injúria pessoal, que...

— Adiante; essa não te pode aproveitar.

— Há a gazeta exaltada e violenta que têm princípios definidos; mas que insulta o adversário, e nunca enxerga nele nem merecimento, nem ato acertado,

u nem honra, limitando-se porém a atacar a pessoa do adversário, e parando nela.

-— Se não fossem os tais princípios definidos, essa te convinha.

— Há o periódico pelourinho, que não tem ideias; mas tem penas que são azorragues e punhais: o redator é um vil assassino de esquina de rua, que fere à traição a vítima: é um salteador de estrada que com a ameaça do mais horrível insulto, pede a bolsa ou a honra; é um detrator sem peias, que atira o aleive e a difamação ao seu condenado e não para nele, vai além, ousando ferir a esposa nobre, e a filha inocente do teimoso que não quis dar dinheiro...

— A h! isso é horrível de mais!

— Pois é assim; não te admires porém; porque...

— H a pior?

— Não; mas há melhor; o periódico pelourinho franco, nu, ostentoso, é farroupilha e desprezível: já ninguém faz caso dele.

— Então que é que você acha melhor?

— O pelourinho civilizado a gazeta sem ideias e que se proclama idealista, que não tem consciência e que fala sempre em nome dela, que afeta gravidade nos artigos da redação, e que espalhá veneno em artigos anônimos, mas de lavra própria, e que com esses recursos assassina ou faz por assassinar a honra alheia, quando isso convém ao seu interesse, ou aos ódios de quem o aluga, como o bravo de Veneza que vingava afrontas de outros a preço de contado. E sempre pelourinho; mas o outro era farroupilha e este é afidalgado.

— Primo, a minha opinião é que você deve combinar a gazeta exaltada com o pelourinho civilizado.

— Estamos de acordo; vou ser um luzeiro da imprensa política e periódica: hoje mesmo organizarei o meu gabinete de redação e alugarei o meu testa de ferro.

Oito dias depois desta conferência saiu à luz da imprensa o primeiro número da Espada da Justiça.

Rodeei-me de alguns moços de talento e sem experiência do mundo, incensei-lhes a vaidade e contei com redação segura que facilmente fui pagando com modestos presentes, e com pomposos elogios, que sabidos muitas vezes da formosa boca da Xiquinha, puseram os rapazes doidos.

A necessidade que eu tinha de ganhar toda a proteção do ministro da... obrigou-me a atacar imediatamente o seu mais detestado adversário e assim o primeiro artigo da Espada da Justiça foi uma biografia insultuosa, violenta e caluniadora da vida inteira daquele ex-ministro dos negócios estrangeiros, que me nomeara adido de primeira classe para a legação de Paris, que me dera a ajuda de custas misteriosa, e a licença com vencimentos para tratar da minha saúde, onde me conviesse.

Estreei, pagando um favor composto de três grandes favores com os mais desabridos ataques e ultrajes.

Houve quem me lançasse em rosto este procedimento; eu porém respondi:

— Sou na imprensa a Espada da Justiça; sou juiz consciencioso e severo: nos próprios favores que recebi vejo o desenfreamento do mais escandaloso patronato, que a rigidez dos meus princípios me força a condenar.

A Espada da Justiça teve em breve, e contra a minha expectativa, numerosos leitores, alguns dos quais pagantes: um certo esmero, às vezes pedantesco na redação, devido ao talento dos meus jovens colaboradores, a audácia nos ataques, a exaltação das ideias, a impostura de independência deram interesse ao periódico.

Eu não admitia artigo, cuja matéria não fosse agradável ao ministério; mas tomei como regra dizer tudo em nome do meu partido, protestando sempre que pouco ou nada me importava desagradar ao governo.

No fim de um mês vi que havia já despendido com a Espada da Justiça, que se publicava três vezes por semana, cerca de trezentos mil réis do meu bolso, o que me incomodou consideravelmente.

É verdade que os três personagens, meus amigos, tinham-me garantido a eleição de deputado à Assembleia Geral; mas a minha ideia predominante era sempre colher sem semear.

Em tais circunstâncias procurei consolar-me, ostentando a grandeza dos meus sacrifícios, e em certa noite de reunião na casa do ministro da..., ouvindo encômios, e recebendo parabéns pela redação ilustrada e enérgica da Espada da Justiça, respondi com o jeito que pude

— E todavia é um serviço que presto e que me custa caro: não faço questão disso; mas o primeiro mês da Espada da Justiça exigiu que eu despendesse nada menos que um conto e setecentos mil e tanto; ainda assim porém não desanimo: a pátria merece mais.

Evidentemente o meu patriotismo admirou ao auditório.

Os homens de gênio fazem maravilhas sem perceber que as fazem: eu acabava de fazer uma verdadeira maravilha, e eis aqui a prova.

No dia seguinte ao levantar-me da cama, recebi este bilhetinho precioso escrito pelo ministro da...

« Confidencialíssimo. — Meu Predileto: o governo não abusa nem deve abusar da dedicação dos seus amigos: a sua candidatura é um direito do seu merecimento e lealdade, mas o seu eloquentíssimo periódico não pode continuar a ser tão oneroso sacrifício pecuniário para um dos mais ilustres dos nossos correligionários: venha falar-me: temos meios secretos que sem ofensa da sua probidade e sem quebra da sua independência, tornarão mais leve o peso da Espada da Justiça, cuja publicação é indispensável ao ministério.

« Seu de todo coração. — X. Z. Y. »

Dei um salto de alegria: a Xiquinha correu a saber que novidade havia, e lendo a cartinha ministerial, fez um momo:

— Que lhe achas? perguntei.

— Mau cheiro, respondeu ela.

— Como?...

— Cheira-me a cofre da polícia.

— É um dos meus sonhos, Xiquinha!

— De realização muito desejável no futuro; mas por ora inconveniente, e talvez perigosa para a nossa candidatura.

— Xiquinha, estou receoso de que estejas hoje por exceção com falta de lógica: um homem que rejeita dinheiro, nem ao menos pode entrar na lista dos jurados; porque evidentemente lhe falta o bom senso exigido pela lei.

— Primo, você quer passar toda sua vida em aluguel da polícia?

— Não: tenho determinado ser muito mais alta e desfaçadamente caríssimo pensionista do Estado.

— Em tal caso rejeite o oferecimento do ministro e continue a escrever.

— E o dinheiro que perco?

— Ganhará muito mais depois: alugado ao governo nesta ocasião, amesquinhará o seu merecimento, e poderá até pôr em risco a sua candidatura: aproveite o ensejo para ostentar desinteresse e dedicação e eu lhe juro que lucrará muito e muito mais em futuro próximo.

Deixei cair tristemente a cabeça e pensei e refleti duas longas horas em silêncio.

A Xiquinha calculava bem, é verdade; mas condenava-me ao martírio de Tântalo: eu tendo diante de mim aberto o sublime cofre das despesas secretas, e obrigado a afastar a mão, e a fingir horror ao dinheiro!!!

Oh! a vida política tem horas e dias que sabem a tragos de fel!

A Xiquinha me grudava no rosto a máscara, e me enrolava o corpo com o manto de Catão!!!

Foi neste dia de silenciosa tempestade rasgada no meu espírito que compreendi, com a mais dolorosa experiência, os transes por que passa, as amarguras que experimenta o egoísta que explora a política, e que por sábio cálculo refalsado leva às vezes anos a iludir o povo com brilhantes rasgos de fingido catonismo que lhe custam os olhos da feia cara verdadeira!

Hoje o diabo do governo tenta-o, oferecendo-lhe uma sinecura, o Catão mascarado soma os lucros, e vê que ainda não chegam à conta redonda que espera: tem entretanto uma fome devoradora, maldiz do povo que o observa; mas faz das fraquezas forças, encrespa os sobr'olhos e exclama com voz altisonante: c eu não sei receber favores do governo! »

O ministério fica desapontado, o povo bate palmas, e o egoísta — acatonado murmura consigo, passando a mão pela barriga, « que massada! porque não me haviam oferecer logo o pão-de-ló com que sonho! »

Amanhã vem nova tentativa, nova experiência, e novo tormento da alma do pobre pecador, que não quer comprometer o seu cálculo, comendo fatias...

Finalmente chega o dia do bolo grande e completo! o herói arregala os olhos, abre a boca imensa, por onde o bolo desaparece, como um navio que se abisma no golfão. Desde então não há mais peias, que contenham a fome e a sede do egoísta que depôs a máscara e rasgou o capote.

Os falsos Catões são para a política do Estado, como os falsos profetas para a religião do verdadeiro Deus.

Mas eu confesso que não tenho animo de aspirar tanta glória: eu sou simplesmente egoísta ordinário, não posso ser egoísta gênio.

Tenha a Xiquinha paciência: sujeitar-me-hei a fazer papel de Catão esta vez somente: representar semelhante comédia uma segunda vez, me faria rebentar de desespero.

Fiz, consumei o enorme sacrifício: escrevi ao ministro, rejeitando o seu oferecimento, queixando-me de que me tivesse feito uma proposição que ofendia o meu caráter escrupuloso e severo, e assegurando que ainda assim continuaria a prestar na imprensa os meus serviços ao ministério.

Referi muito em segredo aos outros protetores com quem contava, tudo quanto se havia passado; ganhei por isso os cumprimentos de ambos; devo porém declarar que o ministro recebeu-me depois friamente na primeira visita que lhe fiz, e que só voltamos à intimidade das antigas relações depois que a Xiquinha imaginou e regulou para um pomposo baile um toilette a capricho com que a vaidosa esposa de S. Ex. conquistou os louros do primor da elegância.

Não censuro a frieza do ministro; ele teve razão: o que o governo quer dos seus afilhados, deve ser feito prontamente e logo imprensa livre e independente, ou com ostentações desse caráter não pode convir a ministério algum no Brasil: a imprensa deve ser o eco da voz do governo, deve ser toda ela, como o Semanário do Paraguay. É por isso que eu desejo a censura prévia.

Além disso os ministros no Brasil estão tão habituados a pagar com o dinheiro da nação a imprensa que os defende, que o uso já tem feito lei; e consequentemente, por culpa da Xiquinha, ofendi a lei, e os direitos da polícia.

A Espada da Justiça continuou pois a fazer prodígios de difamação-civilizada, e eu a tornar-me celebridade na capital do Império, sendo muitas vezes objeto das ovações dos meus supostos amigos políticos.

Mas olhem, nem tudo que luz é ouro.

Se a Espada da Justiça não fosse para mim somente alavanca eleitoral, um cálculo egoísta, em que não entrava nem a consciência, nem o dever, nem o interesse pelo bem público, eu a teria metido logo na bainha, e a deixaria ali perpetuamente enferrujar-se.

Faço ideia dos desgostos que experimentam, e das lutas secretas que são obrigados a travar as almas cândidas dos toleirões que escrevem periódicos por impulso de patriotismo, e pelo generoso interesse dos princípios dos partidos políticos, a que em sua virginal inocência supõe servir.

Que exigências cruéis, que imposições ao pobre coitado! que acerbidade de queixas!

Examinemos, entre parêntesis, este assunto que é de máxima importância nos países onde existem governos livres bem regulados.

Há entre nós cabeças desmioladas e teimosas que tomam ao sério a missão da imprensa política e que em vez de a fazerem negócio de ideias, ou meio de pregar ideias exclusivamente para lucrar com elas, deixam-se guiar pelo triste farol das convicções, e sacrificam-se pela missão da imprensa em vez de sacrificar a missão da imprensa ao seu interesse.

São uns visionários que me causam compaixão!

Querem eles que a imprensa política seja livre e independente e que fiel mantenedora dos princípios, da opinião de que é o órgão, não os olvide nunca, nem pela conveniência de defender contra os justos ataques dos adversários os erros e os abusos destemperados do ministério que saiu ou pretende ter saído das fileiras do seu partido.

Que erro descomunal! a imprensa política deve ter obrigação de considerar impecáveis os ministros que reputa do seu credo político: a boa disciplina de um partido exige que os partidistas de um ministério abdiquem o direito de pensar e de ter consciência, limitando-se a dizer amém a tudo quanto quiser e fizer o ministério: em política é loucura querer viver pela verdade, e é prova de bom juízo arranjar a vida pela condescendência com a mentira: no Brasil já é prática muito antiga que os ministérios que se organizam manifestem a procedência, não direi dos partidos, mas dos lados ou dos grupos parlamentares donde saíram, não realizando no governo os princípios que sustentaram na tribuna, sim, repartindo as posições políticas influentes, e os empregos lucrativos pelos sócios da comandita que conseguiu o monopólio temporário do governo do Estado.

Com imprensa política livre e independente, com imprensa zeladora dos princípios, sem condescendências contraditórias dos princípios não haveria no Brasil ministério regular, porque no Brasil o que é regular, é que o governo não tenha princípios definidos.

E os patetas a quererem reformar a sociedade! Por isso quando algum desses visionários ataca, em nome dos princípios, este ou aquele ato do ministério que se propala saído do seu lado político, o ministério e os famélicos que o cercam bradam enfurecidos: « fora! está fora do partido! » e bradam com razão; porque o partido de um ministério é uma espécie de instrumento de metal que ao excelentíssimo sopro rincha sempre e por força — amém.

E não se queixem do governo os visionários da tal imprensa política independente e livre; porquanto no próprio seio dos partidos de que ela se quer fazer órgão, e em suas relações com uma boa parte dos respectivos chefes essa pobre mártir, a imprensa política, vê-se doida, vê-se no purgatório das suas loucuras, vê-se condenada ou à mais desesperada luta, ou a ser criada não de dois, mas de vinte ou de cem amos.

Façam de conta que um desses visionários se presta a publicar e redigir um periódico que seja órgão das ideias do seu lado político: manifesta a sua resolução, e sobram-lhe as animações e as promessas de considerável concurso: cai o tolo na esparrela.

Supõe de si para si o pobre visionário, que a imprensa política é a gloriosa, a mais importante tribuna, do alto da qual o escritor ilustrado e consciencioso orador de todos os dias, fala ao povo, anunciando-lhe os seus direitos, e ensinando-lhe doutrinas sãs, fala ao governo, lembrando-lhe o seu dever, defendendo seus atos legais, e censurando os seus abusos e erros; fala enfim e sempre ao seu partido, esclarecendo-lhe o caminho que lhe cumpre seguir, e mantendo como pura Vestal, a chama sagrada do templo da sua religião política.

Pensa ainda o visionário que o laço comum de um partido é apertado pelo acordo e pela harmonia de um complexo de ideias capitais de um plano político, que em todo caso não impõe aos correligionários o jugo servil e absoluto de submissão a todas e quaisquer ideias de ordem secundária, ou ainda de consequências as mais consideráveis, independentes porém do plano essencial do partido.

Pois o senhor visionário está, como estão todos os visionários, vivendo e pensando no mundo da lua.

Há sem dúvida um ou outro, alguns homens políticos notáveis pela sua posição e sabedoria, há ainda homens que nada mais têm que pedir ao povo, e que fiéis às suas crenças, dedicados à opinião que os elevou, estão sempre no seu posto, desinteressados e nobres, e tipos de abnegação, quase que se escondem na sombra nos dias da prosperidade e que ao soar a hora da adversidade, mostram-se a toda luz e gritam aos antigos amigos: « aqui estou! contai comigo! »

Mas desses quantos há?... apparent rari nantes in gurgite vasto! esses não incomodam, não atormentam os visionários; porque eles também o que são senão visionários? esses... eu sei! até não têm graça, são velhos imprestáveis, que não estão na moda do nosso belo tempo: esses são exceções que não entram em linha de conta.

Vamos à regra.

O visionário da imprensa política livre e independente publica o seu periódico.

Ai dele! prendeu-se à mesa da redação noite e dia com o nobre e generoso intento de servir exclusivamente à causa da opinião cuja bandeira adotou; para logo porém começam-lhe os transes: hoje um reisinho do partido vem exigir que o periódico insulte, ataque sem piedade tal correligionário político que lhe disputa a influência na sua província; amanhã é o chefe de um grupo de outra província, que não admite que seja agredido o presidente dela, que está fazendo favores a seus parentes: mais tarde chega o senhor Esta Coisa, que está furioso; porque o jornalista independente pronunciou-se contra o seu projeto de concessão de um privilégio que lhe deve aproveitar muito, embora seja contrário aos interesses nacionais; logo entra carrancudo no gabinete da redação o senhor — Outra Coisa, — que pergunta enfezado, como é possível que na gazeta se achasse eloquente o discurso do deputado que agrediu o chefe de polícia da província de... que é seu compadre!

E dentro em pouco o visionário da imprensa política livre e independente ou torna-se instrumento dos caprichos, das paixões, e dos interesses dos seus pseudocorreligionários políticos, ou fica às moscas, e por causa das moscas que realmente o devem incomodar muito, suspende a publicação do seu esperançoso periódico.

Eu também hei de suspender a publicação da Espada da Justiça; mas não há de ser por isso.

No correr da minha vida poderão chamar-me quantos nomes feios quiserem; há porém dois nomes feios, que só os caluniadores poderão atirar-me ao rosto:

Um é visionário; porque não sou, nem jamais serei poeta.

Outro é liberal; porque...

Não: neste último caso, preciso, em lugar de dizer o porque, deixar como franco e leal protesto da pureza do meu atual e futuro procedimento, uma reserva indispensável:

Não sou, nem serei nunca verdadeiro liberal, isso é positivo; mas não prescindo do direito de fingir-me liberal, quando me convier.

E bem tolo seria eu, se desprezasse o recurso desse nome, que tem servido a tantos especuladores políticos para subir pelos ombros do povo até às grimpas sociais.

Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Sinopse

Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.

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