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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo 12 · Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo XI

12 de 15 ≈ 26 min de leitura

Como logo depois de chegado à capital do Império sou agraciado com a comenda da Rosa, cujos espinhos ferem a vaidade da Xiquinha, que ainda não consegue ser baronesa: tenho vontade de fazer oposição; mas não caio nessa asneira, e fico ministerialista quand même: quero a todo transe falar na Câmara, levo oito noites a decorar um discurso que levara oito dias a preparar com a Xiquinha, e indo enfim improvisá-lo na tribuna, espicho-me completamente e faço espirrar um ministro; mudo de sistema, e fico homem sério: a Xiquinha, que é inimiga da política, faz política em segredo; reúno um clube de desgostosos, de que o compadre Paciência faz autópsia perversa em uma noite em que a Xiquinha de improviso o dissolve por causa dos vestidos nesgados.

Chegamos à capital do Império poucos dias antes de começarem as sessões preparatórias e logo achei justíssimo e ponderoso motivo para declarar-me em oposição ao ministério, que em paga de quatro anos de dedicação amesquinhou, abateu a mim e a Xiquinha com um ato revoltante.

Pelos meus serviços extraordinários prestados nas cinco províncias que presidira, reputava-me com direito ao título de barão com grandeza ou pelo menos ao de barão pequeno, e em uma fornada de despachos galardoadores de não poucos presidentes de províncias apenas me contemplaram com a comenda da Rosa!... ora! a comenda do amor e da fidelidade a mim que não amo senão a minha própria pessoa, e que jurei não ser fiel a pessoa alguma!... era para desesperar! a rosa da minha comenda tinha espinhos que feriram principalmente o coração da Xiquinha.

Todavia não me foi lícito romper com o ministério, primeiro, porque eu ainda não estava reconhecido deputado, e em segundo lugar porque não sabia se o gabinete dispunha de condições seguras de vida, ou se em breve se acharia in articulo mortis, e sabê-lo era essencial para a oportunidade do rompimento: sufoquei pois o meu ressentimento; conservei-me ministerialista; mas com os calcanhares firmes na maioria, e com as pontas dos pés levantadas para ao sentir cheiro de crise ir sentar-me nos bancos da oposição.

Enfim a eleição da minha província foi aprovada: respirei e não era para menos: desde muitos anos uma eleição de deputado no Brasil às vezes consta de quatro votações eleitorais: — eleição primária — eleição secundária — eleição feita pela câmara municipal apuradora — e eleição feita pela Câmara dos Deputados, reconhecedora dos poderes.

O meu primeiro problema achou-se pois resolvido: a solução do segundo tornou-se clara antes e claríssima logo depois da abertura do Corpo Legislativo: o ministério tinha na Câmara uma maioria a aborrecer e amigos entusiastas a deitar fora; ia portanto atravessar a sessão com certeza de assoberbar as tempestades da oposição; consequentemente abaixei as pontas dos pés e mostrei-me inabalável, ardente, intolerante, e frenético ministerialista.

Eu não conheço posição mais cômoda e folgada do que a do bom ou do ótimo deputado da maioria: o ótimo deputado da maioria é aquele que nunca fala, e que vota sempre com o ministério. Eu resolvi-me a ser ótimo, e eis aqui a minha vida parlamentar: às onze horas e três quartos chegava à Câmara, assistia à abertura da sessão, perguntava se devia haver votação, ou discurso de ministro com aparato triunfal, no caso afirmativo ficava na minha cadeira; recebendo resposta negativa, tomava o meu chapéu, e ia palestrar na rua do Ouvidor. Ouvir as ordens do dia e estudar as matérias foi coisa que nunca fiz.

Entretanto para ostentar pretensões a orador, pedi a palavra em todas as discussões importantes, tendo porém o cuidado de inscrever-me sempre em vigésimo lugar na lista dos oradores; porque assim estava certo de não falar; a oposição descobriu o segredo e começou a chamar-me por trás dos bancos — orador vigésimo —: não gostei da graça e mudei de tática, passando a inscrever-me em vigésimo-quarto lugar, e a maldita trocou-me logo a alcunha, chamando-me orador das dúzias.

O pior, além das provocações da oposição, era o compadre Paciência infalível ouvinte, que em frente de mim se sentava em uma das galerias, e que de volta para casa atormentava-me sem piedade.

Compreendi que a má figura que estava fazendo poderia prejudicar o meu esperançoso futuro, e determinei-me a falar uma vez, fazendo essa exceção ao meu ótimo ministerialismo. Comprei obras em que os oradores notáveis da França reuniram seus discursos, pus a Xiquinha a ler Mirabeau, Guizot, Lamartine e outros, traduzindo muitos pedaços aplicáveis à política do Brasil: no fim de oito dias ela, de combinação comigo, havia concluído uma grande manta de retalhos: achei-me abarbado com um caderno de papel escrito e levei oito noites a decorar o meu recado.

Finalmente fiquei com o discurso na ponta da língua, fui para a Câmara, pedi para romper pelo lado ministerial a discussão que ia abrir-se, e na ocasião oportuna o presidente deu-me a palavra.

Levantei-me, pedi um copo d'água e comecei:

— Senhor presidente, vou falar desalinhadamente, porque não posso vencer o mau costume de não estudar discursos, e de improvisar sempre que falo.

Uma voz da oposição. — Sempre que fala?... aqui é a primeira vez. (Risadas.)

Uma voz da maioria: — não perturbem o orador.

Eu. — Os apartes não me perturbam, e tenho a coragem precisa para responder com energia, repelindo os sarcasmos que partem dessa oposição facciosa! (gritos de ordem — cruzam-se violentos apartes — o presidente toca com força a campainha).

(E no meio da confusão, eu fazendo um movimento desajeitado, bato com a mão no copo d'água, e a água entorna-se toda na farda e nas calças do ministro que oficialmente assistia à discussão e por detrás do qual me levantara para falar: façam ideia da cena! Câmara e galerias desfizeram-se em gargalhadas, e para meu maior mal, o ministro constipou-se e começou a espirrar até que saiu do salão maldizendo da minha eloquência.)

(Só no fim de um quarto de hora restabeleceu-se a ordem e o silêncio.)

O presidente: O nobre deputado pode continuar o seu discurso.

(Qual discurso! na perturbação do meu espírito não me lembrava mais uma única palavra do meu recado: gaguejei, titubeei, e apelando para o mais incrível e estúpido recurso, eu que devia sentar-me pretextando incômodo explicável, eu desabotoei o paletó parlamentar, tirei do bolso o meu caderno de papel, e comecei a ler o discurso.)

Uma voz da oposição: — é o mau costume de não estudar discursos e de improvisar sempre que fala!...

(hilaridade prolongada, o presidente não pode manter a ordem, porque é um dos que mais riem).

Não pude resistir à borrasca, disse trinta injúrias à oposição, protestei que ia ler documentos importantes, e não um discurso, e sentei-me, declarando que o fazia, porque o presidente da Câmara não sabia defender e manter os meus direitos.

Eu saía furioso do salão, quando S. Ex. o ministro da... que não é capaz de engolir epigrama que lhe faz cócegas na ponta da língua, tomou-me o braço e disse-me:

— De que se aflige? você tem sobra de consolações, e prestou-nos hoje um grande serviço.

— V. Ex. quer zombar de mim?

— Não, meu amigo: olhe: console-se, porque eu tenho na minha maioria mais de seis oradores, que improvisam à sua moda.

— E qual foi o grande serviço que prestei?

— Fazer espirrar o meu colega da... que estava doido para se pôr ao fresco e escapar à discussão.

— Mas voltará amanhã.

— Qual! constipou-se, e foi tomar sudoríficos: o seu copo d'água salvou-o.

— Todavia... como o ministério é solidário...

— Você é terrível! nem poupa os amigos! está querendo dizer que eu vou andando com umas poucas de pernas de pau.

E S. Ex. foi-se, deixando-me estupefato.

Vejam só como às vezes alguns espirros de um ministro são mal traduzidos pelos próprios colegas do ministério!

O que não admite dúvida é que o meu infeliz improviso e os afortunados espirros do ministro da... deram tema aos epigramas da oposição na Câmara, e na imprensa, e que tornei-me celebridade no Rio de Janeiro.

Ainda bem que eu podia achar em minha casa suaves compensações do meu fiasco na tribuna parlamentar.

Na Câmara não tornei a falar, e, seguindo os sábios conselhos da Xiquinha, tomei a máscara de homem sério e grave: fiz o sacrifício da palestra na sala dos charutos, e dos passeios pela rua do Ouvidor: ostentei-me sempre ocupando a minha cadeira, apoiando com aparente convicção, mas sem entusiasmo, as doutrinas dos ministros e em um ou outro aparte deixei ouvir protestos de desinteresse, e preceitos triviais de moderação. Em duas ocasiões enfim cheguei a votar com a oposição, pretextando escrúpulos de consciência, havendo porém previamente conseguido licença do ministério para votar desse modo.

Era assim que eu deveria ter procedido desde o primeiro dia em que entrei na Câmara: ninguém faz ideia de quantas garrafas vazias, mas lacradas e com letreiro, passam por conter vinho generoso por causa do lacre e do letreiro! ninguém faz ideia de quantas submediocridades passam por grandes coisas, graças ao silêncio impostor.

Não somente a palavra, também o silêncio foi inventado para enganar os homens.

Com o emprego deste sistema, e com a habilidade e o desenvolvimento da influência da Xiquinha comecei em breve não só a ganhar quanto havia perdido, como a ser tido na conta de deputado importante pela consideração e amizade de que era objeto em um círculo numeroso de membros do parlamento.

A Xiquinha e eu recebíamos os nossos amigos quase em todas as noites, e especialmente em uma em cada semana tínhamos reunião numerosa de ambos os sexos: nesta dançava-se, cantava-se, tomavam-se sorvetes, e ainda nesta como em todas falava-se, e tratava-se muito dos negócios políticos.

Da casa éramos três as figuras: a Xiquinha oração principal, eu, oração subordinada, e o compadre Paciência, oração incidente, que algumas vezes sacrificou a gramática, tomando o governo do período.

O aspecto físico das três figuras da casa, e alguns dos seus dotes morais têm grande importância para o caso.

A Xiquinha era sempre formosa: descobrira o segredo de perpetuar o viço dos vinte anos; vaidosa e meiga recebia a corte de trinta admiradores, distribuindo sorrisos sem consequências e tornando impossível o comprometimento com algum pela igualdade do agrado com que encantava a todos: pelo menos era isso o que ela me dizia, e o que eu acreditava e acredito piamente; porque não tive nem tenho razões para pensar o contrário.

Eu era esbelto e um pouco magro como sempre fui e sou e como em regra se observa em todos os homens que comem muito: reconheço que há respeitáveis barrigudos que são exceções, mas não destroem a regra: afável e obsequiador sem sacrifício, não observando nunca minha mulher nas reuniões, adulando muito as pessoas das famílias das notabilidades políticas, ajudava quanto podia à Xiquinha a fazer da nossa casa uma armadilha de flores.

O compadre Paciência ostentava enormíssima calva cercada de uma orla semicircular de cabelos brancos, olhos vivos, rosto agradável mas severo, e palavra pronta, franca, e desapiedada. Nas primeiras reuniões houve quem menos delicado pensasse em rir à custa dele; o velho porém não precisou de defensor; com o seu bom senso, e rudeza foi dizendo o que pensava, e dentro em pouco tornou-se o censor temido de quanto lhe parecia erro ou abuso, e de quantos erravam ou abusavam, e nem poupava epigramas a quem lhos dirigia.

Uma noite, por exemplo, acabava de pronunciar-se calorosamente contra um jovem deputado da maioria, que no correr da conversação sustentara a conveniência das ditaduras em circunstâncias extraordinárias, e o ministro da... que o ouvira, disse-lhe, gracejando

— V. Ex...

— Eu não tenho excelência: o tratamento de mercê já é muito para o que sou na ordem das coisas.

— Pois bem: o senhor devia trocar o seu apelido de Paciência pelo de Trovoada...

— Ah! se eu fosse trovoada, excelentíssimo!

— Que faria?

— Tinha já lançado um raio, fulminando V. Ex. na última discussão em que falou na Câmara.

O ministro não perguntou por quê, e foi conversar com a Xiquinha.

Nossas reuniões eram muito concorridas: não havia nelas exclusão de partidos: ministros e membros da maioria tomavam sorvetes na mesma roda com deputados e senadores da oposição: a palestra era então mais cerimoniosa e contida; nas noites porém de simples recepção de visitas, falava-se, discutia-se livremente, e muitas vezes laborava a intriga política.

A Xiquinha declarara que aborrecia a política e que não permitia que algum de nós se chegasse a ela sem juramento prévio de não provocar o seu aborrecimento: com ela só deixava que se tratasse de teatros, de festas, de música, de modas, e de sentimentos suaves; mas com as mãos no teclado do piano, debruçada à janela, dançando e sorrindo obtinha empregos, favores, graças para os nossos amigos das províncias, e, até como intermediária direta, para alguns protegidos dos deputados da oposição.

Isso era o menos; o meu, o nosso futuro político era o mais: a Xiquinha protestara que eu, isto é, que nós entraríamos na primeira organização ministerial e procedeu nesse sentido: desejando naturalmente a queda do ministério, nunca pronunciou, fora da sua intimidade comigo, uma só palavra que revelasse aquele pensamento; não poucas vezes porém, apanhando segredos da alta administração, e projetos ou planos ainda encobertos, passava-os ao ouvido de algum oposicionista que logo no dia seguinte ia na Câmara atirar com os segredos à face do ministério.

Enquanto a Xiquinha manobrava por esse modo, eu continuava a prestar com decisão e firmeza o meu voto ao gabinete, e assim dentro em pouco a oposição principiou a acariciar-me, e o ministério tratou-me com respeito.

A Xiquinha era o diabo em política! À medida que a sessão legislativa se adiantava, mais violenta a oposição agredia o ministério, e mais desgostoso se mostrava em suas confidências um círculo de deputados da maioria que contavam todos, e eram mais de uma dúzia, herdar algumas das pastas do ministério que apoiavam e no entanto desejavam ver morto e enterrado.

Esses desgostosos eram constantes frequentadores da nossa casa, onde nas noites em que mais em liberdade nos achávamos, discutíamos sobre a situação política e sobre os meios de salvar o país.

Salvar o país, — era pois, não direi a ordem do dia; mas a ordem da noite em todas as sessões desta nossa assembleia especial.

Tanto porém falávamos em salvar o país, que uma vez o compadre Paciência tomou a questão muito a sério, e sem pedir a palavra, pôs-se a discutir, como ele discutia.

— Digo-lhes, excelentíssimos, que estou cansado de ouvi-los falar na necessidade de salvar o país: pobre país! mísero doente com tantas dúzias de charlatães à cabeceira.

— Compadre!

— Não retiro a expressão: a verdade que saiu, saiu: convenho ao muito e por amor da cortesia que os excelentíssimos que se acham presentes, se suponham excetuados.

Pusemo-nos a rir; era o único recurso, que tínhamos.

O velho continuou:

— Todos os senhores são membros da maioria que sustenta o ministério na Câmara, e que de noite e aqui proclamam todos que o Estado vai à garra, e que é indispensável a organização de um novo gabinete, de modo que os senhores são uns de dia, e outros de noite, têm uma consciência para o sol outra para a lua.

— O senhor não entende destas coisas: o nosso proceder é muito político: o ministério é péssimo; mas na Câmara contemporizamos com ele até que soe a hora oportuna do golpe mortal.

— E essa hora...

— Será aquela em que a queda do ministério atual não possa aproveitar à oposição que nos combate.

— Português claro será aquela em que lhes parecer que a herança das pastas lhes entrará por casa: franqueza, excelentíssimos! os senhores estão doidos por serem ministros: as fardas bordadas e os correios galopando atrás dos carros lhes fazem cócegas, e atiçam uns desejos, a que não podem mais resistir: é natural: também as moças quando chegam aos dezoito anos e pensam em casar, ficam assim.

— O senhor calunia os nossos sentimentos: os homens políticos que têm a convicção de poder fazer o bem do Estado, devem aspirar o governo.

— Bravo! a teoria é verdadeira, e até magnífica; mas vamos ao essencial: que política pretendem seguir, quais são as medidas que empregarão para salvar a nau do Estado?

A resposta demorou-se: o velho insistiu e por fim um dos nossos amigos, que já tinha sido ministro, respondeu:

— Deem-nos o poder, e verão.

— Ah, excelentíssimos! pois os senhores querem ser nabos comprados em saco?... a teoria à que a pouco se agarraram, assenta em outros princípios: os políticos que querem ser governo, porque pensam que podem fazer o bem do país, anunciam em oposição os seus planos, e manifestam as suas ideias.

— Os nossos sentimentos políticos já são conhecidos em todo o Brasil.

— Mas, olhem: o Brasil já está muito aborrecido da constante sucessão de ministérios, que fazem todos a mesma coisa e não saem de um círculo vicioso.

— Então o senhor quer que continue no poder este gabinete fatal e desassisado?...

— Misericórdia, meu Deus! que eu dissesse isso, eu que aplaudo a oposição; porque sou liberal da velha escola, estava direito; mas os senhores que têm votado e votam com o ministério?... não se pode ser juiz com tais mordomos! Excelentíssimos! o ministério é ruim, como o diabo; mas os senhores, são piores do que o ministério.

— O compadre Paciência, não sabe migalha de política prática e parlamentar, observei eu; e por isso não compreende as regras das conveniências, e a necessidade de se tolerar e sustentar às vezes um ministério que faz o mal do país.

— Pois tenha a bondade de pôr-me em dia com as circunstâncias atenuantes desse crime.

— Olhe, o ministério atual é mau, é calamitoso; ao menos porém mantém nossa influência nas províncias e faz-nos os favores que lhe pedimos; e se tivesse caído há um mês, ou caísse amanhã, era e é possível que subisse ao poder a oposição, e adeus nossa influência, e adeus favores!

— Otimamente! os interesses da nação na cova do esquecimento, o dever banido como elemento perigoso, o pudor condenado como trapalhão, a lealdade — peta, os princípios — caraminholas, e o egoísmo de cada um acima dos direitos de todos! política negócio, governo balcão, ministros mercadores... oh que salvadores da pátria!... excelentíssimos, os senhores estão brincando.

— E o senhor já se ressente da idade muito avançada, aliás compreenderia que os nossos interesses pessoais são legítimos; porque se acham ligados aos interesses da pátria.

— Ora pois: admitamos este carapetão; ainda assim dou-lhes uma triste notícia.

— Qual?

— Os senhores não podem ser ministros.

— Por quê?

— Porque não conseguirão maioria na Câmara.

Rebentamos em estrondosas gargalhadas.

O compadre Paciência deixou-nos rir à vontade e depois continuou:

— Não tem maioria: não lhes é lícito contar com a oposição...

— Quem sabe se não pescaremos nela alguns votinhos? olhe: estar em oposição muitos anos há de cansar por força, compadre; sentir o cheiro do banquete, e não poder sentar-se à mesa, é um martírio que entra pelo nariz, e vai pôr em torturas a alma...

— A alma dos gulosos e dos especuladores políticos. Quando uma oposição tem em seu seio alguns desses, ganha sempre que fica livre deles.

— Outro erro: na Câmara contam-se os votos e não as consciências; mas pouco nos importa a oposição para o caso da nossa maioria.

— Bem: e como se arranjarão os senhores com os atuais ministerialistas? não se arreceiam de que muitos deles não estejam pelos autos?

— Sabe como se organiza uma maioria?

— Não: sei apenas que maioria parlamentar deve ser partido político saído vitorioso das urnas eleitorais.

— Pois escute: a maioria é filha do gabinete que se organiza.

— Falsificação do sistema: o gabinete deve sair do pensamento, das ideias políticas da maioria mandada para a Câmara pelo país.

— É assim mesmo que se diz; mas não é assim que se faz.

— Então como é que se faz?

— Suponha que eu sou encarregado de organizar um gabinete...

— Do que Deus livre e guarde o Brasil.

— Por quê?

— Por nada. Faça o favor de continuar: eu suponho que V. Ex. se acha encarregado...

— Muito bem: vou procurar um ministro em cada uma de três ou quatro deputações mais numerosas, e completo o ministério com uma cunha e dois amigos, ou com um amigo e duas cunhas.

— E o acordo político entre os membros do gabinete?

— Há casos em que se tem arranjado isso depois de organizado o ministério. Na noite da véspera da apresentação do programa reúnem-se os ministros e improvisa-se a política.

— Primeiro as fardas, depois as ideias.

— Que fardas! no dia do programa ainda são ministros de casaca.

— É o mesmo porque já são cabides de fardas.

— Cabides!... o senhor tem expressões...

— Ora! homens que aceitam pastas de ministros antes de ter uma política entre eles combinada, que podem ser senão cabides de fardas?... mas não vá a desconfiar: V. Ex. já tem o seu ministério organizado.

— Pois bem: está tudo feito.

— Alto lá! e a maioria para sustentar o seu ministério?

— Não lho indiquei ainda agora?... um ministro tirado de cada uma das três ou quatro deputações mais numerosas é garantia da dedicação dessas deputações que acompanhadas pelos satélites, pelos deputados ministerialistas de todos os gabinetes, e ainda por estes e aqueles que pendem e que dependem, formam uma brilhante e decidida maioria que recebe com fervorosos apoiados e movimento de entusiasmo o meu programa ministerial.

— O cálculo é pelo menos lisonjeiro; mas nessas deputações numerosas, ou mesmo nas outras não aparecerão dissidentes?...

— Nunca faltam ambiciosos vulgares que invejando a elevação dos próprios e mais íntimos amigos, declaram guerra violenta ao gabinete de que debalde desejaram e contaram fazer parte.

— V. Ex. acaba de enunciar uma verdade que a mais tempo já estava me entrando pelos olhos e pelos ouvidos. É certíssimo: nunca falta o ambiciosos vulgares.

— Mas nós dispomos de influência bastante para zombar de tais adversários.

— Nós quem, excelentíssimo?

— Quem? nós: os amigos que se acham de perfeita inteligência, e com planos políticos estudados e adotados; nós que estamos aqui, e ainda outros.

— Então os senhores têm todos mais ou menos influência no parlamento?...

— Incontestavelmente.

— Em tal caso, excelentíssimo, e julgando das coisas pelo que lhes tenho ouvido, cada vez acredito mais que um ministério dos senhores não terá maioria na Câmara.

— Por quê?...

— Pelo excesso de influências, e falta de desinteresse pessoal.

— Isso é demais!

— Não é demais e vou demonstrá-lo: excelentíssimos! placidez e sangue frio! nenhum se atraiçoe mudando de cor ou perturbando-se: cabeças levantadas e eu principio.

Ficamos todos a olhar para o velho, que passou a mão pela calva, e disse:

— Os senhores são aqui quatorze: dos quatorze vejo três, o que ocupa a primeira cadeira, o que se senta na quinta, e o que está ali modestamente no canto, que se supõe com direito a organizar ministério: se o afortunado for o senhor do canto, como parece mais provável?... ai! o da primeira cadeira ficou pálido e o da quinta vermelho! vejam só!

Olhamos e era verdade; em breve porém cada um dos dois protestou sua lealdade ao político do canto, que com um sorriso mefistofélico respondeu-lhes no mesmo tom.

— Querem organizar o gabinete?... uma pasta para o presidente do conselho, duas para dois senadores, duas para contentar deputações numerosas: restam duas, dou mais uma de quebra, restam três... três para tantos que estão presentes, entre os quais vejo quatro a namorar a marinha, cinco o império, todos a todas as pastas... como se há de arranjar a partilha?...

É preciso confessá-lo: começamos a olhar desconfiados uns para os outros.

Um dos meus amigos, corando até a raiz dos cabelos, exclamou:

— Nós o temos ouvido por distração; devemos porém estar arrependidos do mau emprego do nosso tempo: o senhor nos confunde com os mais baixos exploradores da política do Estado.

— Perdão! ou antes castigo! os senhores têm um meio de me proclamar aleivoso confesso: escolham dentre si três para três pastas determinadas, na hipótese da organização de um ministério saído do seu grupo, e comprometam-se todos, debaixo de palavra de honra, a respeitar a escolha feita.

O maldito velho lançava a discórdia no campo de Agramante: senti o perigo que eu mesmo corria, apertou-se-me o coração, e acudi-me, fingindo acudir aos amigos.

— Compadre, o senhor quer arrastar-nos para o ridículo; mas perde o seu tempo: nós nos estamos ocupando de coisas muito sérias.

— Compraram todos bilhetes da loteria e estão à espera que ande a roda: eu desconfio que os seus bilhetes saem brancos...

— Aposto que não; tornei eu.

Nesse momento a Xiquinha, que havia saído nessa noite a visitar uma de suas amigas, entrou na sala, afetando um sorriso, mas com a fisionomia um pouco alterada.

— Grande novidade para os senhores que são políticos! disse ela.

— Que há?...

— Não sei bem; porque quando falavam, distraí-me conversando sobre os vestidos nesgados...

— Mas.

— Foi na casa do barão de... creio que asseveraram que os ministros tinham brigado...

— Ora... ora... isso é pelo gosto de fazer as pazes.

— Não: parece que houve desconcerto completo...

— Então cai a casa?...

— Diziam que fora chamado para organizar novo gabinete...

— Chamado... já?... perguntaram os senhores da primeira e da quinta cadeira, levantando-se.

— Quem?

— Repetiram o nome; mas não me lembra; é o nome de um dos chefes da oposição liberal...

Já estávamos todos em pé, menos o compadre Paciência, que ria-se a bandeiras despregadas.

— Mas o nome... o nome, minha senhora!

— Que quer?... não sabe que aborreço a política?... esqueci o nome; distraí-me com os vestidos nesgados.

Em dez minutos achei-me só com a Xiquinha, e o compadre; bastaram-me porém esses dez minutos para acreditar que em sua maioria os meus amigos votariam com o novo ministério.

A Xiquinha tirava o chapéu, o compadre Paciência bocejava, eu, depois de refletir um pouco, disse:

— Compadre, sempre tive a mais pronunciada simpatia por este chefe liberal que está organizando o novo gabinete!

— Já sabe quem é?

— Não; mas sei que está organizando ministério.

O velho ia prorromper; a Xiquinha porém tomou-lhe a palavra:

— Primo, o pronunciamento das suas simpatias é inoportuno.

— Como?

— Não houve briga de ministros, nem crise, nem mudança de ministério: a baronesa e a sua ninhada de filhas, de primas, e de sobrinhas atormentaram-me três horas com os seus vestidos nesgados; cada uma mostrou-me dois, e a baronesa quatro; tive medo que também o barão me mostrasse algum, saí com dores de cabeça, e ardendo em desejos de vingar-me em alguém.

— E portanto...

— Vinguei-me nos nossos amigos que vão passar uma noite de espinhos, pensando na mudança do gabinete.

— Em tal caso, Xiquinha, continuo a concentrar todas as minhas simpatias no ministério atual.

— Boa noite! gritou o compadre Paciência, saindo da sala furioso.

Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Sinopse

Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.

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