Universo da obra
Universo da obra
Como a Xiquinha e eu conversamos de noite debruçados à janela e não vimos a lua cheia que devia estar brilhando; mostro a diferença que há entre o olhar e o ver: faço uma preleção de astronomia, estudando o mundo do sol e o mundo da lua; a Xiquinha me convence da necessidade de uma viagem a Paris, e eu a convenço da obrigação que tem a pátria de carregar com as despesas da nossa viagem: dou ligeira e incompleta ideia dos filhotes dos ministros, e conto a história de uma contradança diplomática; partimos para a Europa, e deixo ao ruço-queimado o meu último pensamento de despedida; não digo o que fiz em Paris; digo porém por que voltei à pátria, e faço a descrição da baía do Rio de Janeiro com arroubos de poesia que devem encher de pasmo a todos os leitores destas Memórias, principalmente quando souberem onde deu fundo o paquete que teve a honra de trazer-me às terras da pátria.
Na noite desse mesmo dia, em que sentados junto de uma janela aberta para o oriente, a Xiquinha e eu não vimos a aurora que rompia apesar de termos os olhos fitos nela, abrimos outra vez a mesma janela, sentamo-nos ao lado um do outro, como fizéramos ao amanhecer; mas também não vimos a lua, que entretanto devia estar clara e brilhante, porque era em fase plena.
Não se admirem disso: é enorme a diferença que há entre o olhar e o ver. Ponho de lado a gramática e vou direito ao positivo.
Um conquistador de eleições olha sem cessar para a urna eleitoral; mas não vê a embrulhada e a fraude que a polícia, sua amiga, lança no seio da Vestal.
A maioria da câmara dos deputados olha muito e até namora os ministros; mas não vê as infrações das leis que eles cometem.
Um velhaco que se fez noivo olha muito para a velha horrenda com quem vai casar; mas não vê senão os cofres de ouro que pretende dissipar.
Um parasita olha atentamente para o hóspede a quem desfruta; mas não vê senão o jantar que regularmente devora.
Uma senhora elegante e vaidosa olha perdidamente e sempre para um adereço novo; mas não vê os suores que ele vai custar ao marido.
O menino malcriado e vadio olha para a carta do a b c; mas não vê as letras, e menos as sílabas.
Os tolos olham para a cidade; mas não veem as casas.
Os tratantes olham para tudo; mas não veem o que não lhes faz conta ver.
Os velhos namorados e gaiteiros olham para os sorrisos; mas não veem as caretas das Vênus que os depenam.
Em suma, um homem de juízo e que sabe o segredo de viver convenientemente, isto é, segundo as suas conveniências, olha para a aurora e olha para a lua; mas não vê nem uma nem outra; porque nem a aurora nem a lua podem ser degraus das grandezas da terra.
A aurora já havia passado: não a vi, nem me lembro dela.
Tratarei da lua, não porque a esteja vendo; mas porque é noite.
Que importa a lua a mim e à Xiquinha?
A lua é um mundo que pertence em primeiro lugar aos poetas que veem nela o que lhes é preciso para achar consoantes ou maçar-nos a paciência com enxame de versos, que de ordinário os míseros leitores fazem de conta que compreendem, e na presença dos autores dizem — « bravo! bravo! » sem saber por que, exatamente como os deputados ministeriais gritam — apoiado! — quando fala algum ministro, que eles fazem de conta que ouvem.
O mundo da lua é, em segundo lugar, propriedade dos astrônomos, que nele tem descoberto e proclamam um milhar de coisas, que eu juro que lá não existem; mas os astrônomos estão em seu direito perfeito, porque pertencem ao gênero dos poetas aéreos.
O mundo da lua é o mundo dos sonhos dos namorados, das ilusões dos utopistas, das esperanças e das crenças de certa classe de papalvos que acreditam ser uma realidade possível o sistema representativo, como se escreve no papel.
Há mundo do sol, e mundo da lua.
Benjamin Constant e os estadistas ingleses fizeram o mundo da lua.
Maquiavel e todos os sucessores desse grande gênio fizeram e fazem o mundo do sol, astro sublime, cujo nome é a primeira sílaba da palavra soldo.
A raiz da palavra soldo é o sol; porque a verdadeira luz é aquela que o ouro radia.
Há todavia mundos que são ao mesmo tempo do sol e da lua, conforme se consideram as classes da sua população.
O Brasil é o mundo do sol, porque há nele muita gente que vive a soldo do seu governo, e o seu governo tem sido muitas vezes verdadeiro Maquiavel em ação.
Mas o Brasil é também mundo da lua para a nação que anda sempre a comprar nabos em saco, que grita — « viva a Constituição! » na festa oficial de 25 de Março, e passa sem Constituição em todos, os outros dias do ano; mundo da lua para o povo, estupendíssimo soberano de comédia, que serve à mesa, e ainda em cima paga o pato.
A Xiquinha e eu estávamos à janela olhando para a lua que era plena; mas não víamos a lua.
Como ao romper do dia foi ela, não a lua, porém Xiquinha, quem falou primeiro:
— Primo, é indispensável que eu complete, aperfeiçoe a minha educação.
— Xiquinha, você é o tipo da educação moral mais completa e perfeita, que eu posso imaginar.
— Não; hei de por força ressentir-me dos costumes, e dos prejuízos da nossa gente; preciso sobretudo de prestígio.
— E onde iremos achar o prestígio de que supões precisar?
— Na Europa, na vida e nos encantamentos de Paris: quem atravessa o Atlântico depois de haver por algum tempo respirado o ar, frequentado as sociedades, bebido, não a água do Sena, mas as ideias, as lições, e ainda mesmo os venenos de Paris, chega ao Brasil cercado de uma auréola, que todos ou veem, ou imaginam que veem.
— Quer então estudar?
— Não; quero passear: trarei o meu prestígio nos meus chapéus, nos leques, nos vestidos, no tom com que hei de pronunciar — oui — no meu andar, no meu sorrir, no meu olhar; no meu penteado, nos meus sapatos, em tudo enfim. Chego e não preciso dizer — estive em Paris, — porque todos o reconhecem vendo-me e admirando-me. O prestígio é certo.
— Um passeio à Europa, a vida de Paris deslumbram-me, Xiquinha; é uma ideia tentadora! mas os meus cálculos, os meus planos políticos vão ser condenados a um adiamento comprometedor!
— Ao contrário: você ainda não é conhecido no país.
— Ah Xiquinha! é exatamente essa consideração a melhor garantia do meu engrandecimento: uma boa parte dos nossos — grandes do Estado — se fossem conhecidos antes de subir ao poleiro, não chegavam nem a vereadores de câmaras municipais; porque o povo responderia a todas as suas pretensões, gritando com furor: « quem não vos conhecer, que vos compre! » Xiquinha, o que mais me preocupa, é o receio de que antes das minhas conquistas de posições oficiais, alguns abelhudos quer do povo, quer do governo, cheguem a conhecer-me por dentro e por fora do coração.
— Por isso mesmo; você tem tudo a ganhar em uma viagem à Europa: não é mais o estudante que vai pedir um pergaminho, um título acadêmico a esta ou àquela escola; é um homem já formado em ciência, um grande talento, que por amor de seu país, viaja pelo mundo civilizado, estudando em sua aplicação e prática as instituições e os altos assuntos, que mais podem utilizar a sua pátria.
— Pois você quer que eu estude, Xiquinha?
— Quem lhe disse semelhante coisa, primo? eu lhe proponho somente que diga que vai estudar: olhe; você faz com que os jornais diários da capital anunciem na véspera da nossa viagem, que você vai à Europa estudar, por exemplo, instrução pública, colonização, correios, estradas de ferro, etc., etc., e um dia depois da nossa volta ao Brasil, os mesmos jornais proclamam a sua chegada, e os profundos conhecimentos que adquiriu em todos aqueles assuntos.
Em Paris pagaremos quem escreva e publique na imprensa artigos laudativos da sua aplicação, dos seus talentos, da sua constância no trabalho; esses artigos serão traduzidos e transcritos em todas ou em muitas gazetas aqui: para mais alta fama do seu nome, você assinará e dará ao prelo memórias compostas por homens habilitados, a quem compraremos o trabalho intelectual, que aparecerá como de sua lavra, e, tornando à pátria, meu marido, que na Europa só se ocupou em passear e divertir-se com a sua dedicada e terníssima esposa, será recebido no seio do país como um filho distinto, que o soube honrar no estrangeiro, e considerado pelos seus concidadãos capaz de desempenhar as mais altas comissões, e os mais elevados cargos; e então, primo, brilhará o dia da pesca e — rede ao mar!
— Xiquinha, quando partimos?
— No próximo paquete.
— É fato consumado, embora esteja ainda por consumar-se. A Xiquinha convenceu-me: adotei o seu plano com entusiasmo, e limitei-me a aperfeiçoá-lo com um artigo aditivo digno da minha escola política, e já por vezes proposto e feito adotar por outros em circunstâncias idênticas. A Xiquinha ia apurar sua educação, e eu aprofundar os meus estudos de importantíssimas instituições na Europa, com o fim de melhor servirmos à pátria; por consequência, a pátria estava na obrigação de pagar as despesas da nossa viagem. Quantos meninos bonitos têm andado assim por Índia e Mina à custa da barba longa! O Estado tem dinheiro como terra, e uma pequena parte dos tributos que o povo paga, sendo despendida com os passeios dos filhotes dos estadistas, não faz falta ao tesouro público. E nem há que ralhar por ninharia tão insignificante: os ministros sabem fazer as coisas: nenhum deles diz que o seu filhote vai passear à Europa, e todos dizem que os seus filhotes vão em comissão do governo, uns para estudar isto, outros para examinar aquilo; mas por fim de contas, o isto e o aquilo acabam em coisa nenhuma, e os pequenos regalaram-se, o que é o essencial. Os ministros de estado têm e devem ter filhotes para tudo, e em compensação da sua esterilidade em medidas úteis e de futuro, em matéria de filhotes são fecundos como os porquinhos da Índia. Há filhotes para a magistratura, filhotes para a marinha e para o exército, que atiram com os direitos de antiguidade e das promoções para os cantos da senzala do desprezo: há filhotes para as repartições públicas, filhotes para deputados, e mesmo filhotes de quarenta e mais anos para o senado, que ficam de improviso com merecimento que espanta e sabedoria que assombra; mas de que há somente testemunhas por ouvir dizer, e nem uma só de vista: há filhotes para obras públicas, filhotes para subvenções do Estado, filhotes para sinecura, ainda muitos outros, e finalmente, filhotes para passeios à Europa, que todos comem bons bocados, excelente doce que abunda na mesa do orçamento, e que os ministros repartem com obsequiosa prodigalidade por duas poderosas e convincentes razões, primeiro porque não lhes custa nada a eles, e não há coisa mais suave do que fazer favores com o alheio; segundo, porque uma mão lava a outra, e semelhantes favores rendem sempre aos ministros, ou votos no parlamento, ou apoio em eleições, e às vezes até demonstrações de gratidão tão pudibunda e melindrosa, que se esconde em segredo para que a luz não lhe faça mal.
Em regra, são os padrinhos dos filhotes, que manifestam o seu reconhecimento, e, sublimes transações, estupendos contratos! nunca houve um só que fosse lesivo aos contratantes! ganha o que dá, e ganha o que recebe: quem, segundo dizem, perde quase sempre no caso, é o Estado; mas o Estado é um feliz animal cego, surdo e mudo, que nunca vê, quando lhe deitam fora o dinheiro, nunca ouve quando lhe dizem blasfêmias, e nunca fala, nunca se queixa ou grita, nem mesmo quando lhe dão pancadas, e o arrastam pelas ruas da amargura.
Eu quero ser filhote para tudo; agora, porém, vou tratar de ser filhote para passear.
Refleti um dia inteiro sobre o que mais me convinha, e fixei a minha escolha na diplomacia, lembrança que a Xiquinha aplaudiu muito.
Recorremos logo aos nossos dois padrinhos de casamento a quem fomos visitar, e pedimos o concurso de ambos para que eu fosse nomeado adido de primeira classe de qualquer legação da Europa, com a indispensável concessão de uma licença com ordenado para tratar da minha saúde, onde me conviesse.
Os padrinhos não se fizeram rogar, tendo empenho em demonstrar a sua influência, e o muito que valiam para o governo: escreveram ambos aos ministros, seus amigos.
As cartas chegaram em ocasião a mais oportuna: exatamente na véspera, um senador pela minha província, santo homem, que era sempre ministerial, tivera uma indigestão e estava com cinco médicos à cabeceira: o ministro dos negócios estrangeiros, calculando com as proporções de uma indigestão parlamentar, e talvez também com o número dos médicos, concebeu logo uma encantadora esperança de passamento senatorial, e, reputando-se herdeiro obrigado da imensa garoupa vitalícia, tratou de ir ajeitando a sua candidatura em perspectiva.
Em menos de quinze dias achei-me com a nomeação e a licença na algibeira; mas para nomear-me, o ministro precisou fazer prodígios. Escutem só: elevou um encarregado de negócios a ministro residente, fez encarregado de negócios a um secretário de legação, passou dois diplomatas das cortes da Europa, onde estavam, para Estados americanos, demitiu um adido de primeira classe, e nomeou três que o eram de segunda, esteve a ponto de criar uma missão extraordinária na China, e enfim, depois de tudo isso, achou meio de encaixar-me na legação de Paris!!!
A contradança diplomática custou ao Estado algumas dezenas de contos de réis, mas eu e a Xiquinha lá vamos passear à Europa com um ordenado sofrível, e com uma ajuda de custos que eu não devo, não posso dizer de quantos contos foi; porque S. Ex. me recomendou segredo, e o tesouro público incluiu essa quantia nas despesas não classificadas. Assim é que se governa uma nação! aquilo é que é ser ministro! S. Ex. deve ser senado; palavra de honra!
Chegou o dia da partida, o paquete levou os jornais desse dia, em cada um dos quais eu fizera imprimir um artigo entrelinhado, que diferente pela redação, era em todas as folhas o mesmo pela substância; resumia-se no seguinte: « Segue hoje no paquete com sua excelentíssima e amabilíssima esposa o senhor F..., ultimamente nomeado adido de primeira classe da legação de Paris; é um ilustre Brasileiro que não se limitará ao fiel e escrupuloso desempenho do seu emprego diplomático e que achará tempo para dilatar ainda mais os seus já muito vastos conhecimentos; podemos asseverar que o nosso distinto compatriota propõe-se a aprofundar os seus estudos sobre sistemas de colonização, instrução pública, organização de exército e diversas indústrias que podem ser aproveitadas no país.
A formosa esposa do Sr. F... radiará nos mais elegantes e aristocráticos salões de Paris, fundando a reputação da beleza, dos encantos e do espírito das brasileiras. » Cada artigo era assinado por um nome com sobrenome e cognome de pessoas que realmente não existem; mas cuja existência imaginei, porque isso me convinha.
Pelos mesmos jornais, e pretextando falta de tempo, despedi-me dos meus numerosos amigos da capital do Império, onde eu não tinha relações senão com a agente do hotel, em que morei três semanas, e com a secretaria dos negócios estrangeiros que tive de frequentar por alguns dias.
Minha sogra ficou chorando e o paquete saiu.
Paris!... Paris!... hão de ver como eu e a Xiquinha voltamos dessa cidade de encantamentos, de metamorfoses, e de maravilhas de todas as espécies.
Ninguém vai a Paris que não volte sábio.
Senti não ter podido levar comigo o ruço-queimado para uma experiência decisiva; tenho para mim que o cavalo de meu tio havia de voltar de Paris rinchando harmoniosamente, e andando a trote inglês, ou a galope francês.
Não achei beliche, onde coubesse o ruço-queimado; ficou pois confiado à solicitude de minha sogra, que me prometeu não consentir que lhe pusessem cangalhas.
Eu adoro aquele animal, e quero conservá-lo, como raridade: há no ruço-queimado tantos pontos de semelhança com alguns grandes políticos da minha terra, que eu me jurei guardá-lo para cuidadoso estudo de analogias.
Foi por isso que ao ruço-queimado couberam os meus últimos pensamentos ao deixar a pátria.
Não me é lícito dizer quanto tempo me demorei na Europa; porque se eu o dissesse, marcaria a época, em que de volta cheguei com a Xiquinha ao Brasil. No Capítulo seguinte destas importantíssimas Memórias darei as ponderosas razões deste segredo, que pertence ao número e à classe dos segredos de abelha. E também deliberação definitivamente por mim tomada não dar contas à pessoa alguma da vida que a Xiquinha e eu vivemos na Europa, e sobretudo em Paris.
Eu já disse que não minto, senão quando me convém mentir, e portanto não quero seguir o exemplo da quase totalidade dos meus patrícios, que passam meses ou anos em Paris e que de Paris voltando, não ousam confessar o que por lá fizeram, o pelo que passaram; mas vingam-se inventando histórias, do que nunca viram, e improvisando fatos, que não praticaram.
Não se deve abusar do direito de mentir, eu o reservo para as horas solenes da minha conveniência pessoal.
Há na minha vida de Paris um único fato que devo registrar: não sei nem quero lembrar em que gabinete novamente organizado no Brasil o ministro de estrangeiros entendeu lá de si para si que devia cassar-me a licença que eu tinha para tratar da minha saúde, que aliás foi sempre a melhor possível: este atentado contra as prerrogativas da minha sinecura, provocou o meu ressentimento, e determinou-me a dar demissão de adido de primeira classe e a voltar para as terras da pátria.
O meu ressentimento foi justíssimo: a licença de que eu gozava para tratar de minha saúde, equivalia sem dúvida a uma sinecura, mas sinecura devia-se traduzir em português por — sem cura —; a alteração da minha saúde não tinha pois cura possível, e portanto a minha licença devia ser perpétua.
O novo ministro dos negócios estrangeiros não entendeu assim, porque não sabia nem latim, nem lógica, o que acontece muitas vezes aos nossos ministros; eu porém não quis submeter-me a uma ordem absurda e revoltante, dei pois a minha demissão, e tratei de voltar para o Brasil disposto a declarar-me em oposição ao ministério, que me havia arrancado da boca a deliciosa chuchadeira. Obedecendo aos sábios conselhos da Xiquinha, que ganhara cento por cento em Paris relativamente à lavor de educação social, e sabedoria prática, encomendei e paguei três eruditíssimas memórias, cuja tradução em português também encomendei e paguei, e as fiz publicar com o meu nome, e com uma dedicatória redigida pela Xiquinha à minha
— Pátria.
Não me é possível dizer quais os assuntos de que tratavam essas interessantíssimas memórias; porque não as li ainda: algumas pessoas falaram-me delas, abundando em elogios ao seu merecimento; mas nem por isso me atrapalharam; pois acudi-me com o recurso da modéstia, pedindo que não me julgassem por trabalhos executados de improviso; o que porém afirmo sob juramento é que paguei essas memórias, e portanto são minhas, absolutamente minhas, e tão minhas como se eu mesmo as tivesse escrito. Podem-se comprar ideias, como se compram peixe e verduras na praça do mercado. Há tanta gente que têm ideias assim! Eu comprei ideias, de que não tenho ideia, e não me arrependo de as haver comprado. Sou autor, e nunca escrevi, senão na Carteira de meu tio: isto é pouco? O que lamento, é que eu não tenha o privilégio desta inocente usurpação e que me veja obrigado a reconhecer que no mundo, e especialmente no Brasil, sejam tão numerosas as gralhas que ostentam o brilhantismo das penas que compraram aos pavões, que as vendem. Em suma suponham todos terminado o meu passeio pela Europa, e chegada ao seu termo a minha vida de Paris. Vejo bem que é grave a falta da história do que vi, do que observei, do que admirei, do que reprovei, do que estudei, e aprendi na Europa, e em Paris; mas, eu acho muito mais cômodo, e muito mais agradável, que os meus compatriotas, para quem escrevo estas surpreendentes Memórias, façam de conta que eu escrevi e eles leram tudo isso e sobre tudo isso.
Os meus compatriotas já devem estar habituados a fazer de conta: é um trabalho suave de imaginação que poupa muito trabalho real, e torna fácil o arranjo e relação de muitas dificuldades.
Fazer de conta é gozar do que não existe, é ser o que não é, viajar sem sair de casa, chegar sem ter saído, saber ignorando, remoçar tendo cem anos de idade, é enfim a doce loucura dos homens de mais juízo.
Ah! e quanta coisa se faz de conta no Brasil!
Há moços bonitos que vêm lá do interior, felizes predestinados que nunca em sua vida molharam o dedo mendinho na água salgada, e que no entanto impelidos por um feliz pé de vento chegam a fundear no pacífico e universal ancoradouro do ministério da marinha sem que houvessem jamais embarcado no mais podre e desconjuntado chaveco; como se improvisa um ministro da marinha assim? Ora é boa! faz-se de conta que ele é almirante.
Há mágicos bem-aventurados, que quase nunca falaram, e que nunca escreveram duas linhas para o público, e que apesar disso gozam da reputação de sábios e de inteligências profundamente esclarecidas: como se explica tão assombroso fenômeno da prova de bom vinho em tais garrafas lacradas? Facilmente: faz-se de conta que esses mágicos bem-aventurados são fura-paredes de um tamanho e de uma força colossal.
Há magistrados, que, incapazes de vender a sua consciência por dinheiro, ousam contudo dar despachos e recursos a troco de votos nas eleições para si ou para seu partido, e escrever sentenças injustas contra a propriedade alheia, e os direitos políticos dos cidadãos para servir assim a potências eleitorais,
de quem depende a sorte de suas candidaturas, ou das candidaturas de correligionários seus, e faz-se de conta que são magistrados íntegros, e incorruptíveis.
Há parlapatões faladores, que taramelam no parlamento duas horas sem parar, nem tomar fôlego, deixando apenas boiar uma dúzia de ideias muito comuns em um dilúvio de palavras campanudas ou triviais, e faz-se de conta que são uns oradores de mão cheia, que atiram Mirabeau de cócoras, Cícero de pernas para o ar, e Demóstenes de barriga para baixo.
Há diletos da fortuna que ouviram falar em geometria, e sabem por lhes haverem dito, que há uma coisa que se chama desenho, e outras que tem outros nomes, de que não se lembram, e que por ordem superior, fazem de conta que são engenheiros.
Há notáveis aritméticos que além de saber quantum satis as quatro espécies, são grandes em quebrados; mas não compreendem os complexos, e que de improviso fazem de conta que são financeiros de primeira plaina.
Há nas grandes enchentes do rio da política águas de monte que vão passando, e que ainda depois de passadas, fazem de conta que moem moinho.
Eis aí, pois, sete exemplos do faz-se de conta, e paro nos sete porque sete é um número simbólico e respeitável, o número dos pecados mortais, e dos nossos ministros de estado.
Como porém pode haver quem queira mais exemplos, aí vão mais sete em suplemento:
Há perus que fazem de conta que são águias.
Há pedaços de cristal que fazem de conta que são diamantes.
Há papagaios que fazem de conta que são rouxinóis.
Há caniços que fazem de conta que são vinháticos.
Há tartarugas que fazem de conta que são baleias.
Há macacos que fazem de conta que são homens.
E há cavalos que fazem de conta que são cavaleiros.
Já agora saiam outros sete exemplos no caráter de adicionais.
Há chapéus armados que fazem de conta que são cabeças.
Há paus de vassouras que fazem de conta que são colunas.
Há ecos de voz alheia que fazem de conta que tem voz própria.
Há lodaçais que fazem de conta que são lagos.
Há manivelas que fazem de conta que são eixos.
Há botas acalcanhadas que fazem de conta que são pés mimosos.
Há tapetes que fazem de conta que são fardas.
Eu bem podia passar dos adicionais aos anexos; julgo porém que já dei exemplos de mais.
Façam pois de conta que levam um grosso volume contendo a história da minha vida e dos meus trabalhos durante o feliz tempo que com a Xiquinha passei na Europa, e quase constantemente em Paris.
Dada a minha demissão, e disposto quanto era necessário, embarquei-me com a minha linda esposa no primeiro paquete, e nele fizemos a melhor viagem: a Xiquinha enjoou muito; mas foi só em terra, quando disse adeus a Paris: no mar passou admiravelmente.
No fim de vinte e dois dias avistamos a barra do Rio de Janeiro, tendo antes saudado o famoso gigante de pedra: a Xiquinha correra ao convés do vapor, e apoiando a mão sobre o meu ombro admirou comigo o sublime espetáculo, que a nossos olhos se mostrava.
Foi tão longa e profunda a nossa admiração que somente despertamos ou saímos desse enleio da alma diante da Rasa. Esta ilha que hoje se chama Rasa, já se chamou do Gato, e eu entendo que fizeram muito bem em mudar-lhe o nome: Gato quer dizer animal caçador de ratos e portanto um símbolo inconveniente, mal escolhido para se colocar à entrada da baía de uma cidade capital do Império, e onde se acham, além de todas as outras repartições públicas, a primeira alfândega, os arsenais e o tesouro público: rasa quer dizer taxa dos estipêndios ou das custas, e portanto símbolo filho de inspiração, símbolo anunciador delicado da prática e do sistema do venha a nós. Fizeram bem em trocar o nome de Gato pelo nome de Rasa.
Diante desta ilha abrem-se as duas carreiras mais seguidas por onde entram os navios na baía do Rio de Janeiro.
Uma fica entre a Rasa e a ilha dos Paios, e para o ocidente a que medeia entre a mesma Rasa e a Redonda.
Ainda bem que o capitão dirige o navio para o ocidente: eu antipatizo com aquela denominação de ilha dos Paios.
Fixando o óculo nesta ilha, não descubro nela sinais de população e entretanto devia-se supor muito povoada; porque a família dos Paios é a mais numerosa que se conhece no mundo, embora nenhum dos membros dela queira acudir pelo nome da família.
Daqui a pouco verei ao lado esquerdo, na Praia Vermelha, um majestoso palácio erigido em benefício dos doidos; mas uma coisa é loucura e outra coisa é falta de juízo: se todos quantos padecem de falta de juízo devessem recolher-se aquele asilo de caridade, pelo menos a quarta parte da população da cidade que começo a descortinar, achar-se-ia às voltas com a Santa Casa da Misericórdia, e por certo que não caberia tanta gente no palácio da Praia Vermelha.
O que cumpria ao governo, ou aos institutos filantrópicos era mandar construir alguns palácios como esse na ilha dos Paios e oferecê-los para recolhimento e residência dos membros da família dos Paios, que são os padecentes da falta de juízo.
Querem ver quanta gente estava no direito de residir na ilha dos Paios?
Os Paios políticos: aqueles que em eleições e em lutas de partidos acreditando nas promessas e proteções de tribunos ardentes, e de chefes improvisados, sacrificaram-se por amor deles que apenas se apanharam no poleiro, fizeram uma grande careta aos princípios, e deram um pontapé ainda maior nos amigos.
Os Paios sentimentais: os velhos apaixonados, que tendo mais de cinquenta anos de idade casam com bonitas moças, que ainda estão longe dos trinta.
Os Paios inocentes: aqueles que convencidos do seu direito não se empenham para alcançar o despacho, que lhes é devido e que ficam com caras do que são, isto é, com caras de tolos, vendo-se preteridos pelos afilhados de bons padrinhos.
Os Paios comerciantes: aqueles que sem conhecer bem as cartas do baralho da agiotagem, metem-se no jogo, e saem depenados.
Os Paios... mas onde irei parar! ah! não edifiquem na ilha dos Paios! porque o maior paio, de que tenho notícia, é um famoso índio que se chama Brasil, e não cabe dentro de ilha alguma.
Mas o paquete já passou além da Redonda, nome estúpido por ser apropriado à forma da ilha, o que é contrário aos princípios da aplicação política e moral das palavras; denominação abusiva porque ofende o que devera ser privilégio dos arranjadores de dinheiro a receber: redonda é adjetivo na parte feminina que cumpria concordar só e sempre com o substantivo — conta. Eis-nos em face do Pão de Açúcar: na verdade é um penhasco sublime que há de imortalizar-se com todas as petas poéticas, com que o têm ornado certas imaginações escaldadas. Fizeram dele os pés do gigante de pedra que deitado ao ocidente da entrada da baía, preside os destinos do Brasil: está o Brasil bem servido com semelhante presidente! o tal gigante dorme sempre um sono de pedra e não desperta, nem à força dos raios que lhe caem em cima: é verdade que, ainda assim, e dormindo sem cessar, é melhor do que muitos presidentes que têm tido as províncias do Império, onde fundaram e deixaram reputação e créditos que fazem inveja ao cólera-morbo, e à febre amarela: posso afirmar que ainda atualmente certas províncias, prefeririam ter por presidentes, em vez dos bichos que lhes mandaram, o próprio Corcovado, ou ainda qualquer pedra ordinária que servisse ao menos para a construção da parede mestra de algum edifício útil; vãos desejos porém! dão as presidências das províncias a bichos ferozes, e se alguma vez despacham para elas pedras, são estas sempre lajedos talhados de propósito e exclusivamente para degraus de escada. Elevaram também outros o Pão de Açúcar à sentinela da barra! Fresca sentinela que nunca em sua vida soube nem uma só vez bradar alerta! apesar de quanta pouca vergonha entra e sai pela barra que vigia! é uma sentinela que está no caso da Constituição do Império; ninguém faz caso dela.
Passamos além do Pão de Açúcar: lá está a Praia Vermelha, berço primitivo da cidade do Rio de Janeiro, razão talvez porque o governo zombando muitas vezes do seu povo, parece mandá-lo à praia.
Lá está o formoso Botafogo, e o suntuoso palácio dos doidos, o maior, mais elegante, e mais bem acabado palácio do Império do Brasil.
Cada nação tem um ou alguns monumentos, que atestam o seu mais profundo sentimento, o seu principal caráter, a sua ideia mais predominante, o seu ponto de vaidade, ou que manifestam o cuidado, das suas mais reais necessidades.
Roma tem a basílica de S. Pedro, que é na terra o trono do catolicismo, e os monumentos das suas ruínas, que ostentam as grandezas do seu passado.
A França tem o Panteão que imprime o sentimento da glória, e o hotel dos Inválidos o espírito belicoso do seu povo.
A Inglaterra tem a Torre de Londres que recorda imensas lições da história e o poder das tradições, a catedral de S. Paulo que alteia a influência do protestantismo, e o palácio do parlamento que magnifica a soberania da nação.
A Espanha tem o Escurial alardeando o palácio, convento e a realeza — sempre mais ou menos frade ou freira.
A Rússia tem o palácio do inverno em S. Petersburgo, e o Kremlin em Moscou assinalando a onipotência imperial.
A Turquia tem o serralho e no serralho o harém realçando o despotismo do sultão, e a escravidão da mulher.
A China tem o palácio do filho do sol, cuja extensão parece um símbolo da vastidão do império, e a torre de Nankim com os seus nove andares, cuja elevação simboliza o parentesco do soberano com o astro do dia, e provavelmente também com o da noite.
A Confederação Norte-Americana tem o hotel de mármore branco que representa a grandeza e a liberdade do povo, e tem os palácios das escolas de instrução primária, que são os monumentos, onde ali se cria ou se prepara o futuro.
O Brasil tem o seu mais belo e grandioso monumento no palácio da Praia Vermelha, o que claramente está indicando que o país conta mais doidos do que homens de juízo.
Ora como no sistema representativo o governo é a expressão da maioria, e como o nosso sistema de governo é o representativo, e como está indicado monumentalmente que a maioria entre nós se compõe de doidos, segue-se... tirem lá a conclusão os que sabem lógica.
Vamos agora passando entre a Laje e Santa Cruz, e vendo lá em cima a fortaleza do Pico, três fortalezas inocentes, que ainda não fizeram mal à pessoa nenhuma, e nas peças de alguma das quais já houve galinha que tirasse pintos!...
Lá está Willegaignon, ninho de hereges, primeiro ponto de povoação europeia, que parece ter deixado na predestinada capital do Brasil o gérmen dos malefícios de toda espécie de heresia.
Volto os meus olhos para o lado direito e lá descubro em seu gracioso retiro a famosa Jurujuba.
— Como se chama aquele sítio encantador? perguntou-me a Xiquinha.
— Saco da Jurujuba.
— Mal escolhido nome, tornou ela; embora o saco tenha boca e tenha fundo, não desperta senão ideias prosaicas e completamente materiais: deviam antes chamá-lo Seio ou Regaço da Jurujuba, nomes que trariam à mente pensamentos mais mimosos e suaves. Ao menos nestas coisas que não dão nem tiram, podia-se preferir o regaço ao saco, o seio ao dinheiro.
— Xiquinha, onde você a vê ali tão escondida no seu Saco, a Jurujuba já teve a sua época gloriosa na história contemporânea da nossa terra. Em 1831 saíram da Jurujuba para a cidade do Rio de Janeiro alguns dos revolucionários que se pronunciaram no Campo de Sant'Anna, depois da Honra, e, por hora, da Aclamação, na tarde e noite de 6 de Abril: realizada a abdicação de 7 de Abril o Jurujuba foi o tipo do patriota exaltado, isto é, o tipo dos Paios da época: houve um batalhão chamado dos Jurujubas, houve modas à Jurujuba, houve muita gente trazendo à cabeça chapéu de palha rudemente tecido por caboclos, que se dizia à Jurujuba, houve até um periódico intitulado « O Jurujuba dos Farropilhas », que deu pancas, e não respeitou nem o crime, nem a inocência. Tudo isso já lá vai; ainda porém florescem hoje na cena política alguns figurões que subiram pelos ombros dos Jurujubas, que não voltaram a cara à alcunha de farropilhas, e que depois de servirem-se da escada, quebraram os degraus, ajudando outros a atirar com os Jurujubas no Saco. Oh! lá está a cidade de Niterói: é a chácara da cidade do Rio de Janeiro: capital da província tão perto, e tão à vista da capital do Império, ainda é chácara em relação à política e à administração: é chácara do ministério, de quem é feitor de chácara o presidente da província, pobre coitado, que não pode, que não tem licença de dar um espirro sem vir primeiro à Corte perguntar ao ministério, se terá direito a receber — dominus tecum. É por isso que desde alguns anos só por exceção concedem à província do Rio de Janeiro algum presidente que possa ou seja capaz de espirrar sem licença e de pensar por si. Eu não censuro, antes louvo esta prática; porque ela permite e facilita ao governo geral despachar presidente para a província do Rio de Janeiro a qualquer amigo desasado que não sirva para nenhuma das outras províncias: com o seu quartel em Niterói qualquer cabozinho de esquadra pode ser capitão-mor: um homem quase analfabeto faz ali o mesmo que o maior sábio: é uma província como não há duas; é o mais suave ninho presidencial dos filhotes que não furam parede: basta que o filhote saiba materialmente assinar o seu nome: o mais é simples; quando o pequeno quer espirrar, vai à Corte. E dizem os gaiatos que capenga não forma! forma: na presidência da província do Rio de Janeiro até os capengas formam: é uma presidência museu: ali entra toda espécie de raridade burlesca: há só um impossível, é que um filho da província, um homem que conheça e ame a província seja lembrado para presidi-la.
O paquete não para, e não dá importância alguma às minhas sábias observações que só a Xiquinha escuta pacientemente.
Eis ali o Arsenal de Guerra à nossa mão esquerda, dominando a ponta do Calabouço; este arsenal tem dado que falar aos abelhudos e impertinentes zeladores dos dinheiros públicos: é voz corrente que nas proximidades dele frequenta o mar um mero faminto e insaciável que devora quanto pode apanhar: asseveram-me que é um mero que come desesperadamente e nunca deixa de ter fome, e ouvi dizer que o governo atropelado pelos abelhudos e impertinentes, empenha-se em querer pescá-lo: não sei se há alegoria na história: se há, protesto contra a resolução do governo: convença-se ele de uma grande verdade da nossa escola: em tais casos finge-se não entender a alegoria, manda-se pôr anzol e redes no mar; verdadeiro mar para pescar o peixe, e deixam-se em paz os meros e os merotes que nadam e comem em terra.
Ora que tolo sou eu! estou querendo ensinar o padre-nosso aos vigários!
Não tenham receio: os meros e os merotes do arsenal e dos arsenais só serão pescados, se não forem filhotes. E finalmente o paquete deu fundo, lançou a âncora, parou; chegamos! E onde havia de lançar a âncora o paquete que me trouxe de volta ao seio da pátria?...
Oh! presságio afortunado e animador! oh anúncio de prodigioso futuro político! eu te bendigo!
O paquete parou, deu fundo quase juntinho à ilha dos Ratos!
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.