Universo da obra
Universo da obra
Em que ad perpetuam rei memoriam deixo resumida a história de quatro anos durante os quais fui presidente de cinco províncias que não sei se andarão de Herodes para Pilatos, mas posso assegurar que Herodes andou por elas: sou obrigado a sofrer a incômoda companhia do compadre Paciência, porque descubro nele duzentos títulos que o recomendam ao meu respeito: o velho abusa da sua posição, atormentando-me os ouvidos com a matraca da verdade, e com a rabeca das censuras mais violentas, e a Xiquinha, que está de acordo comigo, finge estar de acordo com ele: recruto, designo, demito e nomeio, contrato e reparto pão-de-ló; faço eleições, e até chego a enganar um vigário e sou enfim eleito deputado pela província de... que ainda hoje ignora, se eu sou peixe do mar ou bicho da terra.
O esforço que eu empregara para tirar da cadeia o compadre Paciência fora para mim simples questão de vaidade e empenho de passar aos olhos do povo, sempre fácil de ser enganado, como homem compassivo e caridoso; bem longe porém estava de admitir as teorias da Xiquinha sobre a necessidade e utilidade da oposição.
Os sabichões políticos, a Xiquinha, e o compadre Paciência agarrem-se embora a todas as subtilezas da metafísica constitucional, hão de cair, esbarrando no absurdo, quando chegarem à prática do governo.
Os sabichões ensinam assim: a oposição mais ardente e injusta é ainda preferível à falta completa desse elemento precioso às vezes, as censuras, os ataques da oposição são válvulas de segurança que dão saída às queixas, aos ímpetos dos ressentimentos e das paixões dos partidos que se acham fora do poder; e, além de serem válvulas de segurança política, são os sinais patentes da vida cívica pujante, e, se nem sempre da observação fiel e marcha regular do sistema representativo, sempre da possibilidade de mantê-lo, de regenerá-lo, quando está desvirtuado.
Rejeito a lição e respondo as tais válvulas são vulcões; pois não tenho notícia de revolução que deixasse de ter o seu cordão umbilical preso à oposição; por consequência não havendo fogueteiros, não há fogo de artifício, e deixando de haver placenta, não nascerá a criança monstro. Oposição é gritaria, gritaria é desordem, e o governo não é cavalo que se dirija pelo freio.
Diz a Xiquinha que nas câmaras unânimes é de regra invariável que haja cisão do partido vencedor em consequência da falta de adversários, que tornem para ele a união, uma condição indeclinável da sua influência predominante nos negócios. — Pois é por isso mesmo, senhora D. Xiquinha! quanto mais se subdividirem os partidos, tanto melhor para o governo, que pode fazer deles gato e sapato. Eu entendo que convém levar ao extremo a experiência de um governo representativo sem partidos políticos, ainda que aconteça o que sucedeu ao cavalo do inglês, que morreu antes de se habituar a viver sem comer. Nesta questão a minha linda esposa parece ressentir-se ainda das lições de poesia que lhe deu o doutor Milhão.
Esbravejará sem dúvida o compadre Paciência exclamando: a oposição é a sentinela das liberdades públicas — é a barreira levantada diante dos abusos e arbítrios do executivo: — é a denunciadora das violências da autoridade: — é o contrapeso da influência e da ação imensas do ministério: — é a Vestal que vela pelo fogo sagrado da Constituição. — Rabugens de liberal velho, renitente, contumaz e furioso! — sentinela posta ao governo é suspeita injuriosa: — barreira diante dos excessos do executivo é exemplo de má criação que ensina os pupilos a tomar contas aos tutores — a denunciadora dos abusos da autoridade é pecaminosa difamadora da vida alheia: — contrapeso da influência do ministério é furto na balança do Estado — a Vestal que vela pelo fogo sagrado é rapariga traquinas e desastrada que às vezes chega a incendiar a casa toda.
Neste assunto os sabichões, a Xiquinha, e o compadre Paciência não valem nem uma moeda de duzentos réis da última emissão com cheiro de prata que fez a Casa da Moeda.
Eu tenho ideias mais práticas. Qual é o fim da oposição? derrubar o ministério e substituí-lo ora quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre; néscio portanto seria o ministério que não empregasse todos os meios para fechar as portas da câmara ainda ao mais inocentinho oposicionista. Se as câmaras unânimes apresentam na cisão do partido vencedor oposição inesperada, ao menos enquanto o pau vai e vem, folgam as costas: se as maiorias muito numerosas trazem o ministério em tormentos, e custam-lhe muito caro, ainda assim viva a galinha com a sua pevide. Eis aí três anexins estabelecendo a verdadeira doutrina no estilo de Sancho Pança que foi estadista tão maravilhoso, como alguns que nos sobram.
Com estas ideias não me podia convir a companhia do compadre Paciência; mas para livrar-me dela contava com a sua firme disposição a proceder judicialmente contra os seus opressores da vila de...; logo porém que chegamos à casa, a Xiquinha pediu-lhe, no meio de dois abraços, para acompanhar-nos, e o maldito velho, esquecendo a sua desafronta, deixando pela primeira vez de ser cabeçudo, respondeu gravemente:
— Irei.
Caí das nuvens: provavelmente o meu rosto se franziu, e o compadre que me observou, disse no mesmo tom
— Vou perder o meu tempo para cumprir um dever; mas feche-me francamente a sua porta, que ficarei agradecido.
Desfiz-me em desculpas: a Xiquinha interveio, jurando que o seu pedido tinha sido previamente ajustado entre nós dois.
O velho apaziguou-se; mas acrescentou:
— Não preciso de amparo, nem de esmolas não tenho filhos, nem parentes, e sou rico demais para mim.
— Rico?
— Os trapos em que me achou na cadeia foram o requinte da fúria malvada do célebre escrivão.
— Rico?... tornei a perguntar.
— Relativamente. Possuo um telhado que é meu, enquanto o escrivão da vila de... não achar neste município algum seu semelhante, que faça desse telhado o que ele fez da minha pobre mula ruça; e possuo ainda duzentas apólices da dívida nacional, cujo rendimento chega para o pão e para as manias de um velho.
Duzentas apólices! e como esteve na cadeia tantos anos?...
— Que tem a cadeia com o meu dinheiro?
— Com o seu dinheiro comprava o escrivão da vila de... saía da prisão em triunfo e até recebia a mula ruça ornada de fitas de todas as cores.
— Tenho a vida limpa, meu jovem compadre, e cá para mim o corruptor é tão ignóbil como o corrompido.
— Menos essa: o homem que compra, olha sempre de cima para aquele, cuja honra ou consciência comprou.
— Será assim lá entre os dois; mas a moeda da corrupção deixa nódoa tão negra na mão donde sai, como é negra a que imprime na mão que a recebe.
Calei-me e admirei o compadre Paciência, não pela sua filosofia anacrônica, sim pela notícia das suas duzentas apólices, que lhe davam a meus olhos pelo menos dois palmos mais de altura.
Era preciso tratar da partida. O velho foi ver o seu telhado e dispor os seus negócios, prometendo vir acordar-nos no dia seguinte. Eu fui com a Xiquinha fazer uma visita de despedida, levando o soldado de cavalaria, que eu transformara em ordenança interina para ostentar farofa na minha terra.
Na manhã seguinte partimos. Nem me lembrou ir ver um instante o ruço queimado: um presidente de província não gasta o seu precioso tempo com cavalos magros.
O navio largou. Achei-me a sós com a Xiquinha Falamos sobre o compadre Paciência.
— Sem filhos nem parentes e possuindo duzentas apólices! Xiquinha, pode-se suportar com indulgência e doçura a oposição deste velho uma vez que ele faça testamento, e nos deixe por seus herdeiros.
— Deixa à minha conta amansá-lo: protesto que hei de sempre dar-lhe razão contra ti.
— Entendo: vás passar para a oposição. É assim mesmo... ah! os milagres do pão-de-ló!...
— Não queres?
— Ao contrário: faze-me guerra desapiedada: não há tanta gente que finge brigar e se entende?...
— Estamos de acordo.
— Mas há para mim um ponto obscuro: que dever é esse que obriga o rabugento compadre a acompanhar-nos?
— Não sei bem: suponho que ele deveu a sua fortuna e grandes favores a nosso tio.
O velho chegava nesse momento, e ouvira as últimas palavras da Xiquinha.
— É verdade, disse ele com os olhos úmidos de lágrimas e com voz trêmula: seu tio foi meu pai, menina; e por paga única de uma enchente de serviços imensos que me salvaram a vida, conservaram-me ilesa a honra, deram-me riqueza material, e imensa consolação, incumbiu-me de aconselhar, e dirigir este mancebo infeliz, cujos princípios falsos, egoístas e ruins, encheram de amargura seus últimos dias. Não tenho mais esperança de vencer as disposições desregradas, e repreensíveis de seu marido; vou porém contar-lhe a minha história, e Deus permita que a rude exposição dos meus trabalhos e sofrimentos, e o quadro das virtudes de seu tio lhe sirvam de exemplo e de luz.
O compadre Paciência falou duas horas sem pedir copo d’água: está visto que não serve para deputado do nosso tempo de oradores aquáticos. Ainda sem água fez a Xiquinha banhar-se em pranto por vezes: para mim pregou no deserto. A história do compadre Paciência é um romance político e sentimental. Quando eu concluir as minhas Memórias, e ainda não for, ou não tiver sido ministro, escreverei e darei ao prelo a história do velho: por ora não posso: sou presidente de província e quero ser deputado; por consequência não escreverei coisa alguma, além destas admiráveis Memórias.
O compadre Paciência retirou-se, a Xiquinha ainda chora, eu rio-me, e o vapor vai cortando as ondas.
Para poupar os leitores das minhas Memórias resumirei em breve quadro a história de quatro anos que desfrutei presidindo províncias.
Durante toda a legislatura na qual deixei de ser deputado pela infame traição do comendador Bisnaga, tive a habilidade de conservar-me sempre presidente, embora em tão curto período mudasse quatro vezes de ubi presidencial, ou fosse sucessivamente capitão-mór de cinco províncias, e tomei tanto gosto ao ônus da administração que compreendi o acerto de alguns jeitosos políticos que fazem das presidências de províncias profissão constante.
Não sei ou não quero dizer quantos e quais os ministérios que se substituíram no poder nesses quatro anos: o que asseguro, é que passei excelente vida com todos eles: o segredo desta fortuna foi simples: nunca achei inconveniente algum nas ordens e recomendações que me vinham dos ministros, a quem sempre obedeci cega e prontamente; e fui o instrumento da vontade e dos caprichos dos deputados ministeriais da província, onde me achava tive o maior cuidado em repartir bem o pão-de-ló provincial, sendo escusado declarar que não me esqueci de reservar para mim as melhores fatias.
À exceção da primeira, o motivo das minhas mudanças de presidência foi sempre a justíssima e legítima necessidade política que tiveram os ministérios de satisfazer ambições e vaidades de deputados da maioria, que se empenhavam por passar as férias parlamentares, fazendo vistas de presidentes de províncias, e recebendo as ajudas de custo e os vencimentos competentes.
Nunca dei importância à oposição da imprensa, deixando o trabalho de combatê-la aos periódicos que eu tinha de aluguel pagos em segredo mal guardado pelo tesouro provincial. Nunca li nem as censuras, nem as defesas, era a Xiquinha quem aplaudia estas e o compadre Paciência quem, em regra, fazia coro com aquelas.
Nas assembleias provinciais a oposição irritava-me às vezes com a luz da verdade; eram porém os deputados presidencialistas os que me atrapalhavam o mais; é certo que houve exemplo de deputado oposicionista que depois de atacar-me em sessão pública, veio de noite ao palácio pedir-me favores administrativos, o que achei muito regular, porque um cômico pode até na mesma noite fazer papel de príncipe e logo depois papel de lacaio; mas encontrei sempre não poucos deputados meus defensores, que eram dos tais procuradores do epigrama de Bocage. Que aduladores e que famintos! a pretexto de vir receber de mim o santo e a senha, faziam-me diárias visitas, e em cada uma delas tinham sempre que pedir: este queria empregar dois irmãos analfabetos na secretaria provincial; aquele pedia a nomeação de professor público para um primo idiota; outro exigia a construção de uma ponte sobre o rio da fazenda de seu pai; ainda outro uma estrada que só devia aproveitar a seu tio; e assim por diante.
Eu cedi tudo, concedi tudo, empregos, obras, despesas inúteis, fiz contratos horríveis, dei demissões revoltantes; mas por fim de contas quase sempre artificiei maiorias que me sustentassem, e até uma vez fui obrigado a fazer comércio de amizade com o partido adverso ao ministério que para isso me deu carta branca, ostentando o sublime espetáculo de um mistifório político que enjoou a província, e realçou a prevaricação.
O quadro de tantas misérias servia-me para demonstrar ao compadre Paciência os absurdos e a natureza ruim do seu adorado sistema representativo constitucional; o teimoso velho porém gritava-me sempre que eu confundia o sistema com a corrupção do sistema, a virtude com a imoralidade, a vitima com o patíbulo, e que em vez de se condenar o sistema, era indispensável castigar exemplarmente os seus inimigos, os seus corruptores, no número dos quais entrava o sobrinho de meu Tio.
Que fosse e que seja assim fui corruptor; mas achei corruptíveis, e enquanto o governo nomear homens do meu caráter presidentes de províncias e enquanto os tais patetas partidos políticos não se resolverem de comum acordo a não dar quartel aos ganhadores, não haverá bonifrate que sendo presidente de província deixe de fabricar maioria na respectiva assembleia provincial.
Debaixo do ponto de vista geral foi assim que passei a minha vida presidencial, vida alegre, cheia de encantos, de flores que só para os tolos escrupulosos tem espinhos, vida de festas que apenas eram perturbadas pelas diárias censuras, acusações e pelos destemperos do compadre Paciência, cuja oposição sempre reconheci legal, admissível pela perspetiva da herança das duzentas apólices de conto de réis. Agora vou marcar cada uma das minhas cinco presidências com os fatos mais importantes que ficaram em minha memória.
PRIMEIRA PRESIDÊNCIA
Esta durou somente três meses. A minha missão era impedir que fosse eleito deputado o atrevido que anos antes, sendo examinador, ousara reprovar o irmão mais moço do varão ilustre que havia de ser anos depois presidente de conselho; mas para conseguir tanto, para derrotar o atrevido que era o candidato legítimo e querido do distrito eleitoral, preciso me foi pôr-me em luta desesperada com os principais deputados da província, demitir, tirar o pão a uns poucos de empregados honestos e substituí-los por especuladores sem consciência, e por parentes de eleitores, dar por paus e por pedras na polícia e na guarda nacional, inventar pretextos escandalosos para privar do direito de voto a vinte e tantos eleitores, celebrar dois contratos que deviam arruinar as finanças da província, pôr em atividade eleitoral alguns juízes de direito e quase todos os juízes municipais, lançar fora da província alguns oficiais de primeira linha que eram eleitores, fazer instaurar processos-crime sem fundamento, cercar o colégio mais numeroso com força armada, derramando o terror com o falso anúncio da descoberta de uma conjuração, que nunca existira, e enfim suspender ilegalmente os vereadores da câmara municipal apuradora das votações dos colégios para que se desse o diploma de deputado ao meu candidato, que, ainda assim, venceu apenas por trinta votos. A província inteira bradou contra mim; a imprensa depois de discutir os meus atos, passou a injuriar a mim, à Xiquinha, e, melhor que tudo, até ao compadre Paciência, que aliás me atacava todos os dias, sustentando que eu era um louco ou traidor à causa pública.
Escrevi e mandei confidencialmente ao ministério a história da eleição, e das minhas proezas e em resposta recebi a demissão de presidente daquela província e a nomeação para presidir outra de igual importância. Com os ofícios do governo veio-me uma carta do ministro da... que acabava com as seguintes palavras:
« Eu já o conhecia por homem de ação agora vejo mais que é um herói; mas não nos sendo lícito sustentá-lo aí sem inconvenientes graves, confiamos-lhe o governo de outra província e conte com a nossa gratidão. Asseguro-lhe que a câmara aprovará o diploma do nosso deputado e que vozes eloquentes hão de defender a eleição. Lembranças à D. Xiquinha, a quem minha mulher manda um beijo nos lábios e eu peço licença para beijar os pés. Adeus, etc. » Em três dias entroxei o fato e partimos: embarcamos à meia noite, precipitadamente e pelo sim pelo não escoltados por uma força policial de cinquenta homens. O vapor saiu ao romper do dia e eu escapei assim de pela segunda vez ser esfogueteado.
— Consciência de criminoso! dizia o compadre Paciência a rir-se: um ex-presidente reto e honesto embarcava ao meio-dia, e sem um soldado ao pé de si: a guarda do bom governo é o amor do povo. Deus permita que lhe aproveite o castigo.
— Castigo! não vê que sou presidente de outra província?
— O castigo de que eu lhe falava, era o da sua consciência que o fez partir às escondidas, medroso, trêmulo, como um réu de polícia que foge da cadeia: quanto à sua nova nomeação vejo somente nela um desconchavo de ideias, que não abona o juízo do governo: pode gabar-se de que foi condenado e absolvido, castigado e premiado pelo mesmo juiz e na mesma causa o seu ministério é um portento, e o senhor uma maravilha.
— Meu marido emendará a mão na sua nova presidência; disse a Xiquinha.
— Misericórdia! exclamou o velho; quando ele com a mão que tem, fez o que fez; que não fará com a mão emendada!
SEGUNDA PRESIDÊNCIA
Esta administração foi longa: teve uma duração de dez meses! durante eles não houve nem eleição, nem tarefa extraordinária a desempenhar. Foram dez meses dedicados ao patronato, à esterilidade, ao abandono dos interesses reais da província, cujo cuidado exigia habilitações e conhecimentos especiais que eu não tinha: deixei ao meu secretário o trabalho de governar por mim, e ocupei-me em assinar o expediente e em divertir-me.
O compadre Paciência não levou a bem este dolce far niente, e irritava-me, exagerando as proporções da espécie de tutela do meu secretário: a Xiquinha fazia coro com o velho; porque o inteligente empregado nunca se lembrara de conversar com ela sobre os negócios da administração, e ainda mais porque um dia tivera a descortês imprudência de dizer que o primor da beleza em um baile que nos deram pertencera a uma senhora que não era a excelentíssima presidente, e tanto fizeram os dois que eu já cheio do prevenções briguei com o meu secretário por causa de um contrato de concerto de estrada, para o qual cada um de nós apadrinhara o seu afilhado: está visto que eu venci: mas o conserto da estrada desconcertou-nos: o vencido deu parte de doente e fiquei sem cabeça.
Ressentido e vaidoso tive o pensamento de governar por mim mesmo e em poucos dias tornei-me o objeto dos epigramas da imprensa e de gargalhadas gerais. Pratiquei sandices de arrepiar os cabelos: por exemplo: o cólera-morbo tinha invadido a província, e recebi ofícios em que se me pediam instantes socorros para uma vila, cuja denominação me pareceu indicadora de porto comercial: imediatamente contratei dois médicos, e mandei que seguissem logo em um barco a vapor para a vila empestada: ai de mim!... a vila está situada no alto de uma serra a muitas léguas do litoral!... as risadas que provoquei com o navio a navegar para a serra, puseram-me de sobreaviso: logo depois chegam-me outros ofícios vindos da freguesia de..., em que diziam: « O cólera já chegou a esta paróquia: médicos e medicamentos pelo amor de Deus, Ex.mo senhor! »
— Ah! já chegou? pensei comigo: desta vez não me engano: a peste vai descendo a serra.
E ordenei que se pusessem à disposição dos médicos contratados as cavalgaduras necessárias para eles, e as bestas precisas para as cargas.
Oh desgraça! a tal freguesia demorava em uma ilha a poucas léguas de distancia da capital!
Fiz a confissão ingênua destes dois miseráveis erros de palmatória: mas tenho vexame de registrar aqui outros ainda maiores, com que dei prova da minha ignorância.
O compadre Paciência, que nunca me poupava, deu-me de presente à vista da Xiquinha três livros; um era a geografia do Senador Pompeu, e os outros dois os volumes da História do Brasil do Varnhagen.
— Olhe: disse-me então a rir-se; um homem não pode ser presidente de província sem ter estudado muita coisa, e sobretudo muito a história e a geografia da sua terra: mande dizer isto mesmo aos seus ministros.
— Pôde! exclamei com força; cinquenta exemplos tem demonstrado o contrário do que está dizendo: não há necessidade de estudos, nem de ciência para o presidente que tem um secretário que se ocupe das niilidades da administração.
— Mas então o que é que não é niilidade?
— A parte política do governo provincial, a única que deve ser o mister exclusivo do presidente.
— Quer ter a bondade de dizer-me de que consta essa parte política?
— Pois não! consta da eleição, do recrutamento, da perseguição sem limite feita aos adversários.
— Chama a isso política?
— Sim senhor; o presidente deve ser na província a imagem do ministério no governo geral do Império. — Meu jovem compadre, a isso que chama política eu chamo escandalosa desgovernação do Estado.
— Os palavrões do costume! pois que é política? diga: venha a lição.
— Politica é a ciência do governo e do Estado: é uma coisa de pouco mais ou menos que não se tem, nem se adquire sem profundos estudos: prende-se à ciência da riqueza, aos princípios do direito, às luzes da história e da filosofia...
— Pare aí, senão arrasta-me pela enciclopédia.
— Pois veja lá! sabendo tudo aquilo o homem pode ser um grande político em teoria, e um desajeitado na aplicação da política.
— Sim?...
— Porque na aplicação dela o estadista precisa ainda ter em conta as exigências do tempo em que vive, as condições econômicas do país, a influência dos costumes do povo, as circunstâncias, enfim que são o termômetro da oportunidade dos atos e das medidas. Não é político quem não aprendeu no passado,. quem governa só com expedientes no presente, e quem não semeia para a colheita do futuro.
— Compadre Paciência, acenda a lanterna de Diógenes, e vá me descobrir pelo nosso mundo um político da sua definição.
— Não faça tal injustiça à nossa terra: Deus dá a cada país, a cada nação quanto a eles é preciso para o seu maior bem. É o erro que faz desaproveitar os favores imensos de Deus. Sobra inteligência aos brasileiros, e raro é o ministério e nunca houve câmaras que não exibissem talentos superiores que se gastam em lutas estéreis de caprichos pessoais, que se perdem em consecutivas desforras reacionárias, que a todos fazem mal.
— Com que sonha, compadre?
— Com as lutas generosas dos partidos legítimos separados por princípios realmente diversos, distintos, brilhantemente distintos; com a Constituição, sendo ponto comum de partida, e de união para todos eles; com estadistas no governo, não se limitando a assinar a papelada das secretarias, não se ocupando em designar deputados, não corrompendo a nação com o comércio ilícito do patronato, das maiorias artificiais, e das violências dos ódios de partidos.
— Que vai por aí de poesia!
— Sonho com ministros, que não sejam cabides de fardas, com ministros que não sejam brancos no norte, verdes no sul, amarelos no oriente e vermelhos no ocidente; com ministros de uma só cor, de uma só cara, de um só caráter; com ministros que não mandem para as províncias presidentes ignorantes, opressores, instrumentos cegos de facções ou de partidos.
— Sonha com o impossível.
— Não; por Deus que não; porque o dever, a honra e o patriotismo não são impossíveis em país algum.
— Mas eu creio, que o compadre, quando agora mesmo falou em presidentes ignorantes, e não sei que mais, não pretendeu referir-se a mim...
— Referi-me.
— Xiquinha, que dizes à esta?
A Xiquinha pôs-me a mão no ombro, acariciou-me, e depois respondeu-me assim:
— Primo, faça as pazes com o seu secretário.
Segui o conselho da minha formosa esposa: tornei-me às boas com o meu secretário, e passei vida regalada nos últimos meses da minha segunda presidência de província.
TERCEIRA PRESIDÊNCIA
Duração: — onze meses e mais meio mês: (presidência Matusalém).
Fato principal: — eleição de lista tríplice para um Senador.
O ministério era novo, e não tinha membro, que não fosse Senador, e que não contasse quarenta anos ou mais: a deputação da província, aliás pouco numerosa, se havia declarado toda em oposição, e eu não recebera da corte designação de candidato ou de candidatos oficiais, e até pelo contrário me vieram recomendações para não intervir no pleito eleitoral.
Pela primeira e única vez, mas por cautela, desobediente ao ministério, toquei os pauzinhos de modo que fiz a quase unanimidade dos eleitores da província: custou-me isso apenas a despesa de algumas dezenas de contos de réis com marchas e contra-marchas de destacamentos, dez ou doze demissões e nomeações na polícia, e meia dúzia de favores na administração.
Arbitro dos eleitores, mas não tendo candidato oficial, deixei correr livre a eleição secundária e apenas recomendei um vigário que tinha escrito uma ode em latim, elevando ao sétimo céu, não as virtudes espirituais, mas os encantos físicos da Xiquinha.
O compadre Paciência batia palmas, e declarava que eu ia tomando juízo; efetuou-se livre, quase perfeitamente livre a eleição secundária; mas vinte e quatro horas depois entra um vapor procedente da corte e traz-me cartas dos ministros, recomendando-me absolutamente a inclusão do nome de um candidato, desconhecido na província, na lista tríplice, cuja eleição aliás já se achava consumada.
Vi-me em apertos desesperados! o ministério era novo, e eu precisava ganhar-lhe a confiança todavia a eleição já estava feita! e esta? que apuros!
Operei um milagre: o vigário poeta latino tinha sido o mais votado: mandei-o chamar, e anunciei-lhe que em três meses seria bispo de não sei que diocese sob a condição de não tugir nem mugir, vendo-se fora da lista tríplice: o reverendo concordou, e o mais efetuou-se, embora com trabalho violento.
Durante uma semana eu, a Xiquinha, e o meu secretário não fizemos outra coisa, senão escrever atas de colégios eleitorais, e durante quinze dias os meus agentes policiais mataram cavalos para ir fazer assinar pelos eleitores atas novas e falsas, que deram o primeiro lugar na lista tríplice ao candidato serôdio do ministério, ficando fora dos três esperançados o vigário poeta.
Dei conta aos ministros do milagre estupendo que operara, e fiquei tranquilo, desprezando solenemente os insultos e as injúrias da imprensa oposicionista da província.
No fim de quatro meses o vigário poeta escreveu-me, perguntando-me pelo bispado; eu respondi-lhe com toda cortesia que o governo geral ainda não tivera tempo de escolher o candidato que devia eleger e apresentar a Sua Santidade, e que a sua reverendíssima cumpria esperar com paciência, empregando os dias da esperança em dizer missa de manhã, e cumprir os deveres paroquiais até a noite.
O maldito vigário entendeu-me o verso que lhe escrevera em prosa, e em breve pagou-me o logro, compondo e fazendo publicar uma segunda ode, essa porém em latim macarrônico, em que pintou a Xiquinha como uma fúria e a mim como um demônio.
A ode macarrônica tinha sido inspirada pela mais rancorosa vingança: a descrição do rosto afeiado da Xiquinha, e do meu rabo de filho de Satã fizeram furor, e me convenceram da alta conveniência de uma prática que até certo tempo se observava o que os homens irrefletidos condenavam, isto é, de se dispensarem os padres, e até os vigários do estudo consciencioso do latim, língua danada que inspira às vezes odes macarrônicas.
É indispensável que voltemos à prática já um pouco abandonada, e que se torne a dispensar o estudo do latim.
Um padre ignorante, quase analfabeto, que nem sabe latim, que é a língua, em que confere os sacramentos, é a mais inocente das criaturas, e apenas desacredita a religião católica, o que é de grande proveito para aqueles, que, como eu, nada esperam da moral, nem da verdade.
O meu milagre eleitoral não escapou à observação e às francas e ásperas censuras do compadre Paciência, que me honrou com a classificação de primeiro e o mais desenfreado falsificador de eleições; quando, porém, passados breves meses chegou-me a terceira demissão e quarta nomeação de presidente, mostrou-se ele profundamente triste.
— Que significam estas presidências de província com duração efêmera? perguntou-me.
— Ah! a demissão que recebi o afligiu?
— Ora! o senhor desde muito tempo deveria ter sido não só demitido, mas responsabilizado pelas violências e loucuras das suas administrações: o que me aflige é somente esse sistema fatal de presidentes que não aquentam lugar em província alguma.
— Pois que mal provém dessas mudanças muito repetidas de presidentes? varietas delectat: o povo gosta de ver caras novas no governo: cada mudança nova esperança.
— É como estou falando.
— Pois está dizendo asneiras, com perdão da sua excelência.
— Falemos seriamente.
A Xiquinha pôs-se a rir. O compadre Paciência prosseguiu.
— Apreciemos a prática sublime. Lá vai ela em trocos miúdos. E m regra nomeiam-se presidentes a homens estranhos à província.
— Acha isso mau?
— Conforme. Os presidentes que vêm de fora gastam tempo a estudar as províncias; mas o seu noviciado teria uma compensação na imparcialidade de administradores que não estão sujeitos à influência de interesses pessoais e políticos próprios, e dos seus parentes, e dos seus amigos, e companheiros de lutas de partidos; mas com as tais presidências efêmeras mil vezes antes os presidentes de casa, mil vezes antes aqueles que conhecem já as províncias onde nasceram, e cuja prosperidade não lhes pode ser indiferente.
— Eu logo vi que o compadre havia de descobrir meio de atacar o princípio: a oposição condena sempre todo e qualquer sistema adotado pelo governo.
O velho olhou-me de revés; mas não quis responder-me e continuou: — Em regra os presidentes nomeados são estranhos às províncias que vão presidir. Em Setembro, no fim da sessão legislativa, o ministério, para alentar dedicações parlamentares, tira da maioria uma fornada de deputados presidentes, para o arranjo dos quais há uma contradança de administradores de províncias: os nomeados chegam às capitais e tomam posse em Outubro: nenhum deles conhece nem os negócios administrativos, nem as condições econômicas e as necessidades reais da competente província: suponhamos que alguns as estudem: estudam até Abril, seis ou sete meses, e, adeus províncias! eles vêm tomar assento na câmara, e elas ficam com os vice-presidentes, ou recebem novos presidentes que governam seis ou sete meses, até Outubro, em que chegam os mimosos da nova fornada!... é assim ou não?
— Pouco mais ou menos...
— E viva la patria!... seis meses presidentes interinos, seis meses presidentes deputados! em uns e outros conhecimento das províncias nulo; governo fecundo nunca; arranjo de afilhados sempre; sofrimento das províncias cada vez a mais, o futuro do país cada dia mais escuro. Que diz a isto, meu sábio da Grécia?
— Digo que nem por isso padece a administração provincial, pois que embora haja dez mudanças por ano, há sempre e em todo caso um chefe a dirigi-la.
— Mude pois duas vezes em cada ano o mordomo da casa, o administrador da fazenda, o gerente da empresa, o professor do estudante, o general do exército, e os ministros do Estado, e ainda nas substituições prime no acerto das escolhas, que eu lhe juro que no fim de poucos anos põe tudo isso em desordem, e não sabe mais a quantas anda.
— Meu caro, peça ao sistema constitucional representativo as contas dessas mudanças frequentes de presidentes de províncias.
— E porque?
— Porque é o sistema das maiorias parlamentares que não se podem manter sem se dar cartuchos de amêndoas aos meninos que servem de anjinhos na procissão.
— As maiorias do sistema representativo são as que fazem ministros: as que são feitas pelos ministros são maiorias da corrupção.
— Mas com há de proceder um pobre ministério, quando alguns membros da sua maioria pedem, exigem seis meses de presidências confortáveis?...
— O ministério deve negar o que não é conveniente e justo.
— E depois?... e as deserções para a oposição?
— É melhor não ser governo, do que sê-lo para servir mal ao país.
— Mas...
— Qual mas! compreendo que a prática abusiva de muito tempo deve pôr em torturas os ministérios no mês de Setembro de cada ano compreendo que às vezes há verdadeira necessidade de se mandar presidir províncias por Senadores e deputados, cujas habilitações e influência ofereçam garantias de bom desempenho do serviço do Estado em épocas e condições locais difíceis e arriscadas; mas a regra das fornadas de Setembro é mesmo de reduzir as províncias a chácaras de recreio para meses de férias. Eu não hesitaria em apelar para um recurso extremo.
— Novo artigo do seu programa político: venha ele.
— Tem alguns inconvenientes; mas acabava com as fornadas de Setembro, e com os cartuchos de amêndoas: era uma lei estabelecendo a incompatibilidade da deputação legislativa com o cargo de presidente de província, salvos os casos extraordinários de que fala a Constituição. Esta providencia daria pelo menos dois grandes benefícios ao país: primeiro: administração prolongada de presidentes de províncias dedicados, hábeis e honestos: segundo: um meio de menos para a organização das maiorias artificiais do parlamento.
— O compadre parece que tem razão; observou a Xiquinha.
— Também você contra mim, Xiquinha?...
— Contra você, não; mas contra os seus princípios nesta questão.
— Tem a palavra para se explicar.
— Eu não entendo de política; já li porém a Constituição do Império por curiosidade.
— E fez bem: a leitura de romances é agradável às senhoras.
— Sacrílego! exclamou o velho; fale, menina: seu marido não tem juízo.
A Xiquinha continuou, fingindo-se acanhada:
— Em regra os Senadores e deputados não devem ser delegados do ministério; porque sendo-o, são executores da sua política, e também um pouco responsáveis por ela, e no caso em que a política do ministério for atentatória contra os direitos dos cidadãos, for criminosa enfim, tais delegados parciais e cúmplices não podem, deputados, cumprir o dever de acusar, Senadores cumprir o dever de julgar.
— Lantejoulas... disse eu.
— Ouro fino, verdade pura! gritou o compadre Paciência. Esta menina tem língua de Cícero: ela e não o senhor, é que devia ser presidente da província!
A Xiquinha era efetivamente muito mais ladina do que eu; porque enganava, quantas vezes queria, o velho liberalão.
QUARTA PRESIDÊNCIA
Duração: nove meses e onze dias.
Fatos principais: recrutamento e designação de destacados na guarda nacional.
Nunca me vi tão abarbado com as fúrias do compadre Paciência, como nesta e na seguinte e última da primeira série das minhas presidências de províncias.
A guerra contra o ditador do Paraguai alvoroçava todos os corações brasileiros, e levas numerosas, brilhantes de voluntários da pátria tinham partido entusiasticamente para a guerra até que a voz do governo disse à nação basta!
O compadre Paciência, que era o mais belicoso de quantos proclamavam a necessidade indeclinável da guerra de honra, o compadre Paciência que ao ver os primeiros voluntários desatara a chorar, maldizendo da sua velhice, entristeceu-se, ouvindo o — basta! — do governo, e disse:
— A intenção é boa sem dúvida, porque inspirou-a o cuidado de poupar à agricultura e à industria braços que parecem já de sobra para a guerra; mas o entusiasmo do povo é fogo que nestes casos não convém apagar; porque é fogo que difícil e raramente se reacende.
E o velho teve razão; pois, decorridos poucos meses, o governo pediu ao país novos contingentes de soldados e força foi apelar para o recrutamento e para a designação na guarda nacional.
O compadre quis desta vez decididamente intervir e para a designação na guarda nacional. — Rapaz sem cabeça, mostra ao menos que tens
coração; disse-me ele quase convulso; passou o entusiasmo: mas a fonte do dever patriótico ainda é abundante e sublime: escuta pelo amor de Deus, suaviza, santifica os sacrifícios dos cidadãos com a imparcialidade e a justiça do governo: na designação dos guardas nacionais que devem destacar para o serviço da guerra, manda apelar para o sorteio público que excluirá toda ideia de perseguição de partido político: no recrutamento vela pela execução conscienciosa da lei, e faze recrutar indistintamente os recrutáveis pobres e ricos, os do teu partido, como os do partido contrário. A causa é de todos, a guerra é de honra, de desafronta e de glória; não guerreies a guerra santa, fazendo da guerra uma arma de perseguição eleitoral e política!
O velho quase chorava e eu estive às duas por três à rir-me da cara, com que ele me falava, e das puerilidades que me estava dizendo; mas para poupar-me a algum bate-barba tempestuoso, desviei a conversação para outro ponto, dizendo-lhe:
— Oh compadre! está cantando a palinódia! já aplaude o recrutamento forçado?
— Nunca o aplaudi e não o aplaudo: desejei sempre vê-lo substituído pelo sistema de conscrição que faz do ônus militar um dever de todos os cidadãos, e não um ato de submissão à violência: condenei e condeno os abusos, as injustiças na execução da lei do recrutamento forçado, e hoje principalmente, pois que a guerra é patriótica, peço, exijo recrutamento patriótico, isto é, sem espírito parcial, sem perseguição de partido.
O compadre Paciência estava sentimental; mas eu não podia deixar-me levar pelo seu sentimentalismo e perder a melhor das ocasiões para descarregar golpe seguro no partido da oposição que havia na província
O ministério pedira-me cem guardas nacionais designados, e duzentos recrutas: para salvar as aparências não fui além dos cem guardas; mas em menos de dois meses mandei quatrocentos recrutas, isto é, quinhentos votantes do partido da oposição; e que boa gente! vinte viúvos com filhos, não sei quantos filhos únicos demais já viúvas e pobres, três dúzias de homens casados, e muitos maiores de quarenta anos, e menores de dezoito, mandei-os todos, tendo somente dispensado alguns guardas e recrutas que estavam muito no caso de marchar;' mas a cujos padrinhos e madrinhas não me era lícito resistir.
A Xiquinha fez-me por sua conta e risco reconhecer supostas isenções demais de vinte ótimos soldados; entretanto eu me desforrava das isenções e dispensas com outros designados e recrutas.
Ignoro quantas mais, viúvas e esposas acompanharam esta leva de soldados para a corte: o governo que se arranjasse com a gritaria dessa pobre gente feminina afirmo que maior, muito maior foi o número das carpideiras que me ficaram na província por absoluta falta de meios para se transportar à corte, e aí queixar-se de mim.
O velho liberalão tornara-se todo chamas; mas eu fiquei todo gelo.
— Que pensa que fez? perguntou-me um dia.
— Mandei quinhentos soldados.
— E como?
— Isso pouco importa.
— E as leis?
— Quando atrapalham, o executor salta por cima delas.
— E os direitos do cidadão?
— Ficam entortados.
— É uma indignidade!
— Queria que não mandasse soldados para a guerra!
— É falso: eu queria que o senhor presidente não admitisse designação e recrutamento de homens casados enquanto tivesse solteiros, e assim por diante observando as regras da lei.
— Não me sobrou o tempo para esses enfadonhos exames: o caso era urgente.
— É falso outra vez! marcou as vitimas, ou deixou que os seus agentes as marcassem, recrutando e designando somente no partido contrário.
— É boa! pois queria que eu mandasse recrutar e designar no partido que me sustenta?
— Mas é cinismo!
— Pois se é capaz aponte muitos presidentes que não fizessem o que eu fiz.
— Que se segue d'aí?
— Que temos tratado de aproveitar nossas posições e as circunstâncias extraordinárias do país para preparar o triunfo eleitoral do nosso partido. Ajuntamos dois proveitos em um saco: damos soldados para a guerra, e reforçamos o nosso partido, perseguindo e abatendo o outro.
— Pôde dizer-me qual é o seu partido?
— A falar a verdade não sei: é aquele que me conserva presidente de província, e será aquele que me der escada para subir a maior altura.
— E homens como o senhor...
— Seram sempre os melhores instrumentos dos partidos e das facções...
— Partidos! os partidos tem princípios ou não são partidos...
— Não nos envolvamos nesse mistifório; não dou importância a palavras vãs.
— Partidos! e pensa que perseguiu, que atropelou um partido com os seus últimos despotismos? porque não recrutou os chefes, os filhos dos ricos e dos poderosos que lhes fazem justíssima oposição? haveria ao menos nessa perseguição, aliás em todo caso condenável, a tal qual nobre afoiteza do inimigo forte e franco.
— Não se vai logo às do cabo, compadre.
— Que fez? foi atropelar os pobres, os desgraçados, não respeitando seus direitos duas vezes sagrados, sagrados pela lei, sagrados pelo pobreza!
— E a massa recrutável, compadre.
— Meu Deus! exclamou o velho pondo-se de joelhos; meu Deus! concedei ao Brasil o sistema de recrutamento pela conscrição para que se quebre nas mãos dos opressores a arma malvada do recrutamento forçado. — Amém: disse eu com ar contrito.
QUINTA PRESIDÊNCIA
— Duração: até o começo da nova legislatura.
— Fatos principais uma questiúncula com o compadre Paciência, e a conquista eleitoral.
Fui ainda transferido para outra presidência e desta vez com evidente glória minha, porque escolheram-me a dedo para uma província recalcitrante audaciosa que se supunha com força bastante, e com disposições de resistência legal capaz de mandar à câmara deputados da oposição.
O Hércules chegou, entrando com pés de lã: iludi a oposição com protestos de imparcialidade, e de absoluta abstenção no pleito eleitoral: toda a imprensa elogiou-me e festejou-me.
Eu tinha três meses diante de mim e bastavam-me três semanas para a conquista; dei porém apenas quinze dias de esperanças à oposição que caiu no laço. Não me era possível proceder de outro modo; porque recebera a designação dos candidatos oficiais para deputados, e porque um desses candidatos era presidente da província, pela qual em troca preajustada e sancionada pelo ministério eu devia ser eleito deputado.
No fim dos quinze dias e ainda em segredo aliás logo depois descoberto, despachei na mesma manhã e na mesma hora policiais para todos os municípios, levando as demissões e substituições indispensáveis para fortalecer as malhas da rede policial, ordens para recrutamento desenfreado, e para novas designações na guarda nacional, e fiz ponto com a mais plena segurança de resultado: os recrutadores e designadores eram todos meus, ameaçar, isentar, perseguir, espalhar o terror, cercando e varejando as fazendas e casas dos mais prestigiosos chefes oposicionistas sob os mais fúteis pretextos, e nos dias da eleição primária forjar duplicatas eleitorais em extremo caso de necessidade ficava por conta deles. Deitei-me tranquilo. O pouco que faltava para coroar a obra, o emprego da força em alguns pontos da província era cuidado que ficava para mais tarde, e a que oportunamente atendi.
Com o recrutamento forçado, a designação na guarda nacional para o serviço da guerra, e com o direito de empregar força armada, pretextando a necessidade de manter a ordem pública ameaçada, e de garantir a liberdade do voto de cidadão, o governo só perderá eleições onde as quiser perder por hipocrisia, e onde se deixar vencer por desmazelo e abandono.
A oposição, despertando desiludida, deu brados, arrastou-me pelas ruas da amargura, e disse de mim o que Maomé não dissera do toucinho: a imprensa do meu partido, ou do partido a que eu servia de instrumento, defendeu-me habilmente com estudada frieza, queixando-se da minha exagerada abstenção, que já antes a oposição havia reconhecido e elogiado, e que punha em risco a causa dos amigos do governo abandonados pelo próprio governo.
Os tratantes estavam cheios até os olhos, e de acordo comigo quase que me acusavam de inepto, de modo que iam chegar à corte do Império com as fúrias da oposição e com as tristes lamentações dos governistas os indícios da minha imparcialidade na luta eleitoral, o que era tudo quanto desejava o Sobrinho de Meu Tio, esperançoso estadista que aproveita as lições de admiráveis mestres, e que protesta que não é tratante
Preparada assim a conquista eleitoral, ocupei-me de coisas de pouco mais ou menos, e um dia, estando presente o compadre Paciência, que continuava sempre a perder o seu tempo, ralhando comigo debalde, disse eu à Xiquinha:
— Os teus dois afilhados receberam em breve os suspirados despachos: acabo de oficiar ao ministro da justiça, pedindo-lhe as nomeações de um e de outro para os lugares de escrivão, e de partidor e distribuidor da vila ultimamente criada.
— Eis aí! bradou logo o velho enfezado que andava de mau humor com as minhas providências eleitorais; eis aí a centralização administrativa com as suas absurdas, intoleráveis exigências atormentadoras do povo! Que quer dizer por tão pouca coisa tanta dependência provincial da vontade do governo geral?
— Temos outro artigo do seu programa político; observei eu rindo-me.
— Fale, compadre; disse a Xiquinha.
— Sim, fale! corte com a sua eloquência revolucionária os laços da união e da integridade do Império.
— Ora é na verdade engraçado ver a união do Império dependente das nomeações de um escrivão e de um partidor e distribuidor da mais afastada vila do interior feitas pelo governo geral!
— É uma condição do sistema de centralização que nos salva.
— O senhor, com perdão da sua excelência, é papagaio que repete o que ouve, e não tem consciência do que repete. — O compadre é amável!
— Digo as coisas pelos seus nomes. Escute lá. Há centralização política e centralização administrativa: depois de 7 de Abril de 1831 houve muitos que pretenderam acabar com a segunda, e reduzir a primeira a sua mais simples e última expressão, transformando em monarquia federativa o sistema de governo do Brasil. O Senado matou essa ideia; mas em breve o Ato Adicional não só fundou o princípio da descentralização administrativa, como afrouxou um pouco os laços da centralização política, dando às assembleias provinciais consideráveis atribuições, principalmente com relação ao poder executivo das províncias. Depois sofismou-se o Ato Adicional: a centralização política tornou-se mais forte e apertada do que nunca, e quanto à administração propriamente dita, em vez de se promulgarem leis que desenvolvessem e realizassem o princípio descentralizador fundado pela reforma constitucional, forjaram-se leis que o contrariaram, e que deram em resultado não pouco o abatimento, e muito estorvo do maior progresso das províncias.
— Compadre, observei eu, o papagaio não pode aprender um recado tão comprido.
— Porque se havia de tirar às assembleias provinciais o direito de eleger os vice-presidentes das respectivas províncias? Porque... mas deixemos de parte os assuntos mais graves, aqueles que podem talvez ainda suscitar objeções; vamos aos pontos até absurdos da centralização administrativa.
— Pois vamos a isso.
— Não há nomeação de carcereiro que não dependa do governo geral: é o governo geral quem nomeia escrivães, contadores, distribuidores, até bedéis de academias, e os mais insignifiantes empregados; só escapam dele os meirinhos! e para que isso? Por um lado essa dependência inútil, inexplicável, incômoda, apura a paciência dos cidadãos e abate as condições das províncias por outro lado, como faz o governo geral tais nomeações? em regra deve fazê-las, ouvindo os presidentes das províncias, e nomeando os propostos por eles: pois, se é assim, deixe-se aos presidentes o direito de fazer tais nomeações!
— Isso foi em regra: foi hipótese.
— Tem razão: de fato as nomeações de que trato; fazem-se do modo o mais inconveniente e desmoralizador: chegado o mês de Maio, vêm os deputados e Senadores para as respectivas câmaras, trazendo cada um dez ou vinte pedidos nos bolsos dos paletós: eis os ministros em cerco, e portanto eis aberta a feira das transações, e são ainda nessa triste prática falseadas a verdade e a pureza do sistema representativo!
— E o caso da confraria de pedintes!
— Naturais procuradores dos povos que os elegeram os Senadores e ainda mais os deputados por gratidão e por cálculos de futuro pedem, quase que não podem deixar de pedir ao ministério; mas pedindo, descem, amesquinham sua posição, seu caráter de representantes da nação: eles os fiscais do governo, como hão de fiscalizar o governo, a quem pedem favores todos os dias? Aí tem as belas consequências da centralização administrativa.
— Ora, compadre Paciência, na sua última apreciação é que está o segredo da coisa, e a perfeição do princípio centralizador.
— Como é lá isso?
— O princípio centralizador é o principal elemento da força irresistível do poder executivo: o caso é simples: o ministério precisa ter maioria, e com deputados que trazem das províncias os bolsos dos paletós cheios de pedidos a maioria é certa.
— Maioria artificial, como dizia um dos homens demais juízo que tem tido o Brasil.
— Quem é ou quem foi ele?
— O Visconde de Albuquerque, o Senador Holanda Cavalcanti, que adotara por costume formular as maiores verdades em aparentes paradoxos.
— No meio de toda esta discussão, disse a Xiquinha, uma ideia está-me incomodando.
— Qual?
— A necessidade de procurar um deputado que se interesse pela nomeação dos meus dois afilhados.
— Tranquiliza-te: já tens o deputado a teu dispor.
— Qual será?
— Eu.
— Pois o senhor vai ser eleito deputado? perguntou o compadre Paciência, arregalando os olhos.
— Estou seguro disso.
— Por qual das províncias?
— Pela província de...
— Oh! pela província cujo presidente tem de ser deputado da sua designação nesta?
— É exato: uma mão lava a outra: eu o elejo, ele me elege, nós nos elegemos.
— Mas é imensamente imoral!
— O que?
— Essa sofismação das incompatibilidades eleitorais dos presidentes de províncias!
— A lei é executada ao pé da letra: os presidentes não são eleitos pelas províncias que presidem.
— Mas fazem berganhas que anulam o espírito da lei, e, o que mais é, o governo geral apoia e autoriza essas berganhas.
— É que assim anima e galardoa as dedicações.
— Porque foi que a lei de 1855 estabeleceu essas incompatibilidades? Porque o interesse da própria candidatura podia levar os presidentes das províncias a embaraçar a manifestação do voto livre do povo e a conquistar as urnas eleitorais. Com as tais berganhas os presidentes continuam ainda a servir aos interesses das próprias candidaturas, e muito mais desembaraçadamente do que antes.
— Mas salvam-se as aparências, compadre. A opinião pública, diziam os senhores, reclamava essas e outras incompatibilidades: satisfez-se a senhora rainha do mundo; como porém é de regra que os reis e as rainhas vivam sempre enganados, ficou a opinião pública com as incompatibilidades dos presidentes das províncias escritas no papel, e os presidentes das províncias com o recurso das berganhas dão gargalhadas homéricas da pretendida soberana que os queria incompatíveis.
— Por consequência confessa!
— Confesso e sustento que esta, aquela, mais outra e todas as leis devem ser na bisca política trunfos para os que estão de cima, e oito e nove fora do baralho para os que estão debaixo.
— Isso é na política dos biscas.
— E dos grandes jogadores que temos
— E quando o senhor estiver debaixo pensará do mesmo modo?
— Fiz voto de estar sempre de cima, compadre.
— Voto de estar sempre de cima em política é medida certa de profunda baixeza.
— Poesia no caso! fique eu sempre no poleiro, e sempre subindo mais, e dou licença a todos para lamentarem o meu rebaixamento.
O compadre Paciência voltou-me as costas.
Chegou o dia da eleição primária. Favas contadas. Os comandantes superiores e oficiais da guarda nacional tinham andado na semana anterior ameaçando os guardas recalcitrantes com a designação para o serviço da guerra, e garantindo isenções a todos os submissos; os delegados e subdelegados procederam do mesmo modo, explorando o recrutamento, e com as adicionais de aparato de força aqui, de alguns tiros ali, e de duas duplicatas indispensáveis, improvisei um eleitorado que me deu assombrosa maioria. Nunca vi eleição mais livre: quase todo o povo votara à força por sua vontade.
O suposto diretório do partido vencedor organizara a chapa de deputados de acordo comigo: isto é, a chapa viera organizada da corte; nós porém tivemos de salvar as aparências e de gastar algumas noites, conversando em alhos e bugalhos para dissimular a imposição e fazer crer que a escolha dos candidatos partira dos chefes do partido da província.
Como de costume surgiram pretensões, brigas de amigos, e roupa suja da família lavada na praça pública; mas isso não impediu que no fim do mês da lei a chapa triunfasse toda e com abarrotamento de votos que todavia não causou indigestão a nenhum dos eleitos.
Duas semanas depois recebi a agradável notícia da minha eleição de deputado à Assembleia Geral pela província, ou antes pelo presidente da província de... que, coitadinha, nunca vira nem a ponta do meu nariz e ignorava se eu andava com os dois pés ou de gatinhas.
Província nobre e generosa! nem uma só vez na legislatura que vai começar te darei motivo para te queixares de que mal te conheço e te apreço; porque protesto e juro que farei de conta que não existes, e nunca me ocuparei de ti!
Que festas e que alegrias em casa! a Xiquinha não cabia em si de contente, ia voltar para a corte, e já planejava glórias e triunfos no círculo político, que reuniria em sua casa, e de que devia ser a encantadora influência dominante.
Em breve partimos.
— Adeus, províncias! exclamei eu.
— Adeus, cinco desterros!... disse sorrindo alegremente a Xiquinha.
— Adeus, mártires! resmoneou o compadre Paciência.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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