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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

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Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo 7 · Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Capítulo VI

7 de 15 ≈ 21 min de leitura

Em que a Xiquinha e eu vamos de passeio e visita à minha província, que não digo qual seja para não perder o direito de haver nascido em mais duas ou três: deixo por breves dias a capital do Império sem declarar quando cheguei a ela, porque não quero ofender a sábia doutrina dos partidos impessoais: somos recebidos e despedidos em triunfo pela gente da nossa terra, onde fica ainda em gozo de alforria o ruço-queimado; chegamos de novo à cidade do Rio de Janeiro, e vamos provisoriamente morar no Club Fluminense, das janelas do qual vejo mais do que se pode supor: estudo a situação política do país, e sem mais véus nem reservas denuncio quem eram então os ministros de Estado, e encho de luz o quadro dos negócios públicos do Brasil nesse tempo.

Imediatamente depois da nossa chegada ao Rio de Janeiro, gemeram os prelos das folhas diárias, saudando o acontecimento em artigos encomiásticos que elevaram a mim e a Xiquinha às maiores alturas, de modo que nos teatros que frequentamos, merecemos a honra dos binóculos do respeitável público, e nos passeios a glória de nos apontarem com os dedos.

Não preciso dizer que os artigos foram todos escritos por aqueles meus excelentes amigos que nunca existiram. Os latinos diziam « amicus est alter ego ». — eu penso melhor que os latinos: amicus mei solus ego.

Não era possível que nos demorássemos na capital, onde aliás devíamos em breve estabelecer-nos: o interesse do meu futuro político me impunha a necessidade indeclinável de ir visitar e festejar os dois padrinhos de casamento, os nossos parentes, e as influências do distrito eleitoral; partimos pois eu e a Xiquinha a cumprir esse dever.

É um dever maçante, onerosíssimo, enfadonho! ter um homem como eu de fazer boa cara, cortesias, de ouvir, de falar, de agradar a todos aqueles rudes e desajeitados roceiros! mas que remédio? é indispensável contemporizar: não se apanham trutas a bragas enxutas. Ah!... no dia em que me apanhar senador que pontapé darei em toda aquela gente! Não tirarei mais o meu chapéu a nenhum eleitor.

E partimos para a província.

Há duas coisas que, por ora, eu não digo, nem que mo peçam de joelhos: é o mês e ano em que cheguei da Europa, e o nome da minha província.

A razão deste duplo segredo vou agora manifestar.

Não digo, por ora, o nome da minha província; porque me reservo o direito de me proclamar natural de qualquer das províncias do Império, seguindo o exemplo de alguns políticos ladinos, que têm mudado de berço provincial por duas e três vezes. Se me obrigassem a declarar já de que província sou, erigia-me em Fluminense; porque a província do Rio de Janeiro é como a Santa Igreja, mãe de todos os que querem ou fingem querer pertencer a ela: e boa mãe adotiva que ela é!... despreza até os filhos pelos enjeitados: não parece irmã da Bahia.

Não tenho certeza, mas acredito que fui batizado: como porém não se encontra o assento do meu batismo, conto com este feliz recurso para sustentar que nasci na província que me fizer mais conta, e assim procedo muito bem; guardando cautelosamente este meu segredo.

E também hoje em dia no Brasil está banido o mau costume de inquirir a alguém sobre a sua procedência, ou sobre o lugar donde saiu; porque tanta gente de Saquarema tem-se mudado para Santa Luzia, e vice-versa, que ninguém mais se anima a ofender as conveniências, expondo-se a fazer perguntas indiscretas.

Quanto à época da minha chegada da Europa, chiton ainda mais absoluto: darei fácil meio de determiná-la, a quem a adivinhar no rápido esboço da situação política do país, trabalho que executarei logo depois da minha viagem à província.

Menção franca do dia, mês, e ano da minha volta do velho mundo, e do meu desembarque no Rio de Janeiro, fora a denúncia e declinação dos nomes dos ministros desse tempo, e das influências reguladoras ou presunçosamente supostas-reguladoras da situação, e impossível se tornaria para mim escrever com inteira liberdade e sem o perigo de quererem descobrir em minhas apreciações, e em minhas ideias censuras, recriminações e indiretas a pessoas determinadas: nessa não cai o Sobrinho de Meu Tio que fez voto de viver bem, e de viver mal com estes, aqueles, e aqueles outros, conforme as conveniências e as circunstâncias, que ainda espero que se pronunciem para mim.

Esta reserva relativa às pessoas está muito de harmonia com os meus sentimentos políticos: eu admiro e sigo o princípio dos partidos impessoais, partidos cuja metafísica sublime ensina aqueles que os seguem a não ver nem considerar devidamente homem algum por mais legítimo e antigo representante que seja das ideias desses partidos, cada um de cujos membros fica por isso mesmo com o direito de ver só e exclusivamente a sua própria pessoa, o seu eu; pois que a ninguém é dado deixar de ver ou de sentir a si mesmo.

Se este não é o meu partido, o legítimo partido da minha escola, não entendo as coisas deste mundo.

Vejamos se ele é ou não é o meu partido, estudando as consequências que o sapientíssimo princípio é suscetível de produzir em benefício de um ambicioso, como eu.

Vá por hipótese.

Pertenço a um partido político que tem chefes antigos, tradicionais, provados nas lutas, na adversidade, e conhecidos pelos seus serviços: eu quero subir depressa às maiores alturas sociais, e alguns desses chefes me embaraçam o caminho, porque naturalmente estão adiante de mim: que faço eu? ataco os partidos pessoais, desconheço a importância, a significação dos generais do exército; simulo culto exclusivo às ideias, finjo não compreender que um chefe de partido, que o dirige, que fala em nome dele, não representa, não simboliza, enquanto é leal, o partido que aliás comanda: esmerilho o passado, a vida, as ações, os atos desses capitães políticos: são homens, devem ter cometido erros, olvido as suas virtudes e atos de dedicação, elevo seus erros a crimes, adubo esta apreciação com cinquenta ou cem aleives, proclamo e grito contra os tais capitães, reduzo-os a cabos de esquadra, engano os inexpertos com a ostentação da pureza e da severidade dos meus princípios, junto aos inexpertos que seduzo quantos famintos pedem comer, e estão prontos a servir-me e auxiliar-me com a esperança de fazer carreira produtiva, e por fim de contas empurro para o lado, por algum tempo ao menos, os chefes que estavam no caminho, e vou arranjando a minha vida em nome das ideias, e dos partidos impessoais.

Que dizem a isto? haverá coisa ou bicho mais pessoal do que o político que se declara propugnador dos partidos impessoais?

Ah, Talleyrand, Talleyrand! como tu eras profundamente sábio quando definias a palavra!

Realmente não há, não pode haver pessoa mais engraçada do que um homem impessoal! é um homem epicenático (admitam o adjetivo), um epiceno humano que não enxerga, senão o seu eu, e que até casar-se-ia consigo mesmo (tal é a sua paixão por si próprio!) se achasse bispo, que lhe desse licença, e padre que lhe recebesse os votos.

Eu sou dos partidos impessoais; porque não conheço nenhum que aproveite mais às pessoas, e por consequência não digo, e não direi, em que dia, em que mês, em que ano cheguei de volta ao Brasil para não entender com pessoa alguma.

A nossa visita à província foi curta e animadora: achamos minha tia e sogra de perfeita saúde, e prometendo viver ainda longos anos, o que não me preocupou, porque era uma pobre senhora que morresse quando morresse, não tinha fortuna que legar.

O ruço-queimado estava no pasto, e em pleno gozo de alforria, em que nem por isso engordava: era sempre o mesmo caixa d'ossos, comendo muito e sempre magro, sempre cavalo imodificável, sempre eloquente analogia política!

Quando voltamos para a capital do Império, não trouxe comigo o ruço-queimado somente em atenção à despesa que me custaria.

Lembrou-me por alguns momentos trazê-lo, e provocar uma corrida com aposta a favor do cavalo que corresse menos e chegasse ao ponto em último lugar; abandonei porém a ideia, receando que algum administrador de obras públicas se inscrevesse para contender com o ruço-queimado: não quis expor-me a que o ministro da repartição respectiva se coroasse indiretamente com os louros, que conquistaria o administrador, seu afilhado.

Os padrinhos do meu casamento deram-nos banquetes, e bailes em que a Xiquinha primou: houve delírio por ela, e manifestações entusiásticas pela minha candidatura a deputado da Assembleia Geral, que desde logo anunciei com estudada modéstia, mas com toda a firmeza, que me foi possível mostrar.

Os artigos publicados nos jornais tinham-me precedido, e produziram o seu efeito; fui recebido com orgulho pelos roceiros da minha terra, que engoliram inocentemente o ópio que eu lhes havia preparado; e quando me retirei da província, um esplêndido cortejo de amigos, e de entusiastas, que me adoravam como dez, e como cem à Xiquinha, acompanhou-nos até ao lugar, onde embarcamos.

Adeus, até outra vez, pobres instrumentos da minha calculada elevação! Adeus! É provável que eu continue ainda por muito tempo a explorar a mina da vossa credulidade: quando, d'aqui a quinze ou vinte anos eu entrar para o senado, e me conhecerdes então, não maldigais de mim, porque eu sou tal e qual a muitos outros que lá estão na vitalícia, cumprindo o seu glorioso dever de servir sempre à vontade de todos os governos, e de esquecer e desprezar a origem, donde saíram.

Durante a viagem, que não me é lícito declarar se foi breve ou longa, a Xiquinha e eu discutimos e resolvemos todas as questões relativas ao nosso estabelecimento na cidade do Rio de Janeiro; entendemos, porém, que era prudente começarmos por habitação provisória antes de chegarmos à habitação permanente.

O bairro onde se mora decide muito do círculo em que se vive, e esta questão de círculo é das mais importantes para um homem que pretende apresentar-se candidato na primeira eleição.

Na escolha da habitação provisória coube à Xiquinha a glória de provar-me ainda uma, porém não a última vez, a sua perspicácia e sagacidade.

Tomámos cômodos e suficientes aposentos no Club Fluminense.

A casa e os costumes da casa prestavam-se perfeitamente a todos os nossos cálculos e disposições: em poucos dias conquistei ali numerosas relações, e com elas as chaves que me abriam as portas da alta sociedade e da sociedade política do Rio de Janeiro: a Xiquinha alegre, espirituosa, expansiva, bela e hábil começou a causar delírio, sem contudo arriscar-se a comprometimento algum: deixava que lhe fizessem a corte; mas só até o limite que a honestidade permite. Estávamos em mar de rosas, que é o mar das esperanças.

Para mim principalmente a casa tinha uma condição como que providencial: a casa do club é uma casa que tem duas frentes ou duas caras: das janelas de uma eu via a Praça da Constituição; das janelas da outra eu espiava a Polícia.

A Constituição estava ou está na praça e a polícia na rua vizinha; duas inimigas morando tão perto!...

No meio da Praça ergue-se a monumental estátua equestre do fundador do Império: ornam as quatro faces principais do pedestal octógono, grupos de índios admiravelmente executados; mas os índios não dão ideia de compreender o que se passa por cima deles: são exatamente a imagem do povo brasileiro.

O cavaleiro, o herói, tem o braço direito alçado, mostrando ao povo a Constituição do Império, que se ostenta no ar: quererá isso dizer que a Constituição é coisa aérea, e que deve estar sempre suspensa? Não desejo caluniar o pensamento do estatuário; mas, se o pensamento foi esse, Mr. Luiz Rochet é sábio.

Tenho receio de incorrer em sérias inconveniências, estendendo mais a descrição da Praça da Constituição, lembrando a sua história antes de ser Largo do Rocio, depois que passou a Largo do Rocio, e finalmente quando chegou aos seus famosos anos de Praça da defunta: foi Campo, foi Largo, e é Praça: quando era Campo teve a glória de uma força; quando passou a Largo teve a nobreza de um Pelourinho de açoites, quando chegou a Praça teve as honras de uma espécie de cemitério, porque lhe deram por nome uma espécie de epitáfio no nome de uma defunta.

Foi um Campo, foi um Largo, e é uma Praça que encerra mil recordações históricas: viu a morte de um herói no patíbulo, viu as torpes vergonhas dos açoites, viu bernardas, três incêndios de um teatro, rusgas e muitas coisas mais. É um lugar cheio e rico de reminiscências.

Se um dia me der na cabeça estudar, hei de escrever a história do Campo do Rosário, Largo do Rocio, e Praça da Constituição.

Agora tenho coisa melhor a fazer: estou escrevendo as minhas Memórias, e não falarei mais na Praça da Constituição.

Empreguei os dois primeiros meses que passei no Club Fluminense a ler e a estudar os Anais da Câmara e do Senado e as gazetas políticas dos últimos anos, a consultar e a ouvir a todos sobre os acontecimentos, as ideias, e os homens do mundo político; mostrei-me ainda mais ignorante do que sou, relativamente aos negócios públicos, e no fim dos dois meses mandei vender os Anais e os periódicos à confeitaria vizinha; porque tinha já compreendido perfeitamente a situação do país, e adotado o partido que me convinha seguir.

Vou, pois que é impossível deixar de fazê-lo, denunciar quem eram os estadistas que achei no poder, chegando ao Brasil de volta da Europa e descrever em breves, mas fidelíssimos traços a situação das coisas públicas.

Governava o Estado um gabinete composto de sete ministros, cujos nomes esqueci completamente; mas que todos podem adivinhar quais eram pelos seguintes sinais característicos dos excelentíssimos.

À parte as diferenças determinadas pelo maior nariz de um, pela calva mais lustrosa de outro, pelas grandes orelhas deste, pela enorme barriga daquele, os sete ministros que achei no poder, pareciam irmãos gêmeos dos sete que os tinham precedido, e prometiam ainda ser muito parecidos com os sete que haviam de subir depois deles ao governo.

Vestiam fardas bordadas de ouro, andavam farofando de carro com ordenanças e correio atrás; tinham oficiais de gabinete e tratamento de excelência, brigavam uma ou duas vezes por semana nas conferências, e faziam as pazes uma ou duas vezes por semana no Paço.

Assinavam os expedientes das secretarias, faziam nomeações de empregados, distribuíam pela gente da sua roda os cargos públicos, diziam em segredo aqueles a quem faltavam com os despachos prometidos que infelizmente os ministros no Brasil precisavam ter mais liberdade de ação; protestavam que as circunstâncias do país eram muito embaraçosas, e que a oposição era facciosa e culpada da esterilidade do governo; riam-se de quem lhes falava do futuro, e não adiantavam ideia.

Mentiam cem vezes por dia: faltavam a palavra dada cem vezes por mês; adoravam as pastas, acordavam de noite sobressaltados, sonhando com crises ministeriais, e juravam a todas as horas que estavam fazendo votos ao céu para se verem fora das cadeiras de Procusto onde se viam atados.

Asseveravam que lhes faltava o tempo para o desempenho de todos os seus deveres e para atender a todos os assuntos da administração e que não tinham sossego, nem consolações; mas não perdiam banquete, nem baile, não sentiam fastio, palestravam com os amigos até alta noite, os amantes da cena frequentavam os teatros e não iam ao Alcazar Lírico somente pelo receio de alguma pateada.

Uns eram senadores, e outros deputados: os que não eram senadores e contavam quarenta anos, pensavam em sê-lo, e informavam-se caridosamente do estado dos vitalícios doentes; e os que ainda estavam longe do oitavo lustro, faziam estudos profundos sobre a teoria e a prática das compensações.

Todos os sete, poucos meses antes, na oposição ou mesmo na maioria ministerial, tinham falado muito em Constituição, sistema representativo, e liberdades públicas, mas entrados para o ministério fizeram da primeira — peteca, — do segundo — fantasmagoria — e das terceiras — palitos.

Eis aqui os mais pronunciados sinais característicos dos sete ministros, que, chegando da Europa, achei governando o Brasil.

Sem declinar os nomes destes sábios estadistas ou os leitores das minhas Memórias devem imediatamente reconhecê-los e apontá-los todos um por um, ou a dúvida e a disputa servirão somente para provar que os padres são muitos; mas que o breviário é para quase todos esses reverendos um só.

E na hipótese provável da segunda ponta do dilema, quem tem razão sou eu, que não acredito na coisa, e trato de arranjar a minha vida sem me importar com honra, virtude, e dedicação à pátria, três estúpidas atrapalhadoras do conseguimento das grandezas sociais e políticas.

E o senhor Brasil não se vexe nem se envergonhe destas misérias humanas; porque lá pela Europa civilizada o que eu vi, foi isto mesmo, salvas impertinentes exceções que felizmente não abundam.

Lá também a adulação é escada segura, a mentira é dogma, para os ministros, a traição é recurso que aproveita, e a desmoralização substitui perfeitamente à forca de Richelieu, ao quero de Luís XIV. à guilhotina de Robespierre et coetera.

Entre parêntesis: o et coetera com que rematei o precedente período, completaria, mas deixa encapotado o meu pensamento para livrar o governo do meu país de alguma questão internacional, de que venha a sair, como têm saído de outras, isto é, pagando sempre as custas do processo.

Já denunciei o mais claramente que lícito me era, os nomes dos sete ministros, a quem saudei, chegando no Brasil: agora vou expô-los ainda com transparência mais patente aos olhos de todos, descrevendo em ligeiro quadro a situação política que compreendi e apreciei logo com critério magistral.

O Brasil continuava na posição astronômica marcada pelos geógrafos, e no gozo perfeito e afortunado dos benefícios do calor e da humidade.

O governo era, como d'antes, monárquico, hereditário, constitucional, representativo, conforme está escrito no art. 3º da Constituição, e se ensina nas academias jurídicas de S. Paulo e Pernambuco.

A política do ministério tinha maioria na câmara, e a oposição jurava que a maioria da nação era contrária ao ministério.

O gabinete encerrara a sessão legislativa sem haver feito passar o orçamento anual, e por isso estava sendo muito censurado pelos últimos e penúltimos ex-ministros, que do mesmo modo tinham governado o país, dispensando essa recomendação essencial da defunta.

Não havia ministro, senador, deputado, jornalista, simples cidadão que não se entusiasmasse, falando do seu partido, e todos também se ocupavam de uma coisa que chamavam reorganização dos partidos.

Havia sempre na esfera política dois polos opostos; mas a esfera andava sem eixo, e no ano em que cheguei ao Brasil, como acontecera nos anteriores, e havia de acontecer nos próximos futuros, eram poucos os astros fixos e luminosos, e muitos os errantes e opacos que a viajar assemelhavam-se às andorinhas.

As frotas moviam-se e misturavam-se sem bandeira, e no meio delas vagavam dúzias de navios piratas disfarçados.

Falava-se muito e falavam todos ao mesmo tempo; mas ninguém se entendia; porque na maior parte dos faladores cada um tinha o seu patuá, e a menor parte não conseguia fazer-se compreender, teimando em exprimir-se em português.

Estavam em moda três questões principais:

Regeneração do sistema representativo, pobre soneto com versos de pés quebrados de que cada qual por sua vez mostrava os defeitos, e subindo ao governo, apresentava emenda pior que o soneto.

Questão financeira, problema em resolução consecutiva e que se resolvia, mudando-se de sistema e de escola econômica de seis em seis meses.

Emancipação de escravos, gato em cujo pescoço não se amarra facilmente o guizo: nó górdio que em meu parecer deve cortar-se de um golpe; porque eu já vendi todos os escravos que me couberam na herança de meu Tio.

A situação política do país definia-se, distinguia-se, pronunciava-se evidentemente por outros sinais que assim como os que acabo de esboçar, não a deixam confundir com outra qualquer.

Eis alguns:

Os que estavam de cima não queriam descer, e os que estavam em baixo queriam subir: d'aí provinha uma gritaria infernal.

A esfera rolava às tontas:

Aos polos já faltava atração

Os astros errantes transtornavam todos os cálculos

O número dos cometas crescia a olhos vistos:

A terra tornara-se satélite da lua, e no mundo da lua se achava; mas a maldita lua estava em permanente e dupla fase minguante; porque minguava o dinheiro e ainda mais o juízo:

Mas ainda assim se para os tolos havia em cima somente enormes trabalhos a vencer, havia para os ambiciosos por vaidade bonitas farofas a fazer, e para os homens de juízo, a quem a canalha chama ganhadores, sempre o pão-de-ló a cheirar:

A oposição falava em reformas liberais, o ministério declarava-se ainda mais liberal que a oposição, e o povo continuava como d'antes e como depois, a ver as reformas liberais, e a prática da Constituição por um óculo, que no lugar dos vidros tinha baeta preta.

Em suma para de uma vez e de um só traço daguerreotipar a situação, determinando a sua época, o seu mês, o seu dia, mostrando os seus diretores, os ministros de então com os seus nomes e sobrenomes, e com as suas caras naturais, digo tudo em duas palavras:

A situação política do Brasil no ano, mês, dia e hora em que desembarquei no Rio de Janeiro, de volta da Europa, era um grande embrulho a desembrulhar que cada vez se embrulhava mais.

Tão claro como isto só noite de tempestade.

Era uma situação embrulho, a mais favorável e auspiciosa de todas para quem, como eu, está resolvido de pedra e cal a explorar a mina inesgotável da política em proveito não só da pátria, mas do seu eu.

Oh embrulho! embrulha-me em ti, e desembrulha-me em alguma produtiva e suave posição oficial!

Oh pátria! eu confesso que sou a prosa personalizada; hoje porém adoro-te, como em noivo adorei a Xiquinha pelos encantos da terça deixada por meu Tio, e empenhado em casar-me também contigo pelo dote que me podes trazer, peço de empréstimo a um dos teus melhores poetas dois versos para te demonstrar a natureza e as proporções do meu amor!

Oh pátria! eu te digo como o Caldas (de ouro) fez Pygmalião dizer a Galatéa:

« Convence-me em ternos laços,

« Que eu e tu somos só eu. »

Embrulho! embrulha-me em ti com a condição de me desembrulhar convenientemente!

Compreendi a situação política do meu país: é sem tirar nem pôr a mesma em que o deixei em 1855.

Embrulho sempre, e cada dia mais embrulhado.

Estou esclarecido e vou entrar em cena.

Xiquinha! repito as palavras proféticas, que me disseste:

Agora — rede ao mar!

Memórias do Sobrinho de Meu Tio

Sinopse

Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.

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