Universo da obra
Universo da obra
Como me aborreci do clube dos desgostosos; porque de vinte que éramos nunca houve um que fosse capaz de amarrar o guiso no pescoço do gato: a Xiquinha acode em meu socorro e pede-me carta branca para pôr o ministério em crise com a tentação do diabo: o diabo é a própria Xiquinha, que com a pretensão do título de barão com grandeza para mim, e de um contrato da China para a casa King-Toung-Fou-Ting ateia a guerra entre os ministros e chega a ponto de pô-los in articulo mortis, quando põe-me também em crise com Mlle Quelque-Chose, e num ímpeto de ciúme regenera e salva o gabinete. Dou o cavaco e encerro estas Memórias com um ponto final que se reserva o direito de ser apenas pausa de suspensão.
Quase sempre o mal traz algum bem consigo: a perigosa doença do compadre Paciência deu três semanas de plena liberdade às conferências dos ministeriais desgostosos; porque não só pudemos falar e explicar-nos sem receio do censor intrometido e rabugento, como durante esse tempo suspenderam-se as nossas reuniões semanais em atenção à Xiquinha, que pessoalmente tratava do doente com a solicitude de uma filha extremosa.
Eu também desejava muito o restabelecimento do compadre Paciência; se ele porém viesse a morrer, já tinha a minha consolação no seu testamento que o velho confiara à guarda da Xiquinha.
Todavia a liberdade em que ficara o clube dos desgostosos pouco, ou antes nada nos aproveitou.
Em três semanas levamos sempre a nadar em enchentes de queixas e dilúvio de palavras: inventamos cinquenta programas todos muito parecidos com o primeiro e com o último; assentamos de pedra e cal que o ministério era insustentável, e continuamos a sustentá-lo na câmara.
Éramos cerca de vinte ministerialistas desgostosos, entre os quais dezesseis deputados, cujo pronunciamento poderia ser fatal ao gabinete; mas esbarramos sempre diante de uma enorme dificuldade: não havia entre nós um só que ousasse encarregar-se da iniciativa do rompimento: todos tinham uma razão de consciência, ou um motivo de gratidão para não aceitar a primazia no grande empenho da salvação do Estado: aqui em segredo confiado aos leitores das minhas Memórias, a razão e o motivo eram que nenhum de nós confiava nos outros, e que cada um temia ficar sendo andorinha que por achar-se só, não poderia fazer verão.
E portanto não se encontrou entre nós quem se resolvesse a prender o guizo no pescoço do gato.
Confesso que me aborreci do meu clube de desgostosos que não valiam o chá e os sorvetes que eu lhes dava. Os malditos bebiam-me o chá, comiam-me o doce, tomavam-me os sorvetes, e não adiantavam ideia: positivamente eu era o mais tolo do clube!
Até certo ponto o compadre Paciência raciocinava com acerto: deputados cuja eleição é somente devida ao quero e mando dos ministros, têm mais medo de ministros, do que as crianças do tutu, e os escravos do feitor. São quase sempre autômatos, que se movem, conforme a corda que lhes dão; são máscaras do sistema representativo em carnaval; são a claque teatral organizada com o fim exclusivo de bater palmas aos ministérios, cujas desafinações eles não têm direito de reconhecer; são os comparsas da comédia, gente que se engaja, e que se despede, segundo as necessidades da peça que se representa.
Talvez me observem que eu não posso atirar a pedra, pois sou dos tais nomeados deputados por designação do governo, e submisso à vontade dos ministros: pois sim! mas é que tenho feito uma despesa horrível em chá e sorvetes, e ainda não avancei um passo para entrar em algum ministério novo; e, sobretudo exatamente por ter apreciado os gozos de ganhador político, detesto os ganhadores políticos: se queres o teu inimigo, procura o oficial de teu ofício.
A natureza de ferro do compadre Paciência fê-lo triunfar da morte que tão de perto o ameaçara, e deu-lhe em poucos dias de convalescença a força precisa para ir à nossa província regenerar completamente a saúde e robustecer o corpo.
O velho retirou-se, comprometendo-se a voltar no fim de dois meses; mas deixou-nos o seu testamento, o que para mim era o essencial.
— Que fizeste em todo o tempo que durou a moléstia do nosso compadre? perguntou-me a Xiquinha.
— Absolutamente coisa alguma que valha a pena referir.
— Na câmara?
— Votei sempre com o ministério.
— E os teus amigos desgostosos?
— Idem!
— E aqui de que trataram, que fizeram eles?
— Beberam chá, comeram doce, tomaram sorvetes, e provavelmente chamaram-me tolo.
— E o ministério?
— É mais duro e forte do que o compadre Paciência!
— Então não cai?
— Qual! Chegamos ao fim da sessão legislativa: agora é carregar com a carga até maio: os ministros no Brasil estão no caso de certos velhos tísicos, que se escapam de um inverno, é contar com eles até o outro.
A Xiquinha riu-se.
— De que te ris?
— De uma coisa muito séria.
— Tens razão: as coisas mais sérias dirigem-se hoje em dia de modo, que ou fazem chorar ou rir: não há meio termo.
— Não entendo, nem quero entender de política, disse a Xiquinha; mas pelo que tenho ouvido e lido, sou obrigada a concluir, que no Brasil perdem o seu tempo aqueles que planejam derribar ministérios por meio de votações contrárias no parlamento.
— Contudo... há exemplos...
— Que são exceções muito explicáveis ou por abandono da vida, ou por cálculo e enganosa esperança de imediata reconquista do poder: consta-me que nas águas furtadas da câmara há lembranças da segunda exceção, e em um ministério furtado um exemplo da primeira.
— Deixemos as exceções.
— A regra é que no Brasil os ministérios se dissolvem porque os ministros são dissolventes, ou porque, enquanto a oposição os enfada, a maioria lhes absorve a vida; ou enfim porque o diabo tenta os ministros para fazê-los brigar.
— E então?
— O atual ministério está livre do primeiro perigo.
— Por quê?
— Porque é um corpo como deve ser: tem uma cabeça, dois braços, duas pernas, uma farda, e uma muleta, porque é coxo de um dos pés, e se apoia em escora, que não pertence oficialmente ao corpo.
— E do segundo perigo?
— Mais livre ainda! as maiorias que absorvem a vida dos ministérios, são aquelas de quem os ministérios não são progenitores e tutores: imorais em todo caso, as enteadas ralham e às vezes se revoltam, as filhas curvam-se, e pedem a bênção pelo amor de Deus.
— Que nos resta pois?
— A tentação do diabo.
— Não entendo.
— Primo! você como representaria o diabo, se o quisesse pôr em cena?
— Feio e horrível, como deve ser; coxo, vesgo, com pé de cabra, e montado em uma vassoura, rescendendo enxofre, e tendo voz de baixo profundo.
— Imagem falsíssima, criada pelos frades e repetida pelas velhas do outro tempo.
— Corrige pois o meu erro.
— O que representa melhor o diabo é uma moça bela, elegante, faceira, com olhar que fascina, voz que enleva, sorrir que cativa, espírito que seduz: diga-me, eu não tenho razão?... o meu diabo não é mais capaz de tentar, do que o seu?
— Convenho.
— Pois eu me ofereço sem modéstia nem cerimônia para ser o diabo tentador.
— Explica-te...
— Quero pôr em crise o ministério.
— Que estás dizendo?
— O que não podem os dissolventes do próprio corpo do gabinete, o que não pode a maioria absorvente da vida do ministério, poderá a minha tentação.
— É que...
— Você quer o ministério em crise?
— Se quero!
— Dê-me carta branca.
— Isso tem seu conforme, Xiquinha!
— Por quê?
— Porque muitas vezes a carta branca não se pode conservar carta limpa.
— Não tenha receio: não há coisa mais fácil para uma senhora hábil, do que acender esperanças sem prometer gratidão, e sem comprometer-se. Que lhe importa que se inflame a paixão de dois dos meus turificadores?... por fim de contas a nós ficará o proveito sem descrédito, e a eles o ridículo sem proveito.
— Isso só, Xiquinha? isso só sem reticências, e com um ponto final tão grande como uma nota de cantochão?
— Só.
— Pois que estamos em hora de franqueza perfeita, dir-te-ei, que me parece que sem o meu consentimento já tens feito tudo isso.
— É uma censura?
— Não: em suma o que pretendes é o direito de deixar que te admirem, que te incensem, que te adorem: ora, eu creio que tens usado amplamente desse direito.
— Mas não tenho abusado: zelo mais o teu nome do que tu mesmo: a toda senhora é porém agradável o tributo de vassalagem que pagam à sua beleza.
— Estamos de acordo.
— Pois bem: dentro de quinze dias ponho o ministério em crise.
— O meio não me parece constitucional.
— Scribe ensinou que um copo d’água que se entornou foi causa da queda de um ministério na Inglaterra.
— Ora! eu entornei um copo d’água sobre um ministro que constipou-se e espirrou, e que todavia depois da constipação ainda se mostrou mais seguro e firme no poleiro.
— A questão está em saber entornar a água
— Autorizo-te a empregar não um copo, mas uma pipa d’água.
— Não preciso de copo e menos de pipa: a uma senhora bonita e sagaz basta uma gota d’água para afogar sete ministros.
— Bem: esperarei quinze dias; asseguro-te, porém, que pelo sim pelo não conservarei os olhos muito abertos.
A Xiquinha sorriu-se com ar de suave piedade, e me apertando a mão disse:
— Fecha-os antes, meu amigo! confia mais na minha virtude do que na tua vigilância; porque não há vigilância de homem suspeitoso que chegue à astúcia da mulher que quer ser má.
Abracei a Xiquinha, que logo depois perguntou-me:
— O deputado Z... Y... ainda é muito atendido pelo ministério?
— Cada vez mais: consegue quanto quer, porque é chefe de uma falange numerosa da maioria e porque pode tudo no espírito de dois ministros, cujo futuro político muito depende do seu apoio.
— E o ministro dos negócios da...
— É o único que vive meio brigado com esse deputado...
— Por quê?
— Não sei bem: a briga há de ser provavelmente por causa dos negócios da repartição do ministro.
A Xiquinha pôs-se a rir.
— De que te ris? perguntei.
— Fecha os olhos, meu amigo, e confia na minha virtude; respondeu-me ela: fecha os olhos, porque com eles abertos tu nem vês a causa da briga daqueles dois nossos amigos!
— E qual é então a causa?
— A tentação do diabo.
— Ciúmes por minha mulher!... que patifaria!...
— Quem te mandou ter mulher bonita e vaidosa, e acender em sua alma ambições políticas para proveito e glória do marido?
— Mas é caso de duelo!
— Não; é somente caso de crise ministerial.
Fiquei meio confuso e meio arrepiado: os protestos e as seguranças que me dava a Xiquinha do uso prudente da carta branca não me tranquilizavam bastante; ou fosse pelo amor que minha mulher me devia, ou porque houvesse ainda no meu caráter um ponto não estragado e corrompido, é certo que o plano da Xiquinha me pôs o coração em sobressaltos. Positivamente havia, e há traficantes políticos muito piores que eu: façam portanto ideia dos bichos imundos que andam por aí!
Entretanto submeti-me às resoluções, à prudência e à sabedoria da Xiquinha, e devo confessar que senti verdadeira curiosidade de ver o que faria e conseguiria essa intrigante política tão presunçosa que se supunha com forças de pôr em crise o ministério.
Renovamos os convites para os nossos saraus semanais interrompidos pela grave doença do compadre Paciência, a Xiquinha jurou-me que me daria conta circunstanciada de quanto se passasse, e cumprindo-me acreditar que ela não me escondeu coisa alguma, referirei aos leitores das minhas Memórias tudo quanto me comunicou a Talleyrand feminina.
A primeira reunião, com que emendamos a série interrompida dos nossos saraus, foi muito concorrida, e tão animada, como brilhante: houve música, dança, e jogo até quase ao amanhecer: a propósito do jogo: um empregado público que não herdou fortuna, nem consta que tenha sido feliz na loteria, que tem mulher e duas filhas que se apresentam com grande tratamento, esse empregado, cujos vencimentos não chegam a cinco contos de réis por ano, perdeu nessa noite três contos de réis no lasquenet e ainda lhe ficou dinheiro na carteira. E dizem que não há dinheiro! o lasquenet e as mundanarias demonstram o contrário na cidade do Rio de Janeiro, e o lasquenet fora da cidade, e aí por essas vilas está dizendo, que ou os nossos pobres são milionários, ou a corrupção dos costumes navega com vento fresco!
Tratemos do meu sarau, e não toquemos no lasquenet, que é casa de maribondos.
Ao sarau estiveram presentes o meu colega deputado Z. Y. e o ministro dos negócios da...
Eu os observei de longe, e notei que durante toda noite cada um deles tinha um dos olhos no outro, e o segundo olho na Xiquinha: positivamente acabarão ambos por ficar vesgos, e tomara eu que se tornem ambos sempre assim para gozo da minha vingança.
Antes do deputado foi o ministro que dançou com a Xiquinha: acabada a contradança, conversaram debruçados a uma janela que se abria para um jardim, que tínhamos ao lado da casa.
Começaram por trivialidades, diz a Xiquinha: eu sei bem o que ela entende por trivialidades nestes casos; mas fica decidido que começaram por trivialidades.
A Xiquinha interrompeu bruscamente uma nova edição de cantos e de suspiros poéticos da musa das trivialidades do ministro e disse-lhe:
— V. Ex. fala-me sempre do meu poder, e de seu encantamento; mas o meu poder é tão fraco, o seu encantamento tão falso que eu ainda não pude, e já perdi a esperança de conseguir de V. Ex., um dos ministros mais influentes no governo, o simples título de barão com grandeza para meu marido, isto é, o título de baronesa para mim! e apenas por consolação me declara que será possível... talvez... obter o contrato da compra de camelos, e elefantes com a casa King-Toung-Fou-Ting da China, para servirem na guerra do Paraguai.
— Minha Senhora, V. Ex. me põe em torturas! em prova de escravidão à sua beleza, eu espero realizar em breve o contrato da China, embora ele seja profundamente lesivo ao tesouro público; mas o título de barão com grandeza tem encontrado embaraços que até hoje não pude, mas me esforçarei por vencer.
— Agradecida, excelentíssimo! peço a V. Ex. que esqueça as minhas importunações creio que tenho sido, que serei mais afortunada com os bons ofícios de outro amigo, que pelo menos é mais positivo e mais franco.
— Mais positivo e mais franco do que eu? mais empenhado em servi-la?
— É verdade; esse ao menos me diz: «Seu marido terá o título de barão com grandeza, para que V. Ex. o tenha; porque isso é difícil, porém não é impossível; mas V. Ex. não conseguirá o contrato da China; porque isso é possível, porém não é justo.»
— E que ministro resolveu assim as duas questões, minha senhora?
— Não foi ministro.
— Então quem?
— Um simples deputado que vale ministros, um homem que me honra, dando importância aos meus empenhos, um amigo que procura penhorar a minha gratidão, e provar-me que me estima, o deputado Z. Y... enfim.
O ministro estremeceu, e apenas pôde conter um ímpeto de violento ciúme; conseguindo porém dominar-se, perguntou:
— E V. Ex. o que prefere que eu venha depositar a seus pés em tributo do meu culto e da minha adoração? o que prefere? o título de barão com grandeza para seu marido em honra dos encantos de V. Ex., ou o contrato da China?
— Por que o pergunta?
— Porque eu quero pedir-lhe a graça de beijar-lhe os pés, quando aos seus pés depositar a prova dos meus mais puros e irresistíveis sentimentos de dedicação muito interesseira!
— Se me dá a escolha, prefiro o contrato dos camelos e dos elefantes; porque do título de barão com grandeza já estou segura, graças à influência reconhecida do meu dedicado amigo o deputado Z. Y.
— Pois V. Ex. não há de ser baronesa; mas terá o contrato da China! exclamou o ministro, exaltando-se.
— V. Ex. sempre o é, mais que agradável, deslumbradora! eu me ufanarei de contribuir para que lhe seja dado um título de nobreza que V. Ex. abrilhantará com a sua formosura; baronesa é pouco, e nenhum parecerá demais; é porém voto que faço, que o título V. Ex. o terá por mim, por mim só, pelo seu verdadeiro escravo, e não por algum presunçoso que nada pode e impõe que tudo vale.
— Entretanto quero experimentar...
— Pois experimente! V. Ex. terá o contrato da China; mas não há de ser baronesa.
— Vê-lo-hemos! exclamou a Xiquinha.
— É um desafio?
— Que o seja!
O ministro ofereceu o braço à Xiquinha e a conduziu a uma cadeira, e tomando a mão que ela lhe estendia, beijou-a e repetiu em voz baixa
— V. Ex. terá o contrato da China; mas por ora ao menos, não será baronesa.
Não tardou muito a chegar a vez do deputado.
O augusto e digníssimo Z. Y. acompanhara com os olhos a conversação que a Xiquinha e o ministro da... tinham tido à janela e, homem de boa companhia, nem deixara perceber o seu desgosto, nem correra logo a substituir o ministro ao lado da tentadora, antes aproximou-se do círculo a que o rival se dirigira, e soube tratar o ilustre membro do gabinete com perfeita amabilidade.
Entretanto o astuto parlamentar espreitava ocasião oportuna para tomar sua desforra, e vendo começar uma quadrilha, em que talvez de propósito e de caso pensado a Xiquinha achara meio de não entrar, foi sentar-se junto dela.
— O senhor ministro parece incomodar-se, e o meu maior desejo é somente ser-lhe agradável.
— Já me julgava completamente esquecida por V. Ex. esta noite; disse a Xiquinha.
— Ah, minha senhora! que vale o culto do pobre escravo para quem se enleva com as homenagens dos grandes da terra!
— Não entendo... eu não estudei ainda as proporções da grandeza dos meus amigos... parecem-me todos aqui da mesma altura...
— Eu sei: V. Ex. salva perfeitamente as aparências de uma igualdade matemática na distribuição das suas graciosas afabilidades pelos seus amigos; mas sem a menor dúvida houve mais distinção naquela janela, do que há nesta cadeira...
— Ora... é isso? pois vamos conversar à janela.
— Ainda lá mesmo eu me sentiria abatido pela consciência do meu desvalimento!
— Por que semelhante queixa?
— Porque tenho inveja do ministro da...
— Não quero ver uma suspeita ofensiva nas suas palavras.
— Estima a franqueza?
— Sempre.
— Em tal caso V. Ex. não veja ofensa, mas veja perdoável suspeita no que eu disse.
— Suspeita de que?...
— De que... de que V. Ex. prefere ver antes ao ministro da... do que a mim, rendido a seus pés.
— Estou ouvindo um falar. que, se bem me lembra, entendi um pouco em menina solteira; mas que depois esqueci completamente...
— Minha senhora, é um falar que os seus olhos e os seus encantos ensinam...
A Xiquinha sorriu-se docemente.
— Consente-me este falar? perguntou o indigno digníssimo com ternura.
— Não: faz-me mal: não devo ouvi-lo; respondeu o diabo tentador com voz trêmula.
— Mas embora em silêncio tenho o direito de sentir, de admirar, de adorar...
— Em silêncio? não lho disputo.
— E V. Ex. impôs a mesma condição de silêncio ao ministro da...?...
— Ainda!
— Esse homem também a ama...
— Creio que sim.
— E a ele V. Ex. escuta... deixa-o falar... eis o que me atormenta.
— Faço-lhe a mesma pergunta que ainda a pouco me fez: estima a franqueza?...
— Beijarei a palavra que ainda a pouco saiu por entre os seus lábios — sempre.
— O ministro, como V. Ex., teimava em fazer-me protestos de amor; eu porém obriguei-o a ocupar-se seriamente de outro assunto.
— Um segredo?...
— Para V. Ex. não; mas prefiro não dizê-lo; porque sei que se molestaria pelo grande interesse que toma por mim, e a que sou agradecida.
— Aguçou a minha curiosidade...
— Perdoe-me.
— O meu nome foi repetido pelo ministro...
— Por mim, e por ele, é certo.
— Apelo para a generosidade de V. Ex.; eu tenho direito ao favor da confidência
— Como confidência?
— Ao menos assim.
— Tratamos das duas pretensões por que me empenho: do título de barão com grandeza e do contrato da China: confessei ao ministro que contava muito com o primeiro, graças às seguranças que V. Ex. me dava; e que desesperava do segundo, visto que a compra de elefantes e camelos era uma extravagância irrealizável, e até revoltante.
— E o ministro?
— Quer que diga tudo?
— Tudo.
— Digo-o; mas olhe que é confidencialmente. O ministro jurou-me que V. Ex. impõe influência que não tem, e que em prova disso me asseverava que meu marido não teria o título de barão com grandeza, conseguindo porém título ainda mais elevado, desde que V. Ex. deixasse de interessar-se por isso.
O digníssimo Z. Y. mordeu os beiços para comprimir a cólera.
A Xiquinha continuou inocentemente e sem ver os beiços mordidos do deputado
— Enfim comprometeu-se a trazer-me, e a depositar a meus pés, feito e assinado, o contrato da China que V. Ex. entende que é uma extravagância irrealizável.
O digníssimo Z. Y. estremeceu na cadeira.
— Bem o pensava eu! molestei-o; observou a Xiquinha.
— Não, minha senhora: nesta sala há só um doente: é o ministro da... que está doido: aposto que amanhã ele não se lembrará mais nem do não, nem do sim que V. Ex. lhe ouviu.
— Ao contrário: deixou-me a certeza de que na primeira conferência de ministros se aprovará o contrato da China.
— Deveras?
— V. Ex. o saberá: e meu marido não será barão com grandeza...
— Há de sê-lo; eu lho prometi, há de sê-lo, e antes de quinze dias; mas o que V. Ex. não terá, é o contrato da China; porque é impossível.
— Ora... o ministro da... mo garantiu!
— O ministro! que ministro? uma das pernas de pau!... pois bem: vê-lo-hemos!...
— Mas eu não quero dar motivo a dissensões inconvenientes...
— Não se aflija, minha senhora; é até uma felicidade acharmos ocasião de deitar fora certos fardos inúteis.
— Eu não os entendo!... veja como são as coisas... o ministro da... julga tão fácil e seguro o que me garantiu, que...
— Tenha a bondade de acabar...
— Que obrigou-me a prometer que eu lhe daria o meu retrato no dia em que me entregasse assinado e pronto o contrato da China.
— Reclamo prêmio igual, quando eu apresentar a V. Ex. o seu título de baronesa...
— Pode contar com ele, e farei mais...
— O que?
— Permitirei que V. Ex. aqui mesmo, e a meus olhos, escreva por baixo desse retrato as seguintes palavras: a imagem da mulher que amo!»
— Minha senhora!...
— É tudo quanto posso prometer e cumprir: ao ministro não deixei esperar tanto.
O senhor Z. Y. deitava fogo pelos olhos: felizmente a quadrilha terminava nesse momento, e as senhoras vinham sentar-se.
O digníssimo levantou-se e ia afastar-se: a Xiquinha ofereceu-lhe a mão e disse-lhe sorrindo meigamente:
— O ministro me beijou a mão antes de deixar-me.
O meu colega Z. Y. supôs-se elevado ao sétimo céu, beijando com ardor a mão da Xiquinha.
No Brasil alguns ministros se supõem com o triste privilégio de parecer e mostrar-se menos bem educados do que os outros filhos de Adão e Eva; por isso o ilustre ministro da... não procurara disfarçar o desagrado que lhe causava a conversação cerrada da Xiquinha com o deputado Z. Y., e vingou-se deste, lançando-lhe epigramas que correram pela sala, e que logo depois foram repetidos à vítima.
As últimas horas do sarau me divertiram muito: empreguei-as a estudar os dois estadistas namorados da Xiquinha: pareceram-me dois galos da índia quando vão se aproximando para romper em briga.
Dissolvida a reunião, a Xiquinha pôs-me ao fato do desenvolvimento da sua intriga, recomendou-me segredo absoluto, aconselhando-me enfim que estreitasse cada vez mais as minhas relações com os políticos que tivessem probabilidades de ser encarregados da organização de novo gabinete ministerial.
Confesso que não podia compreender, como um ministério que conseguira resistir às mais violentas tempestades parlamentares, e ostentar a própria força e a dedicação da sua maioria em questões que provocaram geral reprovação pública, havia de achar-se em crise, e de precipitar-se do poleiro abaixo por causa do contrato da China! mas a Xiquinha depositava tanta confiança na tentação do diabo, que até fez-me sonhar com a crise ministerial.
Logo no dia seguinte começou a correr na câmara que havia arrufos do deputado Z. Y. com alguns dos membros do gabinete, e três dias depois, em seguida a uma conferência de ministros, e a despeito das negativas destes, transpirou que principiara a confusão das línguas na torre de Babel, e que a coisa estava por um triz...
Tanto o ministro da... como o deputado Z. Y. visitaram-nos mais de uma vez, e cada qual fez suas confidências à Xiquinha, renovando cada um deles as seguranças do bom resultado do seu empenho, e em suma ficamos sabendo que o ministério estava em desinteligência nas duas questões, a do meu baronato com grandeza, e a do contrato da China. O deputado Z. Y. tinha três ministros do seu lado para o baronato, e cinco em oposição à compra de elefantes e camelos, fazendo-se contrato com a casa King-Toung-Fou-Ting; mas o ministro da... mostrava-se intolerante, intratável, e impunha aos colegas este negócio da China. Adiara-se a discussão de ambos os assuntos para a seguinte conferência.
A Xiquinha aproveitou as visitas dos seus dois cegos apaixonados para intrigá-los muito mais, e disse-me com profunda convicção:
— Este ministério vai cair: daqui a dez dias empurrá-lo-ei do poder abaixo com a ponta do meu sapatinho de setim: é indispensável que você se liberte dos seus amigos desgostosos, que todos juntos não valem um cabo de esquadra, e pretendem todos ser generais.
— E o meio de desgrudar-me de semelhante gente?... eu não devo trancar-lhes a porta.
— Ora... vai uma noite ao teatro, vai outra noite visitar o ministro da... e queixa-te a ele das importunações do Z. Y., na seguinte noite procura o Z. Y., e dize-lhe que saíste para escapar às maçadas constantes do ministro, e assim por diante.
Obedeci à Xiquinha; mas por mal dos meus pecados o teatro que escolhi foi o lírico francês, e no fim do espetáculo achei-me pescado, caído no anzol fatal de uma das ninfas do alcáçar!...
Ah maldita mulher! logo nessa noite ceou comigo em um hotel, e comeu mais do que eu! Que demônios para comer são aquelas mulheres! comem ainda mesmo o que não é digerível, comem papel, prata e ouro, devoram até pedras, contanto que sejam preciosas.
Tornei-me habitué do alcáçar por causa de Mlle Quelque-Chose, e deixei que a política corresse exclusivamente por conta da pobre Xiquinha, a quem eu atraiçoava tão indignamente.
Entretanto as sessões da câmara me punham sempre em dia com a marcha dos negócios: o ministro da... e o deputado Z. Y. nem mais se cumprimentavam, e este não chamava o seu rival, senão o protetor dos camelos; a oposição atiçava a desinteligência, a maioria começava a murmurar, e os ministros mostravam-se muito risonhos e blasonando robustez e pujança, o que é sinal certíssimo de macacoa ministerial.
Correram assim duas semanas, e nelas luta furiosa e mal abafada em cada conferência dos ministros: na última o protetor dos camelos declarou solenemente que fazia questão do contrato da China, e que se ele não fosse adotado e prontamente assinado, retirar-se-ia do gabinete: os três membros do ministério amigos do Z. Y. e mais dois indiferentes à rivalidade protestaram que também faziam questão; mas em sentido contrário, e que dariam suas demissões,
se se fizesse tal contrato. Na ideia do baronato com grandeza apareceu igual teima, e igual capricho na divergência.
O presidente do conselho interveio, propondo de novo o adiamento; os contendores porém insistiram na necessidade de decisão imediata, e a conferência quase que degenerou em descompostura rasgada.
A muito custo o chefe do ministério fez adotar um expediente dilatório: marcou-se para daí a cinco dias uma conferência extraordinária, em que sem mais apelação nem adiamentos se decidissem os dois assuntos.
Os ministros levantaram-se enregelados, e saíram da sala das conferências carrancudos, e furiosos; mas no corredor e na escada concertaram as verônicas de modo, que ao chegar à porta da rua, e ao embarcar nas carruagens, pareciam tão alegres e felizes, como se fossem sete irmãos mutuamente dedicados, e vivendo na bem-aventurança da mais pura amizade.
O presidente do conselho já tinha perdido dez noites a procurar um recurso para acabar com a indecente briga, e sempre se achara em beco sem saída. Em política as desinteligências mais difíceis de apagar são as que não tem motivo confessável: em desespero o grande estadista confiou a história toda a um Fidus Achates da câmara, homem de ronha e de grande conselho e pediu-lhe que descobrisse o meio de prevenir a crise ministerial e de harmonizar o ministro e o deputado Z. Y.
O Fidus Achates pensou uma hora com os olhos fitos no teto da sala e não achou remédio para a macacoa do ministério, fechou os olhos, e antes de dez minutos de reflexão, exclamou, rindo-se:
— Ex.mo, está resolvido o problema!
— Resolveu-o com os olhos fechados?...
— Pois não é assim que se governa o Brasil? eu segui a regra.
— Vamos à resolução do problema.
— As duas questões são de evidente capricho...
— Sem dúvida.
— Muito bem: em vez do título de barão com grandeza, dê-se o título de visconde sem ela...
— Homem, a ideia não é má!
— E em vez de se contratar com a casa da China King-Toung-Fou-Ting a compra de camelos e elefantes para o serviço da guerra, contrate-se com a mesma casa e com a mesma despesa por parte do Estado o fornecimento de jogos de xadrez para entretenimento dos oficiais do exército e da esquadra, enquanto esperam pelos combates, e a compra de ricos palanquins de bambu para condução dos ministros de estado e de seus oficiais de gabinete nos dias ordinários.
— Encarrego-o de ir propor esse acordo ao ministro da... e ao seu colega Z. Y.
Fidus Achates saiu; mas perdeu o seu tempo e o seu trabalho: os dois contendores estavam seriamente engalfinhados, e muito mais depois que comunicado o projeto do acordo à Xiquinha, esta disse ao digníssimo Z. Y.:
— Tenho só um retrato para dar, e esse está reservado para o vencedor.
As coisas tomavam o aspecto mais sinistro: só faltavam dois para os cinco dias do prazo fatal, em que o ministério devia ser lançado por terra empurrado com a ponta do sapatinho de setim da Xiquinha.
Eu batia palmas de contente: em dez probabilidades de nova combinação ministerial, contava nove de uma pasta para mim: creio que já andava pela rua com a cabeça mais alta e mais tesa. Acabando de almoçar e dispondo-me a sair para a câmara, notei que a Xiquinha estava pensativa e triste: perguntei-lhe o que tinha.
— Acho-me um pouco nervosa... passei mal a noite: daqui a pouco estarei boa.
Abracei, ameiguei a Xiquinha e fui para a câmara, cuja sessão abriu-se depois do meio dia, apesar do regimento, e levantou-se antes de uma hora por falta de número de deputados para se votar.
Um dos ministros presentes queixou-se de dores de cabeça, outro de dores de barriga: pareceu-me haver vaidade na primeira queixa, e ser muito natural a segunda.
Em todas as salas, na dos charutos, na dos chapéus, na de recepção e até nas águas-furtadas ouvia-se um surdo murmurar de segredos e confidências, que prenunciava a próxima crise.
Fui passear à rua do Ouvidor, onde encontrei o meu colega Z. Y.
— Vai hoje ao alcáçar? perguntou-me ele, sorrindo.
— Talvez; respondi.
Z. Y. tinha-me encontrado por três ou quatro vezes no fatal teatro, e facilmente fizera a descoberta das ceias que eu pagava a Mlle Quelque-Chose; metera-me à bulha por isso; mas jurara-me discrição e silêncio.
Voltei para casa a horas de jantar e encontrei a Xiquinha satisfeita, risonha e amabilíssima: nesse dia chegou a apresentar-me preparado por suas próprias mãos um prato de fios de ovos à sobremesa.
Conversamos largamente sobre a nossa intriga política e sobre a inevitável crise ministerial.
— E dada a hipótese, aliás provável, de me convidarem para o novo gabinete, que pasta supões, que mais me convenha? perguntei-lhe.
— Todas: respondeu-me a Xiquinha, acariciando-me.
— Tens razão: agarrarei na primeira que me oferecerem.
— E deveras contas ser convidado?...
— Sobram-me as promessas.
— És feliz!
— Sei que te devo tudo, Xiquinha.
— Mas pagas-me bem!
Abracei a Xiquinha para esconder a vontade que tive de rir, lembrando-me da peça que lhe havia de pregar nessa noite.
Logo depois ela deixou-me para prender-se ao toucador, e eu, apenas escureceu, pus-me ao fresco: o alcáçar me esperava, e a ceia já estava encomendada.
Às dez horas da noite em ponto Mlle Quelque-Chose saiu do teatro e dirigiu-se a um carro que nos devia receber a poucas braças de distância, e eu não me demorei a reunir-me a ela junto da portinhola do carro.
Mas imediatamente a portinhola abriu-se com violência e um vulto de mulher saltou de dentro do carro, mostrou-se em pé diante de nós, e arrancando o véu que lhe cobria o rosto, encarou-me, e com os dentes cerrados murmurou uma imprecação que não percebi. Misericórdia!... Era a Xiquinha!!!
Mlle Quelque-Chose compreendeu logo a situação, e fugiu a correr, exclamando a rir-se:
— Ainda bem que eu tinha outra ceia ajustada para a meia noite!
A Xiquinha estava em maré de crises: acabava de me pôr também em crise com Mlle Quelque-Chose.
Eu devia dizer alguma coisa: arranjei como pude um tremor de voz e balbuciei:
— Perdoa-me, Xiquinha! estou envergonhado e arrependido... juro-te que nunca mais...
Ela não me respondeu: convulsa e furiosa repeliu a mão que eu lhe oferecia, entrou no carro, fechou a portinhola com ímpeto, e ordenou ao cocheiro que a conduzisse a casa.
Eu para não ir a pé sentei-me na traseira do carro.
Chegamos a casa: a Xiquinha não me disse palavra; subiu a escada, foi trancar-se no seu quarto, e por mais que pedi e chorei, não me abriu a porta.
Tenho um estômago que nunca se ressente dos sofrimentos do espírito. Senti uma fome devoradora, e não achei em casa nem um assado, nem doce, nem biscoitos, nem migalha de pão: a vingança da Xiquinha, que me conhecia o fraco, tinha feito desaparecer toda espécie de alimentos.
Ainda mais: fui obrigado a dormir no sofá da sala sem travesseiro nem cobertas, e fazia um frio de rebentar os ossos nessa noite malvada.
Pensei que ficasse aí o meu castigo, e para distrair-me da fome e do frio, pus-me a ruminar a crise ministerial, e a imaginar-me com a farda de ministro, e com os correios atrás da minha carruagem.
E dormi.
No dia seguinte, acabado o almoço, a Xiquinha que nem sequer me olhara com os cantinhos dos olhos, sentindo que me levantava da mesa, atirou-me com uma folha de papel, e saiu para trancar-se de novo no seu quarto.
Tomei o papel e li, e fui lendo com raiva, com desespero cada vez maior, o que se segue: «Cópias de duas cartas que já foram entregues esta manhã. Ao ministro da... Ex.mo — O contrato da China foi uma zombaria feita em castigo daquele que me ofendeu com pretensões loucas ao amor, que só devo ter e tenho a meu marido: V. Ex. prove-me o seu arrependimento, respeitando-me, como lhe cumpre. Ponho termo à zombaria: acabou a questão do contrato da China. — Ao deputado Z. Y. — Ex.mo Meu marido dispensa tanto os seus esforços para ser agraciado com o título de barão, como eu a denúncia das infidelidades de meu marido: preferimos ao título e à delação o vivermos em paz doméstica e livres de insidiosas importunações. Cumpre-me também participar a V. Ex., que vamos por alguns meses habitar fora da cidade, e que oportunamente preveniremos aos nossos amigos da nossa volta a casa, onde com tanto prazer os recebemos.»
Então? já viram mais rigorosas torturas para a minha ambição enfeitadas com tanta santidade e tanta dignidade?... a Xiquinha nascera para inquisidor do Santo Ofício.
Parti irritadíssimo para a câmara. Que mudança achei lá!... o receio da crise tinha desaparecido: o horizonte do ministério era todo cor-de-rosa: vi na sala dos chapéus o indigno Z. Y. abraçado com o indigno ministro da...!
Não havia mais questão do título de barão com grandeza para mim, nem de contrato da China para compra de elefantes e camelos; e pior do que isso, os ministros olhavam-me com ar de desprezo! Que comediantes! uns diabos que estiveram por uma dependura, e que só escaparam à crise já pronunciada pela intervenção indevida e malvada de Mlle Quelque-Chose! Eis aqui como vão as coisas. Estou aborrecidíssimo e vou fazer ponto final; mas é do meu dever declarar ao respeitável público que continuo a prestar na câmara o meu voto de confiança ao ministério, que escapou da crise.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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