Universo da obra
Universo da obra
Em que dou conta do sono que dormi e do sonho que tive: lamento a falta de dois estômagos no homem e faço considerações filosóficas sobre uma chávena de chocolate que me mandaram: abro a minha mala de viagem e não acho nela a Carteira de Meu Tio; encontro porém e destino a perpétuo sono, dormido no bolso esquerdo do meu paletó, a Constituição do Império, a quem dirijo um discurso patético e sentimental: saio do quarto, e pouco depois almoço prodigiosamente, ficando este almoço entre duas interessantes contemplações, a da prima Xiquinha na sala, e a do ruço-queimado na estrebaria.
Dormi um sono só, mas um sono que durou a noite inteira. Não sonhei com a prima Xiquinha; sonhei porém com o peru que eu tinha comido e que a minha imaginação me fez comer segunda vez, dormindo: achei-o delicioso, e compreendo agora quão grande foi o erro da natureza, esquecendo-se de fazer o homem ainda mais feliz pelo dom da ruminação; para os políticos gulosos seria isso um recurso admirável, porque enquanto fossem obrigados a estar em oposição ruminariam o que tivessem comido no tempo do seu ministerialismo, e teriam mais paciência para esperar por novo período de vacas gordas. Por esta ou por qualquer outra razão há homens que vivendo principalmente pelos gozos da barriga, seriam capazes de vender qualquer das faculdades da alma para ter mais de um estômago, e fruir as delícias dos ruminantes.
Contra o meu costume despertei ao primeiro raio do sol. No dia que se segue a uma considerável alteração ou funesta ou próspera da vida, por força nos acordamos mais cedo. É principalmente uma felicidade da véspera que nos faz matinar no dia seguinte: é falso que os noivos que se amam, façam exceção a este princípio, e que acordem muito tarde depois da noite do noivado: é peta: não creiam neles; despertarão ambos com as rosas da aurora e com o canto dos passarinhos; mas só às dez ou onze horas da manhã se lembrarão de que deviam tomar a bênção aos pais e dar os bons dias aos amigos.
Eu ainda não era mais do que candidato a noivo, e não tinha motivo algum para deixar-me ficar na cama acordado: até a minha natural preguiça, já muito abalada pelos cuidados e cálculos que absorviam o meu espírito, foi completamente vencida por uma chávena de chocolate que me mandaram trazer, apenas me sentiram desperto.
Sorri-me, reconhecendo que me estavam já tratando com a consideração devida ao herdeiro principal da casa. Aposto quanto quiserem que a Xiquinha, em honra da sua terça, também tomou chocolate; e não aposto, mas devo supor, que os herdeiros dos cinquenta contos tiveram de contentar-se com o simples café, recebendo os parentes não herdeiros cada um sua combuquinha de mate.
E depois destas e de outras censurem-me, porque sou egoísta, interesseiro, e porque anteponho a todos os vãos princípios de moral sempre e sempre o dinheiro, ou melhor, a riqueza.
Ponhamos de lado as cerimônias e confessemos que uns apenas soletrando, outros lendo correntemente, uns a gaguejar com vergonha infantil, outros a declamar com o mais ardente entusiasmo, neste assunto rezamos todos pelo mesmo breviário.
A sociedade tem para o pobre canga, carga e menoscabo:
E tem para o rico reverências, distinções indulgência e chapéu fora até o chão.
Querem ver, se isto é ou não verdade? Querem apreciar na história de todos os dias o abismo que separa o rico do pobre?
Venham comigo, e comecemos pela casa de Deus. Olhem que é a casa de Deus.
Sou um pobre operário; visto porém calça e jaqueta lavadas, e vou à pomposa festa do santo da minha devoção; quero entrar na capela-mor da igreja; mas esbarro com sentinelas às portas, que me repetem on ne passe pas, e que à minha vista deixam passar um sujeito de casaca, relógio de ouro, e alfinete de brilhantes: e faz-se isso na casa de Deus, cujo filho que é o mesmo Deus feito homem escolheu os seus Apóstolos entre os mais pobres e humildes
Querem ir à casa do governo?
Vejam! dela sai muito consolada uma mulher com quatro meninos: é a viúva e são os filhos de um pobre soldado que se fez matar no campo da batalha, batendo-se como um herói: deram à viúva uma pensão de quatrocentos réis por dia ou cento e quarenta e seis mil réis por ano: agora sai também, e embarca-se no seu carro, um senhor que possuindo mil escravos, libertou dez, oferecendo-os para soldados, e recebeu por isso o título de barão com grandeza.
Querem ir às casas de todos? Entremos na de um daqueles que gozam de geral estima, e são justamente reputados homens de bem.
Bateram palmas na escada, o criado vai ver quem é: o amo apura o ouvido. Abriu-se imediatamente a porta da sala, é visita de homem que tem dinheiro ou posição: — o criado demora o visitante na escada, é sujeito que não tem cartas no correio — o criado diz que vai ver se seu amo já está acordado: — é um pobre carpinteiro, compadre do dono da casa, que levando o filho à escola, entrou para que o pequeno tomasse a bênção ao padrinho.
Aquele outro homem sério tem filhas e observa-as cuidadoso, e tremendo ante a ideia de ver qualquer delas apaixonada de algum moço pobre; e se esta calamidade sobrevém, combate-a, reúne os parentes, faz guerra ao amor de filha, e se acaba, cedendo a ele, cede, chorando e desconsolado; mas se o namorado da menina é rico, o pai abre-lhe as portas da casa, dizendo antes à esposa: « É um bom partido; finge que não vês o namoro da pequena, e oportunamente provoca o pedido de casamento. »
E ainda quando o namorado rico é cabeça douda, e tem reputação de libertino, o pai da menina diz sorrindo: « Pecados da mocidade! nós o poremos em bom caminho. »
Entremos finalmente na casa de imaginação.
Fazei de conta que ali estão ao lado uma da outra a mais linda donzela de vinte anos; mas pobre como Job; e uma velha de oitenta anos horrendíssima; tendo porém um milhão de seu: anunciai pelo Jornal do Comércio que ambas querem casar e esperai pelos pretendentes. Ora! a velha acha mais de duzentos noivos em vinte e quatro horas, e a moça espera dez anos antes que lhe apareça algum poeta.
Sobre este assunto cem Alexandre Dumas a escrever não esgotariam a matéria em um século, exatamente porque a influência, e o poder do dinheiro são inesgotáveis.
De tudo isso que expus, conclui-se que a sociedade não prefere o homem ao homem, não tem mais estima pelo homem, a quem faz barão, do que pela viúva do bravo a quem deu a pensão de quatrocentos réis por dia, nem respeita mais a casaca do que a jaqueta, nem entende que a velha de oitenta anos é tão capaz de agradar e de ser amada, como a jovem formosa de vinte anos: nada: a sociedade não é tão estúpida, nem faz ostentação de opiniões e de gostos tão inadmissíveis.
O que a sociedade ensina, proclama e adota é mais simples, mais positivo, mais prático, e mais sábio: ela ensina, proclama, e adota que quem tem dinheiro vale mais, merece mais do que quem não o tem.
E estupendamente lógica a sociedade vai adiante: examina, discute como é que este ou aquele de seus membros está ganhando dinheiro, às vezes condena os meios, e manda para a casa de correção o ganhador; se porém os meios de enriquecer ainda os mais indignos, escapam aos seus olhos, e um dia o ganhador se apresenta milionário, é fato consumado! a sociedade bate palmas, ao bancarroteiro-fraudulento impune, ao moedeiro-falso impune, ao impune falsificador de dez testamentos; contanto que seja milionário a sociedade abre os braços, aplaude, enche de honras, e genuflexa beija os pés do monstro moral mais feio e repugnante.
É uma sociedade que adora o bezerro de ouro e a quem mandarei passear à lua se se atrever a censurar os meus princípios egoístas, e a minha sede desesperada de posição política produtiva, que é o que ela me ensina.
A sociedade deve adorar-me: sou seu filho legítimo, e pareço-me tanto com ela como a mão direita com a mão esquerda.
Não posso dar-vos neste momento uma prova material e muito agradável da verdade destas observações, e da influência do dinheiro, prova que acabo de experimentar como principal herdeiro do meu Tio, não a posso dar-vos repito; porque tomei todo o chocolate, e não me lembrei de deixar-vos um restinho, uma gota para que aprecieis o gosto do chocolate preparado para quem deve receber em um dos próximos dias cento e cinquenta contos de réis.
Todas estas reflexões fiz eu enquanto me vestia; vestindo-me, porém, lembraram-me os preceitos da condicional da minha herança, e entendi que me cumpria grudar-me imediatamente com a Constituição do Império.
Abri, pois, a minha mala de viagem para procurar a defunta: achei-a e pu-la no bolso do paletó; mas não me foi possível encontrar a Carteira de Meu Tio, em que eu escrevera os apontamentos dos primeiros dias da minha famosa viagem.
Decididamente eu tinha deixado a Carteira no quarto que ocupara na estalagem da vila de...: o único recurso era despachar um próprio para reclamá-la, e também para trazer-me notícias do compadre Paciência: resolvi-me a isso, e saí a apresentar-me ao formigueiro de parentes que estavam povoando a casa do finado.
Saí com a Constituição do Império na algibeira e com a Xiquinha no pensamento.
Eram dois fatos em contradição, combinando-se perfeitamente pelas suas tendências ao mesmo fim; porque a Constituição do Império na algibeira do meu paletó, representava um embrulho, e a prima Xiquinha no meu pensamento era um projeto a desembrulhar; mas embrulho e desembrulho com o único fim de estabelecer os fundamentos da minha riqueza.
Pela primeira, e talvez última vez na minha vida venerei, adorei a defunta, amortalhada em encadernação de veludo verde: a Constituição do Império no bolso do meu paletó (e notai, que escolhi o bolso esquerdo, o bolso da bolsa, o bolso da verdade, debaixo do qual palpita o coração) era o cumprimento do primeiro preceito da célebre condicional; era a minha mão aberta para receber cento e cinquenta contos de réis.
Eu não compreendo que haja coisa mais suave do que ser constitucional para receber dinheiro.
Pobre Constituição! fazem de ti o que querem: és tudo e nada, meio e fim, pão e pau!
Serves de isca para os crédulos, de anzol para os velhacos.
És salva-vidas com que conta a mestrança da nau do Estado para o caso de naufrágio, e fojo onde cai o povo que conta contigo nos tempos normais.
Serves para se amassar o bolo que muitos jeitosos apetecem e comem; e para se dourar a pílula que o respeitável público engole.
Deves estar envergonhada do papel que te fazem representar; esconde-te, Constituição!
Livrinho encadernado em veludo verde, fica aí no bolso: o teu lugar é aí mesmo: tu és como um vidrinho de cheiro ativo que se traz de reserva para se aplicar ao nariz nos casos de síncope, ou de ameaças de ataque de cabeça: fica onde estás, e fica bem quieta, porque deves aparecer somente nos casos de perigo: tu és como Nossa Senhora dos Navegantes, a quem os pilotos e os marinheiros recorrem só nas horas e nos dias de tempestade
Fica aí quieta e não te movas: desengana-te; tu pensas que és bela e sábia; mas não passas de vaidosa.
Escuta: para teu ensino eu vou dizer o que és e o que não és: aprende; mas depois de aprender, dorme, porque o teu sono é uma condição essencial da marcha regular dos negócios públicos, sempre que a minha escola e os meus mestres os dirigem.
Escuta:
Tu pensas que ainda vives, e sempre foste defunta.
Tens balda de sábia, e não podes manter a pureza dos teus preceitos.
Julgas-te bela, mas és toda de goma elástica, e não há autoridade que não te decomponha os traços aos empuxões que cada qual delas te dá.
Presumes-te de eloquente e santa, mas o és somente como S. João, quando pregava no deserto.
Crês que és um monumento, e não passas de uma escada.
Ufanas-te de ser bandeira, e de ordinário és somente capote.
Blasonas de ser pura, e és violada impunemente por qualquer inspetor de quarteirão.
Queres passar por tábua de salvação, e desconfio que apesar do teu pretendido poder, estás correndo o risco de dar à costa.
Dorme, pois, oh donzela ficção, dorme, inocente enganadora do povo, dorme poema em 179 estrofes, com um canto adicional em 32; dorme, oh maromba de volantins políticos! arca santa que tantos têm profanado! rainha escrava de executores perjuros, dorme! deveras que deves dormir, porque dormindo és sempre ilusão que aproveita, e não atrapalhas o domínio e a marcha dos meus correligionários políticos, e acordada e se pudesses falar, bradarias contra a degeneração do tal sistema de governo que criaste, e contra o aviltamento da nação que presumiste haver nobilitado.
Importuna vaidosa! dorme aí no bolso do meu paletó, como dormes sofismada, mentida, adulterada em sete pastas, cujos nomes não digo, não em atenção a ti nem às pastas, mas pelo respeito e veneração que tributo aos empastados de todos os tempos.
Dorme, pois, no bolso do meu paletó!
Para mim basta que esteja acordada a prima Xiquinha, que vale mil vezes mais, do que a Constituição do Império, pelo menos nas circunstâncias em que me acho.
Porque, olha; graças ao sofisma, é suficiente que tu estejas no meu bolso, para que eu receba a minha herança de cento e cinquenta contos de réis, e portanto receberei o dinheiro, não por ti, mas pelo sofisma.
E para que eu conquiste os cem contos da terça da Xiquinha, ainda tenho trabalhos a vencer, paixão que fingir, laços que armar, e diabruras a fazer.
Tu estás no meu bolso, e a Xiquinha apenas no meu cálculo: tu és um problema resolvido, e a Xiquinha um problema a resolver: tu és uma defunta viva, e a Xiquinha uma viva que eu não admito que seja defunta.
Tu és cento e cinquenta contos que são já meus e a Xiquinha é cem contos de réis que ainda não o são.
Dorme pois no bolso do meu paletó, dorme aí para sempre; porque desse modo nunca me afastarei de ti, e cumprirei plenamente um dos mais graves preceitos do meu finado Tio.
Estas considerações fiz eu, enquanto completava o meu toalete, e acabado este, olhei-me ainda uma vez
no espelho, retorci as pontas do bigode, corrigi um defeito do penteado, ajustei a gravata, achei-me encantador, saí do quarto, e entrei na sala onde já estava reunida a parentela toda.
Ninguém mais chorava; somente havia em todos os semblantes aquele ar de tristeza que era pela decência imposta à situação.
Apertei as mãos de todos os parentes e com um certo que de especial a mão mimosa da Xiquinha, que ou não percebeu ou fingiu não perceber a especialidade do aperto.
Enquanto esperava pelo almoço empreguei muito utilmente o meu tempo, conversando grave, mas amigavelmente com a melhor das minhas tias, isto é, com a mãe da terça deixada por meu Tio.
Excelente senhora! reunia as duas mais apreciáveis condições para mãe de uma moça que se pretende namorar: era surda e tinha a vista curta; como porém não há quem seja perfeito neste mundo, minha tia falava como se fosse ela só três dias a falar! era péssima recomendação para sogra; mas nas circunstâncias em que me achava o senão me aproveitou; porque, durante os seus discursos observava eu a minha calculada noiva.
Não que para os meus projetos de casamento a beleza da noiva fosse condição indispensável; mas indisputavelmente rico dote e mulher bonita são dois tesouros a um tempo.
A Xiquinha contava vinte e um anos, achava-se na idade do maior viço da formosura, e também na do maior empenho por laçar marido: esta condição animou-me muito; porque ela a querer laçar e eu a querer ser laçado, tínhamos metade do trabalho vencido para nos entendermos.
Vou descrever a minha noiva.
Todos sabem que isto de descrições é conforme: cada qual descreve com as tintas, e com as imagens da sua ciência, da sua arte, ou do seu ofício.
Eu podia fazer e completar o retrato da Xiquinha em três palhetadas, dizendo, é linda, elegante e engraçada; mas em matéria de descrever senhoras, a concisão é para elas falta de respeito e de cortesia; vou pois, retratar a minha noiva com toda a poesia dos meus sentimentos e com as imagens do ofício ou meio de vida que pretendo ter.
A Xiquinha estava, como toda a parentela, vestida de luto fechado: exprimia a dor profunda do coração naquela cor negra do vestido: em mim também as calças, o paletó e a gravata exprimiam o mesmo sentimento; mas ainda bem que ninguém via os nossos corações escondidos nas suas caixas torácicas: a sociedade civilizada não tem nada mais que inventar em matéria de enganos e de hipocrisia! mentimos aos vivos sem dó nem consciência, e até muitas vezes mentimos aos defuntos, enrolando o corpo em roupas de um luto que nem por momentos nos entrou no coração,
O corpinho do vestido da Xiquinha trazia umas pregas tão bem feitas e com tanta arte dispostas que apanhei-lhe escondido nas tais pregas a peta do sentimento: era ainda por isso mais formosa: pareceu-me um daqueles anjos da dor com que o herdeiro de um parente rico faz ornar o túmulo do excelente finado, anjinho feito de pedra e com as mãos cobrindo os olhos, sem dúvida para ninguém ver que não chora.
A minha noiva se penteara a capricho: afetara nos cabelos negros e bastos um abandono e um desdém que eram o resultado da mistura de todos os penteados que estavam então em moda; e nessa desordem dos cabelos anelados aqui, lisos ali, riçados em um ponto, retorcidos em outro, caía ainda um buliçoso e belo caracol de madeixa que chegava a tocar-lhe o peito: nos detalhes o penteado era de uma desarmonia revolucionária; mas no seu conjunto achei-o encantador: a hábil moça supunha talvez que o tomariam por emblema da incúria que acompanha a dor e o luto; eu porém encontrei nele eloquente emblema da política moxinifada, da política poliglota; poliédra, polimita e politudo que tem incontestavelmente por si a maioria ou mesmo a totalidade da nação; porque sendo a combinação de todas as políticas opostas de todas as aspirações mais divergentes, é uma política que contém um pedaço de política de cada um, e não sendo exclusivamente de nenhum, é de todos, e portanto deve ser a que tenha em seu apoio a nação inteira: é uma política sublime! desordenada, absurda nos seus detalhes; mas no seu conjunto estupendamente digna dos estadistas meus mestres, bem pensada, sábia e enfim tal e qual o penteado da Xiquinha.
Vejo que gastei muito tempo com o vestido e o penteado: vou resumir a descrição, aliás não chego hoje aos pés da Xiquinha.
Pela sua cor a interessante moça não representa tipo algum com perfeição, e pureza; a sua cor é uma encantadora mistura de claro — e moreno-rosado — e pálido; liga ou coalizão de quatro cores diferentes, que não dão em resultado cor alguma franca, e positiva; é finalmente assim como a cor de um ministério híbrido, que é a cor mais bonita que se pode imaginar. Tem a estatura alta e elegante, como a posição social de um milionário: seus olhos são belos, langorosos, enternecedores, como os do deputado da maioria que tem rasca no orçamento e que contempla o ministro seu protetor: a sua boca tem sorrisos de tantas significações, o seu rosto expressões fisionômicas tão eloquentes, tão variadas, tão prontamente mudáveis, como a boca e o rosto de um frade que quer ser abade, de jesuíta que procura entrar com pés de lã em país que lhe fechara a porta, ou de guarda-roupa que morre por ser viador, apesar de coxo, ou por subir a camarista, apesar de cego e surdo; mas conforme vi depois esse mesmo rosto da Xiquinha em horas de desilusões e de cólera descompunha-se em horríveis contrações, como a fisionomia da oposição em dia de dissolução da Câmara: o seu pescoço, o seu colo de Cisne (o Cisne é aqui de obrigação) é garboso, e alto, como o de um banqueiro que está em vésperas de fazer ponto, e ainda calcula aumentar o número dos seus credores; por baixo da camisinha de gaze preto adivinhavam-se os cândidos e entonados seios do ladrão da prima palpitando anelantes, ardendo em férvidos desejos, como um candidato à cadeira vitalícia de senador, o que conseguindo entrar na tríplice, suspira, e torna a suspirar, presentindo chegado o dia da escolha: ela tem a cintura fina, como a metafísica do jornalista que escreve por conta do governo; seus braços são tão perfeitamente torneados, como os cálculos da despesa pública, que saem do tesouro para o corpo legislativo; suas mãos e seus pés são tão pequenininhos, como a ciência política dos nossos estadistas; sua voz tão suave e harmoniosa, como a de uma atriz que fala e namora ao empresário do seu teatro; e o seu andar tão mimoso e seguro, como o de um ator, digo mal, como o de um augusto digníssimo que é também conselheiro de Estado, que ontem fazia oposição, e
que hoje vai à casa do chefe do ministério pedir uma sinecura para seu sobrinho.
A Xiquinha é portanto, sem contestação, formosa, resplendente: um poeta a chamaria Hebe, Aurora, Vênus, etc.: para mim ela é Ceres, a deusa das messes, que ensinou os homens a cultivar a terra para terem dinheiro, ou coisa que valia dinheiro, e que foi mãe de Plutus, o deus das riquezas.
Encontro no físico da Xiquinha perfeitas imagens de grandes verdades observadas na nossa vida social e política: o seu caráter moral há de corresponder aos seus caracteres físicos: eu creio e muito nas teorias de Lavater: juro por Lavater que a Xiquinha é estadista: era a mulher que me convinha: sinto-me apaixonado até às pontas dos cabelos.
Anunciou-se que o almoço estava servido.
À mesa deram-me o lugar de honra, ficando a prima Xiquinha ao meu lado direito. Notem bem, como aquela gente, apesar de simples e rude, instintivamente reconhecia, e respeitava as proporções da herança legada por meu finado e respeitável Tio: em primeiro lugar estava eu, isto é, cento e cinquenta contos de réis; depois de mim a Xiquinha, isto é, cem contos de réis; nem valera à prima a cortesia devida sempre ao belo sexo: não há preceito de cortesia que faça esquecer um excesso de cinquenta contos na comparação de duas heranças.
Mas para mim o que então estava em discussão obrigada, exclusiva era o almoço: sou homem de ordem, e nunca darei lugar a que no parlamento me chamem à ordem.
Durante o primeiro quarto de hora ocupei-me somente, e como devia, dos direitos muito respeitáveis da minha barriga: comi quanto pude, e sem voltar os olhos nem para a direita, nem para a esquerda: quando finalmente satisfiz com inteira plenitude o meu apetite, fiz ainda apenas uma pausa de suspensão; porque nesse quarto de hora devorara os sólidos, e logo depois me seria preciso completar o almoço, bebendo os líquidos, pois que contava como infalíveis o café e o leite.
A minha pausa de suspensão foi consagrada à Xiquinha.
Era de direito: depois da barriga o coração; depois do almoço o meu amor ardentíssimo.
— Prima Xiquinha, disse-lhe eu; a senhora não comeu nada!
Ela fez um movimento e olhou-me admirada; depois murmurou quase de mau modo:
— Comi demais... meu... senhor.
Reconheci-me por estúpido em matéria de conversação com senhoras: aquele admiração da prima sem dúvida proveio de lhe falar eu em comer logo à primeira vez que lhe falava! é o erro do exclusivismo, do absolutismo de todas as escolas, e de todos os sistemas: eu sempre penso, que não há quem não anteponha a tudo a situação farta e portanto deleitosa do seu estômago. Esquecera-me que é regra de cortesia fazer de conta que as senhoras vivem sem comer, ou que comem como pombas rolas.
Quis corrigir a minha rudeza, e tornei-lhe:
— Enfadou-se, prima? juro que nunca a tive por gulosa... e hoje ainda menos, que...
A Xiquinha interrompeu-me:
— Não foi por isso; disse-me...
— Então porque?
— Pela mudança no modo de tratar-me dantes você... perdão... o senhor tratava-me por você, e me chamava Sinhá-Xica, e agora me chama senhora, e prima Xiquinha: ainda prima Xiquinha pode me ser agradável; mas senhora!...
— Abençoado o erro que cometi pelo castigo que recebo! respondi; mas, tantos anos separados, vim encontrá-la em condições, que podiam exigir o esquecimento das dulcíssimas e mútuas relações da infância.
— Não é razão para mim: na Europa muda-se talvez muito com a idade e com a ausência, e esquecem-se, por isso talvez, os laços da amizade e do sangue: nós que não saímos do Brasil, somos sempre selvagens, escravos dos nossos prejuízos e conservamos intactas nossas afeições, e indeléveis as nossas lembranças dos primeiros anos...
— Sem discutir e sem desculpar-me confesso-me criminoso, e peço perdão: em sinal do meu arrependimento pergunto-lhe: você me perdoa?
— Sim; respondeu ela com um leve sorriso: tratando-me de novo por você, lavrou o seu perdão sem precisar de despacho.
Eu começava a sentir-me pequenino, insignificante, uma coisa nenhuma diante da Xiquinha.
— Ainda bem, tornei-lhe; tive medo de lhe ter parecido grosseiro quando lhe falei em comer; realmente eu não devia começar por esse assunto, dirigindo-lhe a palavra.
— Porque não? eu creio que vinha até muito a propósito falar desse assunto à mesa do almoço.
— Você quer desculpar-me, prima; eu porém cada vez reconheço mais o meu desazo: comer é uma necessidade indeclinável; mas é também de regra que não se aluda a esse cuidado, falando-se a uma senhora, principalmente, sendo ela jovem, bela e mimosa.
— Outra vez porque? comer é o primeiro cuidado da inocência: os passarinhos almoçam à luz da aurora,
e as crianças, que ainda são anjos, pedem pão e doce o dia inteiro.
— Prima, juro-lhe que estamos mais de acordo, do que talvez supõe.
— E eu lhe juro que não suponho; porque já tinha e tenho a certeza disso.
— Como?... perguntei.
E correndo a vista pela mesa, pareceu-me que alguns olhos desconfiados nos observavam.
— Creio que reparam em nós, prima; murmurei-lhe ao ouvido.
A Xiquinha fez com os ombros um movimento indicador de soberana indiferença, como se olhasse com desprezo para aquele respeitável público que almoçava conosco, e respondeu-me no mesmo tom, com que falara até então:
— Escute: por mais de uma vez nosso Tio conversou comigo sobre as suas ideias, suas opiniões, e seus cálculos de futuro: nosso Tio não aprovava o seu modo de pensar, era porém desculpável, como velho aferrado a princípios que abraçara com cego entusiasmo na mocidade: entretanto, primo, você pode acreditar, que nós as senhoras compreendemos instintivamente e muito melhor do que os homens certos sistemas...
— Continue, prima Xiquinha.
— Eu conheço, por exemplo, as suas ideias filosóficas relativas à necessidade material e moral do comer, e nós as senhoras, embora injusta mas felizmente excluídas da vida política, damos na prática material da nossa vida a mais sábia lição moral aos homens filósofos e políticos: nós à mesa dos convidados ao banquete, e até à mesa da família apenas tocamos com os lábios em uma azinha de frango; mas
antes do almoço ou do jantar regularmente servidos, comemos tanto quanto é preciso, embora às escondidas, para satisfazer as exigências da natureza. A lição é eloquente e sábia aplicada à filosofia e à política: cumpre comer o mais possível atrás da porta da despensa, e de inteligência com os cozinheiros, e ostentar sobriedade ante os olhos profanos, ou diante do público.
Fiquei de boca aberta! levei um quinau dobrado; mas comecei imediatamente a presumir que minha prima Xiquinha estava já tão apaixonada por mim, como eu estava apaixonado por ela.
A prima Xiquinha era um Machiavel metido em saia de balão, e com sapatinhos de duraque preto.
Todavia era possível que eu me estivesse enganando em minhas apreciações: a mulher é uma charada que ainda não achou quem a decifrasse: a Xiquinha, além de instruída, era experta, como um demandista velho, e convinha que eu não me expusesse a algum triste desengano. Lembravam-me as nossas desinteligências e os nossos ciúmes da infância: quem me assegurava que eu não tinha uma inimiga disfarçada ao meu lado direito?... os meus cento e cinquenta contos eram por certo uma garantia da consideração e do respeito da humanidade; mas a natureza da mulher não é totalmente humana; ela reúne em si e em partes iguais alguma coisa do céu, alguma coisa da terra, e alguma coisa do inferno, sopro de Deus, costela do homem, e tentação da serpente.
Considerando assim, resolvi-me a fazer nova experiência.
A ocasião veio logo, acudiu imediatamente: eu estava em maré de boa fortuna.
Serviu-se o café com leite, vi diante de mim um enorme, rubicundo e provocador pão-de-ló: recordei-me do logro que a Xiquinha me pregara em pequena: talhei o pão-de-ló, e fitando a prima com expressiva intenção, perguntei-lhe:
— Ainda gosta muito de pão-de-ló?
Ela sorriu-se e respondeu-me:
— Sempre.
— E sempre, como dantes?
— Com uma notável diferença.
— Qual?
— É que hoje não compreendo, como se pode comer um pão-de-ló inteiro, logrando o sócio que ajudou a prepará-lo. Cada idade tem suas malícias: há muito que perdi as minhas de criança traquinas: fui muito estouvada em menina; mas... creio que depois de moça até fiquei tola.
— Como porém... cada idade tem suas malícias...
— Segue-se que devo ter algumas próprias da mocidade; mas apesar de tola, sei bem que não é a mim que cabe o empenho de descobrir minhas inocentes malícias de moça...
— Permite pois que eu a observe e a estude?
— Tenho medo de desagradar-lhe: observando-me, achar-me-ia feia, estudando-me reconhecer-me-ia frívola, e logo abandonando a ideia de descobrir as minhas malícias, não trataria mais por você a frívola, e nem mais chamaria Xiquinha a feia.
Não pude responder, porque nesse momento a parentela toda levantou-se da mesa: não sei, se a minha conversação com a Xiquinha causou impressão desagradável ou talvez mesmo revoltante aos enlutados e melancólicos parentes: pouco me importou examinar essa impressão: nenhum deles era herdeiro da terça de meu Tio.
Saí da mesa do almoço com o estômago repleto de excelente e farta alimentação, e com o espírito engolfado em um oceano de entusiasmo pela prima Xiquinha.
Que almoço e que mulher! Galinha de canja, carne de vitela de primeira qualidade, peru recheado a fazer vontade de almoçar três vezes, fiambre primoroso, lombo de porco a pedir-se mais, e arroz de forno por concomitância, além dos pratos de detalhe, incidentes naquela grande oração culinária! Comi de tudo e muito: em sua vida meu Tio nunca me dera almoço igual: era um perigo para a sensibilidade almoçar assim na sua casa e depois da sua morte.
E que espírito! que eloquência da prima Xiquinha! Victor Hugo escrevendo versos, Alexandre Herculano escrevendo prosa, Humboldt descrevendo o céu, os mares, e a terra, Platão imaginando a república, Solon e Lycurgo legislando para suas pátrias, Machiavel dogmatizando sofismas e a polícia do Brasil reformando por sua conta e risco a Constituição e as leis do Império, ficavam todos muito abaixo da eloquência com que a Xiquinha me havia surpreendido no proêmio ligeiro e improvisado das suas ideias políticas tão habilmente disfarçadas.
Saí da mesa com a barriga cheia, e com a alma cheia: duas enchentes que realizam a beatitude humana neste mundo.
Estômago e alma pediam-me tempo para digerir a alimentação recebida: sob o pretexto de despachar um portador que fosse procurar na estalagem a Carteira de Meu Tio, separei-me da companhia; despachei o próprio, e por distração fui observar como estava depois daquela viagem de quatro dias (dois de ida e dois de volta) o ruço-queimado.
Atravessando o terreiro, todos os escravos me tomaram a bênção com sinais de requintado respeito; os cães da casa festejaram-me; e fui encontrar o ruço-queimado, que em toda sua vida pastara sempre desprezado no campo, recolhido então à estrebaria recentemente varrida, tendo a manjedoura atopetada de capim fresco, notando-se ainda pelo chão vestígios de boa e já devorada ração de milho.
O inteligente e grave animal, sentido os meus passos, fez uma pausa de suspensão no trabalho suavíssimo de que se ocupava, estendeu para o lado da porta da estrebaria o seu enorme pescoço, olhou-me, inclinou três vezes a cabeça, como se me cumprimentasse; mas cedendo ao instinto, logo depois continuou a comer o seu capim.
Frui os gozos dessa estrebaria, ruço-queimado! come o teu milho e o teu capim! cavalo do principal herdeiro de meu Tio, em tua qualidade de cavalo, tu és uma peça muito ordinária, e merecerias antes cangalhas do que selim! mas em honra e consideração de teu dono estás sendo objeto de cuidados, que nunca recebeste em tua vida já bem longa: goza e come! eu te saúdo, oh ruço-queimado! porque hoje admiro a imagem do encanto da riqueza em ti, da maior parte dos homens nos escravos que te deram milho e capim fresco, e do mundo na tua estrebaria.
Ah! quantos ruços-queimados de dois pés passam vida milagrosa e felicíssima na terra, porque seus pais, ou seus padrinhos, ou seus protetores estão nas condições, em que me acho depois que se abriu e foi lido o testamento de meu Tio!
Ruço-queimado! és feio, velho, e não prestas para nada; mas, ainda assim, levanta a cabeça, e espera quem sabe, o que ainda te prepara a fortuna?...
Positivamente asseguro que não és o cavalo que Bouffon descreveu; a fortuna porém tem caprichos; e não há quem possa determinar até onde pode chegar e subir um cavalo.
Já houve um cavalo que chegou a senador do império romano: o exemplo ficou na história, e o exemplo é como a semente, que tem o dom da reprodução.
Convenho em que a extravagância de Calígula incomodou o amor próprio dos animais homens; porque o senador de Calígula foi mesmo cavalo de quatro pés, cavalo-cavalo.
A coisa esteve no nome, e na impossibilidade física de sentar-se o bicho em uma cadeira parlamentar; não esteve porém na capacidade intelectual, nem nas condições morais do cavalo.
A' parte o nome imposto pelos naturalistas e pelo vulgo, eu te afirmo, ruço-queimado, e fica sabendo para tua consolação e teu orgulho, que tem havido muitos homens importantes, que se devem reputar feitos à tua semelhança, e que todavia se chamam homens.
Em consideração a ti, meu cavalo, vou examinar os pontos de semelhança, em que fraternizais tu e essas notabilidades.
Tu não tens o dom da palavra, e é de supor, ou deve-se admitir por hipótese, que tens o dom de rinchar: eles, as notabilidades a que me refiro, se podem falar, nunca falam, e apenas gritam: — apoiado! ora entre um rincho de cavalo, e um apoiado de quem nunca diz outra coisa, não descubro diferença que valha a pena.
Tu recebes freio e selim e te deixas cavalgar, e carregar como podes com o cavaleiro, e às vezes com algum outro à garupa: eles sujeitam-se ao mesmo cativeiro; abrem a boca para receber o seu freio especial, oferecem as costas ao selim da mesma natureza; e são cavalgados às vezes somente por seu dono reconhecido; mas às vezes também levam a condescendência muito além da tua; porque tu em caso extremo carregas um no selim e outro à garupa, e eles têm costado tão grande, e tanta força cavalar, que carregam até sete cavaleiros de cada vez!!!
Tu gostas de comer capim e de roer milho, e eles também têm seu capim e seu milho e comem, como o diabo.
Tu tens cauda que serve para espantar as moscas e os insetos que te perseguem, e às vezes como um abano para te refrescar o corpo e eles também têm cauda mais ou menos comprida, e em muitos enorme; cauda que não compõe, que não orna como a tua, cauda que envergonha, e que assinala em uns fraquezas inconfessáveis, em outros crimes que ficarão impunes.
Eis aí da cabeça à cauda quatro pontos de semelhança em que não ficas abaixo de certas notabilidades, e a elas pelo menos te igualas.
Examinarei agora as diferenças, e verás, meu ruço-queimado, que é nelas evidente a tua superioridade.
Tu andas de quatro pés, e satisfazes assim as condições físicas da tua natureza animal: és cavalo, e andas e sabes andar, como cavalo: eles andam de dois pés; muitas vezes porém moralmente se tornam quadrúpedes, e esquecendo a sua natureza e dignidade de homens, se tornam homens-cavalos.
Tu nunca destes coices, mas tens natural direito de os dar, e todos os esperam de ti, como se espera o arranhão de um gato, e a dentada de um cão; eles não são animais coiceadores; mas coiceiam, quando lhes faz conta como dez cavalos xucros.
Tu e outro qualquer cavalo-cavalo em regra não dais coices em quem vos dá o capim e o milho; e eles escoiceiam quem lhes dava o milho e o capim, desde que farejam que a manjedoura vai passar à direção de outros senhores.
Tu és dirigido pelo freio que recebes, e eles são dirigidos pelos rabichos que lhes põem: tu obedeces pela cabeça e eles obedecem pelas caudas.
Em último resultado deste exame comparativo que aliás se poderia estender muito mais, conhece-se que entre eles, e ti, ruço-queimado, a semelhança é surpreendente no procedimento, no ofício, e no modo de vida, e que a única diferença realmente sensível e real é que, debaixo do ponto de vista físico, eles são bípedes e tu quadrúpede.
Sois diferentes pelos pés e semelhantes pela cabeça: a física vos separa; mas a moral vos iguala.
Tu és o que és — cavalo-cavalo.
Eles são o que não deviam ser — homens-cavalos.
Tu és melhor, mais digno do que eles.
Levanta a cabeça, ruço-queimado! rincha uma vez por exceção; mas rincha, solta um rincho-trovão, um rincho de escárnio lançado a essa súcia humana degenerada.
Ah! esquecia-me um ponto muito importante de diferença entre eles e ti: aqui o consigno.
Eles mais dia menos dia são despedidos pelos alugadores cansados de matar-lhes a fome cavalar; e caem no esquecimento, que é o justo castigo dos homens-cavalos, e tu, ruço-queimado, nunca serás esquecido, porque quando morreres, hei de te mandar empalhar, e te remeterei para o Museu Nacional para perpetuação da tua memória.
Acabo, ruço-queimado, de dar-te seguros fundamentos para o teu orgulho; não quero porém que sejas vaidoso, e agora te digo: — abaixa a cabeça que te mandei levantar; porque há homens que são superiores a ti, embora sejam homens-cavalos.
Há homens que são superiores a ti; porque têm inteligência, ilustração, ciência; porque devem à natureza talento brilhante, e ao estudo conhecimentos, em alguns, muitas vezes profundos.
E entretanto superiores, muito superiores a ti, são homens-cavalos, recebem e quase que pedem freio e selim, e deixam-se cavalgar.
Mas são cavalos aristocratas: escolhem o cavaleiro e o dono; têm orgulho, vaidade da montaria; mas por fim de contas são em todo caso homens-cavalos.
Eu, para mim, ruço-queimado, julgo estes ainda mais nocivos que os outros: os outros quase que não têm razão de ser, positivamente não exercem influência na sociedade: animais de carga, fazem o seu ofício, vivem fazendo rir, e morrem sem que alguém dê por falta deles; são coristas muito insignificantes de ópera italiana, de quem os camarotes e a plateia não fazem caso; os outros porém são cantores de primo cartaz, o público ouve-lhes as árias, deixa-se levar pelas volatas, trinados e tenutas de suas gargantas magistrais, ilude-se com eles, bate palmas e aplaude, pensando que são gênios da sua espécie, que o exaltam, que o honram, que o nobilitam, servindo ao progresso e à civilização, e no meio ou no fim da peça desaponta, reconhecendo, que bateu palmas e aplaudiu em vez de artistas conscienciosos a homens-cavalos e nada mais.
Seja o cavaleiro peão ou rei, o animal em que cavalga é sempre cavalo.
E por consequência o meu ruço-queimado vale mais, merece mais do que todos eles; porque um cavalo, não se avilta por isso; e os homens, ainda os mais inteligentes e ilustrados que se abaixam a fazer o papel de cavalos, desonram-se, o que é o menos; mas além disso comprometem o cavaleiro, quase sempre inocente, o que é o mais.
Come portanto o teu milho e o teu capim, ruço-queimado, come-os a fartar, come-os com a certeza de que há por esse mundo muitos ruços-queimados e não fazendo o bem que fazes, fazem o mal que não fazes.
Cavalo-cavalo, tu és melhor do que todos os homens-cavalos.
Fiz estas reflexões em pé na porta da estrebaria, fazendo-as porém (é coisa célebre!) compreendi, calculei todas as vantagens, que pode fruir o homem, quando combina as duas condições de cavalo e cavaleiro, e atendendo aos seus interesses, se resolve a ser hoje cavalo, para ser cavaleiro amanhã.
O selim e o freio e os braços no chão para um homem ser cavalo, não poucas vezes são degraus por onde ele sobe às grandezas sociais.
Ah ruço-queimado! eu também me parecerei contigo! para ganhar e subir não hesitarei em ser homem-cavalo.
O costume faz lei.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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