Universo da obra
Universo da obra
Como resumo em poucas páginas a história de três meses dedicados ao dinheiro e ao amor; dou notícias da Carteira de Meu Tio, que ficara junta aos autos; do compadre Paciência processado e na cadeia, e da mula ruça digna de melhor fortuna: faço o justo elogio do moleque Platão, que é raro sem ser o único no seu gênero: admiro a sabedoria da Xiquinha, com quem me caso, e a quem os padrinhos do casamento em vez de dar, tomam a bênção: há banquete, e não digo quanto comi; segue-se o baile, digo com quem a Xiquinha dançou: à meia-noite dão-nos — boa noite —: eles foram-se, ela foi-se, eu fui-me, e fica na sala minha tia com a cara que lhe competia no caso.
Da morte de meu Tio a um outro acontecimento muito importante para a minha vida, acontecimento fácil de adivinhar, mas de que me cumpre dar conta, correram três meses que foram consumidos principalmente em duas grandes e principais tarefas: — no fácil processo do inventário do espólio do finado e na plena execução do seu testamento; — e nos meus cultos, na minha adoração à Xiquinha. Esta segunda tarefa, cheia de mil episódios mais ou menos interessantes, ainda admitida a hipótese de que a sua recordação tivesse mil encantos para mim, pareceria muito banal ao público para quem escrevo: são ou foram os mesmos episódios que enfeitam a história de todos os namores que precedem aos casamentos: os homens casados por amor verdadeiro ou fingido conhecem perfeitamente esse romance de milhões de edições: os homens solteiros que não o conhecem, senão por ouvir dizer, tratem de casar-se quanto antes para ter ideia perfeita da obra. Estou seguro de que as moças e também as velhas solteiras aprovam por unanimidade este conselho.
Ao público pouparei descrições, conferências, leitura de bilhetes amorosos, e todas as mil niilidades que são grandes coisas em matéria de paixão a ferver, que pela minha parte simulei quanto, e como pude.
Resumirei pois a história desses três meses em poucas e breves páginas.
O próprio que eu despachara em procura da Carteira de Meu Tio esquecida por mim na estalagem da vila de... voltou no fim de poucos dias, trazendo-me as mais desagradáveis notícias.
A Carteira de Meu Tio fora apreendida pela polícia da vila, e junta ao processo instaurado contra o compadre Paciência, cujas apreciações políticas, e juízos sobre o governo e as autoridades lhes faziam enorme carga: entre outras testemunhas fora o Marca de Judas chamado a jurar no processo e depôs, além de muito mais, que o réu o convidara instantemente para entrar em uma revolução que devia ter por fim destruir a forma do governo estabelecido.
Em resultado ficara o compadre Paciência na cadeia e processado o condenado à prisão e livramento pelo crime de que trata o art. 85 do Código Criminal, pedindo o promotor no competente libelo que fosse imposto ao réu o grau máximo da pena respectiva, isto é, quinze anos de prisão com trabalho.
E como é de regra que em cima de queda couce, o escrivão perseguidor do compadre Paciência, levou a sua vingança até à pobre mula ruça, e não lhe sendo possível ajuntá-la aos autos, como fizera à Carteira, conseguiu que a autoridade a mandasse arrematar para se aplicar o produto à alimentação do preso, e lá passou a histórica mula ruça ao domínio de um meirinho (protegido do escrivão), que a arrematou com sela e freio por vinte e quatro mil réis.
Sic transit gloria mundi!
Assim pois três calamidades: o compadre Paciência processado e na cadeia; a mula ruça abatida, aviltada, reduzida à montaria de meirinho; e a Carteira de Meu Tio junta aos autos!
E sem dúvida algum abelhudo pediu por certidão a matéria contida na Carteira de Meu Tio, e eis explicado o fato abusivo da sua publicação, contra o qual protesto, e quando tiver tempo hei de tirar a limpo exigindo de todos os editores as competentes indenizações.
Realmente a pior das três calamidades era a prisão e o processo do compadre Paciência: era humano, moral, até mesmo justíssimo que eu corresse em seu auxílio; achava-me porém de tal modo ocupado com a minha herança e com a minha noiva, que me esqueci tão completamente do pobre homem, como se nunca o tivesse conhecido em minha vida.
Não me condenem: as duas preocupações do meu espírito eram dinheiro e mulher; dinheiro que levanta a cabeça do homem, e mulher que o faz andar com a cabeça à roda: perdoe-me o compadre Paciência: positivamente eu não podia ter cabeça para ocupar-me dele.
E demais, quem o mandou tirar bulha com o escrivão? que lhe importava a instituição do júri?... adorava-a? adora-a? pois então espere na cadeia pela influência benéfica do júri, e experimente-a no banquinho dos réus: foi muito bem feito.
Além disso, pensando agora friamente, acredito que foi para mim uma fortuna o ver-me livre do compadre Paciência, que se havia agarrado à minha pessoa como um conselheiro obrigado, um Larraga constitucional, um Degenais político: não pode haver sociedade mais incômoda, massante, nociva para quem calcula com o governo e o Estado com o fim de erguer o monumento do seu futuro, e ser figura importante no teatro oficial, do que a companhia incessante de um maníaco, que a todo momento nos arranha os ouvidos, falando de honra, dever, consciência, verdade e de outras filigranas da moral romanesca dos poetas: bom companheiro e bom conselheiro é somente aquele que está sempre de acordo conosco.
Lembra-me que no meu último ano de estudos de preparatórios frequentei com assiduidade a casa de um colega, que, longe da família, vivia independente, e era servido por um moleque impagável. O moleque chamava-se e devia chamar-se Platão: grande filósofo o diabo do crioulo!
O meu amigo apaixonou-se por uma moça, pediu-a em casamento e o pai da rapariga negou-lha: exasperado pela recusa concebeu o projeto de raptar a namorada, que estava pronta a fugir com ele: na véspera do dia marcado para o rapto, surgiram apreensões e dúvidas no ânimo do estudante e teve ele a excelente ideia de consultar o moleque:
— Platão! disse o estudante; eu adoro uma moça que também me adora: pedi-a em casamento, e o pai deu-me em resposta um não redondo: estou com vontade de furtar a rapariga: que me aconselhas tu?...
Platão respondeu:
— Furta, nhônhô.
— Lembra-me, porém, que se eu a furtar, a polícia me perseguirá, e poderá apanhar-me, e pôr-me na cadeia: que dizes? Platão respondeu:
— Não furta, nhônhô.
— É assim; mas eu tomei já medidas seguras: tenho prontos bons cavalos, e furtando a moça, ponho-me com ela a panos, e não há polícia capaz de pôr-nos a mão: que achas?
Platão respondeu:
— Furta, nhônhô.
— O que porém não sei, é como hei de viver muito tempo assim fugido com a rapariga: não sou empregado e tenho mesada mesquinha, que talvez me falte, se eu praticar, o que intento: é um embaraço terrível: como pensas?
E Platão respondeu:
— Não furta, nhônhô.
— Mas eu não posso resistir à paixão, e quero furtar a moça...
E Platão respondeu:
— Furta, nhônhô.
— E se meu pai, que não é de brinquedos, além de suspender-me a mesada, mandar assentar-me praça?
Platão respondeu:
— Não furta, nhônhô.
Estupendo moleque! este Platão é o tipo dos melhores e mais sábios conselheiros, que são aqueles que nos acham sempre razão, espécies de adjetivos que concordam com os seus substantivos em todos os gêneros, em todos os números, e, o que é sublime, em todos os casos.
Os conselheiros devem ser assim: é verdade que, sendo tais comprometem muitas vezes os aconselhados; mas que importa isso?...
Eu sei que o moleque Platão não é no mundo o único no seu gênero: sei que há por aí uma ou outra raridade do mesmo molde, e do mesmo gosto; são porém raridades, andam muito por cima, e não chegam para mim.
Todavia que tesouros! que conselheiros para os casos difíceis; eles, adjetivos que concordam com o substantivo em todos os casos, que conselheiros para circunstâncias extraordinárias! e para o estudo e combinação de um golpe de estado, que tesouros!
Há desses Platões raridades que não são, nem foram nunca moleques de estudante; mas que podem ufanar-se de se parecer muito com o moleque Platão pela sabedoria e pela consciência de seus conselhos.
Não tenho, não posso ter a esperança de possuir um Platão de semelhante ordem, hei de porém empregar todos os meios possíveis para descobrir, onde se acha hoje o moleque Platão, e se o descubro, o moleque é meu, custe o que custar: compro-o por todo e qualquer preço.
Quero esse moleque para meu conselheiro.
É o avesso do compadre Paciência, que fala sempre a verdade, não hesita em contrariar as opiniões que condena, e que por isso lá está e ficará trancafiado na cadeia, enquanto o moleque Platão sem dúvida teve, que a merecia, muito diferente fortuna, e estará agora ostentando libré de cocheiro no carro de seu nhônhô, se o nhônhô ainda não caiu em alguma desastrosa estrelada, como a do rapto que projetara e que felizmente não realizou.
Esquecido portanto, e de todo esquecido ficou o compadre Paciência por mim, que só pensava e cuidava em dinheiro e mulher.
O inventário e o testamento não ofereceram dificuldades.
No mesmo dia do almoço que descrevi, e das minhas sábias reflexões feitas à porta da estrebaria contemplando o ruço-queimado, exigi que todos os meus parentes, e não três somente, fossem testemunhas, do juramento condicional, de que falava o testamento de meu Tio.
A sala estava cheia: no meio dela colocou-se sobre uma mesa o livro sagrado: reinava profundo silêncio: eu avancei grave e solenemente até a mesa, ajoelhei-me, pus a mão sobre o livro, prestei o juramento em voz alta, mas comovida, e levantando-me, tirei do bolso do paletó a defunta, e exclamei: — « Ei-la aqui! nunca me afastarei dela! a Constituição do Império vive, mora e existirá sempre sobre o meu coração! »
O enternecimento foi geral: vi duas lágrimas pendentes dos olhos da Xiquinha: tive vontade de beber aquelas lágrimas, porque, bebendo-as, beijaria as fontes.
Depois do jantar despovoou-se em grande parte a casa do finado; pois os parentes não contemplados nas verbas do testamento, puseram-se ao fresco, e desses poucos foram os que concorreram à missa do sétimo dia.
Em consciência inventário e execução completa do testamento de meu Tio podiam concluir-se em quinze dias; eu porém demorei, com habilidade e sem atraiçoar-me, o facílimo processo por mais de dois meses, e consegui até fazer acreditar em dificuldades e complicações de negócios que estenderiam a demora por muito tempo.
A minha herança fundara o meu crédito: achei dinheiro, e utilizei-me do dinheiro de meu Tio, negociei com diversos legados dos cinquenta contos repartidos, comprei-os com elevados lucros, e ganhei uma dezena de contos de réis à custa dos meus parentes mais pobres.
Realizadas estas transações, tudo correu a vapor: o testamento cumpriu-se e quem mais lucrou, fui eu.
Constou-me que alguns dos parentes pobres, a quem comprara os legados, chegaram ao ponto de chamar-me velhaco; mas para casos tais a regra já está desde muito estabelecida em regiões elevadas: o ofendido declara, que responde com o mais solene desprezo às calúnias de detratores, para quem não abaixa os olhos.
Eu creio que disse mais alguma coisa, e, se bem me lembra, repeti a contrariedade bombástica, que não sei quantas vezes tinha lido nos Anais do Parlamento: « Eu não me avilto ao ponto de apanhar no chão, onde rolam, as injúrias torpes que me são atiradas pela canalha.
A canalha compunha-se de parentes meus, e se eles eram, eu era, isso é positivo; há porém uma coisa muito mais positiva, uma realidade, um fato, que os homens que saem do nada, e que subiram ou estão em caminho de subir ao tudo, devem esquecer, ou pelo menos não devem reconhecer: é a sua origem.
Um toro de laranjeira que foi torneado e que se dourou, é indigno do torno e do ouro que o alindaram e enobreceram, se tem a extravagância de em suas grandezas, lembrar-se que foi pau de laranjeira.
Entre a patuleia donde se sai, e a nobreza para onde se entra deve correr um Letes milagroso que faça esquecer a procedência.
É verdade que a tal nobreza da Constituição é a da sabedoria, dos serviços relevantes, e das virtudes, e que diante da Constituição um qui quæ quod, cujo pai não passou de hic, hæc, hoc, se é sábio, benemérito e virtuoso, pode ser altamente condecorado, e titular, trazer armas na portinhola da carruagem, e (isto é duro de se roer) ostentar, dizendo em alta voz que a sua nobreza é a mais nobre de todas as nobrezas, e tanto mais se alteia, quanto mais se deixa ver a humildade do berço, e a altura a que se chegou pelos voos d'águia do verdadeiro merecimento.
Mas deixá-los falar, que são poetas, e acreditam nas teorias da defunta: um filho d'algo ainda que seja falso, como Judas, estúpido como o mais sério dos animais irracionais, tem sempre bastante inteligência, e suficiente orgulho para, quando vê passar um daqueles condecorados ou titulares, não por dinheiro que deu a preço ajustado, mas pelas condições grandiosas que enobrecem o homem muito antes do enobrecimento oficial, rir-se muito, fazer uma careta, e dizer « canalha dourada!... aquilo é um qui quæ quod filho de um hic hæc hoc »: isto é na suposição de que o filho d'algo gagueje latim; o que hoje em dia é raro.
Pela minha parte pouco me importam a nobreza constitucional de uns, e as caretas aristocráticas dos outros: sei positivamente que não sou filho d'algo: mas também não sou qui quæ quod filho de hic hæc hoc; sou e quero ser pura e simplesmente ego-mei-mihi-me-a-me, e sem plural, bem entendido, sem plural, enquanto não estiver casado com a Xiquinha.
Cumpre porém, e quanto antes, completar com este importantíssimo assunto do meu casamento, a minha história de três meses, que, no fundo altamente político, fracas ou duvidosas relações parece contudo ter com a política não só particular ou individualmente minha, mas também geral do Império, que é em suma o objeto transcendente das Memórias da minha ilustre vida, que aliás se acha ainda apenas em seu começo esperançoso.
Eu já informei ao respeitável público de que minha digna tia, mãe da Xiquinha, era surda e tinha vista curta, e agora estou habilitado para assegurar que, percebendo que eu e a filha nos namorávamos, ficou ainda mais surda, e quase completamente cega.
Há nesta nossa vida e neste nosso mundo três coisas que servem para todos os casos, e se empregam em todas as circunstâncias com perfeito cabimento.
São os seguintes:
A aguardente, que serve para o frio e para o calor, que se pode aplicar a todas as moléstias ou deste ou daquele modo, que combate as tristezas, e duplica, triplica e centuplica as alegrias, e que entra por todas as portas ou pura, ou disfarçadamente.
O diabo, comparação universal, espírito maligno que está no corpo de todos os homens e de todas as mulheres, presidindo, inspirando, e ativando os sete pecados mortais, e traquinando em todos os pecados veniais, que é vegetal, mineral, e animal, líquido, sólido e gasoso, que mora nos lares domésticos, e nas secretarias de Estado, e que, em uma palavra, tem relações tão vastas, tão altas e tão baixas, e resume tanta coisa em si, que ninguém o compreende bastante, ninguém o pode definir, senão dizendo — o diabo é o diabo.
O dinheiro, que é a aguardente e o diabo combinados e levados à última essência, o dinheiro que pode tudo, que faz tudo, que é capaz de tudo aqui na terra; que é masculino, feminino, e neutro, epiceno e comum de dois, e de três, e de cem e de mil; que é adjetivo, substantivo, verbo, advérbio, preposição, conjunção, ponto de interrogação, ponto final, e sobretudo reticências, primeira regra de jurisprudência, primeiro sistema de medicina, base de toda escola econômica, pai e mãe da indústria, do comércio, das artes, e de tudo, rei absoluto de todas as nações, o incomparável general nas guerras de todos os séculos, o grande decifrador de todas as charadas políticas, o encanto que faria rir Heráclito, chorar Demócrito, e convencer Diógenes da conveniência de trocar a sua pipa por um sorriso de Alexandre, e, que enfim, fez a mãe da Xiquinha ficar mais surda, e quase cega, como em outras circunstâncias teria o condão de fazê-la ouvir o segredo de um guarani a dez braças de distância, e de enfiar um bordão de contrabasso pelo fundo de uma agulha de cambraia.
Minha tia não perde nada pela minha conscienciosa observação: estava lendo pelo breviário universal: se a sua condescendência fora um crime, um milhão de casas de correção que houvesse, não chegavam para os criminosos.
É que o dinheiro abre a vista, e tira a vista, como faz a guerra, e acaba a guerra; como faz do branco preto e do preto branco; como faz eleições livres, muda os destinos das nações, levanta e derriba tronos, e finalmente governa o mundo cá debaixo, enquanto Deus não permite que um cataclismo político e moral aniquile o poder da aguardente, do diabo, e do dinheiro; da aguardente que perturba a razão, do diabo que tenta a alma, e do dinheiro que corrompe e que domina o mundo.
Por consequência minha tia não via, nem ouvia, e a Xiquinha e eu estávamos em maré de rosas.
Tive mil ocasiões de admirar o talento, o instinto político, embora desfigurado em outros sentimentos, e as felizes disposições da minha noiva: era uma senhora de esperanças, um espírito enriquecido de princípios refletidos e sistematizados!
Era um vulcão de amor... frio como o gelo.
Um dia estávamos juntos e quase sós, ou sós, porque minha tia se achava cada vez mais cega e mais surda; e nessa ocasião muito ocupada se mostrava com o governo de casa: conversávamos pois a Xiquinha e eu em suave confidência em um canto da sala, e veio-me à lembrança distrair-me misturando com o nosso doce sentimentalismo um ensaio de ciúme simulado.
— Quer saber? disse de repente à Xiquinha; no meio dos meus sonhos de incomparável felicidade vem às vezes uma nuvem entristecer a minha alma.
— Como se chama essa nuvem? perguntou-me ela?
— Chama-se suspeita.
— De que?
— De que não fosse eu o primeiro objeto de suas ternas afeições
de que antes de mim algum outro homem tivesse ocupado um lugar no seu coração, e talvez concebido esperanças de ser seu marido!
— Ah! pois era isso? perguntou ela sorrindo-se.
— E então é pouco? você jura que eu sou o seu primeiro amor?
— Primo, os amores contam-se de diante para trás: o primeiro amor é o último.
— Compreendo; tornei, fingindo-me um pouco magoado; não pode jurar...
— Jurar? poder, posso; mas não quero: é tão fácil jurar!
Fiz um movimento, e lancei-lhe um olhar que se não significara ímpeto de ciúme, não foi por falta de vontade da minha parte.
Ela prosseguiu sem hesitar:
— Escute: devo acreditar, que você quer e vai casar-se comigo: dizem-me que há países, onde é regra, que, realizado um casamento, nenhum dos noivos tem direito a tomar contas do passado do outro; a regra é boa; eu porém tenho outra melhor.
— Pode dizer qual?
É antes do casamento a mais ampla franqueza entre os noivos.
— Então?
— Não quero ter segredos para você: confessar-lhe-ei tudo: afeições passageiras, amores de uma hora ou de alguns dias, trocas de sorrisos e de suspiros sem consequência, sem significação para a vida, realmente não sei a conta de quantos tive dos quinze aos vinte e dois anos: prisão de coração mais apertada, atenção mais séria dada a um homem, proposição de casamento ouvida, promessa de atender ao pedido, esperança finalmente alimentada por mim com juramentos, há uma, confesso que há uma; mas uma só.
— E queria que fossem mais?
— Olhe, nestes casos uma só é raridade: eu sou rara
talvez porque tenho sempre morado na roça.
— Então
se é assim... que papel faz o meu indigno
rival
e que papel faço eu?
— Ele? o de namorado logrado: você o de preferido: não lhe basta?
— Mas porque sou o preferido, e ele é o logrado?
— Meu Deus! em tais assuntos é uma inconveniência e um erro perguntar por que.
— Embora
eu pergunto.
Devo declarar que me achava ou aturdido ou revoltado pela franqueza da Xiquinha! não compreendia naqueles momentos de revolta do meu orgulho a sublimidade dos seus sentimentos; não via, estúpido que eu tinha ficado, que ela era uma legítima representante da minha escola.
Repeti:
— Embora
eu pergunto.
Ela sorriu-se outra vez e disse friamente:
— Darei apenas metade da resposta que me pede, e estou certa de que não me pedirá a outra metade. Quero amar e ser amada; mas quero também ser feliz e brilhar no mundo: o tal meu namorado, aliás um bonito moço, é pobre, e ofuscava-me, falando-me em esperanças de riqueza devida ao seu trabalho, e à herança de um parente milionário: o trabalho até hoje não lhe deu, senão a estima de uma dúzia de amigos, e o parente milionário morreu antes de nosso tio, não deixou testamento, e ficou sem real o meu pretendente: a poesia do meu amor morreu com a morte do milionário, e portanto
Dobrei um joelho!... a luz da mais real e utilíssima verdade tocou os meus olhos... beijei a mão da Xiquinha.
— Convenho-lhe assim? perguntou-me ela.
Por única resposta tornei a beijar-lhe a mão.
Nunca mais tive, nem terei ciúmes verdadeiros ou fingidos desta moça digna do século das luzes.
No fim de mês e meio depois da morte de meu Tio não pude demorar por mais tempo o meu pedido oficial da mão da Xiquinha, e recebi em resposta, de minha Tia, três apertados abraços que em consciência eu dispensaria sem dificuldade, e da encantadora moça um sim que lhe saiu todo trêmulo por entre os lábios cor-de-rosa, e acompanhado da condicional: « se for da vontade de mamai », condicional que me fez vontade de rir, porque me lembrou a do testamento de meu tio. Ficou entre nós ajustado que o casamento se efetuaria d'aí a outro mês e meio, isto é, no fim do nosso luto, exigência pueril da mãe da Xiquinha, que escrava das ideias e dos costumes do seu tempo, quis salvar as aparências da dor que eu aposto que nem ela mesma sentia mais. Cedemos a esse capricho; mas eu também exigi pela minha parte que o nosso ajuste ficasse em absoluto segredo, e isso pela excelente razão de que a alma do negócio é o segredo, e o meu casamento era, antes de tudo, negócio.
Era fácil esperar o prazo marcado, a quem ainda se atarefava com inventário e cumprimento de legados: a adoração, o culto da minha bela noiva era para mim o mais doce lenitivo dos trabalhos aritméticos, que aliás muito me ocupavam.
Não havia mais, nem podia haver questão de ciúmes com a Xiquinha: depois do pedido de casamento vivíamos ainda em maior intimidade, e tive ensejos de aquilatar muitas vezes a sua nobre franqueza, e de apreciar a mulher que ia ser a providencial companheira da minha vida.
— Confesse, Xiquinha, disse-lhe um dia, confesse que em nossos primeiros anos você não foi minha amiga.
— Questões de frutas, de doces, e de pão-de-ló! respondeu-me ela, rindo-se.
— Não: questão de tudo; você não era minha amiga.
— Pois bem
mas havia entre nossos sentimentos uma enorme diferença.
— Qual?
— Eu o olhava com indiferença e você me aborrecia.
— Franqueza por franqueza: eu não a aborrecia, -
odiava-a: do ódio ao amor há apenas um salto... saltei: eu adoro-a.
— E a indiferença é um sentimento de transição ou para o amor ou para o ódio: eu morro por você, meu primo.
— Como porém se explica isto, Xiquinha?
—
Pergunte a si mesmo: nós nascemos um para o outro: você é a minha imagem, eu sou a sua.
— Então o nosso amor?
— Tem a sua raiz em um recente passado: nasceu com a morte de nosso Tio: compreendemos ambos que um é o complemento do outro para a realização das glórias do futuro.
— Xiquinha!
— É o primeiro dos amores que têm sólidas garantias de resistir ao tempo e de perpetuar-se até a morte!
— Sim! sim! e será um amor eterno! um amor que nem o sopro da morte poderá apagar!
— Menos essa, meu primo: seremos leais e dedicados um ao outro em toda a vida; mas, sejamos francos até o extremo, em caso de viuvez fica a qualquer de nós o direito de arranjar ainda melhor casamento, passados seis meses de luto.
A Xiquinha valia dez vezes mais do que eu: tinha-me compreendido, e fazia-se compreender.
Não havia fingimento, nem dissimulação, nem hipocrisia, naquela alma transparente de noiva, que ia ser esposa.
Ela era a expressão leal, franca, sem véus, sem sofismas da sociedade em que vivemos; era o egoísmo de espartilho, de vestido branco, de brincos de brilhantes nas orelhas, e de colar de pérolas ao pescoço.
Era um talento brilhante realçado pelas convicções da filosofia do realismo puro, e do interesse material, que é a lei do nosso mundo na atualidade.
Era uma mulher às avessas, e portanto a maior verdade às direitas: uma mulher pelo sexo, homem pelos sentimentos, uma mulher masculina como Isabel de Inglaterra.
Nascera para estadista, para organizar ministérios, para piloto da nau do Estado: a natureza espichou-se completamente, dando-lhe o sexo que lhe deu; não conseguiu, porém, mudar-lhe a vocação, e apagar-lhe as sublimes inspirações da sua alma.
Ainda bem que nenhum dos grandes estadistas da minha terra, conheceu em solteiro, e descobriu a Xiquinha em seu retiro da roça: se assim não fora, e qualquer deles compreendesse a extensão da sua sabedoria, e tivesse notícia do legado da terça de meu Tio, teria eu ficado com água na boca, e obrigado a procurar outra noiva para fundamento da grande fortuna com que sonho.
A Xiquinha é uma verdadeira maravilha, uma estupenda conselheira política; é a pedra filosofal que por acaso ou inaudita felicidade encontrei. Com ela a meu lado, dispenso o moleque Platão.
Não nego, nem escondo que sou interesseiro; mas não cederia a Xiquinha por um milhão.
Hão de ver o que dá de si esta rapariga, que tem o pensamento no futuro; que aprecia devidamente o mundo em que vive; que é mulher pelo sexo, homem pela ambição, e o diabo pelo cálculo e pela tentação.
O prazo almejado chegou enfim: a Xiquinha trocou o vestido preto de luto por aquele vestido branco, que não é como os outros vestidos brancos, porque estes são simplesmente vestidos brancos, e aquele é mais do que isso, é símbolo, e símbolo que se completa com a coroa de botões de flores de laranjeira, que a noiva ostenta com os olhos baixos, e com enleios de pudor, pensando na abdicação.
Em face do altar o Et ego auctoritate qua fungor, sagrou os laços da minha união com a Xiquinha.
Enquanto o padre lia-nos a lição dos benefícios do matrimônio, e dos nossos deveres de esposos, aproveitei o tempo para examinar os meus planos relativos ao emprego do dote da minha noiva.
Em que pensava então a Xiquinha, não sei, e nem depois procurei saber; certo é, porém, que lhe apanhei no rosto sinais de profunda reflexão, e no olhar ou vago, ou distraído, indícios de que o seu espírito andava tal e qual como o de seu noivo, arranjando futuros da vida longe do altar.
O nosso casamento surpreendeu a todos os parentes e amigos da casa, que somente nas vésperas tiveram notícia dele; nenhum, porém, deixou de concorrer às bodas: vieram todos, e até aqueles que me haviam chamado velhaco, e que nem por isso dispensaram o banquete do noivado.
Eu não consenti que se fizesse exceção nos convites: destinando-me à vida política, quis ir logo me habituando a dar e a receber anistia de injúrias e calúnias, e a apertar com gracioso sorriso as mãos daqueles, que poucas semanas antes haviam despedaçado a minha reputação, e a quem pela minha parte eu amarrara ao pelourinho das descomposturas e de aleives sem medida.
Chama-se a isto reconciliação parlamentar e tolerância política.
Minha Tia e sogra sofreu duas insignificantes contrariedades, nas disposições tomadas para o casamento; mostrava-se teimosa em suas ideias; teve, porém, de ceder às exigências dos noivos que se achavam de perfeito acordo.
Queria ela que as nossas testemunhas fossem dois velhos parentes nossos, com fama de muito honrados, mas pessoas de pouco mais ou menos. Nós declaramos que os nossos padrinhos seriam dois figurões muito ricos e importantes, um do município em que morávamos, e o outro do município vizinho, homens a quem eu mal conhecia por ouvir dizer que tinham tido relações com meu finado Tio.
A boa velha sustentou que semelhante escolha era uma falta de consideração e de respeito a nossos honrados e venerandos parentes: nós a deixamos ralhar, quanto quis, e guardamos o segredo do nosso acerto.
O meu padrinho e o padrinho da Xiquinha eram as primeiras influências eleitorais dos dois municípios.
A outra questão foi mais simples.
A velha propunha que se celebrasse o casamento com a maior modéstia, em atenção à morte recente de nosso Tio: a Xiquinha não disse sim nem não; eu, porém, meti pés à parede, e reclamei toda ostentação e brilhantismo, em honra do solene ato.
— Vaidade! vaidade! bradara minha Tia.
Ainda bem que ela me acusara só de vaidade e não compreendera, que nas ideias de casamento
modesto eu presentia a exclusão do grande banquete, com que o meu estômago sonhava desde dois meses.
A festa foi suntuosa.
Houve banquete e baile.
Quanto eu comi não se diz.
No baile a Xiquinha dançou com os dois padrinhos, e esteve feiticeira com eles: o encantamento foi tal, que no fim do baile em vez da afilhada pedir a bênção aos padrinhos, foram eles que a tomaram a ela, beijando-lhe ambos a mão.
À meia-noite os nossos convidados tiveram a escrupulosa delicadeza de procurar os chapéus e de dar-nos a boa noite!
Boa noite! muitas vezes repetida, e dada em todos os tons, desde o grave até o trêmulo e o acentuado de malícia.
Vi brilhando cem invejas nos olhos de cinquenta convidados.
A Xiquinha era toda confusão...
Tiveram piedade da noiva e provavelmente raiva de mim...
Foram-se...
A Xiquinha estava caindo de sono...
Foi-se...
Eu creio que cochilava desde as nove horas da noite...
Fui-me...
Ficou só na sala minha Tia... com a cara que lhe competia naquele caso... com cara de tola.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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