Universo da obra
Universo da obra
Infandum, regina, jubes renovare dolores!
VIRGÍLIO. — Eneidas (segundo diz a Xiquinha).
Como depois de patentear um notável defeito do nosso sistema eleitoral, e de descrever os sintomas principais que anunciam a invasão da moléstia política chamada eleição, vejo minha candidatura entregue aos cuidados de um presidente de província, o que além de vesgo e coxo e de se chamar por alcunha o Bisnaga, tem uma filha de nome Desideria, feia, quarentona, e nunca antes desejada, por causa da qual entra o diabo nas urnas e eu naufrago nos cachopos do doutor Milhão, perdendo a Xiquinha o gosto dos versos rimados e cabendo-me, para coroação da obra, o cruel sacrifício de pagar as nossas passagens de volta no mesmo vapor, em que tivéramos na ida passagens do Estado por favor do ministério.
Aproximava-se o dia solene, em que deviam falar as vestais do governo representativo.
Dentro de dois meses proceder-se-ia à eleição geral de eleitores, e um mês depois, conforme a disposição da lei, à eleição secundária, ou dos deputados.
O dia de uma e outra eleição é, ainda nos casos extraordinários, conhecido, sabido de todos com a necessária antecedência conforme um estúpido preceito da lei que ainda não se achou meio de fazer sofismar, e que tem o gravíssimo inconveniente de impedir que o governo faça eleições de improviso: digo que esse preceito da lei é estúpido; porque, ainda com as prevenções, e com o conhecimento geral dos dias fixados para os tais comícios, é sempre o governo quem faz ou quem ganha as eleições; sendo pois melhor que estas se fizessem de improviso; porque assim se poupavam à oposição imensas despesas e grandes esforços e sacrifícios estéreis; e ao governo o emprego de muitos meios de corrupção indispensável, e de muitas violências irrepreensíveis para obrigar o povo a falar a verdade, votando com a polícia.
Mas ainda quando não estivessem fixados, ou não se publicassem com antecedência, nos casos extraordinários, os dias marcados para as eleições primárias e secundárias, há sempre sintomas claros, patentes, eloquentíssimos da proximidade do assalto oficial às urnas populares, ou da invasão dessa moléstia (ao menos a minha escola considera moléstia) do sistema representativo.
Vou apresentar o quadro do cortejo dos sintomas característicos e infalíveis da tal moléstia política.
Primeiro: o ministério muda ou faz contradança de presidentes de províncias e de chefes de polícia, os quais são escolhidos a dedo entre os já provados conquistadores, que têm realizado a fortuna de César: veni, vidi, vici.
Segundo: em cada província o respectivo presidente ou faz tábua rasa na máquina policial existente, e enche os jornais com portarias de demissões e nomeações de delegados e subdelegados, ou aperfeiçoa e fortalece todas as malhas da rede já preparada: às vezes em certas províncias até se nomeiam para cargos policiais de municípios suspeitos homens que são réus de polícia, e ainda mesmo assassinos; mas quem tem culpa disso é o povo desses municípios que não quer obedecer às ordens do governo, votando livremente, como o governo manda.
Terceiro: em todas as paróquias opera-se mudança ou aperfeiçoamento igual no exército pedestre dos inspetores de quarteirão.
Quarto: as malas dos correios não chegam para as cartas que recebem, e o selo rende novecentos e noventa e nove por cento mais.
Quinto: descobrem-se parentescos e amizades, com que nunca antes se havia sonhado.
Sexto: multiplica-se o número das excelências de um modo extraordinário: esse tratamento torna-se quase geral.
Sétimo: tem alta excepcional na praça a mercadoria dos protestos de patriotismo, dedicação à causa pública, e, sobretudo, de eterna gratidão.
Oitavo: os negociantes com relações no interior, e principalmente os consignatários, não têm mãos bastantes para escrever post scriptum nas cartas que mandam aos fregueses.
Nono: quadruplica a despesa do chá e dos sorvetes nos salões dos ministros.
Décimo: estragam-se em três ou seis semanas seiscentos chapéus à força de muito cortejar a ignóbil patuleia.
Undécimo: chega das províncias à capital do Império cada bicho que mete medo.
Duodécimo: descompõe-se o passado, o presente e o futuro de Adão e Eva em todas as gazetas da capital e de todas as províncias do Império.
Décimo terceiro: há patronato como chuva em Dezembro, traições como ratos em casa velha, adulações como farrapos na casa da miséria, dinheiro como nas casas de jogo, infâmias como nos lupanares.
Quando semelhantes sintomas se pronunciam, podem contar que há eleições, batendo à porta, e que o governo está, por exceção, em época de gloriosa atividade.
Ora exatamente eram estes os sintomas que eu estava sentindo, apreciando, e com o maior cuidado acompanhando em honra do meu interesse pessoal.
A minha candidatura achava-se ao menos pelo que diziam os meus dedicadíssimos protetores, fora de contestação, e até eu já sabia que me haviam designado para o único distrito eleitoral da província de...
Único distrito eleitoral quer dizer província pequena e de última ordem, quer dizer lugarejo desprezível para onde se atira o desembrulho de uma candidatura embrulho, que não é possível desembrulhar em outra qualquer parte.
Durante alguns dias empenhei-me fortemente para conseguir que o governo me apresentasse candidato pelo distrito eleitoral dos meus padrinhos de casamento, e onde eu contava não poucos parentes, alguns dos quais me seriam favoráveis; foi porém trabalho baldado: a eleição desse distrito já tinha sido empalmada com prévio cuidado por três filhotes mais estimados do ministério, e não houve meio de fazer aceitar os meus embargos à precedência.
Resistir ao decreto eleitoral que me privava da bênção dos meus padrinhos, era impossível; porque eu não podia jogar as peras com os meus amos; fiz pois boa cara ao contratempo, e contentei-me com a esmola que me ofereciam em outro distrito.
A escolha da província que nunca tivera notícia da existência do Sobrinho de Meu Tio, e da qual eu devia ser legítimo representante, não era por certo muito lisonjeira para o redator em chefe da Espada da Justiça; não dei porém importância a essa desconsideração; porque enfim o que eu queria era ser eleito, ou, em português claro, designado deputado à assembleia geral.
E para sê-lo só me faltava a última etiqueta política.
Não deem aqui à palavra etiqueta a significação que lhe dão os caixeiros das lojas da rua do Ouvidor, que entendem por etiqueta a marca do preço da fazenda que vendem: não: etiqueta significa, no caso de que trato, a cerimônia política.
Vou pôr esta charada em trocos miúdos.
Na designação de candidatos para deputados a oposição observa uma prática, e o partido do ministério às vezes duas.
Os chefes ou chamados chefes da oposição designam a quase totalidade dos seus candidatos à deputação.
O partido do ministério nem sempre procede do mesmo modo.
Às vezes os ministros dividem entre si as províncias, e cada qual designa os deputados da província ou das províncias, que lhe coube ou couberam na partilha.
Às vezes, menos indecentemente, os ministros entendem-se com os maiorais do partido que os sustenta, fazem concessões, arranjam de acordo os despachos eleitorais, e fica assim resolvida a expressão do voto livre.
Mas em certas circunstâncias torna-se indispensável salvar as aparências.
Quando os ministros despacham sem mais cerimônia (e é a prática melhor, mais cômoda e mais suave) os candidatos que devem por bem ou por mal ser eleitos deputados, não há etiqueta. Nomeiam-se os presidentes de província, estes recebem as designações e magistri dixerunt. Vivam os Aristóteles.
Nas épocas de cerimônias porém o partido que sustenta o ministério, ou para falar com mais precisão, o partido que o ministério sustenta, procede como sempre faz a oposição que não tem por si a donosa e invencível providência do governo.
Então os chefes respectivos fazem previamente a designação: os chefes oposicionistas só por si, os ministerialistas de combinação e acordo com o ministério, e, designados os candidatos, lustram as chapas com o lavor da etiqueta.
Aqui vai agora a etiqueta.
Há uma coisa a que os tais partidos políticos dão extraordinária importância, e que não tem importância nenhuma: essa coisa chama-se: “reunião política”. É a etiqueta.
Partido de oposição, partido ministerial acreditam muito nessa comédia; mas é comédia, posso assegurá-lo.
As reuniões políticas em regra não resolvem coisa alguma, e por exceção resolvem somente o que já antes estava resolvido pelos maiorais.
Em negócios eleitorais observa-se invariavelmente a mesma doutrina, e a mesma prática.
Os candidatos a deputados, quer ministeriais quer oposicionistas, já estão previamente adotados e designados pelos capitães dos respectivos partidos; para salvar porém as aparências, convocam-se as grandes reuniões políticas, a que concorrem os tenentes que sabem metade, os alferes que sabem a quarta parte, e os sargentos e cabos de esquadra que não sabem uma só palavra do padre-nosso dos capitães dos seus partidos, e que nas reuniões aprovam com entusiasmo tudo quanto eles propõem e sustentam, e depois saem delas muito vaidosos do concurso que prestaram para a organização das chapas eleitorais, que aliás já estavam organizadas.
Graças à minha experiência e ao meu bom juízo nunca até hoje tomei ao sério nenhuma dessas numerosas reuniões políticas, nas quais o meu cuidado tem sido sempre tomar sorvetes e comer doce até a saciedade.
Incorro talvez em crime de profanação, descobrindo e manifestando estes segredos de abelhas; como porém não haverá quem se presuma, ou queira declarar-se atraiçoado pela minha franqueza, estou seguro da impunidade.
A etiqueta que me faltava, era pois a adoção da minha candidatura na grande reunião política, que em breve se efetuaria.
E efetuou-se.
Como redator em chefe da Espada da Justiça, isto é, como órgão notável do partido que o ministério sustentava, estive presente à grande reunião.
A assembleia era numerosa, brilhante, animada, e, oh sacrosanto respeito ao voto livre! oh sublime prova de abstenção do governo no próximo pleito eleitoral! nem um só dos sete ministros viera tomar parte no conclave magnífico.
Eu vi o mundo com todos os seus enganos, com todas as suas ilusões resumido naquela assembleia! uns discutiram programas, outros falaram das altas conveniências dos partidos, muitos abundaram em considerações sobre a escolha indispensável de homens seguros e dedicados à causa do partido para candidatos à deputação geral, e por fim de contas a candidatura de cada um dos pretendentes que se achavam na reunião foi sucessivamente aceita e aprovada por unanimidade de votos, como era de esperar: adotaram-se ainda outras candidaturas de ausentes, ficando duas dúzias delas para estudos e resoluções subsequentes.
Durante a conferência, enquanto uns oravam e outros ouviam com admirável gravidade, grupos de três ou quatro influências conversavam baixinho nos cantos da sala, ou no fundo do gabinete contíguo.
As ilusões sonhavam pois em voz alta no meio da sala, e a realidade andava apuridando pelos cantos.
A reunião dissolveu-se com acordo geral, com a perfeita harmonia que se observara desde o seu começo: saíram dela todos satisfeitos, como herdeiros que acabam de fazer com pleno contento partilha amigável.
Sem dúvida o maior número daqueles convocados políticos entrara na assembleia noturna e dela saíra com a alma cheia de boa fé e o coração palpitante de suaves esperanças de lisonjeiro futuro para si, e, di-lo-hei, também para o país: sem dúvida porque confesso que me pareceu haver disposição e empenho de fraternidade leal e sincera; mas declaro também, que apanhei no pestanejar de olhos de um, nas palavras alambicadas de outro, e até nos abraços apertados de um terceiro figurão os anúncios de falcatrua política futura.
O governo representativo oferece sempre ao partido predominante uma festa muito parecida com a das núpcias de Thetis e Peleo, na qual alguns dos chefes representam as figuras de Vênus, Juno e Minerva, e o primeiro lugar do poleiro governamental é o pomo lançado pela Discórdia para desarranjar as melhores combinações.
Por que acontece assim? porque, felizmente para os homens de juízo, para os especuladores políticos a cuja grei pertenço, ou não há, como sustento, verdadeiros partidos políticos no Brasil, isto é, partidos de ideias, cujos chefes só o sejam pelas ideias e pela capacidade e leal disposição de as realizar no poder, sine qua non, e há somente bandos e sequelas que se unem por simpatias a certos homens, e por oposição a outros bandos e sequelas, e que tomam nomes sem dar importância às ideias que esses nomes significam:
Ou então aquilo acontece, porque os partidos políticos no Brasil têm pressa de mais em subir ao poder, e por causa da pressa, ao primeiro aceno, correm aos trambolhões, trepam por toda a espécie de escada, entram pelas janelas em vez de entrar pelas portas, perdem nos saltos da subida o código dos seus princípios, deixam cair no caminho as suas ideias, desfiguram, ou alteram profundamente suas fisionomias pela fadiga dos arrancos violentos, e quando se mostram de cima, nem os pais, nem os filhos, nem os irmãos os conhecem mais.
Eu sou de opinião que os tais partidos, se procedem assim, procedem muito bem: porque o pão de ló do poder vale tudo isso e muito mais ainda; há porém pobres de espírito que entendem preferível conservar a pureza da religião dos seus princípios a ser governo sem eles.
São gostos! eu acho muito melhor vestir-me à moda do tempo: os alfaiates não fazem fardas de ministros para vestir ideias; fazem-nas para pendurá-las nos ombros de cabides humanos.
Mas o que é ainda mais certo e positivo, é que estas considerações não vêm a propósito: devo tratar agora somente da questão eleitoral.
Apesar de todas as seguranças que me davam do triunfo incontestável da minha candidatura pelo único distrito da província de... cumpre-me confessar que eu não me achava perfeitamente tranquilo.
Havia três fundamentos, ou, pelo menos, três motivos para os meus receios.
Primeiro o presidente nomeado para a província que devia ter a honra de eleger-me deputado sem me conhecer, era um varão ilustre, a quem chamavam, por alcunha, o comendador Bisnaga: ah! no Brasil até há bisnagas comendadores!
Considerem-me tolo, e escravo de prevenções ridículas, não me ofenderei por tão pouco; mas não sei o que me dizia ao coração que o maldito Bisnaga me bisnagaria a candidatura.
Segundo: o excelentíssimo Bisnaga era vesgo do olho esquerdo e coxo da perna direita, e ninguém me dava a certeza do olho com que ele veria a minha candidatura, nem do pé com que andaria em proveito dela. Acrescia ainda ao olho vesgo e à perna coxa que sua excelência era viúvo, e tinha uma filha solteira com quarenta anos de idade, feia como um jabuti, e da qual nunca se separava pelo medo da sedução de algum namorado.
Protestei contra a nomeação de semelhante presidente para a minha província; mas o ministério declarou que era caso resolvido, que não havia remédio, senão ceder a certos caprichos, não querendo confessar que o Bisnaga era compadre do presidente do conselho: mas por compensação dois dos ministros apresentaram-me pessoalmente, e recomendaram-me com ardente empenho ao ilustre designador dos deputados da província de...
Terceiro: esta minha província dá dois deputados: um será por certo o sobrinho do ministro da..., o outro, dizem, que serei eu; é porém ali candidato o filho do barão de..., o homem mais rico da província: candidato com vinte e dois anos de idade, saído do curso jurídico de São Paulo, há quatro meses, inteligente, travesso, ambicioso, e que também tinha a sua alcunha, pois que na província era conhecido por doutor Milhão.
E notai bem a alcunha — Milhão — não significava milho grande, significava mesmo — milhão-dinheiro.
Assim pois a minha candidatura estava colocada entre uma Bisnaga suspeitosa, e um Milhão contrário a ela.
É verdade que eu tinha por mim duas importantíssimas condições favoráveis, que eram duas condições negativas do doutor Milhão.
Este jovem candidato era primeiramente oposicionista franco, e enraivado, e punha todos os ministros pelas ruas da amargura: em segundo lugar protestava em alta voz que não compreendia a existência de governo monárquico no mundo, e ainda menos na América, e que se pronunciaria sempre pela república, como único sistema governamental digno das nações, e regenerador, e salvador do Brasil.
Ostentando semelhantes sentimentos, o doutor Milhão não poderia ser elegível, e esta convicção animava-me bastante.
Evidentemente a riqueza enorme do pai do candidato, e o empenho que o malvado velho fazia em eleger o filho deputado eram um perigo sério para a minha candidatura; porque o dinheiro é a peça de artilharia de maior calibre que se conhece.
Mas se o Bisnaga tomasse deveras a peito a minha eleição, encravaria com as pontas das baionetas dos soldados protetores do voto livre a peça de artilharia do velho Cresus, do barão de...
Neste ponto não há dúvida possível; quando o governo quer, vence eleições, zombando dos mais colossais elementos de oposição, e do próprio poder da mais opulenta riqueza. Imagine-se uma paróquia em que quatrocentos e noventa em quinhentos votantes sejam contrários ao ministério, contrárias a ele todas as influências legítimas, todas as autoridades eletivas, toda a riqueza da paróquia: pois bem: aí mesmo o governo ganha a eleição e até por unanimidade de votos; basta querer: o meio é simples e já muitas vezes posto em prática: no dia solene do voto livre amanhece a matriz com as portas guardadas por soldados com espingardas carregadas e de baionetas caladas: o povo quer entrar na matriz e não lhe dão licença, protesta que tem o direito de votar e tem em resposta uma gargalhada do subdelegado: se em desespero intenta penetrar na Igreja, os soldados fazem fogo, morrem quatro ou seis cidadãos livres e os outros, feridos ou não, deitam a fugir e vão fazer uma duplicata inútil; mas no maior número dos casos o povo soberano retira-se prudentemente antes que a história acabe em banho de sangue e ou nesta ou na primeira hipótese, a polícia procede à eleição suave e naturalmente, a urna fica atopetada de listas, embora ninguém votasse e entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei meu Senhor que me conte outra.
Ora o comendador Bisnaga fora precedido na província de... por duzentas praças de tropa de linha: era de mais: com semelhante exército faria ali vinte deputados, quanto mais dois.
O voto livre estava pois perfeitamente garantido na minha província eleitoral, e o que me incomodava era somente a instintiva desconfiança da lealdade do comendador Bisnaga.
Pelo sim pelo não fiz escrever e publiquei na Espada da Justiça dez artigos elevando ao sétimo céu o merecimento, a sabedoria e os serviços relevantes do Bisnaga que veio visitar-me muito agradecido, e protestou-me que eu era o seu primeiro, o seu candidato do peito.
Fui logo pagar a visita ao meu presidente e levei a Xiquinha para cumprimentar a excelentíssima filha do Bisnaga e relacionar-se com ela; a quarentona solteira chama-se dona Desideria.
Era uma Desideria que nunca tinha conseguido ser desejada. Não houve protesto de amizade que não se trocassem entre nós.
Apesar disto e de quantas promessas me faziam, e das seguranças de triunfo que me davam ministros, influências protetoras e o presidente Bisnaga, resolvi de acordo com a Xiquinha ir para a província de... zelar de perto e ativamente a minha eleição.
Suspendi por dois meses conforme a declaração solene que fiz, e para sempre, segundo os meus cálculos, a publicação da Espada da Justiça e segui com a Xiquinha para a província de... no mesmo paquete a vapor, em que foi o Bisnaga com a filha. É escusado dizer, que o meu amigo o ministro da..., arranjou-me passagem do Estado para mim e para minha família, e que portanto não fiz despesas com a viagem.
Chegamos à capital da província, e procedi como era de mister.
Tomei casa: andei de Herodes para Pilatos entregando cartas de recomendação, e fazendo visitas; em obediência aos conselhos da Xiquinha, embora a pesar meu, dei banquetes e saraus semanais: não deixei passar dia em que não fosse ao palácio do presidente: alcancei duas dúzias de nomeações para cargos policiais: prometi quarenta empregos de repartições públicas da corte: consegui que muita gente me tivesse na conta de empenho infalível para qualquer dos membros do ministério: assegurei que havia de dar à província pelo menos uma estrada de ferro: jurei que faria desembargador a um juiz de direito, e juízes de direito a três juízes municipais: perdi constantemente no voltarete, jogando com o chefe de polícia: menti como um viajante francês, imposturei como um brasileiro tolo que chega de Paris, enganei e trapaceei como um solicitador ou procurador de causas desmoralizado.
A Xiquinha também não descansou: deu moldes de vestidos e figurinos velhos a quantas senhoras eram esposas ou filhas de eleitores prováveis ou de figurões da terra: dançou, cantou, fez maravilhas para agradar aos meus desejados comitentes.
Em honra da verdade me cumpre declarar que a minha candidatura me parecia fora de questão: o meu nome tornara-se em breve bem aceito, e o comendador Bisnaga mostrava-se empenhado em dar-me o mais decidido apoio.
Entretanto o doutor Milhão, cujo nome de batismo de família não quero dizer, corria a província, trabalhava com furor, e por fim rebentou um dia na capital, onde me achava.
A nova da chegada do meu áureo adversário preocupou-me um pouco; o que porém mais me admirou foi vê-lo apresentar-se em minha casa para visitar-me.
Não havia que fazer senão recebê-lo com a devida cortesia.
O doutor Milhão era e é um jovem bem apessoado e até bonito; elegante no trajar, engraçado falando, amabilíssimo na conversação, um pouco estouvado, com pretensões a poeta, sem crenças em matéria de religião, dizendo-se republicano em política; mas no fundo egoísta como eu, ambicioso sem máscara, rindo-se da moral, e capaz de tudo para subir.
Vi no doutor Milhão o mais perigoso dos rivais pelos muitos pontos de contato que o seu caráter tinha com o meu.
Logo na primeira visita disse-me:
— Somos adversários; mas não devemos ser inimigos: vamos de cara alegre até ao fim da comédia eleitoral, e vença quem vencer, não deixemos por isso de ser amigos.
Na segunda visita observou-me:
— Somos adversários: mas devíamos não sê-lo: eu não hostilizarei a sua candidatura: por que há de hostilizar a minha? Vamos pregar um mono ao sobrinho do ministro?...
Pus-me a rir para não responder sim nem não.
Na terceira visita não me falou mais em eleições: ocupou-se todo em fazer a corte à Xiquinha, e cantou com ela um dueto do Elixir de amor.
Desconfiei do elixir: não gostei do Dulcamara, e pareceu-me que a Xiquinha desafinara.
O doutor Milhão fizera-se o mais assíduo dos meus amigos, e, o que é mais, frequentava do mesmo modo o palácio e a sociedade do comendador Bisnaga.
Todos têm o seu fraco: era impossível que a Xiquinha fosse em tudo perfeita: a minha adorável Xiquinha tem um único senão, ama a poesia, e dera-lhe para aprender a compor versos rimados com o doutor Milhão.
Tive minhas cócegas de ciúme; porque evidentemente o doutor Milhão se interessava mais do que era preciso pela Xiquinha, que de sua parte, conservando-se aliás sempre digna do nome de seu marido, nunca se julgara ofendida por quem reconhecia o poder dos seus encantos sem alvoroçar-lhe o pudor: era moça, bonita e vaidosa: que lhe havia eu de fazer?
A sabedoria humana consiste principalmente em tirar partido e proveito das próprias contrariedades.
Calculei que a Xiquinha poderia conseguir para a minha candidatura o apoio do doutor Milhão: abri-me confidencialmente com este sobre os negócios eleitorais, e chegamos a um acordo, em que me pareceu que me coubera a partilha do leão; obriguei-me a não dar passo algum, a não recomendar a candidatura do sobrinho do ministro, e a não hostilizar a do doutor Milhão, o qual deu-me palavra de honra de sustentar a minha, fazendo-me obter os votos de todos os seus amigos políticos.
Deste modo aumentavam-se as proporções da minha vitória eleitoral, e eu devia ser indubitavelmente o mais votado dos candidatos.
Não me censurem, não me acusem nem pela tolerância do namoro, aliás inocente, com que eu deixava o doutor Milhão incensar a vaidade da Xiquinha, nem pela indiferença, ou, se, quiserem, traição com que eu abandonava a candidatura do sobrinho do ministro da...; não me censurem, não me acusem, não me provoquem, nem me obriguem a defender-me, apresentando exemplos ainda mais tristes de uma e outra fraqueza dados por alguns varões ilustres da minha terra.
Não me provoquem; porque, se eu dissesse tudo quanto sei e muitos sabem, diria horrores...
Basta-me dizer o que agora vou expor nestas minhas veracíssimas Memórias.
Um belo dia, já nas vésperas da eleição primária, o comendador Bisnaga, recebendo-me em seu gabinete, observou-me com ares de escrupulosa gravidade, que não era conveniente que eu vivesse em tão estreitas e amigáveis relações com um inimigo do governo, com um republicano confesso e ostentoso, como era o doutor Milhão.
Caí das nuvens, e respondi à sua excelência que eu entendera que não devia fechar as portas da minha casa a um homem de tão boa sociedade, que era recebido no seio da própria família do presidente da província.
Ouvindo tal resposta o comendador Bisnaga carregou os sobrolhos e tornou-me:
— O presidente da província é pela sua posição oficial, e pela conveniência de ostentar plena imparcialidade, e completa abstenção no pleito eleitoral, obrigado a receber a todos sem distinção.
Saí do palácio com o espírito carregado de sombrias apreensões: referi quanto acabava de passar-se à Xiquinha, que, soltando um — ah! — muito comprido, observou-me:
— Ah! por isso dona Desideria enregelou-me ontem com a frieza de seu recebimento!
Ao que vinha a dona Desideria para a questão eleitoral, e para as inconveniências da assiduidade do doutor Milhão, o inimigo do governo, o republicano confesso e ostentoso em minha casa?
A Xiquinha se entristecera profundamente e de súbito:
— Porque te afliges? perguntei-lhe.
— A tua eleição está perdida, respondeu-me ela.
Pus-me a rir; pois nunca julgara em melhores condições a minha candidatura.
— Não te rias, tornou-me a Xiquinha; olha; eu sou capaz de jurar que o diabo vai entrar nas urnas eleitorais.
— E que diabo é esse?
— Um que eu conheço, porque sou mulher.
Não dei importância às prevenções, e aos temores da Xiquinha.
Também não me vi constrangido para obedecer ao Bisnaga a despedir de minha casa o doutor Milhão; porque três dias depois o áureo candidato deixou a capital da província para assistir à eleição de uma paróquia do interior, onde as coisas estavam correndo muito mal para ele.
Livre do doutor Milhão, tranquilizei-me: a Xiquinha, porém, cada vez se entristecia mais: ingrato! atribuí sua tristeza a saudades do doutor Milhão; e era por mim que a Xiquinha se obumbrava em profunda melancolia.
— Candidatura perdida! Repetia-me ela.
E eu ria-me! pateta que eu era; ria-me!
Procedeu-se em todas as paróquias da província à eleição primária, e em todas as paróquias, sem exceção de uma só, venceu por grande maioria o partido do presidente.
— Então? disse eu à Xiquinha, dando saltos de alegria.
— Veremos; respondeu-me ela ainda mais tristemente.
Resumirei agora a história do meu desengano, da minha derrota, e da infâmia do Bisnaga, e da baixeza do doutor Milhão em quatro palavras.
Sim! venceu o partido do Bisnaga em todas as paróquias da província, e venceu quase sem luta, venceu, sem derramamento de sangue, venceu suave e naturalmente em toda parte, venceu até sem duplicatas!
E dez dias depois da eleição primária o doutor Milhão, o inimigo do governo, o republicano confesso e ostentoso casou-se com dona Desideria.
O noivo era rico, jovem de vinte e dois anos, bonito e espirituoso: a noiva era senadora pela idade, quase irracional pela inteligência, tartaruga pelos dotes físicos.
Nunca se contraíra na província de..., casamento mais absurdo; no fim porém de vinte dias a bênção política tornou-o lógico, pois coroou aquelas núpcias: reuniram-se os colégios eleitorais, votaram, e...
E foram eleitos, em primeiro lugar e com unanimidade de votos, o doutor Milhão, genro do presidente Bisnaga, e em segundo, e por grande maioria, o sobrinho do ministro.
E eu que havia trazido cem cartas de recomendação e feito trezentas visitas, que dera banquetes, e saraus semanais, que diariamente me sacrificara a adular horas inteiras o Bisnaga, que perdera o meu dinheiro, jogando com o chefe de polícia, eu que mentira, que imposturara, que enganara, eu...
Eu obtive na apuração geral de todos os colégios eleitorais da província — sete votos!
Eu candidato do ministério composto de sete ministros tive sete votos! um voto por ministro! que proteção!
A minha derrota eleitoral fez-me passar duas noites em claro; mas em paga das vigílias vi tudo muito claro.
Não me queixo do Bisnaga: detesto-o; mas reconheço que ele é homem da época, e meu correligionário político, pois evidentemente pertence ao partido do seu interesse material e pessoal.
Se o ministério se tivesse empenhado deveras pela minha eleição, o Bisnaga não se animaria a atraiçoar-me tão indignamente, e ainda mais o presidente da província de... não teria sido o Bisnaga, e sim um homem de minha plena confiança, como eu reclamara.
O ministério simulara adotar a minha candidatura; mas realmente a havia abandonado ao arbítrio e à boa ou má vontade do Bisnaga.
Não me queixo do partido que me designara deputado na sua grande reunião política; porque eu nunca acreditei naquela farsa. Conheço o país em que vivo: em matéria de eleições, quem vence, quem elege não é partido algum, não é o povo, é o governo.
Não me queixo do Bisnaga: já disse que o detesto; mas eu faria o que ele fez.
Estão vendo que apesar da minha derrota, conservo em toda sua pureza o meu espírito de justiça.
Pois que faz o Bisnaga? aproveitou-se da sua alta posição oficial para arranjar a vida: está direito; é assim mesmo que se faz, e que se vê muita gente grande fazer.
O Bisnaga é tão pobre que não tem onde cair morto e carregava com uma filha chamada Desideria, que nunca fora nem podia ser desejada, e que passara solteira além dos quarenta anos.
O ministério fê-lo presidente da província, e ele, aproveitando o ensejo, deu em dote à Desideria um lugar de deputado, e casou-a com um mocetão de vinte e dois anos, e herdeiro da casa mais rica da província.
Devo queixar-me do Bisnaga? não teve ele bons mestres? não fez o que outros fazem? pois é novidade dotarem varões ilustres as suas meninas à custa do povo e da pátria?
Avante, Bisnaga! fizeste muito bem: avante! no Brasil procedimento como esse teu não avilta, não desonra aos grandes da terra: no Brasil diz-se que um homem é honrado, quando paga as suas dívidas no dia do vencimento das letras: satisfeita esta obrigação, nada mais pode afetar a honra.
É por isso que andamos esbarrando com beneméritos em todos os cantos das ruas.
Não me queixo do Bisnaga, repito; queixo-me somente do governo, que anda desde certo tempo semeando bisnagas pelas presidências de muitas províncias do Império.
Como quer que seja, eu me achava derrotado, vergonhosamente derrotado, e a Xiquinha tão desapontada que me causava verdadeira pena: coitadinha! tinha até perdido o gosto dos versos rimados.
O casamento da filha do Bisnaga com o doutor Milhão e a minha subsequente derrota fizeram da minha casa um deserto; fugiram todos de mim, como se eu fora um bexiguento em São Paulo, um leproso em qualquer parte; e, o que é melhor, uns dois periódicos que se publicavam na capital da província, e que até vinte dias antes me elogiavam, começaram a insultar-me sem motivo, chamaram-me ave de arribação, forasteiro, intrigante, afrontador dos brios da província, e outras amabilidades do mesmo gênero.
Ainda que eu quisesse responder, não podia, porque não tinha imprensa.
O meu único recurso era fugir; mas faltava-me o paquete, pelo qual tive de esperar perto de um mês, ficando, durante esse tempo, atado aos dois pelourinhos do Bisnaga e do doutor Milhão.
Do Bisnaga hei de vingar-me na primeira ocasião: se eu for algum dia presidente de província e o apanhar na minha alçada, mandarei recrutá-lo e assentar-lhe praça de soldado raso, apesar da comenda e da perna coxa.
Do doutor Milhão já estou vingado: casou com a dona Desideria e basta.
Finalmente chegou o paquete, em que devia efetuar a minha retirada.
A imprensa bisnaga-milhão assanhara todas as fúrias do povo contra mim.
Na hora da partida a Xiquinha e eu embarcamos ao estrépito de mil foguetes, bombas e girandolas: foi um fogo infernal!
E finis coronat opus: foi-me preciso pagar passagem para mim e para minha família!...
Façam ideia das suaves e consoladoras disposições, com que eu voltava para o Rio de Janeiro
Eu vinha — derrotado:
Tinha sido ilimitadamente injuriado:
Saíra — esfogueteado:
Fora obrigado a pagar as passagens no vapor.
Eram quatro atentados: o último não menos que os outros fizera-me chorar o coração.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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