Universo da obra
Universo da obra
Como chegando enfurecido à capital do Império, e indo logo acender o Raio do Desengano, vem uma chuva benéfica apagar-me o fogo; a Xiquinha lança-me em rosto não ter aproveitado o ensejo para fazê-la baronesa: demonstra-se a necessidade da oposição, e por consequência lembro-me do compadre Paciência, que ainda se achava na cadeia, cujas portas de ferro abro com as chaves de duas cartas de empenho: descubro um bom e um mau agouro em uma queda de cavalo, e depois de outras muitas coisas que ou não vêm ou vêm ao caso, chega-me de súbito e a propósito ordem de partir logo e logo para a província de que estava nomeado presidente por causa de um Manoel Mendes que fizera a asneira de morrer, e de um Relamborio que pretendia ser vivo demais, rematando a história a mais horrível careta do compadre Paciência.
Cheguei à cidade do Rio de Janeiro, transpirando princípios liberais, e máximas severas de moralidade política por todos os poros; porque uns e outras me serviriam para atacar o ministério, e o comendador Bisnaga, seu digno delegado.
Eu ia pois ser gralha política toda vestida e enfeitada de penas de pavão: não havia novidade no caso: estas rápidas metamorfoses se reproduzem constantemente: absolutistas da segunda-feira, republicanos na terça-feira, ministerialistas na véspera do dia de despacho, oposicionistas no dia que se segue ao do despacho, que desenganou, são fenômenos trivialíssimos porque todos os partidos abraçam todos os desertores sem perguntar nem moralizar os motivos da deserção.
É o que vale a mim e à minha gente: se os tais partidos políticos zelassem mais sua dignidade, desprezassem os traficantes, e arrancassem as penas de pavão com que se enfeitam as gralhas, não se multiplicaria tanto o número dos renegados, a descrença política não se estaria arraigando no coração do povo, os homens honestos não se achariam misturados com depravados e ganhadores, e o Sobrinho de Meu Tio daria à costa nos cachopos da moralidade, com a triste consolação e afogar-se em companhia de alguns mil barrigudos.
Mas ainda bem que nenhum partido se convenceu de uma verdade perigosíssima, isto é, de que no Brasil antes das lutas por ideias políticas, ou para que haja verdadeira e profícua luta por ideias políticas, é necessário que se chegue a acordo leal para conscienciosa e decidida imitação da sagrada lição de Jesus Cristo, que a golpes de azorrague expeliu os traficantes que mercadejavam às portas do templo.
Mas no Brasil toleram-se os traficantes que mercadejam não às portas, porém dentro do templo do Estado e até sobre os altares.
E, se duvidam do que estou dizendo, estudem bem o logro infame que me pregaram o ministério e o comendador Bisnaga.
O meu profundo ressentimento era como uma cratera a ferver, e a abrir-se para que prorrompesse o vulcão: vinte e quatro horas depois do meu desembarque na capital do Império, os jornais diários anunciaram o próximo reaparecimento da Espada da Justiça, que se publicaria com o novo título de RAIO DO DESENGANO para fulminar todos os perversos, e opressores do povo.
Bem longe estava eu de esperar os grandes e felizes resultados produzidos pelos meus furiosos anúncios.
Não há no Brasil arma que assuste, fantasma que assombre mais os ministros de estado do que o anúncio de um periódico de oposição, principalmente se o seu redator foi amigo da véspera e não tem papas na língua, nem reservas de generosidade.
A razão é simples.
A razão geral é que quase todos os ministros são animais de cauda mais ou menos comprida, e a imprensa da oposição é tesoura amolada que corta sem piedade as caudas dos ministros.
A razão especial é que o amigo da véspera é cúmplice de muitos escândalos misteriosos, conhece segredos comprometedores, e os fracos e as misérias do ministério, e se não tem papas na língua, nem generosas reservas, se é capaz de sacrificar um olho para furar os dois olhos do seu inimigo, torna-se por isso mesmo uma potência terrível, cujas iras é preciso a todo transe desarmar.
Confesso que eu não tinha calculado com estas gigantescas proporções da minha vingativa oposição; reconheci-as porém, vendo entrar pelo Clube Fluminense a dentro o ministro da... com sua excelentíssima senhora para visitar a mim e à Xiquinha.
Recebi o elevado visitante com enregelada cortesia; mas é de regra que um ministro não sinta frio nem calor.
Sua excelência deu-me mais de dez abraços, lamentou a minha derrota eleitoral, jurou-me que já estava resolvida a demissão do Bisnaga, e que o ministério tinha meios de castigar a traição de que eu fora vítima; finalmente declarou-me que se achava autorizado para oferecer-me as compensações que eu quisesse exigir, e sem limite algum em minhas exigências, que estavam previamente consideradas justíssimas.
O homem é de carne e osso: abalei-me, senti-me comovido pela eloquência sentimental do ministro da...
Eu tenho o coração muito propenso à ternura: aqueles amáveis oferecimentos do governo abrandaram a minha cólera, e tocaram a minha natural sensibilidade.
Referi ao ministro da... a história de todos os tormentos por que havia passado, das afrontas que recebera, e até do sacrifício a que fora obrigado, pagando as passagens no vapor.
No fim de duas horas de conversação íntima e confidencial o ministro da... retirou-se com sua excelentíssima senhora, despedindo-se de mim com estas animadoras e suavíssimas palavras murmuradas ao meu ouvido:
— Dentro de oito dias receberá as provas da lealdade do ministério, e da alta consideração com que ele sabe distinguir os seus amigos.
Não é preciso dizer que adiei, ao menos por oito dias, a publicação do Raio do Desengano para ver que resultado teriam as promessas que acabava de fazer-me o amável ministro.
E antes de terminado o prazo marcado chegaram-me com efeito as demonstrações inequívocas do apreço que de mim fazia o gabinete.
Por ordem superior e competente foi-me restituída a quantia que eu despendera, pagando as passagens, minha e de minha família, no paquete que me havia trazido de volta à cidade do Rio de Janeiro.
Fui nomeado presidente da província de..., uma das de segunda ordem, mas já não pouco importante.
E para compensar o enorme sacrifício pessoal a que me sujeitava, aceitando esse elevado cargo, concederam-me além da ajuda de custos da lei, uma outra extraordinária, cuja importância não chegou ao domínio do público.
Finalmente foi-me solenemente garantido que o comendador Bisnaga receberia em breve demissão pura e simples sem a mentirosa mas usual declaração de — a pedido que poupa certo vexame aos demitidos.
Esta chuva de despachos que caiu sobre mim em um só dia, apagou definitivamente o Raio do Desengano, como teria enferrujado a Espada da Justiça.
Em troco do diploma de deputado que o Bisnaga empalmara para o noivo da sua Desideria, davam-me dinheiro, e alta posição oficial, não pelos meus bonitos olhos, mas para trancar-me a boca, e comprar-me o silêncio.
Os excelentíssimos tinham razão de sobra para apressar como apressaram a lícita transação: eu poderia contar tantas histórias!...
Enfim não havia que dizer, nem que hesitar: o arranjo convinha-me perfeitamente: era negócio da China: aqui em segredo confesso, que ter-me-ia vendido por menos.
Um restinho de ressentimento do estudo dos versos rimados tinha feito com que eu dirigisse toda esta negociação moral e política sem ouvir os conselhos da Xiquinha; recebendo porém os meus despachos, dei-lhe parte do transcendente acontecimento.
— Portanto, observou-me ela, a tua furiosa oposição desfez-se como trovoada iminente que uma hora de ventania desconcerta!
— Tal e qual: a oposição foi-se, e nunca me senti mais profundamente ministerialista do que hoje.
— Por que não me consultaste, conforme costumavas fazer sempre, antes de tomar qualquer importante resolução?
— Porque os dogmas não se discutem, são pontos de fé, e o negócio que acabo de fazer é para mim um dogma. Olha: por te ouvir os conselhos já uma vez pequei, ofendendo este dogma, que me aproveitou agora.
— Quando foi isso?
— Quando me fizeste rejeitar o dinheiro da polícia que o ministro da... me oferecia para amolar a Espada da Justiça.
— Não me arrependo do que então aconselhei, primo; ainda mesmo no que hoje você conseguiu, está a prova da prudência do meu conselho; e, digo mais, se me tivesses ouvido nesta negociação, terias lucrado... talvez o dobro.
— Ora!
— Que te deram? dinheiro, de que em consciência não precisamos...
— Nego a consequência: de dinheiro preciso eu sempre, e sempre cada vez mais.
— E uma presidência de província, que te hão de tirar mais dia menos dia!
— E o Raio do Desengano?...
— Não te deram coisa que fique, que subsista, que não possa depois ser tirada, que aproveitasse agora e no futuro.
— Por exemplo?...
— O título de barão que facilmente conseguirias também.
Soltei uma risada homérica.
— De que te ris? perguntou-me a Xiquinha, sem desapontar.
— Da tua ideia: és capaz de dizer-me para que serve ser barão no Brasil?
— Sou.
— Pois dize.
— Serve só para satisfação de um pequeno, mas suave capricho; ao menos porém serve para esse capricho...
— Qual?... acaba de uma vez!
— Serve para um homem casado e amoroso fazer sua mulher baronesa.
Caí de joelhos.
— Perdão, Xiquinha! exclamei.
Ela deu-me ambas as mãos e levantou-me.
— Ora: tornei-lhe comovido; tenho a certeza de que ainda hei de vender-me, ou alugar-me muitas vezes ao governo, e juro-te que na primeira transação de importância o meu primeiro cuidado será fazer-te baronesa.
— Esqueçamos esta puerilidade.
— Não: estou maçado, arrependido de não ter consultado a minha sábia conselheira.
— Primo, os meus conselhos pouco ou nada valem: nós estamos sempre de acordo, vemos tudo com os mesmos olhos e debaixo do mesmo ponto de vista; é por isso que erramos frequentemente.
— Preferirias que vivêssemos em constante e sistemática divergência?
— Não; mas seria uma fortuna, que tivéssemos um amigo que não pensando como nós, soubesse contrariar-nos com franqueza: a discussão nos daria luz tanto para ver a verdade verdadeira, como para distinguir bem a verdade das nossas conveniências.
— Estás caindo em cheio na desastrada e abominável teoria do sistema representativo, que reputa a oposição uma condição essencial da sua existência, e até mesmo utilíssima auxiliar do governo!
— Mas se é assim...
— Assim?
— Por certo: sem oposição o governo nem examina, se desvaira: corre sem cuidado, à rédea solta, e às vezes se lança em precipícios: e pelo contrário as censuras e os brados da oposição o trazem alerta e cuidadoso; dão-lhe faróis, mostram-lhe os perigos, e até lhe emprestam força para resistir às exigências inadmissíveis dos falsos, ou pesadíssimos amigos.
— Por consequência...
— O que se observa com o governo do Estado, observa-se na vida trabalhosa e variável do homem: feliz aquele que pode ter constantemente junto de si um censor severo e ainda mesmo exagerado!
— Estou vendo que pretendes lançar-me na estrada gloriosa de todas as virtudes!...
— Digo-te somente que para melhor apreciares o bem e o mal, a verdade verdadeira, e as nossas próprias conveniências menos te aproveito eu que penso como pensas, do que te aproveitaria um amigo ralhador, que nunca nos achasse razão.
— Um compadre Paciência, por exemplo...
— Quem? o amigo do nosso Tio? Primo! seria uma conquista inapreciável, um verdadeiro tesouro!
— Pensas?
— É um amigo dedicado, e a franqueza rude, quase selvagem personificada.
É por isso que parou na cadeia.
— Como?... perguntou-me a Xiquinha.
Tive meus arrepios de vergonha, minhas alfinetadas de remorso, considerando que até aquele dia nem sequer me lembrara um instante do compadre Paciência, esquecendo-o a tal ponto que nem ao menos referira o seu infortúnio à Xiquinha.
Obrigado a responder ao — como? — interrogativo de minha mulher, contei-lhe a história da prisão do pobre velho, desculpando com pretextos e falsidades a minha escandalosa indiferença e o meu repreensível olvido da desgraça, em que o abandonara.
A Xiquinha é mulher, e embora calculista e egoísta como eu, ficou com os olhos rasos de lágrimas, ouvindo-me.
— Ah primo! você esqueceu demais o infeliz compadre Paciência! não o conhecia bem... foi por isso.
— É exato: vi-o, encontrei-o pela primeira vez na célebre viagem, que nosso tio me fez empreender...
— Então nem lhe sabe a história? pois é curiosa...
— Conta-ma.
— É melhor que ele lhe conte: eu não a conheço bem.
— Ele?... onde estará o compadre Paciência?
— Eis o que cumpre imediatamente averiguar: se ainda se acha preso ou está condenado, é preciso soltá-lo, ou alcançar o seu perdão. Primo, este empenho não nos pode ser nocivo, e lhe fará honra: é um ato de beneficência, de caridade e de gratidão, que sem o mais leve prejuízo ou inconveniência recomendará o seu nome; e sobretudo será honra e proveito cabendo em um saco.
A Xiquinha pensava bem: despedi no mesmo dia um próprio, que seguindo para a minha província verdadeira a fim de trazer-nos as notícias e informações de que precisávamos, voltou em breve e anunciou-nos que o compadre Paciência ainda se achava na cadeia da vila de...
Sob o pretexto de levar a Xiquinha a despedir-se de sua mãe fizemos uma viagem à província; e eu corri logo a tratar de pôr em liberdade a inocente vítima.
Encontrei o compadre Paciência no estado o mais deplorável, magro, descorado e coberto de trapos; seus já raros cabelos brancos caíam-lhe sobre os ombros, e a barba também alvejante roçava-lhe o peito; mas no rosto macilento ostentava a constância mais inabalável, e nos olhos brilhantes a chama do espírito.
Era um homem endiabrado que uma prisão de anos não pudera abater! duvido que a famosa raiz de gameleira, de que se faz tão legal aplicação na constitucionalíssima ilha de Fernando de Noronha, conseguisse dar juízo a liberal tão emperrado.
O compadre Paciência conheceu-me, apenas lhe apareci, e quis voltar-me o rosto; mas não pôde, rolaram-lhe duas lágrimas pelas faces e disse:
— Ingrato!... eu te perdoo.
E apertou-me com força a mão, que lhe estendi.
Contei-lhe a melhor história que eu tinha podido arranjar para diminuir as proporções do meu criminoso esquecimento, e deixei-o logo para ocupar-me do meu empenho.
— Eu tinha levado uma carta do ministro da justiça para o juiz de direito, que felizmente estava, por exceção, na vila, e outra de um dos senadores da província para o escrivão de quem era compadre e protetor: apressei-me a ir entregá-las, sendo recebido por ambos como varão ilustre que estava nomeado presidente de província, e já tinha portanto tratamento de excelência.
Em menos de vinte e quatro horas consegui tudo quanto desejava: o escrivão descobriu em um canto escuro do cartório o esquecido e empoeiradíssimo processo, e o juiz de direito atendendo ao recurso que em 1855 o compadre Paciência interpusera, lavrou a sentença despronunciando o réu, e mandando passar-lhe alvará de soltura.
O compadre Paciência saiu da cadeia bramindo no mesmo tom, com que bramira, entrando para ela, e sempre a clamar pelos direitos do cidadão e pela Constituição do Império, jurou que ia dar queixa contra o escrivão e as autoridades da vila de...
Diga-se a verdade: se as leis valessem alguma coisa, o enfezado velho tinha justos motivos para assim revoltar-se.
A tantos anos preso, processado e sem julgamento! a justiça pública faz coisas de arrepiar os cabelos, principalmente aí pelo interior de algumas províncias!
Todavia se as aparências condenavam no caso do compadre Paciência a justiça pública da vila de..., o estudo das circunstâncias e dos fatos a absolviam plenamente na minha opinião.
Tudo havia marchado senão muito regularmente, ao menos muito explicavelmente.
Em primeiro lugar o juiz de direito da comarca era deputado desde 1853, e em cada ano tinha, além do tempo das sessões legislativas, comissões a desempenhar ou como presidente de província ou como chefe de polícia, e a comarca não o viu, senão algumas semanas por acaso em um ou outro ano.
Em segundo lugar o juiz municipal era membro da assembleia provincial, e em regra, quando não estava atarefado na salinha, desfrutava licenças repetidas para tratar de sua saúde, e durante os meses em que uma ou outra vez se recolhia ao desterro da vila de... empregava utilmente o seu tempo caçando veados, o que é inocentíssima distração.
Em terceiro lugar os substitutos do juiz de direito e do juiz municipal tinham vida em que cuidar, andavam constantemente a passar as varas, e estavam muito no seu direito, procedendo assim, porque não era justo que roessem as espinhas dos dois peixes que os juízes formados comiam em santo ócio.
Em quarto lugar por todas essas razões não se convocara e portanto não se reunira o júri na vila de... desde 1855, o que os cidadãos jurados agradeciam como favor, sem se lembrar dos presos e processados, que, inocentes ou não, gemiam na cadeia.
Em quinto lugar o compadre Paciência teimava sempre em gritar contra a opressão e injustiça que sofria, ameaçando juízes e o escrivão seu inimigo com a vingança da lei, e evidentemente a um homem que grita e ameaça não é prudente abrir a porta da cadeia, ao contrário convém apagar a exaltação dos revolucionários, isto é, de quantos maníacos pretendem que haja no mundo direito real que não seja o fato, e preceito da lei que ponha limites à salutar onipotência da autoridade.
Há cabecinhas políticas sempre cheias dos sestros das reformas, que do estudo de sofrimentos iguais aos que passou o compadre Paciência, de outros casos análogos, e da forçada intervenção da magistratura nas eleições, concluem sustentando a necessidade urgente de magnificar-se o magistrado tornando-o independente do povo que dá, elegendo, e do governo que dá, removendo, melhorando as posições, e concedendo favores: acham eles que a magnificência se realizaria fácil e completamente com as incompatibilidades eleitorais absolutas, e com o aniquilamento de toda ação influente do poder executivo sobre o magistrado.
Deus nos livre de semelhante desgraça! se tal acontecesse, o governo perderia metade de sua força: o magistrado não distraído do cumprimento da sua missão, e sem esperanças de despachos e favores faria da religião da lei a sua glória, não se recearia de opor barreiras às arbitrariedades da polícia política e eleitoral, resistiria à ordem ilegal de qualquer ministro, e sem depender do povo seria a sentinela, e a guarda dos direitos do cidadão; não daria ouvidos parciais à vontade dos potentados dos municípios e finalmente marcharia com a consciência do dever, tendo a lei por farol.
Desse modo desorganizava-se completamente a nossa sociedade política, e ficava a nação em grande parte livre da tutela forçada do ministério, muita gente boa em disponibilidade perpétua e provavelmente eu não conseguiria nunca ser designado deputado, nem continuaria por muito tempo, como pretendo, a felicitar-me nas presidências de algumas províncias.
A prova da alta conveniência da ação poderosa do poder executivo sobre a magistratura aí está no próprio negócio do compadre Paciência. O processo dormia a longos anos no cartório do escrivão, e bastou uma carta do ministro da justiça para que o juiz de direito despronunciasse o pobre réu imediatamente e até sem ler as peças do processo.
Custou-me muito menos a alcançar isso do que a arrancar da vila de... o enfezado velho, que pretendia começar logo a comprometer-se de novo, dando queixa contra o escrivão.
Enfim convenci o rabugento compadre de que só perante autoridades superiores poderia fazer vingar os seus direitos ofendidos, e no dia seguinte, pusemo-nos a caminho, não como outrora, cavalgando eu o ruço queimado, e ele a infeliz mula ruça; mas desta vez montados em excelentes cavalos e seguidos de dois pajens com ricas librés.
As auras matinais respiradas docemente em liberdade depois de tão prolongada e cruel prisão, puseram de bom humor o compadre Paciência.
— Adivinho que vive em maré cheia de fortuna; disse-me ele: viaja com um estadão...
— Próprio de quem acaba de ser nomeado presidente da província de...
— Presidente de província!... já vejo que mudou de vida e de costumes: que deu-se, como devia, ao estudo, e, como bom cidadão, ocupou-se muito de assuntos administrativos.
— Compadre, aqui para nós, eu continuo inabalável nos meus princípios: não estudei coisa alguma, e em matéria de administração enxergo tanto, como o menino analfabeto que vai entrar para a escola.
— E conhece a província que tem de presidir? Sabe quais são as suas circunstâncias políticas e econômicas? Quais as suas grandes necessidades? Que fontes naturais de riqueza podem nela ser exploradas?
— Nem migalha de tudo isso.
— Então que vai fazer?
— É boa pergunta! vou ser presidente de província, vestir farda bordada, ter tratamento de excelência, bocejar nas audiências, comer nos banquetes e dançar nos bailes que me derem, arranjar maioria na assembleia provincial, recrutar na oposição, despender o dinheiro da província sem me importar com a lei do orçamento, ter o meu exército de afilhados, e antes de tudo e principalmente arranjar a vida.
— Excelente! e não tem receio de que o governo geral o mande plantar batatas logo no fim do primeiro mês da sua desmiolada e pestífera presidência?
— Qual! obedecendo cega e prontamente a todas as ordens oficiais e as cartas particulares de todos os ministros presentes e futuros, e sendo instrumento material da vontade e dos caprichos dos deputados gerais da província, serei presidente per omnia sæcula sæculorum.
— E a mísera província?...
— Que se arranje com o calor e com a umidade.
— Benzo-me com a mão toda! exclamou, benzendo-se como dissera, o compadre Paciência.
— De que se admira?
— É que em outros tempos a presidência de província era uma coisa séria: às vezes era confiada a um ancião pouco ilustrado; mas de experiência e de prática dos negócios reconhecidas: às vezes também a um moço noviço em administração; mas de inteligência superior e de notáveis habilitações.
— Pois meu caro compadre, hoje em dia há uma invasão de Bisnagas nas presidências de províncias que eu até ando com pretensões às glórias de notabilidade.
O velho maníaco parou o cavalo, deixou cair as rédeas no pescoço do animal, cruzou os braços e disse gravemente:
— Presidente de província quer dizer um homem a cuja sabedoria é confiado o presente e o futuro de uma considerável parte do Império...
— E um agente oficial que vai servir aos interesses dos deputados e dos amigos do ministério.
— É o arquiteto do futuro nos cuidados que presta e no desenvolvimento que dá à instrução e à educação do povo...
— É o especador do presente nas eleições que se preparam, ou nas urnas eleitorais que viola e conquista.
— É o mantenedor da lei que honra a moralidade do presente, fazendo garantir os direitos de todos -sem enxergar diversidade de opiniões políticas.
— É o caixa-mor do patronato a favor dos ministerialistas e presidencialistas, e o diretor em chefe das perseguições da súcia rebelde dos oposicionistas.
— É o fiscal zeloso da economia dos dinheiros públicos, que só devem ser despendidos em proveito real da província.
— É o espalhador mais ou menos cerimonioso dos dinheiros provinciais pelos protegidos de cada situação política, com quem se fazem contratos, que à província aproveitam como dez e a eles como dez mil nos casos ordinários.
— É o homem criador que abrindo estradas, cavando canais, facilitando a navegação dos rios, pondo em tributo o mineralogista, o naturalista, falando aos interesses da indústria e do comércio, acendendo a luz da civilização, abrindo as asas ao progresso, faz maravilhas que economizam o tempo, encurtam o espaço, multiplicam a riqueza e nobilitam a humanidade.
— É um candidato a deputado, ou candidato a senador, ou caixeiro de um figurão do tempo, ou comissário para realizar empenho especial e determinado, ou deputado que quer ser presidente no intervalo das sessões, e que toma a presidência por gozo de férias, ou qualquer outra coisa como alguma dessas e que por consequência não perde o seu tempo em pó de estradas, nem em água suja de canais, nem em pedras e lamas de rios, nem se queima na luz da civilização, nem tropeça correndo com o progresso, nem é tolo para perder o apetite e o sono metendo-se por minas e bosques.
— É um chefe de administração que na província que preside resume ou reúne as sete pastas dos sete ministros do Estado.
— É portanto um grandioso sofisma multiplicado por sete sofismas, e que deve dormir como sete, gozar como sete, comer como sete e viver como sete.
O compadre Paciência era sempre a antítese da sua alcunha: perdeu a paciência com as minhas interrupções, e dando com as mãos e com as pernas no brioso cavalo, exclamou furioso:
— Se é assim, onde vai parar o Brasil?...
E o cavalo que não era a mula ruça, sentindo-se tocado pelas esporas, deu um salto e atirou com o compadre Paciência em cheio nas bordas de um medonho precipício que havia ao lado da estrada.
Soltei um grito de susto e de horror.
Mas o compadre levantou-se e disse, olhando para o abismo:
— A Providência salvou-me.
— Que coincidências! um mau e um bom agouro! observei eu.
— Quais?
— Acabava de perguntar onde iria parar o Brasil...
— E o cavalo respondeu-me, atirando-me na boca do precipício.
— Mas a Providência salvou-o!...
— Assim seja.
Eu ainda tremia; o compadre Paciência porém calmo e sereno, como se não acabasse de escapar ao maior perigo, tornou a montar a cavalo, e disse-me:
— Fizeram-lhe impressão as coincidências; mas escapou-lhe uma observação muito curiosa.
— Qual?...
— Que as desgraças do país são tão patentes, e as calamidades e riscos que ameaçam o Brasil tão claros, que até este cavalo, que é irracional e não fala, respondeu de súbito e com eloquência irresistível à pergunta que eu fizera.
Involuntariamente fiquei silencioso e pensativo.
O velho deu por isso e perguntou-me a rir-se:
— Então?... o agouro está-lhe apoquentando o espírito?
— Ora... por quê?
— Porque em seu caráter de presidente da província e conforme suas teorias vai ser cavaleiro, e reduzir o povo seu governado a cavalo...
— Firmeza da mão nas rédeas, dos joelhos nas abas do selim, e dos pés nos estribos, açoite na anca, e esporas no ventre do cavalo sempre que for preciso, e não há perigo possível.
— Tem-se visto os mais consumados picadores cair de pernas para o ar, quando menos o esperam: olhe: basta que se quebre o freio e que rebentem as silhas...
— Sim... entendo: revolução no caso! eis o que quer dizer; eis o constante recurso dos liberalões de todo o mundo!
— Está dizendo uma grande necedade, com perdão da sua excelência! exclamou o compadre Paciência, a cujo nariz eu acabava de chegar mostarda.
— Estou denunciando um crime, e os verdadeiros criminosos.
— Revolução! bradou o velho; pois sim: ela é possível, a fogueira está se construindo e há nela cada toro que mete medo...
— Ah! confessa?...
— Mas se é verdade! o que cumpre porém examinar é donde parte a conspiração, é quem são os revolucionários.
— Aposto que o conspirador vai ser o governo.
— Indisputavelmente. As revoltas, as rebeliões podem ser obra de facções, ou de partidos em delírio: as revoluções têm sido, são sempre resultado dos erros profundos e acumulados do governo.
— Filosofia da história a Victor-Hugo.
— Que se vê no Brasil? Sistema representativo sem nação representada, porque os chamados representantes são designados pelos ministros e não eleitos pelo povo; — daí falseamento da essência do sistema: — ministérios sem lealdade política, sem cor de partido, homens ostentando a negação do passado, popularidades aniquiladas, influências gastas e perdidas, confusão de ideias, engano em cima, desengano em baixo; daí a descrença do povo: centralização absurda, amesquinhando, abatendo as províncias que mudam de presidentes de seis em seis meses e que são condenadas a intermináveis noviciados de administradores efêmeros; daí desgosto profundo e geral em todo país: corrupção dos costumes mostrando-se desenvolta na fraude política, na fraude administrativa, na fraude comercial e na impunidade de mil crimes; elevando o suor do ganho lícito ou ilícito à religião do ouro pelas vaidades do luxo, pelo furor do jogo, pelos desatinos da luxúria; o governo vendendo títulos e em mercado escandaloso, exercendo o patronato que atropela os direitos de uns, e avilta o merecimento de outros; no comércio os credores não se espantando mais ao ver chegar os devedores a proporem-lhes concordatas lesivas; os ministros sofismando as leis sem pensar que os seus sofismas ensinam os governados a sofismar o dever; daí a desordem dos espíritos e o enregelamento dos corações: na casa de Deus o clero ignorante e desmoralizado (guardadas nobilíssimas exceções) amesquinhando o culto, apagando a tocha da fé, deixando acender-se o facho da heresia; na casa do rei o princípio irresponsável atirado às discussões, às censuras, às queixas por ministros que se cobrem com o manto da coroa em face das câmaras, que no conselho são baixos por subserviência espontânea; e que são falsos lastimando-se do governo pessoal em confidências ignóbeis nos corredores da traição; na casa da justiça a magistratura condenada às migalhas da pobreza, atada ao carro do poder executivo pelos tirantes da dependência, com uma das mãos pedindo ao governo, com a outra pedindo ao povo; e enfim na casa do povo...
— Basta de expor o Brasil em vistas de marmota da oposição.
— Não: eu quero falar dos sofrimentos do povo: no que já disse estão muitos dos principais toros, com que se arma a fogueira; agora vou tratar do archote que há de acendê-la.
— Dispenso o resto do discurso...
— Mas não o dispenso eu...
— O senhor devia ter ficado para sempre fechado na cadeia da vila de...
— Então por quê?
— Porque é um republicano endemoninhado e ativo.
— Ativo?... homem, republicanos de opinião há de haver no Brasil, eu o creio; mas republicano em atividade, conspirando sem cessar tenebrosa embora indiretamente contra a monarquia, só conheço um.
— Qual é?
— O governo que desacredita e solapa o sistema monárquico representativo, adulterando-o, corrompendo-o.
— Declamações, compadre Paciência.
— É assim mesmo que os ministros respondem nas câmaras.
— Onde aprendeu e soube tanta coisa, estando a tantos anos na cadeia?
— O carcereiro me emprestava o Jornal do Comércio de que eu era assinante, e ele se ficava com a coleção.
— Era melhor que se limitasse à leitura do Diário Oficial.
— Sim: queria que eu tomasse ópio em todos os sentidos! que eu lesse para dormir e para me iludir.
— O Diário Oficial é mais do que um arquivo dos atos políticos e administrativos do governo do Estado: é a realização do grande princípio da publicidade exigido pelos liberais abelhudos.
— Mas tarde ou nunca publica as deliberações misteriosas que não convém que se apreciem.
— Ora o compadre Paciência tendo já as barbas e os cabelos brancos ainda está com os beiços com que mamou! pois então, os meninos escondem à família as gazetas que fazem na escola; as moças as cartas que mandam aos namorados; os partidores ocultam do juiz os caídos que ganham dos herdeiros que pedem melhor quinhão na partilha; não poucos padres pregadores não confessam de que sermonário copiaram os sermões escritos por eles de improviso; o negociante esconde os defeitos e avarias da fazenda velha que vende por nova; os médicos nunca declaram que não conhecem as moléstias dos seus doentes; os advogados enrolam e ocultam em dez mil palavrões a ignorância do direito e a ciência da injustiça ou a convicção do crime que defendem; todas as variedades de postiços anunciam que a humanidade adora as dissimulações, e não pode viver sem o encanto dos segredos, e somente aos ministros de estado não seria dado guardar nos arcanos da prudência alguns ou muitos dos seus atos...
— Essa é boa! tem razão: o governo é coisa deles, não é coisa pública! o governo erige-se em marido da nação e diz-lhe «Minha mulher, o que possuímos é nosso; eu porém sou a cabeça do casal, e nada tens que ver com o que eu faço da nossa riqueza.» e quando gasta a fortuna com as mundanarias, e a desbarata em orgias, esconde o crime em segredo e está no seu direito.
— Nega que haja segredos de estado?
— Nego que os haja perpétuos: a prudência e a conveniência política podem reservar alguns por certo tempo; mas o que se esconde sempre, é somente o que envergonha, e avilta ou infama.
— Ainda bem que certo tempo quer dizer tempo ilimitado.
— Venha mais esse sofisma: obrigação absurda de pagamento sem prazo! empréstimo a casamento! calote seguro de devedor sem consciência; mas não tratávamos de segredos de estado, e sim de atos do governo na política e na administração do interior, o que torna a reserva muito mais suspeitosa e condenável.
— Compadre, digo-lhe que não entende patavina de ciência política: os grandes segredos do estado consistem exatamente ou principalmente nas coisas que lhe parecem mais repreensíveis. Escute: o ministério precisa do silêncio ou da palavra ou enfim do voto de um senador influente que exige por condição um enorme destempero administrativo: que há de fazer o ministério? destemperar; mas guarda segredo enquanto pode: é indispensável reparar os estragos ou aumentar as proporções da fortuna de um distinto cavalheiro, cujos altos padrinhos o querem abençoar com a mão do tesouro público, não há remédio, incumbe-se-lhe de fazer compras extraordinárias no estrangeiro, e sepulta-se a negociação no cemitério dos arquivos da secretaria. Todas estas coisas e outras semelhantes são segredos de estado, que devem ficar em arcano, porque se fossem conhecidas, desmoralizariam o governo. A moral não está nos atos, está no véu que encobre o escândalo: o segredo é aqui o indício do pudor.
— Não me diz nada de novo, meu caro senhor: estamos de acordo na matéria e apenas discordamos na forma: é isso mesmo o que eu pensava; mas o que acaba de chamar negócios do estado, eu chamo negócios da escada.
— Compadre, eu não tenho o mau costume de fazer questão de palavras: uma vez que estamos de acordo, mudemos o assunto da conversação.
— O último ponto da nossa conversação foi sobre o Diário Oficial, que eu chamei ópio, e ópio em todos os sentidos.
— Tal e qual.
— Nesse caso preciso ainda dizer alguma coisa.
— Ainda!
— Certamente: atacar é fácil, e demolir não é difícil: mas o demolidor é um simples gênio do mal, se não sabe reconstruir, o que pode aproveitar.
— Portanto...
— Eu não condeno, aplaudo a instituição do Diário Oficial; lamento que o governo a esterilize, e a sentencie à morte dada pela indiferença pública.
— Meu doutor, venha a receita para curar a moléstia.
— O governo deve fazer ler o Diário Oficial pelo povo: para isso é preciso que lhe dê duas condições, uma essencial, outra secundária; mas também indispensável.
— Vamos ao desenvolvimento do plano.
— Em primeiro lugar é preciso que o Diário Oficial seja sem contestação o franco e fiel arquivo de todos os atos do governo; que se tenha a certeza de encontrar nele toda a história da vida do Estado: se for assim, ninguém no Brasil desconhecerá a sua importância sobre todas as publicações da imprensa periódica e diária.
— Dificilem rem postulasti; o Diário Oficial é e deve ser um composto de luz e sombras: dia de sol nublado seguido de noite sem lua.
— Depois dessa publicidade perfeita, conscienciosa que é um direito da nação soberana, cumpre que venha a explicação e a defesa simples e grave dos atos dos ministros, o que é mais do que direito, é dever do governo; mas note-se que a explicação não é a polêmica: a polêmica e a luta ficam por conta das gazetas dos partidos políticos.
— Bem entendido, pagando o governo as despesas das gazetas que se disserem do seu partido.
— E além da parte oficial e política é ainda preciso que o Diário do governo se faça ler por todos...
— Pior!
— Severo e veracíssimo em notícias do exterior, abundante em informações relativas a todas as províncias do Império, tornando-se interessante à agricultura, à indústria, ao comércio e às artes, instruindo e moralizando o povo com artigos amenos, originais ou traduzidos, mas sempre morais, reunindo enfim o útil e o agradável o Diário Oficial deixará de ser ópio, e acabará, sendo lido por todos.
— Mas, compadre da minha alma, a grande conveniência política consiste em haver Diário Oficial organizado e dirigido de modo que a sua leitura seja cruel penitência.
— Por quê?
— Homem, falando a verdade o nosso Diário Oficial não é o que podia e devia ser, porque em compensação do dinheiro que se deita fora por um lado, fazem-se economias doidas em serviços que seriam utilíssimos, se se gastasse com eles, quanto é preciso.
— Graças a Deus, que lhe saiu da boca uma observação sensata!
— Mas em meu parecer o Diário Oficial é o que deve ser, e o que exige a conveniência política; porque — existindo ele, supõe-se satisfeita uma necessidade pública, e sendo lido apenas por alguns penitentes, menos conhecidos são muitos abusos e erros do governo.
— E os jornais muito lidos que transcrevem todos os atos oficiais publicados?
— Devia-se proibir esse escândalo: tal publicação cumpria ser privilégio exclusivo do Diário Oficial.
— Sim! era melhor que ainda se publicasse menos.
— Sem dúvida, e hei de proceder nesse sentido nas províncias de que for presidente.
O compadre Paciência tornou a fazer parar o cavalo e disse-me seriamente:
— Ou os seus paradoxos são gracejos, ou o ministério que o nomeou presidente, não o conhecia.
— Qual! nomeou-me e eu aceitei a nomeação porque ele eu nos conhecemos.
— Não! não: primeiramente ainda duvido um pouco da sua nomeação, e enfim custa-me a crer que o governo do meu país tenha descido ao ponto...
O velho não acabou; um soldado de cavalaria correndo à rédea solta, estacou diante de nós e entregou-me um ofício e uma carta.
O ofício ordenava-me que seguisse imediatamente a tomar conta da presidência, anunciando-me que um vapor ficava à minha disposição na capital da província, onde me achava.
Passei o ofício ao compadre Paciência que o leu.
— Então? perguntei.
— Tem razão: é presidente de província: respondeu-me com ar apatetado.
— É homem de segredo?
— Penso que sou e por isso mesmo raramente curioso.
— Veja esta amável cartinha que acabo de ler.
O velho não se fez rogar: a carta era do meu amigo o ministro da... e dizia assim:
« Confidencial. Prezadíssimo; parta logo e logo, e para evitar demoras, não passe pela corte. Morreu o deputado eleito Manoel Mendes e sabemos que o eleitorado todo do competente distrito adotou a candidatura do Dr. Relamborio que, embora seja do partido, é inaceitável pelo ministério, porque, há dois anos, sendo examinador de filosofia, reprovou o irmão mais moço do atual presidente do conselho; por consequência carta branca: não queremos o Relamborio eleito. Faça deputado a quem melhor servir para derrotá-lo.
— Seu do coração
X. Z. Y. »
— E agora? perguntei de novo.
— Agora, tornou-me o compadre Paciência, agora estou ainda mais convencido de que com ministros e presidentes de províncias que assim desgovernam, o Brasil vai, não à vela, mas a vapor...
— Para onde?
O velho fez uma careta horrível.
Continuação satírica de A Carteira de Meu Tio, em que Joaquim Manuel de Macedo põe seu narrador oportunista diante da política, das eleições e dos costumes do Brasil imperial. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno e numeração de capítulos fiel à edição H. Garnier de 1904.
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