Universo da obra
Universo da obra
Bá, que chegara de manhã, com Inocêncio, para esperar as andorinhas, ouvindo rodar de carro, saiu à varanda em mangas de camisa, com uma toalha cruzada no busto à maneira de xale e vendo, através do gradil pintado de fresco, uma caleche que rutilava, bradou pelo copeiro numa ânsia como se o chamasse a socorro.
Antes, porém, que o rapaz acudisse ao clamor aflito já um homem escancarara o portão diante de duas senhoras, uma das quais atravessou o jardim a correr por entre os canteiros nus que ressecavam ao sol.
Era alta, esbelta, torneada em curvas rígidas, como marmóreas, denunciando uma carne sadia e moça.
Amplo chapéu de palha, de abas largas, em toldo, florido de rosas entremeiadas de avencas, ensombrava-lhe o rosto alvo e redondo. Os olhos azuis eram grandes e úmidos, de uma doçura de águas refletindo céus crepusculares, em contraste com a boca vermelha, de um corte ondulado, sensual e altiva, entreaberta na respiração cansada, deixando ver os dentes alvos, unidos, postos com a perfeita ordem de uma cravação em joia.
Lesta, arqueando os braços em lira, tirou o chapéu e a cabeça fulgurou num esplendor de ouro fulvo. Sentia-se-lhe a pele quente e úmida e as faces ardiam-lhe em rosas vivas. Deixou-se cair amolecidamente no banco da varanda, estirando os braços no recosto, a cabeça encostada à parede, olhos extáticos, num delíquio lânguido:
— Ó!
Bá... que calor!
— Coitada de minha filha! — lamentou a negra com enternecimento, quase de cócoras, olhando-a num enlevo maternal, os braços estendidos, como se a quisesse tomar ao colo. Logo ergueu-se, porém, ao trepidar de passos no cascalho. Era miss Kate, a professora, uma irlandesa esguia, de rosto comprido, ossudo, alvo, sardento, como de leite polvilhado a canela, com a impassibilidade de máscara. Pisava firme e forte, olhando através das lentes rutilas dos óculos redondos, de grossos aros de prata. Trazia ao colo, apertada ao seio, entre os braços másculos, uma cadelinha de raça.
Mademoiselle, como lhe chamava Bá, chegando à varanda, voltou-se para olhar a paisagem fronteira — os montes da Tijuca ao fundo e na falda campos rasos de ervas viçosas, onde mangueiras imensas, compactas, abriam oásis de sombra.
A cadelinha, mal libertou-se dos braços de Mademoiselle, saiu trêfega, tilintando os guizos da coleira, a farejar os cantos, metendo a cabeça por entre as grades da balaustrada aos latidos alegres.
— Coitada de Mademoiselle... E Diana? Veio direitinho?
A velha negra cirandava, contente, vendo todos os seus em casa, e, agachando-se, sem poder sopitar uma expansão jocunda, espalmou as mãos nas coxas, dizendo a sorrir, feliz:
— Agora sim, nhanhã... Agora estamos no que é da gente. Ia continuar, mas uma voz interrompeu-a:
— Estás alegre, Bá. Era o homem. Alto, magro, nervoso, a tez morena de moçárabe. O rosto profundamente sulcado, como a buril, tinha uma expressão de energia serena. Os olhos fundos eram tristes e rebrilhavam. Os cabelos brancos rareavam devassando a fronte; fartos bigodes grisalhos escondiam-lhe a boca. O andar era altivo e lento como o de um soldado em ronda.
— Não sente calor, paisinho?! Acho isto aqui mais quente do que o Catete.
Olhou-a com um sorriso:
— Mais quente?!... Caminhou ao longo da varanda, as mãos para as costas, a cabeça alta, respirando a brisa impregnada do aroma alpestre.
— E Miss Kate?
A irlandesa lançou os olhos à montanha e, voltando-se, disse:
— Lindo, majestoso!
— E fresco...
— Fresco, sim. E, dirigindo-se a Sarita, acrescentou: — Muito fresco! Muito!
Esticou o pescoço girando a cabeça como para deixar entrada franca à aragem até o seu colo seco.
— Pois eu acho horroroso! — concluiu Sarita levantando-se.
A casa estava ainda em desordem: móveis amontoados, panos dispersos. Tresandava a terebintina.
A mesa de jantar, de canela escura, estava em parte coberta de cristais; em uma das pontas desembaraçada alvejava a toalha. No chão grandes cestos de louça, volumes embrulhados em jornais; o soalho todo coberto de palha e, encostado a um ângulo da sala, o grande relógio tinha os ponteiros adormecidos sobre as onze horas. O guarda-pratas vazio, os trinchadores apinhados de pacotes; galerias de carvalho amontoadas, vasos, tapetes e, sobre todo esse caos de mudança, o sol, que entrava por seis amplas janelas, alastrava cintilações das taças enfileiradas entre vasos da China e faianças portuguesas. Canários assustadiços saltavam nos poleiros das gaiolas chilreando. A cadelinha inspecionava a casa, ia e vinha, desaparecia, voltava, de focinho baixo, farejando os cantos, os móveis como se os reconhecesse.
Bá desculpou-se do desarranjo com a atenuante da idade: já não tinha forças, mal podia com as pernas e Inocêncio era um estabanado, um quebra-tudo. O moleque encantoara-se no vão de uma janela e olhava, ora a negra, ora a ama, com um riso alvar, torcendo um guardanapo. Sarita e Miss Kate sentaram-se. Bá, solícita, indagou:
— Se não tinham fome, era tempo...
— Já almoçamos — disse o homem que, de olhos altos, admirava o estuque do teto, os medalhões das paredes e, de quando em quando, debruçando-se a uma das janelas, atirava o olhar ao longe, campo afora, ou pelo dorso nemoroso das montanhas, em cujos matos as folhas claras das embaúbas punham manchas de prata, e contemplava com um regalo íntimo de misantropo que encontrasse, alfim, o silêncio, a solidão ideal. Estalaram palmas.
— Devem ser os homens.
O moleque saiu à varanda com um ranger áspero de sapatos novos.
— Dr.
Jorge Soares?
— É aqui mesmo. Entrem.
À porta da sala apinharam-se quatro homens robustos. Mal deram com as senhoras, Sarita e Miss Kate, que repousavam, acaloradas, descobriram-se como se houvessem avistado santas e, com respeito, através das barbas ruivas, selvagens, um deles, espadaudo e grosso, a pele das mãos gretada e áspera, sussurrou:
— Boas tardes!
Os outros, em surdo uníssono, acompanharam-no. O doutor recebeu-os com o relógio na mão:
— Para as dez da manhã, meus senhores...
— Viemos um poucochinho tarde, viemos, sim, senhor; mas vossa senhoria há de nos desculpar; tivemos uns móveis a embarcar.
E, noutra voz cheia de convicção, acrescentou:
— Mas há tempo, senhor doutor... Pode estar descansado que antes das cinco está tudo pronto.
— Pois vejam isso...
— Quer vossa senhoria que a gente comece cá por baixo ou pelos dormitórios?
— Pelos dormitórios, naturalmente.
E, voltando-se para Sarita, perguntou:
— Não achas melhor, Sarita?
— Para mim é indiferente — respondeu a moça com frieza, sem levantar os olhos.
— Pelos dormitórios — disse o doutor aos homens.
Recuaram os quatro para junto do banco, na varanda; despiram os casacos, desembrulharam pacotes de onde rolaram ferros e entraram pela sala em grupo compacto, com olhares para a direita e para a esquerda, mirando tudo, calculando o trabalho.
— Vai com os senhores lá acima, Inocêncio — ordenou o doutor.
O moleque tomou a frente e, pelo corredor, depois pela escada em caracol, que levava aos aposentos superiores, soaram passos fortes.
O doutor aproximou-se de Sarita e, alisando carinhosamente os cabelos finos que, em penugem, douravam-lhe a nuca marmorea, indagou: «Se estava triste, que tinha?» A moça desviou a cabeça em amúo, revoltada contra a precipitação da mudança.
— Podiam ter feito tudo com calma, sem aquele incômodo de passar um dia inteiro abafada em sedas, entre montes de palha e lotes de porcelanas. Pareciam ciganos. Era sempre assim por causa da maldita mania das pressas, a azafama atabalhoada, o atropelo impaciente. Bem que a podiam ter deixado em casa da Nicota, com Miss Kate, mas não! Sempre as teimas: Vamos! Vamos! Vamos! Um calor daqueles e ela, de luvas, a aborrecer-se, suando que já não podia mais.
Em cima atroaram pancadas e Sarita revoltou-se:
— Podia lá com aquilo! Um cheiro de tinta que atordoava e aquele barulho... E depois era ela a imprudente, a teimosa. Arrancou de escorcho as luvas e, cravando o cotovelo na mesa, encostou o rosto na palma da mão, deixando os olhos errarem pelas paredes. Fora, num flamboyant florido de púrpura, uma cigarra estrídula cantou.
O doutor, muito brando, sorria para Miss Kate sem ousar interromper a torrente impetuosa do mau humor da moça. Acenava com a cabeça branca e nobre como a dizer: «Deixá-la! Que fale!» A irlandesa, porém, interveio com a ascendência da sua palavra atormentada pelos rr, cortada de haustos:
— Que não se aborrecesse; em pouco estariam descansadas e no conforto. Eram sempre assim as mudanças. Mas como arrastassem móveis em cima, Sarita irrompeu nervosa:
— Até já estava com dor de cabeça. Uns brutos! Parecia que estavam quebrando tudo.
Bá, atraída pela discussão, adiantou-se humilde, temendo uma revolta da moça. Deixou-se estar à distância, encostada ao umbral da porta do corredor, a mão no rosto, ouvindo. Sorria, mas à última explosão de Sarita, não se dominou e docemente, com a voz lamurienta, pediu:
— Não se zangue, nhanhã...
— Aí vem Bá! Você também é outra das pressas. Não hei de zangar-me.
— Está bom, está bom... — disse a velha negra, dando uma volta e partiu para a cozinha arrastando as chinelas, a resmungar contra a ingratidão, recordando o «muito que aturara da moça desde o berço até àquela idade para aquilo. Tudo era Bá...! Não havia de aborrecê-la muito, mas, quando morresse, então sim haviam de arrepender-se, de ter saudade. Então sim... Oh!
Bá... Seria tarde!» Miss perdeu a sua gravidade ouvindo a negra chorosa, e Sarita sorriu irresistivelmente. A borrasca cedeu com uma derradeira acusação à ama:
— Ah! Também! Tão intrometida!
— Furiazinha! — disse-lhe meigamente o doutor. Furiazinha!
— Furiazinha...! Você é sempre assim, paisinho.
— Pois sim, pois sim; mas, se não tivesses vindo, se tivesses ficado em casa da Nicota tínhamos, amanhã ou depois, cena pior a pretexto de que eu não soubera arranjar teu quarto ou o de Miss Kate ou mesmo o meu. Assim estás aqui e tu mesma dirás como queres a tua cama: ao centro ou encostada à parede e os teus móveis de toilette. Darás o plano do teu gabinete, o lugar da estante, o lugar da escrivaninha, o canto para o divã; porás em ordem os teus bibelots, as tuas tapeçarias. E sorrindo: até farás com que eu consiga ter um escritório de gosto, ajudando-me a compor os troféus de armas e a dispor as telas e os bronzes.
Miss Kate ouvia calada e, de vez em quando, seus olhos enternecidos, abrumados em nostalgia, erguiam-se para o rosto moreno do doutor, mas logo os baixava tímida, velando-os castamente, sob os cílios louros. E ele, em mudez, contemplava enlevado, como num êxtase de amor, os lindos fios de cabelos que esvoaçavam sobre a cabeça dourada de Sarita, donde subia um suave aroma. Por fim disse:
— Estás aborrecida? Tens razão, minha filha. Mas, se é só porque te sentes mal nesse vestido, porque não o despes? Tens aí a tua roupa. Recolhe-te a um desses quartos e põe-te à vontade. Queres?
— Não.
— E a senhora, Miss Kate?
— Oh! Não! Estou bem; espero.
A professora levantou-se, correu os olhos pela sala e saiu à porta da varanda, cuidadosa, preocupada, espiando debaixo da mesa, pelos cantos.
— Que é?
— Diana...
— Deve andar por aí.
E o doutor, castanholeando, pôs-se a chamar:
— Diana! Diana!
E Miss também, empertigada, com os olhos no corredor, chamava:
— Diana!
E a cadelinha surgiu dentre as sanefas das galerias, rebolindo-se, de rastro e esticando-se nas pernas, pôs-se a latir. Miss agachou-se, tomou-a ao colo alisando-lhe o pelo.
Sarita, no entanto, deixara-se ficar molemente sentada, de olhos parados, lábios entreabertos, como num êxtase. Mademoiselle e o doutor debalde convidavam-na a sair, gabando a frescura suave da tarde, a beleza do céu e dos montes que se avistavam como num fundo de cenário; ela resistia amuada:
Deixassem-na. Estava farta de pitoresco; queria descanso. O seu pensamento errava pela solidão da antiga casa abandonada e nua. Via-a na tristeza silente em que a deixara: as salas imensas, reboantes; os quartos enormes, mais claros depois que os homens despojaram-nos despindo as paredes, arrancando as cortinas, e a sua câmara, no alto, com duas janelas: uma para o mar, de onde ela olhava, à radiante luz, o lento, sereno deslizar dos barcos que entravam, saíam, velas colhidas ou abertas ao vento para as travessias longas e arriscadas do oceano. Outras vezes em um imenso transatlântico, mugindo, desfraldando fumo, ou as pequeninas pirogas mergulhando e subindo na onda como troncos perdidos levados ao sabor da corrente.
Da outra janela eram quintais, pátios de estalagens tomados pelos coradouros, telhados corridos do casario, onde à tarde baixavam casais de pombos arrulhando.
E as suas banquetas de margaridas, os seus craveiros, os seus bogaris, a linda e viçosa mouta de violetas, quem lhes iria abeberar as raízes e refrescar as folhas à tardinha, depois da soalheira calcinante que racha e tosta a terra fecunda e queima os tenros renovos e as pétalas macias?
Certos pregões habituais zumbiam-lhe aos ouvidos, vindo de muito longe, do fundo misterioso das reminiscências queridas. E os arrepios ao pisar a areia fofa e molhada da praia, avançando para a vaga humilde que lhe beijava os pés; os mergulhos, a voluptuosa flutuação nas águas inquietas, hirta, de costas, as mãos em cruz no peito, os olhos cerrados, como adormecida, levada para o além infinito dos mares. E os passeios à tarde com as Miranda e as Moretti, Heloísa Moretti, entre todas, loura e ardente, sempre risonha, muito engraçada e picante nos comentários maliciosos. Heloísa, que a levava ao longo do cais do Flamengo, sussurrando-lhe aos ouvidos a história triunfal das suas noites nos salões do Clube, na frisa do Lírico quando, atraídos pela brancura das suas espáduas virgens, os moços seguiam-na submissos como a matilha bravia seguia pelos montes Diana, a deusa selvagem.
E conhecia a história de todos aqueles rapazes das pensões vizinhas, sabia-lhes os nomes e esfiava miudamente a biografia de todos: se eram ricos, que academia cursavam, se tinham amantes, onde costumavam passar as primeiras noites dos meses em orgia regalada e devassa, com estouros de champagne e beijos chuchurreados entre árvores num hotel campestre, onde havia como um eterno rito noturno de luxúria. Mesmo de um certo Gomes Taveira, macambuzio e fechado, cheio de circunspecta moralidade, ar de pedagogo, com grandes barbas donde pareciam escorrer sentenças, sabia as partidas devassas com a Ermelinda, uma mulatinha da casa do conselheiro Brites, que ia todas as noites, rescendendo a óleos, dar trela aos rapazes do Clube de Regatas.
Heloísa! Heloísa! Resvalava para o romantismo das noites de luar, quando, estirada no divã cor de malva da sua câmara forrada de pelegos moles, ouvia a guitarra de um jardineiro acompanhando fados sentimentais; mas ergueu-se com um profundo suspiro, passou as mãos pelos olhos como para dissipar a visão e chamou a ama.
— Vem comigo, Bá. Estou que não posso. Lançou um olhar entediado à sala e seguiu pelo corredor vagarosa e triste.
Miss Kate acompanhara o doutor ao jardim, cheia de ternura pelas plantas novas: mudas de rosas, craveiros. Lia papeletas fincadas na terra fôfa como pequeninas placas de um cemitério floral, prestes a rebentar os túmulos em ressurreições de aroma.
Havia um canteiro para as violetas junto ao muro, em sombra fresca; outro para as begônias raras, para os amores perfeitos, para os miosótis, e ao centro do jardim, num tanque de ci mento, amontoavam-se pedras limosas por entre as quais a água branca fluía, enchendo a piscina, onde peixinhos circulavam abrindo e fechando as barbatanas róseas.
Mademoiselle, enamorada, expandia-se sobre a frescura do sítio, sobre a lindeza da vista. Diana ia e vinha, ganindo, espojando-se na terra aos rebolos. Mademoiselle acocorava-se diante dos canteiros e, de vez em vez, espetando a terra, exclamava radiante:
— Olhe! Olhe, doutor! Já vem... Era uma moitinha de flores miúdas, atarracadas, que brotava da terra.
O doutor propôs uma vista de olhos à horta e a professora ergueu-se, sacudindo as mãos. E subiram pela aleia central coberta de cascalho escuro, com dois renques de tinas, onde verdejavam enfezadas palmeirinhas e moitas de tinhorões. Ao fundo corria uma cerca de pinho, pintada a duas cores, com uma cancela abrindo para a horta, onde os canteiros vazios, em linhas paralelas, esperavam a semente. O galinheiro casa e pátio; o banheiro, num xalezinho de venezianas verdes, depois uma sebe fechando o bosque denso onde, por amor da natureza silvestre, o doutor não permitira que entrasse o machado, respeitando a velhice das árvores que dormiam tranquilamente, na grande paz afável dessa tarde morna e azul; apenas o encinho penteara a relva amaciando leitos para as preguiçosas sestas de verão.
Miss Kate sentiu-se atraída pela solidão daquelas sombras tranquilas, daquelas balsas de religioso silêncio onde o sol estilava a luz em nimbos, como folhas de ouro entre folhas verdes.
A paz do arvoredo denso era apenas interrompida pelo fluir da água de um córrego que derivava num fundo pedregoso, entre barrancas muradas por bambuais. Voltou-se risonha e confessou a sua ânsia insofrível de repousar um momento nesse retiro, sentir a umidade do solo, o cheiro acre das resinas, fazer um ramo de parasitas. Diana roçava-se por ela festejando-a.
O doutor, para satisfazê-la, passou ao estreito caminho da «mata» e ofereceu-lhe a mão para que ela saltasse um tronco que ali estava tombado, ela, porém, ágil e intrépida, rejeitou o auxílio.
— Ah! Não, doutor! Ergueu a saia sorrindo, passou as pernas esgalgadas e, de olhos altos, embebida na grandeza das copas das primeiras árvores, engrolou louvores à América tão rica na terra, tão formosa nos mares e nos céus. Corria pelas árvores o arrepio da brisa crepuscular e os grilos, na erva, anunciando a noite, começavam a cantar trepidamente. As folhas secas estalavam sob os passos.
O doutor seguia, mas diante de um grande tronco direito, sem ramos, roliço como uma coluna, deteve-se e foi derreando a cabeça para poder olhar a altíssima folhagem do colosso. Por fim voltou-se para falar à professora. Não a descobriu, ficara atrás; chamou-a e, de longe, dentre os matos, Miss Kate respondeu cerimoniosamente:
— Senhor doutor?! Mas, noutra voz, infantilmente, comovidamente, tornou a chamar: — Senhor doutor! Senhor doutor! Venha ver... Aqui! Venha!
O doutor encaminhou-se guiado pela voz, com erva até os joelhos, e foi encontrar Miss Kate com um corimbo de glicínias, extasiada diante de uma teia de aranha tecida entre os galhos de duas árvores.
— Que linda! Parece de ouro! E mostrava a aranha que ia e vinha atarefada e rápida, correndo sobre os fios tênues. Deixaram, por fim, esse meandro intrincado e úmido e foram pela picada até uma clareira circular, o tabernáculo do bosque onde viviam as velhas árvores. A dois passos o córrego fugia. Em volta do tronco colossal de uma mangueira corria um grosseiro banco de tábuas já escalavradas pelos anos; o solo era todo um tapete de relva. Ao rumor dos passos um casal de rolas bateu asas ruflando. Diana latiu arremetendo e Mademoiselle, curiosa, indagou:
— Pombas?!
— Rolas, Miss.
— Ah! Rolas...! E seus olhos azuis, sempre aguados, buscaram devassar o céu por onde fugiam as aves. Sentaram-se os dois. Diana acolheu-se às saias de Mademoiselle e, ouvindo o sussurrar do córrego e o ramalhar do arvoredo, concordaram ambos: «Que a chácara era de uma incomparável beleza!» Calaram-se admirando, mas o doutor lastimou:
— É pena que não haja um pomar.
Mademoiselle, porém, cerrando os olhos, sorriu e, pondo-se de pé, exclamou estendendo o seu longo braço para as árvores e para o bosque como se o quisesse abençoar.
— Ah! Doutor! Para que mais do que isto...?
E com soberano desprezo pelos frutos, pelos pomares, concluiu:
— Isto sim, isto é belo!
E foram-se-lhe os olhos das raízes das árvores às franças altaneiras. Quando recolheram a tarde empalidecia; cigarras chiavam no bosque e nos jardins vizinhos. Os montes, de um azul forte, recortavam-se nitidamente como embutidos no céu. As esponjeiras, salpicadas de flores, rescendiam perfumando a aragem. Na varanda, um dos homens, já vestido, atulhava o cachimbo de fumo, mas vendo o doutor adiantou-se risonho, anunciando: «Que a casa estava pronta. Tinham apenas deixado para o dia seguinte os reposteiros e as cortinas; e acrescentou que tudo ficara ao gosto da senhora que andara com eles, a explicar.»
Efetivamente a sala oferecia um aspecto repousado e agradável de ordem e conforto luxuoso. Híspido capacho de cerda forrava o patim guarnecido de duas tinas de carvalho esculpidas em acantos, e o olhar alegrava-se com a frescura das paredes, de um tom de malva, onde ressaíam, com solenidade, os móveis nobres.
Entre as étageres o guarda-pratas com as baixelas resplandecentes, os estojos dos preciosos aparelhos japoneses, o «centro» e as grandes fruteiras de prata, era como uma tabuleta de ourivesaria. Em frente, num pequeno armário Renascença, de grandes lavores e táuxias de bronze e prata fosca, os cristais fulguravam em brilhos policrômicos.
A mesa estirada pousava sobre um encerado inglês e no centro, subindo de um cache-pot da China, uma palmeira abria os leques verdes. Pelas paredes, telas viçosas de Estevão Silva, pastéis de Gensollen e uma paisagem ardente de Parreiras; pratos raros e a um canto, num pedestal de faiança das Caldas, uma ânfora antiga — sentado no bojo, entre urzes, um pastorinho soprando distraído a flauta rústica e nos ressaltos e chanfras, pelas asas folhudas, nos bordos ourelados de ervas, por todo o vaso, espalhados carneiros adormecidos ou de pé, e em baixo, vigilante, de orelhas fitas, o cão.
Um grande prato italiano: a quadriga de Faetonte rolando dos céus abrasada, em pedaços, ficava por cima de uma das étageres e sobre a outra uma travessa de prata, obra antiga, de séculos, representava, em minucioso relevo, o banquete de Trimalchion no momento terrível da entrada de Ajax partindo a duros golpes de espada o vitelo cozido e, a um canto, estas palavras do Satyricon, que fechavam a explicação da cena:
«Secutus est Ajax, strictoque gladio, tanquam...» O mais os anos haviam consumido. No canto oposto ao da ânfora uma cegonha de bronze, uma pata encolhida, meditava por baixo de uma cantoneira onde Sileno, de mármore, nu e quase a cair, perdendo o sendal de parras que lhe encobria o ventre, emborcava com avidez o cântaro do amo. E pequeninos gutúrnios pompeianos, vasos do tempo clássico, figuras pantafaçudas de bonzos acocorados.
O relógio, isolado, movia a pêndula lentamente.
À noite, alumiavam a sala quatro bicos de gás e ao centro do teto, descendo de uma rosácea do estuque, um grande e magnífico lustre de bronze, relíquia venerável e rara que o doutor guardava como uma recordação duradoura da Mesopotâmia.
Passaram ao vestíbulo, pequena sala abrindo para a varanda que cercava todo esse pavimento da casa com um largo alpendre de ardósias suspenso sobre colunas de ferro galvanizado. A mobília sóbria, conventual, era toda de couro negro com pregaria de prata. Guarneciam as paredes gravuras inglesas de assuntos clássicos em molduras de carvalho fosco ramilhetadas de ouro, e duas telas de um palmo: a partida aventureira de D. Quixote à luz fresca e dourada da manhã e a morte serena do herói no catre doméstico, os olhos fitos na couraça e na lança tantas vezes enristada em favor dos simples. A um canto o porta-chapéus de ferro bronzeado.
Uma pequena porta levava ao salão. O soalho, de miúdos mosaicos de madeira, reluzia e os passos deslizavam por ele como sobre a neve dos lagos congelados. O teto admirável era em grandes almofadas de estuque cheias de pássaros e de cupidinhos nus, que pareciam debater-se presos nos intrincados rendilhamentos. A luz e o ar entravam por oito portas altas quatro à frente, duas em cada uma das faces laterais. Os móveis, como os dispusera Sarita, faziam à maneira de pequenas ilhas de luxo e de paz confortável e macia.
Para um lado, um terno de estofo escarlate com fios de ouro: o divã, as poltronas e, ao centro, sobre o alto tapete fofo, pequenino e rotundo, o pufe, onde um nelumbo desabrochava sobre águas de ouro, no fundo carmesim da seda.
De um lado e de outro as vitrinas de caprichosos feitios, ao gosto japonês, enleiadas de dragões, com as suas prateleiras carregadas de figurinhas de Saxe, de potiches do Japão e da Índia; antiguidades trazidas das lavas frias de Pompeia ou dos sarcófagos milenares das múmias faraônicas, camafeus preciosos, ágatas, sílex, recordando as primeiras lutas da humanidade, ou uma simples pedra trazida de um piquenique alegre nas montanhas, na qual Sarita inscrevera uma data.
Ao fundo do salão, sob o grande espelho veneziano, no qual o pincel de um artista traçara toda a cena medieval do embarque de Marino Faliero para as núpcias com o Adriático, um precioso e raro grupo de ébano trabalhado a buril com finos embutidos de bronze: sofá de alto respaldo com delicados entalhes e caneluras, cadeiras abaciais e, adormecendo os passos, estirava-se entre os móveis, ao peso de uma mesa de marchetaria, a pele de um tigre real.
Na outra face a feição era a de um interior moçárabe, a forma das cadeiras, o assento de madeira escura, em recortes, o respaldar como uma grande lira, o vasto sofá todo embutido de pequeninas placas de marfim, mesmo um grande móvel, forte como um cofre, tinha a forma rebuscada e difícil de um portal de mesquita, das que os árabes deixaram pelas terras de Espanha quando fugiram para as suas areias do deserto, perdendo Granada, que as lágrimas fracas de Boabdil regaram.
Acima do sofá moçárabe havia peanhas douradas e cantoneiras e um busto de infante, de mármore imaculado, rindo, a cabecinha meio encoberta pelas franjas de um xale do Tonkin. Um Perseu de bronze e um psilo de pé, meio inclinado, a soprar a flauta eletrizante para uma cobra capelo que erguia a cabeça ouvindo entorpecida. Colunas de ébano ocupavam os quatro ângulos e os quadros, encostados às paredes, repousavam sobre panos. Na sala contígua, para a qual passava-se por uma larga porta ogival, um Erard alongava-se, fechado. Estantes carregadas de álbuns e a um canto, em discreta e sonolenta penumbra, uma otomana de seda entre cadeiras douradas.
Forrando o soalho um só tapete, onde desabrochavam profusamente rosas e crisântemos.
O doutor esteve algum tempo olhando, por fim confessou que Sarita fizera prodígios e Mademoiselle arregalava os olhos acenando afirmativamente.
Anoitecia. Inocêncio apareceu para fechar as portas, mas estacou ouvindo falas na saleta do piano e, como o doutor entrasse no salão perguntando pela moça, respondeu:
— Que estava lá em cima com tia Bá e o cozinheiro arranjando os quartos.
Mademoiselle, risonha, propôs uma surpresa irem devagarinho espiar Sarita nos seus arranjos; mas soaram passos na escada e gargalhadas vibrantes.
— Ela aí vem, Miss...
E, gentilmente, afastando-se, deixou passar a irlandesa que saiu com palavras de elogio. Inocêncio foi fechar as portas.
Sarita, num leve e fresco vestido de cassa, encontrando-os no vestíbulo acusou-os de curiosidade:
— Já tinham ido espiar...
Mas ria satisfeita, alisando os finos cabelos das têmporas. E suspirou:
— Estou estrompada!
O doutor e Miss entraram a gabar-lhe o gênio ativo e ela, risonha, disse:
— Está tudo pronto. Só falta pregar os quadros e arranjar o pavimento térreo: o seu gabinete, paisinho. E, impondo, continuou:
— Não quero que você toque em um móvel, em uma arma; eu mesma vou arranjar tudo: os livros, os quadros, a panóplia, procurar a luz para a sua mesa de trabalho, eu e Miss Kate... Não é, Miss? Nós duas.
A irlandesa afirmou, ajuntando:
— Com muito gosto!
Sarita deixou-se cair no sofá de couro e o doutor sentou-se a seu lado. Miss, contemplativa, saiu à varanda para olhar o céu, onde as últimas luzes da tarde esmaeciam. Uma claridade súbita alastrou o soalho lustroso e o doutor, encostando a cabeça ao braço que Sarita estendera ao longo do respaldar, indagou como num sonho:
— Então vão aformosear o ninho da velhice?
— Sim, amanhã mesmo, bem cedo. E há de ver como fica com um interior confortável e de gosto.
— Para conforto basta-me uma caverna onde haja um poucochinho de água e um raio de sol que alumie as páginas de um livro — disse num tom de tristeza, de olhos semicerrados.
— Ora! Não queira tomar ares de monge. Nem tão velho está você assim, paisinho. E continuou, balançando os pés, bamboleando o corpo: — Há de ter flores todas as manhãs; e, com um momo, o dedinho erguido em ameaça, continuou:
— Mas não é para desarranjar tudo, como é seu costume: um livro aqui, a toalha em cima da mesa, os jornais pelo chão. Há de zelar também, ouviu? Ele acenou com a cabeça e sorriu procurando-lhe a mão, que ela abandonava à sua ternura.
Mademoiselle, que se debruçara à varanda, embebida no grande silêncio crepuscular, perfilou-se e, como uma vedeta de astros, anunciou docemente a ascensão da lua. Inocêncio aparecendo à porta com um guardanapo no braço, disse timidamente, como para não interromper o êxtase dos três:
— Jantar.
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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