Universo da obra
Universo da obra
No dia seguinte ao da instalação Jorge, em robe de chambre, estirado na chaise longue, os jornais sobre as pernas, na frescura exterior do pátio dos seus aposentos, sobre o jardim, aspirava o ar puro da manhã, olhando as montanhas azuis empoadas de bruma, onde o sol nascente punha grandes claros, quando Sarita apareceu trêfega, contente, os cabelos soltos rorejantes de água fresca do banho. Sorriu surpreendido com «aquele madrugar» e, como a moça curvasse o busto gracioso tocando-lhe o rosto com os lábios frios, beijou-a também em ambas as faces, guardou-lhe as mãos interrogando-a sobre a estranheza daquele despertar matinal.
— Não dormira com o cheiro das tintas, passara a noite em claro pensando na casa, na disposição dos móveis — respondeu Sarita; e perguntou por Miss Kate.
— Foi às borboletas; ela e Diana.
A moça deu, então, alguns passos, penetrando no grande salão de trabalho, acumulado de móveis. Uma grande mesa de mogno, estilo borgonhês, Ducerceau, estava empilhada de livros; sobre um pequeno console Renascença um grande relógio de bronze, com uma cena troiana, marcava horas antigas. Amplas cadeiras medievais, esculpidas, com altos respaldos de couro impresso, carregavam pilhas de infólios, rimas de brochuras; nos raios das estantes pretas a coleção mineralógica: piritas, topázios, ágatas, cristais e turmalinas.
Quadros em pilhas, feixes de armas: claymores, adagas, punhais, lanças altas do Oriente, largas espadas dos tempos feudais e toda uma armadura fulgurante, o corpo da panóplia, encostada a um ângulo; e flechas indígenas, arcos, zarabatanas, colares de dentes, tangas com pingentes de coco em forma de campânulas, tangapemas, remos.
Em linha, ao longo das paredes, um renque de quadros: uma cópia da Visitação de Zeitblom, um Couraceiro de Meissonier, um Chaplain, um Lhermitte; telas de Castagnetto, de Bernardelli, de Belmiro, de Parreiras, e, destacando-se risonhamente dentre todos pelo fundo claro, de fugitivos tons de rosa, um pastel de Villares, o retrato de Sarita, a cabecinha apenas, afogada entre as plumas brancas de um grande chapéu Empire, porque o busto era uma névoa de musselina e rendas.
Sarita, que mirava tudo atentamente, calculando efeitos, passou ao quarto contíguo, a grande câmara de repouso. As janelas tinham densas cortinas que coavam a luz, vertendo uma penumbra de paz e de sono no grande leito de colunas torsas, sobre as quais repousava o baldaquino, forrado de seda escura, onde esmorecia uma linda alegoria: a Noite, nua, de olhos cerrados com um sendal que era a Via Láctea, esparzindo pelo espaço estrelas e sonhos. Mas os carregadores tinham despejado a biblioteca pelo soalho: havia montes de volumes, alguns rotos, outros escancarados, amarelecidos, brochuras esparsas.
Sarita, lançando os olhos pela sala, não pôde conter o riso, pasmada de que o padrasto tivesse podido dormir naquele desarranjo, de onde fugiam assanhadas baratas e traças. Jorge apareceu então, e, sorrindo, pediu-lhe o plano artístico que ela imaginara toda a noite, na insônia que a enfeitara com os roxos crescentes das olheiras. Mas Sarita olhava em torno, o vestido levemente suspenso nas pontas dos dedos, saltava por cima dos livros, espesinhava folhetos, sem dar atenção ao padrasto que a acompanhava com o olhar cheio de ternura, como nos tempos em que ela, menina ainda, rolava o arco por entre os canteiros do jardim, vermelha, arquejante, os cabelos soltos e rindo cristalinamente.
— Descanse, não se incomode com o meu plano, havemos de executá-lo.
Miss prometeu-me auxílio. E, passeando os olhos, continuou:
— Você era bem capaz de viver aqui toda a vida nesta desordem; não era?
— E que melhor, minha filha? Um tapete de sabedoria. Olha... — e tomou um volume ao acaso, era de Letourneau, uma escada de filosofia para alcançar o leito. Subiria pelos pensadores um passo sobre Santo Agostinho, um passo sobre Descartes, outro sobre Leibnitz, sobre Hegel, sobre Stuart Mill, sobre Schopenhauer, sobre Spencer, de sorte que, quando chegasse ao lençol, já estaria roncando... Que melhor? Riram, mas Sarita repelia com o pé os grandes atlas, achando impossível que um homem pudesse pensar em tão atabalhoada desordem e Jorge, sempre a rir, insistiu defendendo-se:
— Que o mundo havia saído do caos.
E voltaram ao salão. Sarita passeava olhando ora os móveis, ora as paredes, preocupada com a «estética.» Jorge propunha:
— A grande mesa ao centro, em plena luz, bafejada pela brisa cheirosa, e em cima um grande vaso onde sempre houvesse flores frescas. As estantes, em simetria, duas a duas, em cada parede e, entre elas, uma coluna com um bronze, um console, um cache-pot com uma dracena. A panóplia ao fundo para que rutilasse ao sol; ao alto, as armas indígenas e os quadros dispostos com arte, menos a cabecinha risonha, essa iria para um cavalete de ébano, para que ele sempre a tivesse ante os olhos.
Mas Sarita, franzindo o sobrolho, sacudiu a mão nervosamente para que ele não a interrompesse. Olhava e teve um ímpeto de cólera, bateu o pé, trincou os lábios, amuada:
— Tantas janelas! Nem se podia arranjar aquilo com gosto. Eram janelas por todos os lados.
Mas acalmando-se, ficou de pé no centro da sala, voltando a cabeça de um para outro lado. Jorge contemplava-a extasiado e por fim atreveu:
— Aí a mesa. Vai admiravelmente!
E, como ela concordasse:
— Que remédio! Se não há outro lugar — sorriu satisfeito, exigindo que ela confessasse que não era tão destituído de gosto como parecia, visto que ela aceitava a sua ideia. Juntos, então, caminhando ao longo das paredes, lentamente, foram marcando os lugares dos móveis e dos quadros: «Aqui isto... Ali, aquilo.» Passaram à câmara e concordaram que o grande leito devia ficar ao centro e não junto à parede, encravado num canto, onde mal se podia ver o especioso trabalho das suas colunas e do respaldo embutido de marfim e bronze. E, como procurassem um lugar para o contador, que Jorge exigia na câmara, Inocêncio apareceu à porta anunciando os armadores que iam para arranjar as cortinas e os reposteiros e o mais que fosse preciso.
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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