Universo da obra
Universo da obra
Ávido de novidades, à cata de sensações requintadas, precipitou-se na vida tumultuosa e estúrdia dos teatros e dos boudoirs, gastando e gozando com ostentação. Experimentou todos os vícios, ganhando tédio, em pouco tempo, às távolas, aos bastidores e às mulheres. Apurou-se em elegâncias, frequentando salões onde a sua palavra ganhou celebridade pela doçura melancólica com que ele a emitia dando aos fatos mais simples, mais vulgares, o encanto, o interesse de uma narrativa. E se lhe gabavam as frases, de uma simplicidade rebuscada, encolhia-se em tímida modéstia atribuindo à benevolência galante das senhoras tais encômios: «Se ele tinha a dicção áspera de um serrano!...»
E sorria cofiando maciamente a barba fina. Disputavam-no. Era o primeiro convidado para todas as festas, indispensável nas partidas campestres, nos piqueniques insulares. Quando aparecia no Lírico, esguio e correto na sua casaca, sempre florida com uma rosa rara, colos opulentos arfavam cheios de ânsias, olhos acendiam-se, faces ruborizavam-se. De um sarau em casa de certo ministro inglês datava a sua primeira aventura galante. Uma esplêndida loura, de Edimburgo, alva como as camélias, de olhos divinos, doces e pensativos, onde pareciam passar visões românticas, Emma Jekins. Depois de uma valsa célere, arquejante, o colo farto ondulando como uma grande vaga forrada de espuma, ela deixara-se levar pelo seu braço às aleias frescas e olentes do jardim e ali, no rechego das ramas, à luz alta e tímida das estrelas, enquanto os violinos gemiam, lânguida, vencida, deixara-se beijar longamente, amorosamente, apertando com os seus braços nus, de uma frieza glacial, o busto amado de quem lhe furtava o primeiro beijo criminoso. De então novos dias começaram; horas de amor num retirado e idílico chalezinho das Laranjeiras onde a escocesa, em assomos lúbricos, delirante e apaixonada, desnudava o lindo corpo branco e ávido de volúpias. Mas a sorte da política arredou-a, com o marido, para os gelos da Dinamarca e o coração solitário de Jorge ressentiu-se tanto desse desprendimento que, nos salões, as senhoras mal o viam chegar melancólico e grave, lamentavam-no com ironia ciumenta pela desventura de ter perdido a sua linda «flor de neve.» Nem tão longas foram as penas de amor que atrofiassem o coração de Jorge. Meses depois -- ainda a alcova das Laranjeiras rescendia a skine, que era o perfume de Emma — e já o seu coração pulsava com violência por uma ingênua viúva, Laura Simas, de dezoito anos, loura e alva, o rosto lindo, tristemente enevoado pelo crepe que mais realce emprestava à alvura suave da cútis e à meiguice dos olhos, que ele, encantado, achava semelhantes a duas estrelas azuis brilhando dentro da noite negra. Vira-a recatadamente em casa de uma família amiga, com uma criança nos braços, ainda chorosa e dolorida, falando do desastre que havia orfanado tão cedo a inocentinha. O esposo, engenheiro, adorava-a; vivia por ela e para ela, lutando, arriscando-se a tudo no intuito de ganhar larga fortuna que lhe pudesse garantir os dias futuros em abundância e luxo. Mas levado pela intrepidez, fazendo avançar por um viaduto mal seguro uma locomotiva de experiência, pagou com a vida a temeridade. Seu cadáver, encontrado em tassalhos, de mistura com as peças da máquina, num fervedouro do Paraíba, veio em carro fúnebre para o Rio e jazia entre ciprestes na encosta de uma rampa, no Caju. Laura, com um ano apenas de casada, cobriu-se de luto, recolhendo-se solitária ao leito nupcial, fechada para o amor, toda para a filhinha, que lhe ficara como um anjo consolador para o seu coração amargurado. Meses correram sem que ela aparecesse, até que, a conselhos de parentes, resolveu sair para combater a palidez que ia ganhando na vida sedentária de clausura e de solidão, quase em matas, porque habitava um prédio próprio no Cosme Velho, ensombrado por velhas árvores, adormecido pelo murmúrio de uma fita d'água límpida. Jorge encontrou-a ainda atristurada e a sua melancolia impressionou-o. Ouvindo-a, achou alguma coisa de elegíaco na sua voz lenta, cheia de fadiga, como se lhe custasse arrancá-la da tristeza. O olhar tinha uma santa bondade, e como parecia resignada sua alma juvenil, tão meiga na angústia, deixando acreditar que ela recebera o golpe sem revolta, curvando a cabeça à Vontade suprema! Amou-a. Frequentava a casa amiga, onde ela era assídua e, se a não via, indagava, insistindo com astúcia para que a mandassem buscar, que a não deixassem isolada podia vir a sofrer, apaixonada como era e tão cheia de reservas castas. Tornaram-se íntimos, mais os ligava a criança que se lhe afeiçoara saltando-lhe nas pernas, babujando-lhe o rosto com a boquinha ávida e cor de rosa, cheirando a leite. Foram caindo, pouco a pouco, as trevas fúnebres do luto e a sua beleza reaparecia num amanhecer para a vida, para o amor, como a natureza, ao partir da noite rociada, reaparece cantante e florida para a germinação. No oriente da sua boca os olhos voluptuosos de Jorge demoravam. Longo idílio em silêncio! Longo idílio calado, feito de olhares furtivos e de ambições contidas. Uma noite, como ela se resignasse a ocupar o piano, ele acompanhou-a para voltar as páginas da música e, por entre acordes de uma sonata triste, falou timidamente, como se receasse ofendê-la na sua saudade, dizendo-lhe quanto sofria com a indiferença do seu coração fechado. Ela empalideceu e seus olhos lindos pararam em êxtase apaixonado fitos nos dele. A sonata morreu em fugitivos trêmulos, e como a ama aparecesse com a pequena que esperneava, ela passeou olhares mostrando-lhe, com um raio meigo da pupila azul, a filha, como um embargo ao amor que ele lhe oferecia, a filha do morto, a alma, por assim dizer, do que partira. Ele, entanto, comovido, tomando a criança nos braços, baixinho, mais com a ternura do olhar do que com as palavras, disse: «Será minha também...» E, como beijasse a pequenita, ela com as faces incendidas, baixou os olhos castos sobre o marfim do teclado, passeando os dedos distraidamente, sonambulicamente. Dias depois, em todo bairro, falava-se do casamento afortunado da viúva Simas e Jorge, em azáfama, cuidava dos papéis, corria aos estofadores escolhendo móveis e panos, raros para o aconchegado ninho de amor, onde, em breve, arrulharia a meiga e cândida viúva. E casaram.
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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