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Inverno em Flor

Universo da obra

Inverno em Flor

Capítulo 2 · Inverno em Flor

Primeira Parte — II

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Anos passaram e Jorge, confiado à bílis de Sarmanho, emigrado político que deixara no reino um grande nome e dívidas, andava pelos clássicos, pelas doçuras da história, pela aridez da álgebra e da trigonometria, quando uma artéria vital estourou no peito de Jerônimo, prostrando-o morto nos braços da esposa e das irmãs. A mãe vestiu o luto pesado e eterno da viuvez, e, com adeuses tristes, arrastou-se da fazenda para fugir à visão constante dos lugares amados, onde parecia terem ficado a sombra meiga do marido, o eco da sua voz, o cheiro do seu corpo, toda a expansão do ser que a morte arrebatara.

Recolheram-se a uma casa nas Laranjeiras, cercada de árvores, na sombra da montanha, com um murmúrio de água a entristecê-la como um pranto eterno.

Sarmanho, com a sua rabona e o seu ódio implacável ao miguelista, acompanhou as senhoras à cidade. E a fazenda, entregue ao administrador, ficou mergulhada no vale, florescendo, frutificando em lindas e suaves primaveras, em prósperos outonos, para garantia do futuro lauto e tranquilo do filho amado.

As senhoras, apesar de reconhecerem em Sarmanho um sábio, de vasta leitura e muita moral, começaram a hostilizá-lo com importunações e pirraças por terem descoberto nos seus discursos palavras duras contra a religião.

O menino à mesa, de olhos na calva erudita do mestre que, tranquilamente, cortava o seu bife, todo atenção para o prato, discutia dogmas, refutava crenças, combatia superstições e, de uma feita, para mostrar independência em matéria de fé, arrancou do pescoço uma penca de veneras de ouro e prata que as tias, sempre cuidadosas, haviam reunido para garanti-lo contra desastres e pestes.

Sarmanho foi despedido a pretexto de «não ser decente para três senhoras viverem com um homem de portas a dentro.»

O emigrado saiu sem revolta. Reuniu os seus livros, encheu pachorrentamente o cachimbo e desceu as escadas com altivez. O pequeno soluçou, repeliu as tias que o procuravam consolar e, nesse dia tremendo, como D. Júlia indiscretamente desse a perceber as razões da despedida do venerando e intransigente sábio, Jorge revoltou-se, não contra as amáveis senhoras, que, com tanto empenho e zelo, cuidavam da salvação da sua alma, revoltou-se contra Deus, contra a Virgem, contra os santos, berrando, com atrevimento, a mão fechada em murro: «Que não acreditava em baboseiras, que não queria saber de religiões nem de nada. Que ia assentar praça para ser independente.» E pediu uma farda.

D. Antônia procurava enternecê-lo com a sua meiguice, mas o pequeno, irascível, frenético, bramia: «Que havia de ir para a marinha, custasse o que custasse! Quando mal pensassem estava a bordo.» Falava dos seus quinze anos como de uma longa vida experimentada, aludia aos estudos que fizera.

Era um homem e não estava disposto a viver eternamente na estufa do afago, sem expansões, sem liberdade. Se o queriam beato e carola, para o círio e o ripanço, tivessem-no deixado ignorante, não lhe houvessem dado os compêndios onde as verdades brilhavam como as estrelas no céu.

D. Antônia, posto que as palavras do menino magoassem fundamente a sua alma cristã, desvanecia-se de ouvi-lo, ficava ternamente humilhada diante da sabedoria precoce do filho que discutia as forças universais, comentava as religiões dos povos como se por elas tivesse passado comungando a hóstia de todos os altares, até encontrar a que fosse mais agradável ao seu paladar difícil de homem do século.

Desvaneceram-se, por fim, as saudades do mestre e Jorge tomou um feriado de meses, enquanto não chegava a época da matrícula no colégio de Pedro II. Permitiram-lhe pequenos passeios pelo bairro, à tarde; davam-lhe dinheiro e conselhos: «Que evitasse bandos, que não fumasse» e sempre: «Que voltasse cedo».

Saía. Amigos vinham trazê-lo à casa, demoravam-se ao portão, conversando. As senhoras, por entre as cortinas, espiavam e, quando ele entrava, pediam informações: «Quem eram? de que família...?» E ele enchia-os de qualidades: «Eram gênios! riquíssimos e de grande consideração. Um tinha o pai no Senado».

Uma noite, porém, já a rua caíra em silêncio, a ceia esfriava sobre a mesa e o menino ainda não havia entrado. D. Antônia, aflita, pensava em desastres: «Ele era tão tolo ainda, tão criança! Podia ter sido pisado... E se tivesse sido preso?! Alguma briga?! Era bem capaz, com aquele gênio.»

As cunhadas acomodavam-na:

— Que descansasse: estava, sem dúvida, com amigos; talvez em casa de algum conversando ou brincando. Era rapaz, estava na idade. E despacharam criados. A casa conservou-se aberta e iluminada.

Era mais de meia noite quando ele entrou lento, devagarinho. A mãe, os olhos vermelhos de chorar, estava derreada numa cadeira, entre as cunhadas.

Quando ele apareceu tranquilo, D. Antônia fitou-o com os olhos úmidos. Ele pousou o chapéu sobre a mesa, descansou a bengala e, dirigindo-se ao grupo taciturno, inclinou-se para beijar a fronte à mãe, mas a pobre senhora, escondendo o rosto nas mãos, desatou em soluços.

Jorge recuou olhando como desvairado:

— Mas que é isso, mamãe? Que tem?

— Que tem? interveio D. Júlia, pois isso são horas, Jorge?!

— Estive com amigos, distraí-me...

— E nós aqui aflitas. Os criados sairam à tua procura; estão todos na rua. Bem sabes que tua mãe anda doente, tem chorado toda a noite. E não é bonito, não é decente... um filho famílias entrar para casa de madrugada. Não é bonito, Jorge; tem paciência, meu filho. Não é bonito.

D. Antônia soluçava. As tias levantaram-se como para lhes dar inteira liberdade de expansão; ele, então, adiantou-se enternecido para a mãe e, inclinando-se, tomou-lhe carinhosamente a cabeça branca aconchegando-a ao peito:

— Que é isso, mamãe? E baixinho, beijando-a: Não chores mais! Não chores mais, sim? E as lágrimas cessaram de correr, foram morrendo os soluços em doces recriminações e em queixas e, quando D. Júlia reapareceu, Jorge descrevia à mãe, que o ouvia embevecida, o luxo do palacete do comendador Faria, pai de um dos seus melhores amigos que, nessa noite, o apresentara à família, retendo-o para o chá até àquele hora.

Em março de 65 Jorge fez os seus primeiros exames merecendo louvores dos mestrês que o acharam de um raro e lúcido talento e notavelmente abastecido de boa ciência e literatura. Galgou três anos e foi entre os quartanistas que formou no dia solene da abertura das aulas. Não experimentou as sensações do calorato, posto que, mesmo imune às assuadas, graças às substanciosas dissertações do emigrado, sentisse acanhamento e tremuras diante do olhar invejoso e mau dos colegas que o recebiam hostilmente, em silêncio, considerando-o como um invasor.

Salientou-se, foi dos primeiros nas aulas e, ao fim dos trimestres, saía sempre com o seu banco de honra e laureado pelas boas palavras dos professores que o apontavam como um exemplo de aplicação e obediência.

D. Antônia acompanhava os progressos do filho com enternecimento. À noite velava com ele, à luz pensadora da lâmpada, cabeceando sobre romances dignos e, muita vez, interveio comovida ouvindo as pancadas sonoras do relógio soando forte na casa adormecida, para que se recolhesse, receando pela saúde do seu corpo que as vigílias enfraqueciam.

D. Júlia e a irmã cuidavam do gabinete do bacharel, como lhe chamavam: espanavam os livros, a secretária, punham em ordem os papeis e, uma manhã, como indiscretamente abrissem um dicionário, descobriram uma larga folha de papel, marcada com um cupidinho adormecido entre rosas, cheia de estrofes de excelente lirismo, falando de olhos azuis lavados em melancolias e de lábios úmidos que o amor buscava como as abelhas buscam as corolas.

Correram com o papel em triunfo para mostrá-lo à D. Antônia e no jardim, à sombra de uma alta figueira brava, a poesia foi lida com devoção e mistério como se fosse um cântico religioso. Lágrimas borbulharam nos olhos das senhoras e a mãe, sempre apreensiva, lastimou que o filho tivesse nascido com a veia poética suspirando: «Que todos os poetas acabavam na desgraça.» Mas logo entraram pelas estrofes procurando descobrir, através das imagens, a dona de tão lindos olhos e de tão apetecida boca.

Anos correram. Brandas moléstias de Jorge haviam cavado rugas no rosto de D. Antônia que falava tristemente do seu próximo fim, lastimando não poder assistir à formatura do filho, do seu amado e único amor no mundo. Andava pela casa num passo sonolento, suspirando saudades do marido, que tanto desejara ver «o seu rapaz» formado, enaltecendo o nome dos avós, pobrezinhos que se haviam sumido em silêncio no fundo pedregoso e frio de uma aldeia minhota.

Jorge vivia como um homem, independente, a carteira farta. Ia a teatros e, quando entrava, a mãe fingia-se adormecida para não vexá-lo. Expandia-se e, atrevido diante da fraqueza maternal, trazia para a sala de jantar, nos serões tranquilos, os seus amores em quadras, os hemistíquios ardentes da sua mocidade voluptuosa.

A mãe sofria calada sentindo os primeiros balãços do coração do filho como se já o visse fugindo docemente, docemente levado pelas ondas de cabelos louros para esse mar vasto de ternura e de gozo que ele tanto citava nos seus versos. Mas não lhe dizia palavra, ouvia e, às vezes, depois de o ter aplaudido, ia chorar para um quarto, em revolta contra a beleza das mulheres, que atraíam sedutoramente o seu amor santo, furtando-o ao egoismo avaro do seu puríssimo e sensível coração de mãe.

O luto entrou em casa pela segunda vez com a morte de D. Gertrudes, a mais velha das tias. Um frio e tristonho agosto levou-a. No caixão, coberta de rosas, com a sua imaculada capela de virgem, parecia sonhar com o céu, as mãos postas, um sorriso triste nos lábios lívidos. Morreu sem queixa, deixou a vida sem pena com o coração vazio, a alma intacta, levando para o Além todo o seu longo e irrealizado sonho de mulher, ingratamente esquecida no ascetismo estéril da virgindade. Candidamente vestida para a grande núpcia levaram-na os amigos da família. A casa resentiu-se.

As duas senhoras evitavam o quarto da morta com terror e, supersticiosas, ligaram-se ainda mais, não se apartando nunca, como para resistirem à Morte pérfida que passara entre elas.

D. Júlia, em pesados merinós, errava pelos corredores apavorada, vendo o vulto da irmã sempre pálida, diáfana, os grandes olhos brilhantes, arquejando fatigada pela tosse.

Uma noite, como passasse diante do quarto deserto, rolou por terra, aos gritos, escabujando. Acudiram e ela, esgáseada, a tremer, os braços hirtos declarou: «Que ouvira distintamente a tosse de Gertrudes e o seu doloroso e ansioso suspirar: ai, Jesus!»

A casa, imensa e sombria, tinha a aparência de um claustro taciturno onde houvessem ficado duas monjas arrastando estamenhas e melancolias.

Meses depois, em dezembro, numa linda manhã cheirosa e fresca, toda azul, toda em sol, Jorge, em companhia do conselheiro Távora, um velho amigo da família, subiu para um coupé. Ia receber o grau de bacharel em letras.

O júbilo foi grande; todavia as senhoras, respeitando a morta, não abriram os salões, íntimos apenas sentaram-se à mesa e os brindes correram frios, sussurrados, por entre lágrimas.

D. Antônia, com os olhos no filho, lastimava a ausência de Jerônimo. «Como ele seria feliz em poder abraçá-lo! Pobre homem! Ele que era doido pelo filho! E mana Gertrudes...!» Às dez da noite já as taças dormiam nos armários e dois bicos de gás apenas iluminavam a sala onde o bacharel, como um ídolo, recebia as homenagens enternecidas das senhoras.

Foi Jorge quem propôs uma estação no campo. Passariam o resto do verão na fazenda folgando na viçosa paisagem, aspirando o pleno ar das matas. Elas ganhariam em saúde, ele ganharia em vigor e em saber; e garantindo que só as sensações da jornada, as noites às estrelas, galgando montanhas, sonos dormidos em casebres de palha, os encontros, a languorosa cantilena dos tropeiros, todos os incidentes imprevistos da viagem bastariam para desvanecer as tristes ideias que tanto nublavam as almas das senhoras, ficou resolvido que no dia seguinte começariam os preparativos da viagem.

Um negro foi despachado à fazenda e dias depois partiam no frescor de uma madrugada serena, com um rancho de escravos: as senhoras em liteiras, Jorge a cavalo e, fechando a marcha, a tropa dos cargueiros com um alegre tinir de campainhas.

Logo que entraram em terras da fazenda D. Antônia sentiu o coração oprimido, cheio de presságios. Era como um renascimento o que experimentava na alma. Mergulhava na grande saudade e saía gotejante de lágrimas, asfixiada pela melancolia. O marido! Era ele que faltava à doce paisagem, tão triste àquela hora azul da tarde, já sem pássaros, apenas entrecortada pelo dorido piar das juritis tristonhas. E ela olhava, alongava os olhos como em busca de uma visão querida, revendo troncos que deixara, sítios onde costumava repousar quando saía com ele para correr a lavoura.

Jorge, extasiado, gabava a floresta que os anos haviam robustecido; e os cafezais, eito acima, saídos da primavera, nupcialmente cobertos de florinhas brancas. O administrador recebeu-os na porteira e moleques, nascidos na longa ausência dos senhores, já taludos alguns, outros pequenitos, em camisola, estendiam a mão pedindo a benção. Como D. Júlia não os reconhecesse, o administrador apressou-se em dizer-lhes os nomes e de quem eram filhos. E as senhoras espantaram-se sabendo que negrinhas que haviam ficado impúberes já tivessem crioulos quase homens.

A casa resistira ao tempo: rija nos seus formidáveis esteios de cabiúna, toda aberta ao ar e à luz, muito branca, destacava-se sobre o fundo escuro da mata que dominava sobranceira o alto da colina. As grandes salas caiadas, os espaçosos quartos, os corredores imensos, estavam impregnados de recordações. Havia ainda um vago aroma do passado - os manes dos que ali haviam expirado pareciam errar na luz e na brisa, festejando as almas que voltavam como para aninhar-se no aconchego do ninho, presentindo perto o duro inverno da velhice.

Negros e negras acudiram em alvoroço à varanda querendo ver os senhores: os velhos avançavam curvados, trêmulos, rindo; queixavam-se da idade que lhes ia dobrando o corpo e passavam as mãos pela carapinha branca com uma resignação de mártires; os novos, crianças de ontem, apresentavam os filhos e as senhoras, meigas, indagavam não só dos escravos que não viam, queriam saber dos animais, certos bois que haviam deixado, se ainda viviam, se ainda suportavam a canga.

D. Antônia, antes da ceia, quis ir à capela beijar os pés do Senhor. Jorge, debruçado à balaustrada da varanda, sentia-se invadido pela grande calma da paisagem cheia de silêncio e de sombras. Uma sineta tiniu e D. Antônia, ouvindo-a, suspirou:

— Que saudade! Vai para oito anos que a não ouço!

À mesa recordaram as graças de Jerônimo, os seus ditos, e D. Júlia saudosa ajuntou:

— Se ele fosse vivo já a casa estava cheia de cães.

As negras serviam risonhas. Crianças espiavam e fugiam. De vez em vez uma avançava, pedia a benção, indo de um a outro, a mão estendida, um dedo na boca.

Recolheram-se cedo e, na manhã seguinte, ao tinir da sineta, D. Antônia saiu à varanda para ver a partida da gente.

E a vida, passadas as primeiras impressões, recaiu na monotonia antiga: dias longos, vazios, passados num círculo de verdura exuberante; noites crivadas de vagalumes, cheias de murmulhos e de mugidos e, longe em longe, o luar magnífico, em pleno céu e na terra, branqueando matas e serras, campos e águas dormentes, o grande luar suavíssimo dos campos, onde não há luz de combustores para desbotar a doce claridade.

Jorge, que levara ideias de leituras meditadas, esqueceu os livros na mala e só cuidava em cavalos, em matilhas, em aventuras de amor. Um negro, conhecedor das trilhas, andava com ele pelos matos ou descia à margem do açude, aos bebedouros, à espera das pacas. E falava-lhe dos «toques» de certos cães, do valor das trelas que possuía; ensinava-lhe os pios de reclamo e contava inauditas façanhas de caça no tempo do milho.

Jorge interrogava-o sobre as tocas; ouvia trinos no mais intrincado arvoredo e parava escutando, a espingarda engatilhada. O negro dissuadia-o: que era um pássaro à toa, sanhaço, não valia a pena.

Luzia tomava-o à noite. Era uma velha negra, de África, magra, esquálida, sem dentes; guardava porcos e, à noitinha, socava o café no grande tronco dos pilões. Entendida em rezas benzia e curava. Os negros temiam-na pelos segredos de mandinga que só ela sabia. Contavam que estragara um parceiro de nome Ludgero, um dos mais fortes na roça. Certo dia esbofeteou-o por uma questão de mulher. A negra caiu com a boca em sangue, mas jurou, e, desde então, não houve para Ludgero bebida que chegasse. Esteve no tronco, foi amarrado à escada, e nem assim, até que uma manhã campeiros encontraram-no de bruços à beira do córrego, a cara na lama, morto. Apartava casais felizes, provocava abortos, e afirmavam que seus olhos eram fatais, tanto que, se fitavam uma ninhada, ia-se toda em dias. Jorge, entretanto, ligou-se à Luzia. À noite, quando a casa caía em silêncio, ela ia bater-lhe à janela do quarto e de fora, na escuridão, chamava-o. Jorge galgava a janela ansioso, e, guiado pela feiticeira, atravessava o quadrado para colher primícias de amor ou para trair escravos, cujas mulheres seduzidas deixavam sorrateiramente o jirau e, descalças, desciam a entregar-se nos imensos paióis escuros onde morcegos esvoaçavam.

Luzia, acocorada, vigiava. Jorge durante o dia ia encontrá-la entre os porcos distribuindo a lavagem pelos cochos, arrastando na lama, fossada pelos cevados, os molambos sórdidos e falava-lhe de mucamas, indicava-lhe raparigas que entravam pela puberdade, interrogava-a. A negra, sorrindo, resmungava, emprazando para a noite. Ele atirava-lhe moedas que ela escondia na cinta entre panos.

Março, porém, chegava, e Jorge teve de partir deixando a vida sensual da fazenda. D. Antônia tremia ante a ideia de apartar-se do filho. São Paulo parecia-lhe tão longe! E não foi fácil demovê-la do propósito que fizera de acompanhá-lo à cidade acadêmica. Pensava nas noites de áspero frio que o filho ia atravessar sem o aconchego do seu colo, isolado, entre estranhos, que passariam indiferentes, ainda que o vissem transido, à dura nevada. D. Júlia animou-a:

— Com dinheiro não se morre de frio, mana, e em São Paulo não há neves que matem.

Jorge, não sem saudades, ia aferrolhando as malas, e, ao alvorecer de um sábado, as senhoras desceram com ele até onde os pajens esperavam com os cavalos encilhados.

D. Antônia guardou-o muito tempo junto do coração, até que ele, num movimento brusco, desprendeu-se e saltou para o animal, disfarçando lágrimas, contendo soluços, e do alto, já na porteira, sacudiu o lenço despedindo-se das duas senhoras que haviam ficado imóveis, seguindo-o com o olhar até que desaparecesse.

As primeiras cartas do estudante, cheias de enternecimentos, uma delas «escrita com lágrimas, ao som da marcha fúnebre da procissão do Enterro que desfilava pelas ruas», eram lidas pelas senhoras comovidamente. Choravam lastimando o isolamento do menino, a tristeza da terra, sempre nublada pela garoa, a indiferença dos que nem sequer acudiam com uma palavra de conforto a esse filho meigo que, mesmo de longe, procurava o seio materno para as suas queixas.

Entretanto Matias & Castro escreviam animadoramente «que o doutor vivia satisfeito e feliz, que era benquisto, não só entre os colegas como na fina sociedade paulistana, que para ele abrira a grande exceção de receber um estudante.» E ajuntavam contas que D. Antônia mal percorria de olhos distraídos.

No fim do ano já haviam começado os preparativos para a recepção de Jorge, que fizera o seu ato uma carta arrefeceu o entusiasmo amoroso das senhoras. O menino não pretendia passar as férias na fazenda, bem que as saudades o impelissem para o caminho de Santos por onde diariamente partiam os colegas em caravanas alegres, recolhendo ao lar. Ficava em São Paulo com um Limoeiro e Souza estudando as matérias do 2.° ano.

D. Antônia derramou muitas lágrimas, mas pensando no próximo triunfo e nos estudos que o filho ia fazendo nessa cidade de sabedoria e virtude, resignou-se, dilatando a correspondência para que ele não passasse um dia sem cartas, sem benção e sem carinho e tão afetuosamente que, uma vez, escrevendo, esquecida de que o filho vivia longe, rematou a carta com estas palavras íntimas: «Bem, meu filho, é tarde, vai descansar. Até amanhã.»

A vida ia-se tornando a mais e mais difícil, dizia Jorge nas cartas. A necessidade de uma grande paz para o estudo das leis forçara-o a tomar casa e criados, fugindo à balburdia dos hoteis e pensões. Vivia na Moóca com o Limoeiro, consultando códigos e velhos infólios de legislações antigas. Mas ao mesmo tempo que o estudioso rapaz enchia laudas com os nomes dos jurisconsultos, cujas palavras interpretava pacientemente, Matias & Castro escreviam pedindo o auxílio dos conselhos de D. Antônia para a regeneração que intentavam, porque Jorge vivia em bambochata constante, em bandos de estroinas, com mulheres, arrastando uma vida devassa de serenatas, zangurrianas e jogo, em luta com a polícia, nos bairros remotos da cidade. D. Antônia pôs as mãos na cabeça e, hesitante entre as duas cartas, relia as palavras honestas do filho, relia as acusações dos correspondentes, sem compreender, atordoada, em pranto. Escreveu a Matias & Castro, pedindo «como mãe» que lhe salvassem o filho, arrancando-o à devassidão das orgias e aos ranchos de tavolageiros; e escreveu a Jorge, fez com que D. Júlia escrevesse, invocando o passado, lembrando-lhe o nome honrado de Jerônimo e a velhice que a acabrunhava e essas notícias que lhe feriam duramente a alma. Jorge respondeu secamente, apelando para o seu caráter e para o testemunho insuspeito de colegas. E terminou com uma acusação formidável a Matias & Castro, «homens de fraudes comerciais, avaros até com a fortuna alheia.» E, para remate, queixou-se de ter uma noite caminhado uma légua a pé, à chuva, por não ter o caixa querido satisfazer um pedido insignificante que lhe fizera. Acompanhava a carta uma notícia cortada de um jornal, que dizia:

«O distinto acadêmico Jorge Soares tem no prelo um volume de versos.»

E Jorge perguntava: se aquilo era bambochata? Se um homem de devassidões, desbragado e ébrio, podia merecer de um jornal tão alta distinção? D. Antônia, calada, arrependia-se do que escrevera. «Magoara o filho...», dizia, mas D. Júlia animava-a:

— Que não, dera apenas conselhos, conselhos de mãe e em termos.

D. Antônia não acreditava nas palavras de Matias & Castro.

— O menino podia ter feito uma ou duas, mas sempre, todas as noites, como diziam, isso não. Demais, que tinham eles com o que gastava o menino? Que tinham?! para o deixarem sem vintém, obrigando-o a uma caminhada de légua, à chuva, como um mendigo? Isso não. O que era dela era dele; não fazia questão de dinheiro, contanto que seu filho não passasse necessidades.

E à noite não conseguiu fechar os olhos pensando nessa caminhada através da tormenta, nesses terríveis e tenebrosos caminhos por onde seguira o filho amado, sozinho, chapinhando na lama, molhado, tiritando, a pensar nela. E no meio da noite, em camisa, descalça, saltou da cama, abriu a secretária e escreveu a Matias & Castro uma carta de ordem franca.

E explicava: «Que os médicos, que o haviam examinado em pequeno, foram todos da mesma opinião: que nunca o contrariassem, tinha um temperamento delicado. E a Jorge escreveu pedindo perdão do que lhe havia dito e anunciando a sua resolução relativa à questão de dinheiro.

Veio o fim do ano e Matias & Castro anunciaram uma grave enfermidade do «doutor». ajuntando, porém, para que a senhora não se assustasse, a opinião dos médicos: «Que a verdadeira doença era medo de apresentar-se ao ato, porque não abrira um volume durante o ano.»

Na manhã seguinte à da chegada a São Paulo porque o crepúsculo frio e brumoso baixava quando D. Antônia atravessou as ruas da cidade deserta em companhia de Fernando de Castro, um dos seus correspondentes, encaminhou-se comovida para o bairro longínquo em que residia o filho. O coração apertava-se-lhe diante dos compridos muros de taipa e das alas verdes de bambus que faziam uma grande sombra triste sobre a estrada poeirenta que um rio minguado, correndo entre matos, parecia adormecer com um doce murmúrio.

A espaços uma casa, um rancho paliço, campos viçosos e capoeiras exuberantes onde pastava livremente o gado. Fernando de Castro, como voltassem uma azinhaga, mostrou ao longe a «república» de Jorge. Era um casarão, melancólico e sombrio como um mosteiro, fechado e silencioso à luz do sol que subia diluindo a névoa da manhã.

Dois pinheiros esgalhados flanqueavam a larga entrada fechada por um pesado portão de ferro. Sobre os muros esborcinados inclinavam-se ramos e folhagens tenras. Fernando de Castro bateu as palmas e, enquanto não aparecia gente, D. Antônia passeiava os olhos pelo pátio da casa que o mato agreste invadia. Mesmo nos degraus da escada a erva crescia, e todo o terreiro que cercava o prédio estava tomado pela vegetação exuberante, revigorando-se ao sol e à névoa.

Um criado desceu, a cara amarfanhada, os olhos empapuçados de sono, e vendo-a em pesado luto, com a auréola venerável dos cabelos brancos, aproximou-se espantado. À sua pergunta por Jorge Soares, disse: «Que ainda dormia. Entrara tarde. Mas que dissesse quem era, que queria.»

D. Antônia, querendo guardar segredo para causar ao filho agradável surpresa, disse apenas

«que chegara do Rio, trazia recados da família do doutor.»

O criado, sem abrir o portão, subiu a anunciar a visita; mas Fernando de Castro, impaciente, berrou para dentro, chamando alguém. No alto da escada, um estudante, em robe de chambre, apareceu escovando os dentes. O correspondente, mal o descobriu, perguntou amuado, num vozeirão:

— Jorge Soares?

O estudante entrou ajustando o robe de chambre que o vento abria e, pouco depois, o copeiro reaparecia precipitando-se pelas escadas. Abriu o portão dizendo: «Que o doutor não tardava. Podiam subir.»

D. Antônia, porém, negou-se: ficavam ali mesmo à sombra. Fernando de Castro, descobrindo, a um canto, um velho banco, a meio demolido e quase coberto pela parietária, insistiu com a senhora para que descansasse. «Estavam ali mais à vontade; nem era conveniente que ela entrasse em tal casa», ajuntou, enjoado, lançando às vetustas paredes um olhar de desprezo e ódio. Sentaram-se, e D. Antônia, sem tirar os olhos da escada por onde devia descer o filho, ouvia o correspondente que lhe falava das orgias daquela casa, foco de escândalos, valhacouto de uma estudantada vadia que, de vez em quando, abalava em serenatas pelas ruas com alaridos e berros, provocando a patrulha, despregando tabuletas de casas comerciais, com excessos criminosos, indignos de rapazes de boa educação, como o último assalto a um chiqueiro da Ponte Grande, de onde haviam tirado um porco, deixando em sangue, moído a pauladas, um pobre homem que saira com altos clamores chamando a polícia.

Ainda se procedessem por miséria teriam uma desculpa, mas não, só por pândega, por troça, para fazerem uma opa que se tornasse célebre na tradição acadêmica. D. Antônia queria saber se o seu Jorge também fazia dessas coisas, e Fernando de Castro, carregando o cenho, garantiu que era um dos piores. Valente e temerário, apontavam-no como cabeça de motim, provocador dos tumultos que a desoras alvoroçavam estrondosamente a cidade.

E os lentes conheciam-no, sabiam de tudo quanto praticava tanto que, em palestra íntima com o conselheiro Silva, dele ouvira palavras amargas contra esse terrível rapaz que nem diante dos réfles recuava. E pediu que lhe falasse, que fosse enérgica, procurando principalmente arredá-lo daquela casa que era o refúgio do rebotalho da academia: repetentes incorrigíveis e gente sem profissão, que se ligava aos estudantes parasitariamente, incitando-os a coisas indignas.

D. Antônia meneava com a cabeça tristemente e já tinha os olhos rasos de água quando ouviu a voz do filho que aparecera no patamar da escada, em mangas de camisa, ainda abotoando a gola. Levantou-se de golpe. Jorge descia a escada olhando, como a procurá-la.

Logo que a viu estacou, levando a mão em pala ante os olhos apertados e, reconhecendo-a, lançou-se pelos degraus com exclamações enternecidas:

— Mamãe! A senhora!

D. Antônia avançou por entre o mato, quase a correr, os braços abertos, já esquecida de tudo quanto lhe havia dito Fernando de Castro com relação à vida irregular do filho amado, do saudoso filho, que ela, enfim, revia depois de tão longa e angustiada ausência:

— Meu filho! E recebendo-o nos braços, apertou-o muito ao peito, molhando-lhe o rosto de lágrimas felizes.

O correspondente, de pé, mal disfarçava a decepção. Contava com uma ação enérgica da senhora e ali estava como comparsa de uma cena piegas. Deu volta e, afastando-se discretamente do grupo, meteu-se por um caminho estreito, entre a erva, resmungando, indignado, a ouvir os soluços e as palavras ternas da pobre mãe amorosa, que só via o filho, que o sentia, que o beijava alucinada, apaixonadamente.

Jorge, nos braços maternais, prometeu corrigir-se, aceitando a proposta de D. Antônia para que deixasse aquela casa tão mal reputada que, segundo diziam, de quando em quando, alta noite, piquetes de polícia cercavam, varejando os quartos com espadas nuas, em busca de criminosos acoutados pelos moradores.

Dias depois o estudante instalava-se, com luxo e conforto, em uma pequenina casa do Arouche, com um galego de suíças que lhe espanava os livros cantarolando trovas. D. Antônia, depois de minuciosa revista à casa, aos móveis, despediu-se com lágrimas e beijos. E Jorge encerrou-se.

O galego, à noite, sentado à porta, zangarreava à guitarra; de vez em vez, uma rapariga atravessava o corredor, embuçada em mantilha, e de manhã, ao nascer da luz, saía discretamente.

Anos passaram e já havia começado a correr a chave anunciando para Jorge o termo do curso quando uma carta da tia chegou-lhe às mãos. Poucas linhas: a boa senhora pedia-lhe que não demorasse a viagem, seguindo logo que recebesse o grau. Nada mais. Presságios importunaram-no. Foi à casa de Matias & Castro. Os correspondentes apenas disseram que não tinham letras de D. Antônia, desde Agosto desse ano. Mostraram-lhe cartas da tia, cheias de interesse por ele, franqueando-lhe dinheiro, recomendando-o.

Formou-se e Fernando de Castro, que o acompanhou à Academia, festejou em casa, com um baile, a sua formatura, aludindo, num brinde, aos tempos da estroinice, com uma parábola culterana em que Jorge entrava como o filho pródigo, voltando, não aos braços dos velhos pais, mas à honestidade, ao estudo, reavendo a estima e o conceito de todos. Com augúrios de prosperidade levantou hurras tremendos.

Na véspera da partida, à noite, andava o galego arranjando malas, quando Fernando apareceu para falar ao doutor. Jorge, estirado na rede, entre amigos, recordava episódios estroinas: assaltos, amores, rixas, cavalgadas para a Ponte Grande com mulheres e cabazes empilhados de garrafas, quando o negociante encapotado, um cache-nez em volta do pescoço, pediu licença, à porta:

— Que o desculpassem de ir importunar os amigos, mas queria dizer adeus ao doutor e uma palavra em particular... Mas não tinha pressa. Sentou-se e, como entrasse na palestra, lembrou a casa terrível da Moóca, os grandes distúrbios, e, arregalando os olhos, referiu uma aventura de que ia sendo vítima, certa noite, quando se recolhia ao fim do voltarete com o conselheiro Silva. Os tais da casa, embuçados, deram-lhe cerco e um Taborda, flautista e capoeira, que trazia sempre uma faca na cava do colete, forçara-o a dançar e a cantar sob ameaça de ser atirado ao Tamanduateí.

Os rapazes despediram-se e Jorge arrastou uma cadeira para junto do correspondente.

Fernando de Castro empalideceu, tirou do bolso um grande lenço e, estendendo-o sobre a perna, como um guardanapo, espalmou as mãos, inclinando-se para o bacharel:

— Doutor, creia que bem me custa dizer-lhe o motivo da minha visita, a esta hora da noite, em véspera de viagem, quando o senhor carece de repouso. Chupou os beiços, afagou a barba, arregalou os olhos e, inopinadamente, todo caído para a frente, de olhos desmedidamente abertos: — Sua tia escreveu-me... Escreveu-me, não agora. Tenho a carta há mais de 15 dias.

O doutor há de perdoar o meu silêncio tão longo, mas não quis entristecer a sua festa com uma notícia...

— Mamãe morreu! — exclamou Jorge, pondo-se de pé, as mãos estendidas, os olhos rútilos, fitos no rosto do negociante. Ele ergueu-se também e, calmo, serenou-o:

— Não, doutor; não morreu. Mas, o senhor sabe: é uma senhora fraca, doente... tem um grande coração, um coração de santa. Desde que se foi o senhor seu pai, de quem fui grande amigo, nunca mais vi o sorriso nos lábios de D. Antônia transformou-se... e eram visões, às vezes ficava horas e horas a chorar falando nele... O senhor sabe. Ultimamente, porém, isolada na fazenda, as saudades apertaram. O senhor longe, a velhice, a tristeza daquele lugar... Deu para sair: ir aos eitos, aos engenhos, aos pastos; uma atividade pasmosa, pasmosa! como escreveu sua tia. De repente, nova mudança: começou a usar a roupa do finado, que conservou religiosamente. Punha o chapéu, vestia o casaco e ficava diante do espelho a olhar o marido. É como diz sua tia: «A olhar o marido.» A princípio não passava disso; distraíam-na e ela deixava-se levar, ia à mesa, mas, de uns tempos a esta parte, entrou a rejeitar o alimento e definha, encerrada no quarto, a conversar com o esposo, a rir, a chorar, não atendendo a pessoa alguma, zangando-se quando a procuram, porque, diz ela, nem consentem que fique um instante a sós com o seu Jerônimo. É como diz a carta.

Jorge ouvia em angústia; as lágrimas desciam-lhe pelo rosto pálido em dois fios constantes e Fernando, comovido, a voz surda, continuou:

— Mas não há motivo para desespero, doutor. Não é uma louca, é uma maníaca, cura-se. Tenho visto casos muito mais sérios, e as pessoas andam por aí sãs. Não é para desesperar. Coitada! alma sensível... Isto de ter coração é um horror! Um horror! e sacudiu a mão diante dos olhos úmidos.

O galego arrastava malas pelo corredor, cantarolando. Jorge afastou-se, as mãos para as costas passeando ao longo da sala. Fernando seguia-o:

— Se vim hoje, creia que foi para obedecer à sua tia. Deve imaginar quanto me custou tomar esta resolução, mas assim é melhor, é melhor: o senhor não recebe o choque violento. Assim é melhor... já sabe, é até possível que, com a sua presença, tudo desapareça e a sua boa mãe volte ao estado normal. É quase certo. Não desespere, não desespere.

Jorge arrancava do peito suspiros profundos. Foi à janela, olhou a noite negra e voltou:

— E os médicos? Que dizem eles?

— Não sei, doutor. E Fernando, desabotoando o capote, tirou do bolso uma carta que entregou a Jorge:

— Aqui está.

O moço abriu nervosamente a carta e aproximou-se da luz. Súbito carregaram-se-lhe os olhos, tremeu e, agitando a folha de papel, a chorar, bradou alucinado:

— Mas ela está louca! Positivamente louca! Minha mãe! E batendo na carta: Está aqui! Curvando-se, então, leu alto, por entre soluços: «Às vezes é difícil contê-la: debate-se, avança para o espelho, chamando o marido, aos gritos: que a querem matar! que a querem matar!» Passou a mão pela cabeça, cravou os olhos na carta e, baixinho, os lábios trêmulos: «Mamãe! Coitada de mamãe!» e atirou-se na rede soluçando. O correspondente limpava os olhos e, como o galego cantasse, bramiu, investindo para o corredor:

— Homem, com todos os diabos! Acaba com essa cantiga... Que história! E dirigiu-se para o moço que os soluços faziam estrebuchar na rede.

Inverno em Flor

Sinopse

Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.

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