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Inverno em Flor

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Inverno em Flor

Capítulo 22 · Inverno em Flor

Terceira Parte — VI

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Nessa linda manhã de domingo, cheia de sol e de aroma Cesário, a pretexto de passarem uma boa hora em plena natureza, propôs o almoço no «bosque», à sombra das velhas árvores, junto d’água cantante. Seria uma surpresa alegre para o Dr. Loureiro e para a velha, a maman Loureiro que, aos domingos, deixava o seu canto de beatitude para vir acompanhar a futura nora contando-lhe, com grandes suspiros, os carinhos do finado e as gracinhas e agudezas de Sinhosinho, quando ainda caminhava agarrado aos móveis. Sarita e Miss aplaudiram entusiasmadas e, juntando as suas palavras às do «filósofo», trataram de convencer Jorge que se queixava das pernas, garantindo que não resistiria à caminhada.

Cesário ofereceu-se para levá-lo ao colo — e estendeu os largos braços magros. Mas quem o decidiu, beijando-o, afagando-o, foi Sarita e, logo que o viu sorrindo, subiu a correr para prevenir a ama, a fim de que fizesse transportar o necessário para o bosque, junto das mangueiras. Bá revoltou-se: «Que esquisitice! Podiam até apanhar um resfriado. E nhônhô, coitado!» Mas Sarita, sempre trêfega, afirmou que aquilo até lhe faria bem. Loureiro já havia dito que ele devia andar, fazer exercícios. A ama, sempre resmungando, foi, entretanto, despachando os criados, o jardineiro inclusive, que se prestou a levar no carrinho uma rima de coisas para a festa das senhoras. O vinho seria conduzido pelos comensais, propôs Cesário tomando duas garrafas, enquanto Sarita despojava as roseiras para cobrir de pétalas a toalha que seria estendida sobre a grama. Quando o Dr. Loureiro apareceu, num terno de flanela, largo chapéu de palha à cabeça, vagaroso, oferecendo o braço à «boa maman», gorda e plácida, sempre exausta, houve uma exclamação. Sarita e o «filósofo» disputavam a honra de anunciar o que Cesário chamava uma «garden-party» e, enquanto a menina beijava as bochechas moles de maman Loureiro, ele declamou:

— Vamos hoje...

Mas Sarita, com os braços passados pelos ombros da futura sogra, voltou rapidamente o rosto para concluir:

— ...almoçar no bosque!

E, franzindo o nariz, fez uma careta ao «filósofo».

A viúva Loureiro teve uma objeção: «Achava aquilo arriscado para o doente: a umidade, aquelas águas que ficavam das chuvas encharcando a terra.» Mas o doutor desfez o receio:

— Que não! Era uma ideia magnífica. Os passeios só lhe podiam fazer bem.

Enquanto Sarita conduzia a mãe, pôs-se a contar que na Europa os doentes procuram os jardins, os lugares de ar puro, ao contrário do que aqui se faz que, ao primeiro espirro, correm logo a fechar portas e janelas.

Jorge sentia-se mal diante dos Loureiro.

O médico enfadava-o com as suas constantes narrativas: descrições de hospitais que percorrera, casos clínicos que observara nas enfermarias, como trabalhavam os grandes mestres e repetia frases de Charcot, de Peter. A viúva, com as suas constantes lamúrias, com os seus arrebatamentos, com o seu nojo ao negro era verdadeiramente ódiosa.

Cesário achava-a híspida.

Sarita desculpava-a com a velhice e com a moléstia. Entretanto, nessa manhã, com a alegria comunicativa do sol, com o doce perfume das rosas, Jorge sentia-se bem disposto, e teve um sorriso para os Loureiro apesar do médico ter achado a sua fisionomia má. Desculpou-se com a noite mal dormida.

Cesário, antes da partida, fez circular o aperitivo, não tanto para acordar a fome como para evitar que a umidade fizesse mal aos doentes e o doutor fez uma preleção sobre o álcool importado, sempre nocivo pelos preparados corantes de que se serviam os destiladores. Às dez e meia já era quente o sol.

Sarita deu o sinal da partida tomando ao braço uma cestinha de vime onde iam duas garrafas, deitadas entre rosas.

Cesário sobraçou a sua carga e, como o Dr. Loureiro fizesse questão de levar alguma coisa, Miss cedeu-lhe uma das cestinhas, onde Bá acondicionara um frasco de conservas e as uvas brancas.

Jorge, com um grande pau ferrado, à cabeça um chapéu de abas largas, abriu a marcha, acompanhado pela ama, que o não queria deixar, sempre receiosa de que lhe faltassem as pernas.

Maman Loureiro, com um amor egoísta, exigira um dos braços do filho como se o não quisesse ceder, senão em parte, à noiva, e a governante, isolada entre os grupos, ia de olhos baixos, num passo lento, como uma prisioneira. As cigarras estrídulas cantavam e o ar era constantemente cruzado por pássaros, que iam e vinham, ora muito alto, ora quase roçando a terra. A alegria era grande e completa. O céu, todo azul, reluzia como setim; as montanhas, sem névoas, pareciam polvilhadas de ouro. Dobres alegres de sinos passavam como um apelo meigo da religião para que as almas contentes corressem aos templos agradecer ao Senhor aquela luz bendita que se espalhava pela terra generosamente.

Cesário, no seu panteísmo primitivo, saudava a natureza, a grande Mãe, forte e fecunda. Ao avistar as árvores levantou no ar as duas garrafas:

— A floresta! Ei-la! A grande floresta primitiva, a selva maternal! E como o Dr. Loureiro sorrisse, o «filósofo» quis explicar:

— Pois não... A tal história da achada de Pamir é uma lenda, está provado. Homens que por lá andaram garantem que as primeiras migrações humanas não podiam ter partido dali, simplesmente porque tal platô, que passou durante muito tempo por ter sido o berço da humanidade, nunca foi habitável. Os homens vieram do Balkach, da grande selva do Balkach... E isto mesmo pretendo sustentar na minha obra. E, secamente:

— O doutor não foi à Ásia?

— Não. A minha viagem foi toda prática, Sr.

Cesário. Mais tarde é possível que faça um passeio. E voltou os olhos para Sarita.

— Não deixe de ir à Ásia. Vá admirar esse Ganges amigo, e ao Egito, pois não, ao Egito. É uma obrigação de todo homem civilizado visitar o oriente. O oriente!... E como se quisesse mostrar ao sol as garrafas que levava, ergueu-as para o astro que subia rutilo. Haviam chegado à cerca e o jardineiro ainda passava o ancinho à entrada para afastar as folhas secas e os gravetos. As árvores, ramalhando, pareciam festejá-los e Cesário saudou-as de novo:

— Salve, selva maternal!

E, para alegrarem o «filósofo», todos repetiram:

— Salve!

Havia ainda orvalho nas folhas. O solo úmido e macio afundava debaixo dos pés eram poças que a velha folhagem acamada escondia insidiosamente. O cheiro acre do capim-gordura impregnava o bosque, mas sentia-se o hálito forte e sadio de todas aquelas árvores, de todas as pequenas plantas humildes que viviam de rasto, florescendo em tapete, forrando os trilhos com um estofo aveludado e fresco, onde a vida alegre e cantante dos insetos palpitava. As grandes árvores graves, de uma sobranceria austera, protegiam com as sombras imensas dos seus galhos os arbustos que cresciam em torno do tronco pujante como uma caravana abrigada sob um tendal, O caminho era estreito, sinuoso, todo orlado de sensitivas que murchavam mal se lhes tocava; sobre ele derramavam-se os galhos faceiros das samambaias e os ramos flexíveis dos heliótropos pontilhados de florinhas miúdas que rescendiam. Grande extensão de planície inculta estava estrelada de boninas douradas e, de quando em quando, uma mouta de joá bravo com os seus lindos frutos de coral e de ouro. De algumas árvores caía em filamentos o cipó-chumbo ou era a barba de velho emaranhada, que se enroscava nos galhos, formando grandes ninhos ou pendendo em filandras balançando-se molemente à brisa. Borboletas apareciam confiadas, voando de um canto para outro, com fulgurações de asas de safira ou de prata ou trêmulas, pairando acima de uma vergontea onde pousavam unindo as asas, aquecendo-se a um raio de sol, e o trilar dos grilos ia num crescendo à proporção que o grupo penetrava devassando o interior tranquilo do bosque. Já começavam a chegar o doce murmúrio da água e o rumorejo dos bambus que faziam uma abóbada verde sobre a água serena. Em certos pontos a penumbra era densa, a passagem difícil

— cipós cruzavam-se de uma árvore a outra e havia pelo chão cordoveias que embaraçavam os passos. Era necessário que o jardineiro avançasse com uma foice e cortasse, a grandes golpes, as enrediças silvestres.

Maman Loureiro, com o vestido molhado de orvalho, ia de olhos no chão temendo as cobras «porque tinham deixado o mato crescer tanto que, decerto, por ali andavam bichos.» Ia cautelosamente pedindo aos noivos que a segurassem bem, tinha medo de escorregar, já estava com os pés encharcados. E lastimava não ter trazido as galochas: «aquilo era o mesmo que patinhar numa lagoa.» Bá levava Jorge, escolhendo lugares para seus passos, recomendando que não se encostasse no mato por causa da umidade e o enfermo distraía-se com a preocupação de procurar caminho, ria dos sustos da ama que descobria tremedais em toda parte, sempre indignada com aquela ideia de almoçarem na umidade.

Miss, silenciosa, ia encantada com a partida. Para ela aquilo tomava proporções perigosas de uma excursão atrevida por selvas bravas e pérfidas dos sertões: eram pantanais vastíssimos, florestas intrincadas, de muitos séculos, à cuja sombra haviam dormido tribos guerreiras e o rumor constante da água longínqua sugeria-lhe a ideia de uma extensa paisagem nova, nunca vista, à beira de um grande rio profundo e largo como esses de que lhe falava Cesário nas descrições pitorescas da natureza opulenta do Brasil. O «filósofo» seguia à frente, com o jardineiro. As solas dos seus sapatos carregavam grossas pastas de lama; tinha os ombros molhados, mas, entretido com o trabalho de decepar os ramos, não sentia os passos pesados; levantava as pernas dificilmente como se levasse cnêmidas e apontava:

— Olhe ali! Corte aquele galho que é uma cilada! Olhe acolá, sô Januário.

E as folhas farfalhavam quando o jardineiro brandia a foice. Mas um embaraço surgiu: era uma grande poça d’água esverdeada, coberta de lodo, em meio do caminho. Dum lado e doutro, viçoso e verde, o capim crescia escondendo, sem dúvida, atoleiros. Cesário, que ia à frente, foi o primeiro a anunciar a «Lagoa Meótida», ajuntando para animar «que haviam atirado sobre ela um tronco e a passagem ali estava» e, para animar as senhoras, ia e vinha, equilibrando-se, os braços escancarados, as duas garrafas nas mãos. Miss, sempre amante de aventuras, rejeitou a mão que o «filósofo» lhe oferecia e atravessou serenamente, «como a Spelterini sobre o Niagara», disse ele batendo as palmas, com as garrafas debaixo do braço. Mas Jorge hesitou e o «filósofo» teve de abandonar a carga para ir buscá-lo à outra margem com a mão estendida e o enfermo, apoiando-se ao varapau, passou lentamente, os olhos sempre no tronco que oscilava. Maman Loureiro, olhando demoradamente, declarou que não queria cair naquele lameiro podre e amuou abandonando os braços dos noivos que instavam com ela, mostrando os que já haviam atravessado e que estavam na outra margem esperando.

— Venha, menina! — bradou Cesário estendendo o braço à Sarita. — Venha para que a senhora veja que não há perigo!

Sarita passou, rindo, com gritinhos, num passo miúdo e trêfego.

— Venha, doutor.

Mas o Dr. Loureiro não quis deixar sozinha a boa maman que enfezava, ameaçando voltar. «Que aquilo até fazia febre! Que ideia! almoçarem na lama. Não passava!» Foi preciso que o jardineiro arregaçasse as calças e entrasse n'água atolando-se para que a viúva, sempre a resmungar, ousasse a travessia. E passou trêmula, aterrada, jurando nunca mais acompanhar aquelas extravagancias de malucos. Bá afligia-se querendo prestar auxílio à velha senhora, mas a «maman» repeliu-a com mau modo, dando-lhe com o lenço quando a negra, agachando-se, quis tirar-lhe da barra do vestido um graveto que ia de rasto seguro por um espinho: «Deixasse! Não gostava de incômodos com ela!» A ama levantou-se e lançou-lhe um olhar cheio de ódio, mas Sarita fez-lhe um sinal para que se contivesse e, querendo evitar uma discussão, acudiu risonha:

— Então? Não passou? É fácil... A questão é não ter medo.

Cesário pôs-se a caminho e, já longe, anunciando belezas, chamava:

— Venham! Venham! Isto aqui está agora como o caminho de Brocelande.

Entraram por uma estreitíssima passagem onde havia uma grande rocha toda forrada de musgo e, através da folhagem, viram o sol, que enchia de claridade um canto do bosque, onde grandes taiobas verdes derreavam languidamente as largas folhas. Já havia soqueiras de bambus murmurando e via-se, ao longe, o círculo das mangueiras numa grande luz quente e vívida. Cantavam. O «filósofo», junto à rocha, alongava os olhos de um lado para outro, num êxtase:

— Ora, francamente! Digam que não tive uma grande ideia! há lá salão que se compare a isto...

E o bom perfume das selvas, o cheiro do mato, hein? Então? Maman Loureiro quis saber se era ali que iam almoçar, naquele buraco...

— Não, minha senhora: o salão é um pouco adiante. Mas já estamos na copa e temos aqui um pequeno lavabo para as senhoras que não quiserem descer a rampa até o riozinho amigo que lá vai em baixo, disse o «filósofo» e, dando volta, mostrou, entre fetos verdes, uma bacia cavada na pedra onde caía uma lágrima fina.

— Aqui têm: é uma linda fonte protegida por algum deus amável. E, refrescando as mãos na água cristalina: — Também é o que me falta descobrir neste bosque: a ninfa; o mais conheço tudo.

Jorge sentia-se cansado, tremiam-lhe as pernas e maman Loureiro achou natural:

— Pois um homem fraco, doente, a fazer aquela caminhada e com tamanha umidade! Até se espantava de que não tivesse tido alguma coisa. Aquilo era bom para quem tinha saúde, esses mesmos não resistiam. E, sempre de mau humor, esquivava-se às instâncias do «filósofo» que procurava mostrar os encantos do sítio, a beleza grandiosa daquele recesso tranquilo, onde os insetos tinham o seu mundo.

Miss, sempre recatada em silêncio, andava em explorações pelas moutas próximas, procurando ninhos, perseguindo borboletas, enquanto Bá, agachada junto à fonte murmurosa, as mãos aconcheadas, aparava a água fresca da rocha. Cesário tomou o braço do amigo e, sempre animando-o, a sorver com ruído o bom ar frio das sombrias devezas, gabava a ideia da sortida:

— Anda lá que isto empresta vigor à alma. Os olhos carecem de expansões como esta para que a retina não fique em dieta de visão. Estar sempre a olhar as paredes, os lombos dos livros, é fastidioso. Deixa a velha bramir. Chegou ao período de ruminar, não pode estar calada. É famosa, palavra de honra!

Iam devagar, sobre o tapete macio da erva molhada, donde saltavam grilos espavoridos. Jorge carregava o rosto, sorria, sem uma palavra, deixando-se levar pelo amigo, mas a referência ao mau humor de maman Loureiro arrancou-o ao silêncio obstinado.

— É impossível! Não posso estar perto dela, sinto-me mal, tenho ímpetos de a repelir com uma grosseria. Depois aquele apego ao filho.

— Ela é que parece a noiva... — disse Cesário.

— Realmente. Palavra, vejo muito mal esse casamento, Cesário. O tal doutor é um efeminado, sem energia: treme diante das sobrancelhas maternas e Sarita, com o gênio que tem, não fará boa liga com essa mulher.

— Ora, depois de casados hão de tomar rumo. Estou certo de que o homenzinho não há de ficar agarrado às saias da velha a ninar o gato venerando. Demais, quando há amor, meu amigo, tudo se sacrifica. Deixa lá...

Iam por uma ladeirinha. Jorge fincava o varapau no solo, arquejando e, quando chegaram ao alto o «filósofo» propôs uma pausa para descanso; e, como havia uma grande raiz à flor da terra, sentaram-se ouvindo os chilros alegres do passaredo e o chiar das cigarras que festejavam o sol entre a folhagem.

— Estás com outra cor, Jorge. Então? Já te sentes melhor, hein?

— De corpo. É uma ressurreição da carne; o espírito vai de mal a pior. Não durmo e de uns tempos a esta parte tenho sentido fenômenos estranhos que me preocupam. Às vezes, é uma sensação de vácuo no cérebro, outras vezes a aglomeração, um grande corpo opaco que enche a minha pobre cabeça. Mas o que mais me impressiona é uma singular alucinação agora frequente. À noite, quando me deito, o quarto enche-se de rumores fantásticos. A princípio o ruído tem a sonoridade, o ritmo natural, pouco a pouco, porém, atroa, precipita-se vertiginosamente; tudo aumenta, redobra-se: as pancadas do meu coração multiplicam-se, as minhas pálpebras batem como asas de colibri em adejo, o som mais leve fragora espantosamente. Sinto-me crescer. Se toco as minhas carnes retiro os dedos aterrado e fico vivendo dentro de um ambiente de vertigem, num meio de pavor que não te posso descrever. Às vezes levanto-me e os meus passos aterram-me, são os de um louco que fugisse em desabalada corrida sem destino, através da treva. Esbarro em um móvel e é como se toda a casa estalasse aluindo, um grande eco reboa enchendo o silêncio e parece-me, às vezes, ouvir o galope do meu sangue nas veias. Essa alucinação não é longa, mas no curto tempo que me domina não imaginas quanto sofro. Sobre a visão de corpos luminosos já falei ao médico, levou isso à conta do meu enfraquecimento. Não me preocupa também. Já estou, por assim dizer, habituado ao diorama. Às vezes vou caminhando e de repente estaco diante de um globo de fogo. A primeira impressão é de surpresa, mas vem tão prontamente a calma que ninguém deu ainda pelas minhas paradas súbitas. Tenho um mundo fantástico que me diverte os olhos, mas essa outra alucinação aterra-me. Parece um desequilíbrio de todo o meu ser, a desorientação absoluta dos meus sentidos. E os médicos atribuem tudo à neurose, deixam-me nesse estado de dúvida, que é o início de uma mania. Porque, afinal, eu estudo-me, analiso-me, e essa análise constante já se vai tornando preocupação. Procuro explicar todos os ruídos e, para alguns, busco uma origem no sobrenatural: o resultado é que estou ficando de uma covardia infantil e de uma crendice de fetichista. Infelizmente tenho uma triste convicção, estou descendo a aba da montanha que leva ao abismo da loucura.

— Ora, homem! Isso é que é mania. Então por que tens visões concluis que hás de acabar louco?! Se assim fosse, meu amigo, o mundo seria um manicômio. Pensas que não tenho dessas coisas? Tenho-as, e constantemente. Eu sou o mais completo visionário. Vejo, como tu, os tais corpos luminosos: são os fogos fátuos da retina, vêm das visões mortas. Podes achar blague no que digo, mas eu cá penso assim. Não vou pedir explicações a doutores. Vejo vultos, ouço falas; já uma vez senti junto de mim, agarrado ao meu corpo, um outro corpo — era uma súcuba, diria um mago, qual súcuba! não havia corpo, havia apenas delírio. Deixa-te de ideias fúnebres. Sabes de onde vem tudo isso? do teu isolamento, do teu silêncio. Vives concentrado, — e como todas as forças geradoras carecem de expansão tens dessas coisas. Apertas o espírito e os abortos rebentam. A hipocondria é um terrível demônio! Deixa-te de pensamentos. Encara a vida como ela é, aceita-a sem discussões íntimas. Isto é assim porque é, aí tens. A voz de maman Loureiro interrompeu o colóquio.

— Aí vem a velha; vamos andando. Também agora é só descer um pouco.

Mas a viúva, sempre enfezada, praguejava, porque os espinheiros, derreados sobre o caminho, haviam-lhe arranhado a mão. «Que ao menos deviam ter arranjado aquilo.» A ama apareceu amuada, um grande beiço espichado, resmungando.

— Então, que é lá isso, Bá?

A negra, sem responder a Cesário, dirigiu-se a Jorge.

— Eu venho pedir licença a nhônhô para voltar para casa.

O enfermo mirou-a:

— Que tens, Bá? Estás cansada?

— Não, senhor, mas não posso mais acompanhar essa mulher. Não estou acostumada com desaforos. Ela entende que há de me dizer tudo e eu já estou aqui que não posso de raiva. Não quero que nhanhã depois fique zangada comigo.

— E quem há de servir-me, Bá? Deixa lá a velha; não estás aqui por ela; vem conosco.

A negra, que levava a saia arregaçada mostrando as pernas magras, deixou-a cair e, como os dois homens continuassem o caminho, seguiu-os, mas a alguns passos, sempre amorrada, disse: «que Sarita mandara pedir para esperarem, porque a senhora já tinha falado, eles haviam-na deixado em baixo.» Cesário, então, revoltou-se:

— Hein! Pois ande?! Quer, talvez, que façamos uma cadeirinha para carregá-la? Que ande! Aqui vai um que precisa de cuidados e não se queixa. Não faltava mais nada. Vamos embora! Não se espera mais.

Jorge, porém, que havia parado, interveiu delicadamente:

— Não, esperemos, é uma senhora. Não quero que Sarita tenha razões de queixa. Não custa.

Bá acrescentou:

— É mesmo, nhônhô. Eu também tenho aturado muita coisa por causa de nhanhã, que não tem culpa, coitada! nem o moço: ele é bom.

A velha é que é um diabo!

Os dois homens riram da cólera da ama, que continuou:

— Um diabo! Nunca está contente, por um nada está aí botando a boca no mundo. Nunca vi!

E concluiu:

— Qual! Nhanhã mesmo não vive muito tempo com essa bruxa.

Um grito repercutiu no bosque; Cesário, juntando as mãos na boca, correspondeu.

— É a menina.

Nuvens zoantes de mosquitos voavam em torno das cabeças dos três, que os sacudiam desesperadamente.

— Ainda mais! Escolhemos o pior ponto de espera. Vamos descer. Estão ali em baixo as mangueiras, é um instante. Isto aqui está horrível com os mosquitos.

Mas aproximavam-se vozes:

— Paisinho!

Sarita gritou dentre as árvores, e Jorge, sorrindo, respondeu:

— Sobe!

Maman Loureiro corada, as saias muito levantadas, deixando ver os pés inchados, foi a primeira a aparecer carrancuda, ofegando: em seguida Sarita, vermelha, com duas lindas rosas nas faces, rindo, e o doutor abarcando flores silvestres. O jardineiro era o último, foice ao ombro, calmo, forte, como um senhor dos bosques, familiar com todos aqueles desvãos, íntimo daqueles meandros, habituado a atravessar os caminhos rudes, cantando folgadamente, sem fadiga, sem surpresa, como um deus selvático amado das árvores, querido dos ninhos, para o qual os ramos tinham sempre um fruto, as vergonteas tinham sempre uma flor e as águas guardavam a frescura suave e reparadora. Cesário, vendo aparecer a viúva, anunciou baixinho ao enfermo «uma tremenda explosão de cólera»; a velha, porém, pálida, contendo a ira, não descerrou os lábios e passou, fechada num mutismo de ódio, a cabeça baixa, ofegando. Sarita, bambaleando o corpo, extenuada, sorria, e o doutor, carregado de flores, já sem fôlego, afirmou que «a ascensão ao Monte Branco era mais suave do que a subida àquela altura, sobre o caminho lamacento como estava. Mas Cesário, sempre jocundo, riu da fraqueza daqueles moços e, descendo, animou-os mostrando-lhes em baixo o «salão florestal».

— Estamos em casa. Lá estão as mangueiras veneráveis...

Orlando o caminho estreito e sinuoso os bambus inclinavam-se formando uma abóbada verde e murmura; borboletas voavam de um para outro lado e havia um sussurro perene como d’água a correr através da sombra. O «filósofo», sempre apaixonado da natureza, rompeu em exclamações:

— Que olhassem! Aquilo era lindo! Suntuoso!

Miss ia sozinha à frente, abrindo a marcha; Bá em seguida, amuada, a resmungar contra maman Loureiro. Inocêncio apareceu cantarolando e logo sumiu-se, a correr, metendo-se pelos matos. Entre as altas mangueiras a mesa tosca resplandecia forrada pela toalha branca. O chão em torno, juncado de flores, era macio e crepitava sob os passos. Havia palha e papeis esparsos e sobre os bancos garrafas, latas, flores e frutas, todo o necessário para esse almoço de festa, ao ar livre, na comunhão das árvores. A um canto, em pitoresco meandro, o cozinheiro improvisava os fogões, reunindo pedras sobre as quais descansavam panelas e caçarolas lambidas pela chama alegre e estalidante da lenha verde. Sentaram-se. Os criados correram a limpar os bancos e Cesário, satisfeito, expansivo e gárrulo, propôs uma taça de champagne levantando uma das garrafas, mas todos opuseram-se, queriam repousar, estavam estafados. O «filósofo» teve um olhar de piedade e de ironia para «aqueles tristes» e, voltando-se para Inocêncio:

— Vem daí comigo, rapaz. Apanha essas garrafas num cesto e vem comigo.

Jorge acompanhava-o com os olhos e quando o perdeu de vista acenou à Sarita que passeava abanando-se com o lenço. A moça adiantou-se e, sentando-se junto dele, no banco, tomou-lhe uma das mãos. Maman Loureiro, desesperada, dava expansão à cólera frenética, discutindo com o filho que a ouvia murcho, de olhos baixos, quebrando renovos dos arbustos. Jorge, como se o eflúvio das selvas penetrasse-o beneficamente, sentia um bem-estar tranquilo, uma grande paz de coração. A luz dourava os ramos espalhando nimbos de claridade no solo como se uma árvore de ouro, num outono fantástico, fosse despindo-se da folhagem preciosa; e pássaros cantavam em festa. Sarita sentia a pressão delicada dos dedos do padrasto e lia-lhe nos olhos a melancolia; entretanto o seu coração, irritado de amor, batia sôfrego, os olhos inquietos procuravam o Dr. Loureiro que se perdia entre as árvores acompanhando a viúva. Pássaros desciam dos ramos e vinham mariscar na terra; alguns mais ousados passeavam em cima da mesa gásilando entre os pratos. O cozinheiro cantava uma modinha nortista, enquanto Bá e o copeiro, agachados, iam tirando dos cestos garrafas e frutas. O bosque conservava a sua serenidade, parecia um santuário invadido onde os deuses impassíveis olhavam calmos o acampar de uma horda. O enfermo levantou os olhos para Sarita, atraiu-a docemente e beijou-a na fronte entre os cachos de cabelos que voavam:

— Então vais deixar-me, hein?

— Deixar? Por quê, paisinho?... Eu não.

— Não hás de ir com o teu marido?

— Sim, mas ele concordou comigo. Passaremos os primeiros tempos com você... mais tarde então...

— Mais tarde?...

— Se ele quiser — aventurou Sarita. E, sorrindo:

— Não foi você mesmo que disse que eu devia fazer tudo quanto ele quisesse? que devia obedecer sem discutir?

— Sim...

— Então? Eu com a mãe dele não moro; os nossos gênios não se combinam: é muito impertinente, esquisita, cheia de manias e para que hei de procurar o mal quando posso evitá-lo? Morar com ela, não; isso já disse a Loureiro e depois, ainda que nos separemos, você sabe que hei de sempre estar a seu lado. Não sou ingrata!

— Não, não és... Entretanto, Sarita, o meu desejo era outro bem diferente: eu não queria apartar-me de ti, nunca! Queria que vivesses sempre comigo. És o meu único consolo, quem mais tenho eu no mundo?

Cesário...

Cesário é um nômade; amanhã, a pretexto de qualquer coisa, sai e deixa-me só e eu estou como as crianças às quais é indispensável o carinho da mulher. E partes justamente quando vem chegando o crepúsculo. Como vai ser triste a minha noite! Pensei muito, aguilhoado pelo meu egoísmo, pensei muito, mas tive quem discutisse e combatesse os meus pensamentos. Sempre que expunha uma ideia tinha certeza de a ver contrariada.

Cesário não me permite mais a vida acha-me inutilizado e, como querendo precipitar a queda da ruína, concorre para esse desastre arrancando o que ainda a sustentava. Se ele não se tivesse metido insidiosamente no meu segredo, mostrando-me o horror que viu no fundo, eu iria com ele, confiado e tranquilo, até o teu coração e talvez não tivesse agora a alma tão triste como tenho. Mas Cesário veio com os seus argumentos, disse-me coisas tais que tive receio de falar a verdade, de dizer o meu sentimento, de contar a minha agonia e hoje, arrependido, vejo que só consegui aumentar o sofrimento porque, cada dia que passa aproximando-te daquele homem, distancia-te, afasta-te de mim e, isolado, sentindo-me em abandono, começo a ter a impressão estranha de um banido, entregue à solidão e ao desespero, sem uma alma piedosa para fraternizar com a sua e abrandar-lhe o tormento.

Sarita quis interrompê-lo; ele, porém, deteve-a:

— Espera. O que te vou dizer agora é uma história que a mim mesmo repito constantemente nas minhas vigílias tormentosas. Talvez te revoltes como Cesário, mas não quero nem posso guardar, por mais tempo, esse segredo torturante e, se parecer-te estranho, perdoa-me, não me queiras mal nem abuses da minha indiscrição tornando-me ridículo aos olhos de outrem. Escuta. Desde que começaste a tua vida de moça, deixando esquecida a criança, desde que passaste da infantilidade à juventude, teu rosto começou a refletir o meu passado. Comecei a olhar-te como a sombra de um túmulo, vendo nas tuas feições todas as linhas, todos os traços de alguém que fora, para mim, um sofrimento feliz: tua mãe. A morta revivia e o meu amor por ti sofreu, ressentindo-se dessa transição da beleza a criança ia morrendo vencida pela mulher até que de todo a menina desapareceu, ficando em seu lugar o espectro, que eras tu. Não sei como explicar-te o que sentia sempre que me aparecias como a visão de um tempo longínquo e de dores. Às vezes ficava demoradas horas contemplando-te e não eras tu quem eu via, era ela, tua mãe: quando falavas, quando sorrias, quando repousavas a cabeça sobre o meu ombro adormecendo. Meus beijos também perderam a castidade, mas não te maculavam — era como se eu beijasse uma imagem da morta. Desapareceste inteiramente cedendo o lugar à tua mãe. Bem sei que tudo isso pode ser levado à conta de um desequilíbrio mental, de uma grande moléstia da alma, mas ouve, ouve sempre. A princípio resisti empregando todas as forças da minha razão, toda a energia da minha vontade; mas a obsessão nasceu. Já não era somente em tua presença que eu sentia a tentação tremenda do teu rosto, longe de ti, diante do teu retrato, quando te ouvia os passos, quando te ouvia a voz. Foste, desde então, a preocupação única do meu espírito e essa moléstia, essa estranha moléstia, degenerou em amor, Sarita... A moça empalidecia guardando uma imperturbável imobilidade, os olhos baixos, mas à confissão de Jorge estremeceu toda e, num movimento vivo, ergueu a cabeça e encarou-o.

O enfermo, porém, como se não tivesse percebido o ímpeto da pupila, continuou no mesmo tom de narrativa, expondo a sua tortura.

— Amei-te... e não me vexo de o dizer a ti mesma, não me vexo porque não era a menina criada em meus braços, a minha filha que eu amava, era a outra, a que fora, a morta. E, se eu te dissesse, Sarita, todos os meus penares, as ânsias das minhas noites não dormidas, as angústias das minhas evocações, talvez me lastimasses.

Cesário, que me tem acompanhado com tanta solicitude e com tão desvelado carinho, pode contar-te o que tenho sofrido. Mas, pensando, imaginei tudo quanto se vai realizando à medida que os dias correm: o teu casamento, o meu abandono. Foi então que imaginei guardar-te comigo para sempre, prendendo-te à minha vida para que me acompanhasses como uma ilusão acompanha um espírito doente. E quis casar-me contigo. Novo estremecimento agitou a moça e seus olhos, cheios de assombro, faiscaram. A confissão surpreendia-a, sufocando-se no coração o pudor. O que a dominava era o medo: sentia-se como empolgada por uma mão forte e recuava ao homem, aterrada, com a respiração curta como se lhe faltasse o ar.

Jorge, de uma lividez cadavérica, prosseguia, falando como se lesse num livro. — Não era um novo amor que me impelia, mas a ideia de uma nova existência ao lado de quem vivi friamente, mais como amigo do que como esposo; era uma reintegração no passado, uma extravagante volta ao tempo extinto. Possuir-te não me preocupava, eu queria a outra, de que te não lembras. Só então levantou os olhos para a enteada e as suas pupilas fulguravam, um sorriso franzia-lhe todo o rosto: Não te lembras. Era linda, tua mãe! E eu não a amava. Foi necessário que o túmulo tomasse-a para que eu sentisse que no meu coração vivia o amor por ela, mas tão oculto que até então eu não dera por ele.

Cesário, à força de interrogar-me, conseguiu saber o motivo dos meus desesperos e das minhas vigílias: disse-lhe tudo e ele, longe de procurar aliviar-me, veio com umas longas palavras mostrar a hediondez do meu pensamento. Hediondez, vê bem... mas em que? Pois não fui eu o marido de Laura, não foi ela minha mulher? Que culpa tenho eu do seu regresso ao mundo? Que mal havia em casares comigo?

— Eu, paisinho? — exclamou Sarita em voz trêmula, já agitada pelo choro. Pois não sou sua filha, paisinho? Ah! isso nem se pensa... E desatou em pranto, abafando o rosto com as mãos.

Jorge, agitado, como se tivesse reconhecido a sua falta e temesse torná-la pública, quis consolar Sarita atraindo-a; a moça, porém, repelia-o docemente, fugindo com o rosto quando sentia nas faces o calor do seu hálito.

— Mas ouve, minha filha. Não chores. Eu quis dizer-te a verdade, a verdade somente. Não queres que eu tenha franqueza contigo? Sou eu o primeiro a confessar que isso não passa de uma loucura, sim, de uma loucura, porque ninguém quer ver que estou perdendo a razão, ninguém! Não chores, tem piedade do meu sofrimento, nem tomes a sério as minhas palavras, não sei mais que digo. Só Cesário pode falar-te a verdade, ele que te conte as alucinações que tenho, as noites que passo. Que queres, minha filha? É a loucura. Nunca viste um louco? De vez em quando um relâmpago fulmina-me e fico assim, estonteado, incerto: é a tempestade sinistra que se anuncia. Não chores. E procurava atraí-la; as suas mãos trêmulas tateavam incertas o corpo virgem e Sarita encolhia-se, evitava-as, repelia-as com um mal contido nojo, até que se pôs de pé, os olhos vermelhos, o rosto macerado, e soluçando.

Jorge, trêmulo, atônito, levantou-se também.

— Perdoa! Eu não sou mais do que um louco... Não sei que digo. As palavras saem-me involuntariamente. Achas possível que eu que te trouxe ao colo...? Não, minha filha, não: palavras vans, palavras vans. Vozes aproximavamse.

Jorge travou das mãos de Sarita e sussurrou: É Cesário; senta-te aqui, senta-te... e atraiu-a para o banco. A moça deixou-se levar sem resistência. Sentaram-se justamente quando o «filósofo», purpúreo e suado, apareceu no caminho, arregaçado, radiante:

— Decididamente vocês não têm gosto. O córrego está admirável com as águas novas que lhe deram as últimas chuvas, ronca e vem quase até à borda da barranca. É um rio, pode-se ali navegar. Lá deixei as garrafas num poço, a refrescarem. Mas vendo lágrimas nos olhos de Sarita, exclamou indignado: Que é isso? chorando? Pois vieram de casa para isto? Ora, pelo amor de Deus!

Jorge fazia-lhe sinais para que se calasse, mas Cesário, irritado, acusou-o:

— Que diabo! Tens mania da tristeza. Não pode haver alegria junto de ti.

O enfermo sorria afagando a enteada:

— Não, estávamos falando do casamento, só porque lhe disse que nos íamos apartar...

— Qual apartar! Apartar por quê? Vamos, menina; deixemo-nos de choro. Olhe, a sua professora lá está à beira d’água colhendo lírios; por que não vai ter com ela? Se começa a chorar vem por aí a viúva e desfaz-se em caudais lembrando o defunto. Nada de tristezas.

Bá, que chegava, vendo-a ainda a limpar os olhos, perguntou enternecida:

— Que é que tem, nhanhã?

— Nada, Bá; também tudo você quer saber...

— Decerto, pois vosmecê está chorando à toa. Olha, o almoço já está pronto.

— Pois serve-o.

E encaminhou-se vagarosamente para o lado do rio, brincando com um ramo de erva de S. João.

— Ah! Meu amigo, aquilo está lindo! — exclamou o «filósofo» e, descendo as mangas, a cabeça levantada, a olhar as frondes douradas pelo sol: — E que dia soberbo, hein?

— Maravilhoso!

Inocêncio ia e vinha servindo a mesa e, quando Bá apareceu com uma terrina fumegante, Cesário esfregou as mãos:

— Já não é sem tempo.

E saiu para chamar os Loureiro enquanto Inocêncio, a correr, entrava pelo caminho que levava ao córrego. Ao almoço Cesário encarregou-se da palestra, notando uma grande frieza em todos, até nos noivos, que nem sequer sorriam. As árvores espalhavam folhas sobre a mesa e pássaros cantavam nos ramos, quase por cima da cabeça dos comensais. O «filósofo» chamava a atenção de todos para aquela alegria que os cercava, o bom humor da natureza amiga, e insistia em afirmar que «aquilo era bem melhor do que as tais salas abafadas.» Estava ali a grande verdura não eram palmeirinhas enfezadas, araucárias raquíticas, apertadas em vasos japoneses, eram os grandes troncos, as copadas ramas e o passaredo cantava livre; ouvia-se o ruflar das asas dos que passavam de um para outro lado e as borboletas que voavam ao sol; tudo aquilo era de um encanto comunicativo. Maman Loureiro fazia momos, achava melhor a sua sala de jantar; ao menos ali estava livre da umidade, «porque já começava a sentir os pés frios e uma pontinha de enxaqueca.» Jorge, de uma loquacidade estranha, deu para recordar os dias da sua infância na liberdade dos campos, no pendor das colinas. O Dr. Loureiro descreveu a sua fazenda, na serra, lastimando não poder passar os dias na simplicidade rústica, acompanhando a faina alegre das colheitas, vendo o gado partir nas manhãs de névoa, chegar à tarde, em morosa fila, mugindo. Maman Loureiro achava insípida a vida rústica, entre negros brutos, sempre a mesma coisa, num silêncio aborrecido. Quando ia à roça passava os dias a dormir ou na capela a ver uma coisa e outra. O filho, porém, como para lembrar-lhe, falou sorrindo dos diferentes encantos da vida de fazendeiro o tempo da apanhação, a chegada dos negros da roça, dois a dois, a formatura no terreiro para salvarem, as ladainhas cantadas em coro, ao ar livre, o caxambu nas vésperas de festas, os sambas nas senzalas. Miss punha os olhos em alvo, ia afirmando com a cabeça, e, quando o doutor levou a garfada à boca, ela repetiu as descrições por ele feitas, dizendo, com saudade, que passara uns tempos em uma fazenda e vira tudo aquilo juntamente. Tinha até pequenos esboços no seu álbum. Cesário, para contrariar maman Loureiro, afirmou que não gostava de ir a fazendas porque não tinha coração para assistir às torturas a que submetiam os escravos. Se maltratassem um negro perto dele era capaz de perder a cabeça. Entretanto a vida do interior seduzia-o. Havia ainda de ter um sitiozinho, porque o seu ideal era acabar descansadamente num canto ignorado, entre árvores. Havia de ter o seu gado, flores, uma horta para viver à maneira dos patriarcas. Maman Loureiro fez-se carrancuda ao ouvir as palavras de piedade do «filósofo» que combatia, enternecido, a fúria dos homens brancos contra esses míseros africanos e, como a viúva resmungasse que os tais abolicionistas não passavam de uns especuladores, de uns ladrões, ele abriu os braços e, curvando a cabeça, confessou que pertencia a essa quadrilha nefanda, acrescentando que já havia acoitado em sua casa negros que se lhe tinham atirado aos pés, implorando misericórdia. E outros havia, disse. Infelizmente o número dos abolicionistas era maior do que o dos escravocratas, e rindo, com o copo em punho: «E havemos de vencer, minha senhora, ou não há Deus lá em cima! nem juízes cá em baixo!» A velha quis saber se ele possuíra escravos.

— Não, minha senhora. Meus pais deixaram-me um pecúlio pobre: alguns prédios e uma nesga de terra onde jamais caiu semente. Deixo-a ao sol e à chuva.

Maman Loureiro afirmou convicta:

— É por isso que o senhor toma o partido deles.

O «filósofo» empalideceu e ia fulminar a velha com uma réplica tremenda, quando Sarita pediu que deixassem a discussão para o fim do almoço, porque a comida estava esfriando. Jorge, porém, com uma calma melancólica, entrou a contar uma cena de escravidão de que fora testemunha, pernoitando em uma fazenda paulista. «Uma mulatinha, suspeita de ser amante do senhor, fora submetida a um suplício bárbaro: nua, atada a um moirão, retalharam-lhe os peitos a navalha, lanharam-lhe as faces, as coxas, e, assim sangrando, passara a noite, uma noite gelada de junho, a gemer, cercada de cães que uivavam a ponto de o não deixarem dormir. Ao amanhecer, abrindo as janelas do seu quarto, que dava para o terreiro, vira a desgraçada a cabeça tombada sobre o peito, hirta, molhada de orvalho. Estava morta.» Cesário, com esse documento, arremeteu de novo:

— E então, minha senhora? É essa a caridade dos senhores de escravos que têm capelas, que rezam todas as noites à Virgem. É assim que eles compreendem a caridade!

— Mas se não tiverem energia que há de ser deles? Diga.

— Perdão, mas eu não sei de outro nome que melhor caiba a esses enérgicos senão o de assassinos.

A velha encarou Cesário, lívida, mas, baixando a cabeça, teve um sorriso sardônico e perverso, esfolando a costeleta nervosamente, a bufar. O Dr. Loureiro, alheando-se dos mais, voltou-se para Sarita e baixinho, o sorriso nos lábios, indagava dos motivos da tristeza súbita que a cometera. Jorge mirava-os e a moça tímida, cabisbaixa, ia distraidamente com o garfo do prato à boca, sem ousar levantar os olhos para o noivo. O sol subia e a folhagem estremecia balouçada pela aragem cheirosa do bosque. Fartos, recostaram-se às cadeiras, enquanto os criados iam retirando os pratos, substituindo-os para a sobremesa. Veio, então, à palestra o casamento e foi maman Loureiro quem lembrou aos noivos o dia desejado, que vinha perto, fazendo-lhes as observações da sua longa experiência.

— Agora é que vocês vão ver, dizia com familiaridade. Pensam que hão de estar sempre assim, como dois pombinhos? Pois sim; quando vierem os filhos é que eu hei de ver. Aproveitem, aproveitem, porque o melhor tempo é esse. Mais felizes do que eu que não tive noivado! suspirou. E desafogando-se do guardanapo, contou que saira do colégio para a igreja: era uma criança. Vira o marido umas duas vezes e respeitava-o, beijava-lhe a mão e, muito tempo ainda depois de casada, guardou por ele o respeito de sobrinha. «Ah! no seu tempo... não vê que os noivos tinham direito de conversar assim... Não vê». E arrancou do grande peito um suspiro cavernoso.

Ia alto o sol no céu, caíra a aragem fresca da manhã e as árvores pareciam adormecidas à sesta. De quando em quando uma folha seca, desprendida do talo, vinha remoinhando e caía. Cigarras chiavam ao longe e na erva rasteira que alfombrava os recessos do bosque insetos trilavam. Uma camaxirra galreava indo e vindo; às vezes pousava na terra, ao sol, e trêfega, aos saltinhos, bicava mariscando, fugindo para os galhos altos. O torpor apoderava-se de todos; maman Loureiro bocejava e Cesário ousou dizer «que era capaz de dormir uma boa hora estirado na erva, à sombra daquelas árvores.» Jorge parecia distraído, o olhar fito num ponto escuro do bosque, quando o doutor lembrou a retirada, por prudência. «Ele, decerto, lucraria descansando um pouco» e, como se quisesse dar o exemplo, levantou-se. Mas Cesário protestou: «que não tinham vindo para comer somente; havia ali tantas maravilhas: o córrego que lá em baixo corria...» E Miss lembrou uma espécie de gruta de verdura que era uma beleza, onde havia sempre frescura e aroma. Maman Loureiro obstinava-se em ficar, «estava farta de caminhadas»; Jorge, igualmente; deixando-se estar sentado, aprovou as palavras do «filósofo»: que deviam dar uma volta. Sarita, então, propôs uma pequena exploração às moutas próximas e convidou a governante e como o Dr. Loureiro se oferecesse para acompanhá-las, seguiram os três pelo estreito caminho que levava ao córrego. Cesário lentamente meteu-se por uma deveza e, resfolegando, estirou-se na erva, debaixo de uma alta mangueira, acompanhando a faina ativa de uma aranha dourada que ia e vinha, fiando a teia brilhante, e adormeceu, ressonando sonoramente. Maman Loureiro e Jorge, enquanto os criados acondicionavam pratos e talheres nos cestos, entraram a falar do próximo casamento. Maman Loureiro augurando uma sorte invejável a Sarita, porque ele era um coração de pomba, muito meigo, e ela havia de querer tanto à menina como a seu próprio filho. Haviam de viver como em um paraíso. Jorge mal ouvia as palavras enternecidas da velha, olhava-a sem vê-la, o espírito muito longe, acompanhando esse par amoroso que ia por entre as árvores, protegido pela sombra discreta dos ramos. Viu-os parados como duas figuras marmóreas, embevecidos num êxtase de amor: ele a sentir de encontro ao peito o colo virgem da noiva, arfando, cheio de paixão, numa grande ânsia de desejos; ela com as faces aquecidas pelo hálito ardente do moço que a cingia amorosamente, atirando-lhe beijos desvairados à boca, aos olhos, aos cabelos... E a velha falava. Ia contando a vida submissa e meiga desse filho amado desde os tempos em que, pequenino, repousava a cabecinha loura no seu colo para dormir o primeiro sono até que se fizera homem, sempre a seu lado, obediente, sem jamais contrariá-la, fosse no que fosse. Mas Jorge sentia-se a mais e mais perseguido pela visão terrível. As árvores farfalhavam e ele logo voltava os olhos como para surpreender, em flagrante realidade, o que o seu espírito criava, mas nada mais via senão as ramadas que se moviam lentamente, com languor voluptuoso. Em torno era grande o silêncio, apenas cortado, de vez em vez, pelo tinir da louça que os criados arrumavam ou por alguma frase de maman Loureiro relativa ao filho, e como Inocêncio passasse com um grande cesto à cabeça o enfermo perguntou pelo «filósofo». «Que não vira», respondeu o moleque; ele então levantou-se e, a pretexto de desentorpecer as pernas, propôs uma volta vagarosa e curta. A viúva negou-se, «que não devia abusar.» Jorge, porém, pondo-se de pé apoiado ao varapau, sorriu, garantindo que um passeio breve só lhe podia fazer bem; o próprio médico recomendara e, sem mais dizer, deixando a velha repoltreada, foi lentamente seguindo o caminho que haviam tomado os noivos. Maman Loureiro, vendo-se só, ergueu-se também, sacudindo as saias e pôs-se a passear majestosamente ao longo da clareira, enquanto Bá ia ordenando a arrumação dos pratos e dos talheres. A negra, de cócoras, fazia-se surda às palavras da velha, levantando a voz quando falava ao copeiro, como para demonstrar que ali ela era senhora absoluta, que só ela ordenava; e, como a velha avançasse para dizer que não deviam ir os talheres no mesmo cesto em que iam os cristais, a ama resmungou:

— Que sabia muito bem o que estava fazendo. Tinham vindo assim, assim haviam de ir.

E atafulhava palhas, pedaços de jornais, guardanapos protegendo as taças e os cálices frágeis. Jorge, entretanto, ia seguindo, de olhos no chão, procurando ver nas pegadas que haviam ficado pelo caminho o indício de que eles haviam seguido juntos... mas eram tantas, confundiam-se. Às vezes a trilha alargava-se, descobria-se toda ao sol e a luz dourava-a por inteiro numa inundação ofuscante. Era a erva rasa, entanguida, murchando ao calor, sem a proteção de uma árvore; entretanto pequeninas borboletas brancas, como se preferissem aos meandros sombrios aquela pequena clareira toda exposta à luz, cruzavam-se alegremente; havia florinhas miúdas, azuis, amarelas, e um bom cheiro de erva de S. João impregnava o ar. O enfermo parecia buscar alguma coisa no próprio ar, um indício vago do que a sua imaginação criava. Em certos pontos o capim tenro estava amassado, curvado, como se alguém ali se houvesse deitado, e efetivamente as pegadas desviavam-se para aquele lado e desapareciam porque a erva ocultava-as; mas não, continuavam adiante, lá iam, e ele seguia-as. Entretanto já lhe chegava aos ouvidos o sussurro d’água, estava perto do córrego e eles então? onde estariam? Parou um momento circulando com os olhos toda a redondeza, já sentia fadiga; mas pôs-se de novo a caminho. Impelia-o um misto de ódio e de curiosidade, queria surpreendê-los e já não os imaginava abraçados, os lábios nos lábios, via-os em amor, entregues à fúria brutal da paixão, rolando na terra como os animais, frementes de gozo, num abandono cínico. O sangue afluía-lhe ao rosto, tremiam-lhe os lábios. Tinha ímpetos de correr todos os cantos, examinando cuidadosamente, a ver se os descobria. Deviam estar ali, ocultos, escabujando em espasmos; mas onde? onde? Ia sempre a olhar, transfigurado, sem sentir o cansaço, arrastando as pernas, sem mesmo procurar firmar-se ao varapau que levava. Havia gorjeios, chilros nas árvores, uma surdina de beijos, estalidos secos como de gravetos quebrados sob o peso de corpos e o murmúrio do córrego perene. E eles? onde estariam? O caminho bifurcava-se — hesitou, e como em ambos houvesse trilha de passos, escolheu o que levava a um canto de sombras e, tomando-o, pareceu-lhe ouvir um segredar tímido, amoroso, à maneira de arrulho. Prestou o ouvido, como quem procura distinguir, na treva da noite, o passo vago de um espectro. Os olhos, imensamente dilatados e fitos, espreitavam como se quisessem ver, em desalinho criminoso, ainda exaustos, afogueados, os dois amorosos. Mas uma grande borboleta apareceu voando lentamente, ora baixo, rente com os arbustos, aflorando as espiguilhas, ora alto, por entre os ramos. Foi seguindo, vagaroso, cheio de cuidados, para que não estalassem sob os seus pés os galhos resequidos que havia pelo chão. Fincava o varapau firmando-se para mudar os passos e assim, evitando tocar nas ramarias para que não farfalhassem, com medo mesmo de que os insetos, que trilavam, se calassem acusando a sua presença, ia por diante procurando não interromper a vida dos pequenos seres nem quebrar o silêncio misterioso do recanto discreto. E assim chegou ao termo do caminho, defronte do córrego, entre cajueiros, e viu os três, sentados sobre pedras, na barranca, calados, olhando a água correr. Sentiu como uma decepção, como se preferisse encontrá-los de rojo na terra bestialmente enlaçados, num delírio carnal como o dos negros que amam ferozmente, entre os cafezais dos eitos, ao sol. Via-os tranquilos e calados e entre eles Miss... Pensou em tornar pelo mesmo caminho, mas quase involuntariamente, um grito fugiu-lhe da garganta: «Ooh!» Os três voltaram-se surpreendidos e maior foi a surpresa quando o reconheceram. Sarita ergueu-se muito corada, mas foi o Dr. Loureiro quem avançou para buscá-lo, pasmando de o ver só.

— Oh! Doutor! Podia ter alguma coisa...

— Não, não... Até me fez bem. Mas eu volto. Deixem-se estar. E, nervoso, estendia a mão para repelir o doutor que procurava auxiliá-lo.

Sarita, porém, como o visse partir, gritou de longe, arrependida, compreendendo que ele se havia ressentido da sua frieza:

— Espera, paisinho. Vamos todos.

E deitou a correr conseguindo alcançá-lo.

— Então...? Quer ir sozinho?

— Vou só... Vou só.

E repelia o braço que a moça lhe oferecia, mas, de repente, voltando-se:

— Olha, vem com ele. Dá-lhe o braço.

E seguiu cravando com força o varapau na terra.

Quando chegaram às mangueiras Cesário ainda dormia, e Bá, sentada no banco, as mãos nas coxas, a cabeça encostada a um tronco, a boca aberta, cochilava. Maman Loureiro partira guiada pelo copeiro e foi necessário que a ama fosse despertar o «filósofo» para que ele viesse oferecer o braço a Jorge que, banhado em suor, obstinava-se em querer ir sozinho, rejeitando o auxílio que lhe ofereciam o doutor, a enteada e a própria ama, o que fez com que a negra dissesse baixinho à Sarita:

— Isto foi alguma que vosmecê fez a nhônhô.

— Que foi que eu fiz, Bá!? Já vem você! Que foi que eu fiz?!

Inverno em Flor

Sinopse

Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.

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