Universo da obra
Universo da obra
Magra, esguia, os cabelos encanecidos, os olhos dentro de profundas olheiras, ora extasiados, ora rútilos, febris, rolando em desvairamentos, D. Antônia caminhava pelos corredores, entre negras, seguida de D. Júlia, como uma sonâmbula, num andar tímido de cega, levantando os pés de vagar, pousando-os de leve, como a sondar o terreno. Nos dias de grande sol faziam-na sair à varanda ou levavam-na docemente pelo caminho da porteira, entre barrancas e ela ia, vagarosa e fraca, com o olhar ao longe, no rosto um sorriso místico de mártir. Passavam-se semanas tranquilas, de mansidão e êxtase, mas, de tempos a tempos, a fúria reaparecia eram gritos atrozes, escabujamentos, lágrimas. Levavam-na para o quarto de encerro, grande aposento sem móveis, apenas um leito amplo e negro, de altas colunas, onde a louca rolava abraçada com os travesseiros, soluçando, a bradar: — «Que a deixassem com o marido, que a deixassem! que a deixassem!» Quando recrudescia o acesso arrancava as farripas, cravava as unhas no rosto, rasgava as roupas, com úlulos roucos. Escravas estiravam-se pelo chão em torno do leito, em vigília. Quando Jorge apareceu D. Júlia pasmou de vê-lo já homem, com grandes bigodes, o retrato do pai, sem a graça infantil, mas com uma soberba virilidade, forte e gracioso como um atleta. Longe de recebê-lo efusivamente, como no antigo tempo, aos beijos, esperou que o sobrinho lhe tomasse a fronte e a beijasse; retribuiu então pudicamente, mal encostando os lábios na testa do moço onde bailavam cachos. D. Antônia, nesse dia, amanhecera calma, gemendo com frio, atabafada, encolhida no leito. Jorge que, em caminho, interrogara o pajem, reservou-se com a tia. Sentado, passeava os olhos pela sala que o grande sol iluminava, prestando-se ao exame comovido de D. Júlia que o admirava, dissimulando sorrisos. Mas um grito vibrou; o moço, com um estremecimento, voltou a cabeça e boquiaberto, num hiato de horror, fitou a tia:
— Não é ela, meu filho, descansa. É algum dos pequenos. Ela tem passado melhor ultimamente.
Falaram, então, do começo dessa desgraça e Jorge relatou a cena que tivera com o correspondente na véspera de partir. E como viajara, cheio de cuidados, imaginando o tristíssimo espetáculo que teriam seus olhos quanto avistassem a mãe desgrenhada, a agadanhar-se em acessos de loucura. D. Júlia ouvia meneando com a cabeça e, como o moço suspirasse, calando-se, convidou:
— Vamos vê-la, meu filho.
Ele, porém, apesar da saudade e do desejo intenso de ver e de beijar a mãe, resistia procurando delongar o momento cruel, e já entristecido pelo silêncio fúnebre da casa, onde mal soavam os passos das escravas que iam e vinham em pontas de pés, continha o pranto que lhe subia aos olhos. Mas, como a tia insistisse, levantou-se e seguiu-a pelo corredor monástico, sombrio, onde crioulinhos nus dormiam deitados em esteiras. As paredes úmidas tresandavam e eram frias como lápides e como Jorge passasse diante de um cubículo, um bacorinho assustado fugiu aos galões, grunhindo, atravessando a sala de jantar onde mucamas trabalhavam. D. Antônia, sentada no leito, os cabelos amarrados no sínciput, lidava com panos quando escravos apareceram à porta. Ouvindo falas levantou a cabeça, e como o filho assomasse à entrada, a louca foi entreabrindo os lábios, abandonando os trapos lentamente; as mãos crisparam-se-lhe, os olhos baços e frios foram, aos poucos, ganhando claridade como se lhes voltasse a primitiva luz. O moço avançava, mal contendo a emoção; D. Júlia seguia-o. As escravas ficaram de pé, junto à parede nua, olhando, ora a mãe, ora o filho com curiosidade comovida, à espera de que a pobre louca reconhecesse quem tantas vezes chamara aos gritos. Jorge, entretanto, caminhava sem que ela demonstrasse reconhecê-lo. Parecia assustada diante daquele homem que avançava encarado nela. Repuxava maquinalmente as roupas para o colo, sem tirar os olhos do filho, temendo-o e a fisionomia foi-se-lhe transfigurando: rugas cavaram-se, os lábios agitavam-se em tremuras, e encolheu-se quando o moço ajoelhou-se junto ao leito procurando-lhe a mão para beijar.
— Então, mamãe? Não me conhece mais?
Jorge, seu filho...? E mirava-a bem nos olhos como se procurasse descobrir-lhe nas pupilas um resto da luz meiga de outrora, luz que as lágrimas copiosas pareciam ter apagado para sempre. Mas D. Antônia, como se despertasse de um sonho, achando-o na vida real, perfeito e exato, inclinava-se fitando a vista, por sua vez, no filho, bem perto, como para convencer-se e os olhos extremosos encontravam-se: dois abrasados, dois outros úmidos e ternos. Ele sorria, ela mirava-o duramente como cravando a vista no íntimo para achar o sonho, o bom sonho perdido que parecia revelar-se aos poucos. Por fim acenou a D. Júlia, às escravas. Cercaram-na em silêncio e ela, baixinho, balbuciando, a apontar o filho, indagava:
— É Jorge?
E as mulheres afirmavam. Ela insistia:
— É Jorge? Meu filho? Meu filho de muito longe, de lá?
E estendeu a mão, num gesto lento, marcando a distância intermina que ela sonhava, e de novo as mulheres afirmaram. Curvou-se mais, tomou nas suas as mãos ambas do filho, beijou-as, mirou-as como se as quisesse reconhecer, depois voltou-lhe a cabeça; examinou-o numa face, depois em outra, alisou-lhe os cabelos e, docemente, beijou-o sorrindo. Voltou-se para D. Júlia, mostrou-o orgulhosa, derreando-lhe a cabeça para que todas vissem-lhe o rosto varomil; mostrou-o às negras:
— Meu filho!
Jorge!
E sempre sorria:
— Meu filho!... Era pequenino assim;
e espalmou a mão no ar. Súbito, quase com a boca sobre os lábios dele, perguntou:
— E teu pai? Teu pai? Ontem, quando partiste, ele estava aqui; e bateu no leito.
Jorge olhava-a compadecido.
— Teu pai não tarda. Olha o chapéu dele...
E apontou para o cabide. Não tarda. Vais vê-lo. Queres vê-lo? Espera... Metendo, então, a mão no seio sacou um punhado de papéis, desenrolou-os e, mostrando ao filho uma gravura amarfanhada e rota, perguntou:
— Está vendo? Seu pai, não é?... Lesta, desceu da cama, os cabelos desenrolaram-se-lhe caindo-lhe pelas espáduas em ondas veneráveis e ela ia para sair quando as escravas tomaram-lhe a frente. Aflita, frenética repelia-as:
— Ah! Ah! Que coisas! Deixem-me! Vem, meu filho... Parou e, como se ainda tivesse dúvidas, perguntou:
— Não é meu filho?
— É, sim.
— Então! Vem, vem, vem! E, como Jorge avançasse, estacou com os olhos imensos, desvairados, a medi-lo dos pés à cabeça. Um sorriso irônico nasceu-lhe nos lábios que empalideciam, torcia as mãos, agitava a cabeça escancarando a boca agoniadamente. Súbito, num rápido movimento, arrancou um pedaço da renda do casaco e ria nervosamente, mostrando as gengivas vermelhas. As escravas encaminharam-se para junto dela, contiveram-na com meiguice; ela, porém, trincando os lábios, arremetia arquejando, debatendo-se; e entrou a balbuciar. De repente, apertando a cabeça a mãos ambas, pôs-se a chamar o esposo, aos gritos:
— Velho! Meu velho! Meu Jerônimo...!
Jorge, em soluços, foi arrancado do quarto pela tia que o consolava:
— Ah! Meu filho, coitadinha! Antes a morte!
E ele, soluçante:
— Antes, tia Júlia. Antes a morte, coitada!
E os gritos repercutiam dolorosamente. Num dia de maio, tépido e translúcido, D. Antônia, que a fraqueza consumira, repousou na morte serenamente. A madrugada rósea e fresca nascia quando seus olhos foram perdendo o fulgor da loucura. O padre Joaquim que, entre as suas capelanias, preferia a da Mesopotâmia pela grande virtude das senhoras e pela abundância das merendas, chegara na véspera, na sua bestinha ruça, com o breviário, mas apesar dos rogos reiterados de D. Júlia, negou-se a confessar a moribunda, compreendendo a impossibilidade de despertar a memória naquele espírito obscuro. Absolveu-a, certo de que o bom Deus havia de recebê-la na sua glória, porque alma mais pura não passara pela vida sempre acima das torpezas do mundo. Absolveu-a para que o Dr. Câncio tentasse os derradeiros recursos da ciência, posto que não lhe parecesse possível arrancar aquele corpo, já frio, às garras da morte. Encantoou-se toda a noite e, estirado em fofa poltrona de couro, roncou beatamente, as mãos em cruz no ventre empanturrado, a boca escancarada. De quando em quando acordavam-no para uma colação e ele, rosnando, fungando, atirava-se às bandejas, perguntando baixinho às negras: «Se a boa senhora já havia descansado?» E engurgitava e dormia. O médico, como Jorge o interrogasse, assustado com a imobilidade da mãe, que nem um tremor agitava apenas os olhos rolavam aflitos, cheios de ânsias — sentenciou: «Que tudo estava acabado. Nada mais se podia fazer: ela estava inanida, a consunção levava-a». Ajoelhou-se então, tomou as mãos geladas da moribunda e cobriu-as de beijos. A madrugada nascia, rósea e fresca, quando os olhos de D. Antônia foram perdendo o fulgor da loucura, tornando-se baços como se uma bruma os velasse. A ortopneia progredia e o médico aconselhou que abrissem todas as janelas ao ar puro da manhã; tomou o pulso à louca e afastou-se vagarosamente, desanimado.
Houve, entretanto, uma grande esperança: voltavam os movimentos à enferma, as faces readquiriam a cor e ela entrou a jogar com a cabeça molemente, em balanço, sorrindo. Depois, como se alguma coisa lhe empanasse a vista, chegou as mãos aos olhos e, imaginariamente, tirava das pupilas as nuvens que lhe turvavam a claridade e jogava-as para os lados abandonadamente. Pestanejava, arquejava; os movimentos foram-se tornando brandos, por fim os braços caíram-lhe estendidos ao longo do corpo, pôs os olhos em alvo, cerrando a boca, contraindo a face. D. Júlia, que se prevenira com velas e com o crucifixo, correu ao leito e, de joelhos, pousou sobre o peito magro da cunhada a imagem, esperando a agonia, mas a morte não havia conseguido ainda a vitória suprema e só às 11 horas da manhã, à grande luz que entrava em jorros pelas janelas, ela expirou sem agonia, cerrando as pálpebras. Padre Joaquim adiantou-se e abriu o breviário diante da morta. As negras ajoelharam-se persignando-se. Os círios crepitavam, o padre resmoneava no silêncio fúnebre com um zumbido monótono de bezouro e fora, à luz vívida do meio-dia, nas moitas que enfeitavam as terras fecundas, cantavam tristonhamente as pombas meigas. Jorge, de pé, os braços cruzados, olhava o cadáver e, terminada a cerimônia religiosa, deixaram-no só com a mãe para os eternos adeuses. Foram saindo lentamente e ele achou-se abandonado diante do corpo lívido e gelado, que a morte desfigurava. Ajoelhou-se, e duas longas horas haviam corrido quando D. Júlia foi arrancá-lo à dolorosa agonia, anunciando-lhe, com um beijo, «que iam vestir a morta». Ele limpou os olhos macerados, beijou os cabelos brancos, as pálpebras, as mãos hirtas da mãe e saiu por entre as negras que o miravam compadecidas com os olhos cheios de ternura e de pasmo. Fora, na varanda, padre Joaquim e o Dr. Câncio bramiam contra a infâmia de Macedo Prates, que se bandeara com os liberais. E um carro de bois saía do terreiro carregado de milho, rinchando estridentemente. O esquife saiu na manhã seguinte, sob o orvalho, ao ombro de escravos até o cemitério. Jorge acompanhou-o a pé; um pajem levava o cavalo para a volta e, entre casuarinas e rosas bravas descansou o corpo. Vieram dias amargos de tristeza e tédio nesse silencioso e silvestre retiro, entre matas e águas.
D. Júlia definhava à sombra dos vetustos muros, que haviam presenciado toda a vida atormentada da família. Fazia-se beata, passando horas e horas na capela ou a ouvir as palavras untuosas do padre Joaquim, sempre entourido, arrotando acepipes: boa caça, bom vinho, boas ervas e parábolas dos livros de religião. Jorge, de vez em vez, abalava para o Rio, a pretexto de estudar os progressos do século e voltava magro, com o fígado dolorido e uma carga de livros. D. Júlia, sentindo-se isolada, teve um dia a lembrança de visitar as terras natais, a sua aldeia, onde viviam sobrinhas à sombra de vinhedos. Jorge apontou-lhe as inconveniências da viagem — a travessia lenta, o trabalho de fazer-se amar, a luta com o duro inverno, ela que se afizera ao sol dos trópicos, sem nunca ter ouvido os uivos dos ventos carregados de nevasca e, principalmente, o abandono em que ele ficava, sem pai, sem mãe, sem amigos, naquelas solidões onde, raro em raro, um caminhante aparecia pedindo pousada por uma noite como no tempo hospitaleiro e antigo dos patriarcas. Ela, entanto, insistia queixando-se do Brasil, que sempre lhe fora ingrato e acusando saudades da Pátria donde o irmão a mandara vir, ainda criança, tirando-a às ondas louras e cheirosas dos trigos, às esfolhadas e às vindimas alegres. Tinha lá terras e parentes e não ficaria, como a irmã, dormindo eternamente em terra estranha. E, para fazer calar o sobrinho, ajuntava, com beatice, que havia prometido subir a escadaria do milagroso Bom Jesus, em promessa, quando adoecera dos olhos. Em Março, para alcançar a primavera no campo natal, abraçou com lágrimas o sobrinho e seguiu, prometendo anunciar a volta logo que houvesse saciado os olhos de paisagem. Jorge resolveu então deixar definitivamente a fazenda, vendê-la para nunca mais tornar àquelas terras fatais. Os lucros acumulados davam-lhe para viver em paz abastada no Rio ou peregrinando pelo mundo em viagens estudiosas. Decidia-se, principalmente para fugir à devassidão oriental a que o forçavam as mucamas que, uma vez recebidas reservadamente nos seus aposentos, tomavam-lhe todas as horas, não lhe permitindo um instante de concentração e silêncio. Às vezes, ao alarido de vozes iradas nos compridos corredores acudia, intervindo em disputas obscenas entre escravas; e as histórias das suas noites desceram ao comentário das senzalas. Os negros sorriam e, protegidos pelas filhas que faziam parte do gineceu, caíam em madraçaria provocando ímpetos furiosos do administrador severo que, de vez em vez, para exemplo, mandava amarrar um deles à escada e assistia à surra, impassível como um inquisidor, surdo aos gritos, às preces, indiferente ao sangue que espirrava dos talhos do relho. Apesar da rispidez e dos açoutes a desmoralização e o desrespeito cresciam. O gado amanhecia preso, berrando e, às vezes, o sol ia alto no céu e ainda os campeiros dormiam, estafados dos caxambús nos terreiros das fazendas vizinhas. Uma tarde, porém, como andassem a coroar o café, levantou-se no eito atroante vozeria, as enxadas cruzaram-se, houve sangue e o feitor negro, Antero, um colosso de maus bofes, sanguinário e vingativo, caiu morto com um profundo golpe no crânio. Houve castigos cruéis negros foram aferrolhados ao tronco a pão e água; outros tiveram as costas lanhadas, gargalheiras e manilhas sairam das tulhas. Jorge revoltava-se com aquelas barbaridades, mas o administrador negou-se a perdoar os rebeldes.
— Que se não tratassem de opor um paradeiro aos desaforos daqueles cães seriam um dia forçados a batê-los a tiro, porque eram capazes de tudo.
Amofinado escreveu aos correspondentes para que anunciassem a Mesopotâmia: trezentos alqueiros de terras, engenhos, paióis, gado e duzentos e cinquenta escravos. Meses depois, com grande espanto do mulherio e dos negros, um velho médico atravessava a porteira com a família para tomar conta da propriedade que adquirira. Jorge retirou apenas alguns móveis: o grande Cristo da capela, um lustre de bronze, peça de grande valor, trazido do Porto pelo pai, e sem adeuses, sem saudades, partiu para o todo sempre desse vale merencório. Instalou-se no Rio, e, como pensasse em sair para o estrangeiro, deixou-se estar num hotel ocupando vastos aposentos, com um criado apenas.
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