Universo da obra
Universo da obra
A luz de um bico de gás, coando-se através de um globo verde, espalhava uma penumbra dormente na câmara, onde avultava o grande leito, alto e severo como um catafalso. Jorge, recostado em uma almofada, fumava, soprando baforadas distraídas, sempre obsediado pela ideia tenaz que lhe girava no cérebro como uma mosca voando em receptáculo hermeticamente fechado, a zumbir aflita, indo e vindo, ansiosa de liberdade. Cesário roncava ruidosamente na sala próxima, espalhando pelo interior sossegado o rumor regular de um sono tranquilo e fora, à lua pálida, os grilos trilavam adormecedoramente.
A imaginação torturava-o com a evocação da carne virgem de Sarita. Intimamente, no mesmo campo de ação, ideias contrárias debatiam-se e, como se vozes se pronunciassem no seu coração, ele como que ouvia a renhida disputa da dualidade que nele havia — a sedução pecadora trazendo-lhe não só a voz, lânguida, de moroso ritmo, que era em Sarita um dos atrativos mais fortes, mas a claridade dos seus olhos, toda a viçosa carnação do seu corpo, o seu andar gracioso e brando, ela toda, ora apertada nas vestes que lhe compunham as formas admiráveis, ora nua, como uma visão olímpica, uma das súcubas tentadoras das que dantes, nos tempos ferventes do ascetismo santo, apareciam aos solitários, seduzindo-os para o pecado, como Ammonaria, a escrava.
Mas a outra voz pura bradava, em assomos de zelo, como um profeta imaculado combatendo crimes e dizia: «É horrível! Pois eu que a tive pequenina nos braços, eu que lhe ensinei as primeiras palavras, eu que a vim trazendo pela mão até essa idade, não permitindo que lhe tocasse a inocência a mais pequenina mácula; eu que a considero minha filha, minha verdadeira filha, hei de pensar criminosamente sobre a sua pureza, manchando-a, ao menos diante dos meus olhos, que já não a podem fitar com a ternura antiga, porque ficam abrasados de volúpia, mal a avistam? Eu que a recebi da mãe como um penhor confiado à minha honra, sou o primeiro a prostituí-la em sucubatos incombatíveis...? Meu Deus!» Mas a voz interior calava-se, vencida pela ascensão lúbrica da visão formosa. Sarita reaparecia, pairando como uma bruma, girando no ar ou baixando docemente, docemente...
Irresistivelmente levantou os olhos: a alegoria da Noite, formosa e nua, começou a mover-se no baldaquino, a princípio branda, em contorções de espasmo, a pouco e pouco, como se se libertasse do céu de seda, animada, viva, palpitante, crescia, crescia. O seu colo rijo ondulava, descerravam-se-lhe os lábios em sorriso, iluminavam-se-lhe os olhos e, numa túnica atálica, feita com os próprios cabelos, descia como uma pluma que vem baixando lentamente dos ares, oscilando com as correntes da brisa, já roçando a terra, súbito ascendendo, oscilando em negaças, como a brincar.
Mas não era a Noite, era Sarita, era ela que se encarnava na pintura decorativa para seduzi-lo, para arrastá-lo à profanação nefanda, era ela que descia lânguida, com os braços abertos como uma cruz branca de mármore impoluto, caindo para um sacrifício novo.
Jorge rolava no leito, as mãos na cabeça, ofegando. Sentia-se cansado e, quando a visão desfazia-se, ficava-lhe um grande vácuo no cérebro como se lhe houvessem arrancado toda a massa pensante. Prostrado então, inerte, olhos fechados, repousava até que de novo, criando-se na escuridade a visão sedutora, recomeçava o suplício, silencioso, latente. «Oh! meu Deus! é atroz!» E passou a mão pela fronte abrasada, tinha os lábios secos, os olhos em fogo; o suor umedecia-lhe o corpo e da sala próxima, só, no apavorante silêncio vinha, de espaço a espaço, o ronco de Cesário que adormecera profundamente.
Nervoso, de uma impressionabilidade infantil, Jorge prestava ouvidos aos mínimos rumores, escutando o farfalhar das árvores fora, ao luar, crepitações vagas, frêmitos, por fim já o ressonar de Cesário impressionava-o. Sentou-se no leito, os olhos dilatados e, medroso, apavorado, parecia distinguir passos no jardim, impulsos de mãos nas portas, vozes sussurradas, silvos ao longe.
Atirou as pernas para fora do leito e ergueu-se, caminhando descalço para a sala. O «filósofo» dormia, a cabeça tombada, a boca aberta, um dos braços molemente pendido para o chão. Jorge hesitou em acordá-lo, mas sentia necessidade de companhia, a solidão aterrava-o, trazia-lhe visões. Foi de manso até junto do pliant em que se estendera o amigo e, tocando-lhe no ombro, chamou-o:
— Cesário!
Cesário!
O filósofo despertou súbito, de olhos muito abertos, cheios de espanto, perguntando arvoado:
— Que é? Que é? E, como o visse pálido, no desalinho em que se levantara, interrogou-o: — Que é? Tens alguma coisa? Estás com uma cara! Que é isso?...
— Insônia... Não posso dormir. Não sei que sinto. Estou ficando pior do que uma mulher. Queres que te diga — até medo tenho...
— Estás descalço, homem...? E o filósofo levantou-se, deu luz ao gás e, enrolando um cigarro:
— Pois eu estirei-me ali para continuar a minha concepção e já ia conduzindo os arianos pelos vales férteis quando o sono atirou-me o golpe fatal. Decididamente somos escravos da matéria não há resistência possível quando o animal entende que há de empacar nessa pasmaceira de não sei quantas horas de inércia. Dormi bem desde as II. E que horas são, sabes?
— Duas, pelo menos.
— Já é hoje.
Jorge alisava os cabelos nervosamente e encostou-se à mesa, cabisbaixo, as pernas cruzadas.
— Estás sentindo alguma coisa?
— Não estou bom. Não sei que tenho. É um horror!
— Mas, afinal, que sentes? Pareces-me um Argan, sempre a pensar em moléstias, sempre preocupado com as palpitações do coração e com os fosfatos, a pedir digitalina e análise. Andas com esse órgão sempre pelos consultórios e com a ureia em constante fervura nos laboratórios químicos. Queres o meu diagnóstico? tu o que tens é cisma, é essa mania da enfermidade que os modernos classificam entre as terríveis fobias. Alija essas ideias e come, bebe e dorme regaladamente para que não enlouqueças agarrado ao pulso, com um termômetro Casella debaixo do braço.
— É justamente no que eu penso — disse Jorge soturnamente, com o olhar extático, bamboleando a perna. — Não vejo outra explicação para o estado de eterna visão em que ando senão que estou na fronteira da loucura. E, frenético, a fronte carregada, os braços cruzados: — Noite e dia, noite e dia, as mesmas sombras sempre, sempre a mesma ideia, absorvendo-me, inutilizando-me. Não posso pensar, porque todo o meu cérebro está ocupado por uma ideia incoercível. Vivo assistindo à representação dolorosa de uma tragédia torpe dentro de mim mesmo. Sou espectador e ator. Combato, evito... mas tudo é baldado, sou vítima da minha imaginação ou de não sei que. Imagina tu o sofrimento de um homem que sente dentro de si vivendo, agindo, outro homem de sentimentos opostos, torpe, lúbrico, que sei! Parece-me, às vezes, que me borrifam a alma de lama. Não sei que é!... Há ocasiões em que tenho vontade de sair para a noite, caminhar até cair estafado para aliviar-me desse suplício atroz. Não sei que é... Passou a mão pela fronte e começou a passear, nervoso, arrepelando os cabelos.
— Mas em que pensas? Que ideia é essa? indagou Cesário, caminhando para a câmara.
— Sei lá! — disse Jorge com um gesto de ira. — Sei lá!
O «filósofo» reapareceu atirando ao chão um par de chinelos:
— Olha, calça. Estás aí com os pés na friagem. E, calmo, enrolando um cigarro, tranquilizou-o. Isso é natural no teu estado: estás nervoso, insone, o cérebro ressente-se; vê se dormes. Andei também assim muito tempo, sei o que isso é. Mas curei-me com esforço: atiro-me ao exercício, fatigo-me e, à noite, quando derreio, meu amigo, mal tenho tempo para estirar as pernas, porque logo o sono beneficiador fecha-me as pálpebras começando na minha goela, mais sonora que um órgão, isso que tu chamas «o estrondo do meu sono.» Tu és um sedentário, vives invernando, nem sequer procuras a boa sombra das tuas árvores. Passas aqui os dias entre livros, a mudar de cadeiras, numa vida de fakir. Não serve, o corpo quer movimento, exercícios. Vamos amanhã cedo às árvores; à tarde, outro passeio às árvores e hás de ver que a ideia foge espavorida do teu espírito enxotada pelo sono. Eu durmo e, quando a insônia ronda as minhas pálpebras, se tenho à mão qualquer livro de arte primitiva, vou às páginas, se não atiro-me aos grandes problemas finais: Deus, a imortalidade da alma e creio que nunca os resolvi, porque sempre fico em meio da lucubração. Qual loucura! E Cesário deixou-se aprofundar molemente no pliant, esticando as pernas.
Um galo cantou. E como Jorge bocejasse:
— Então? Corre ao leito, corre. Já não há sortilégios no ar da noite, nem pesadelos em volta das camas: o galo santo cantou. Vai! E que o bom Deus vele à tua cabeceira.
Jorge, submisso, ia seguindo, mas voltou-se:
— Porque não te vens deitar na tua cama?
— Homem, tens razão. Tenho pernas demais para esta cadeira. Vou. E, levantando-se, passou com o amigo à câmara silente.
O «filósofo» arranjou o seu leito e alongou-se, os braços por baixo da cabeça, à maneira de travesseiros, as pernas encolhidas. Jorge rondava, sem ânimo de deitar-se, receando o leito como um condenado receia o cadafalso; mas como Cesário insistisse que se deitasse, que se pusesse à disposição do sono, que tomasse atitude de vítima, pronta a receber o golpe, sentou-se à beira do leito, como se o experimentasse e, lentamente, foi-se deixando cair, recostando-se à grande almofada, a cabeça firme, o olhar rútilo e fixo. Esteve assim, mas o «filósofo» começou a bufar e um ronco engasgado grunhiu no silêncio.
Jorge voltou a cabeça num movimento rápido, impulsivo, prestou atenção; os olhos foram-se-lhe para o baldaquino onde a figura da Noite mal aparecia como uma mancha, percorreu toda a câmara com um grande olhar desvairado e ergueu-se, pé ante pé, sobre o pelego; foi até o bico do gás e fechou-o.
— Que é isso, homem? Porque fechaste o gás? indagou Cesário, que acordara subitamente com a inopinada treva.
— A claridade não me deixa dormir.
— Pois olha, eu, no escuro, tenho uma estranha sensação de asfixia; parece que a treva abafa-me, fico sem ar, sufocado e oprimido. Mas a sombra foi-se aos poucos esbatendo; a claridade da sala difundia-se flebilmente, chegando até a câmara num dilúculo suave.
Jorge deitou-se então, puxando as cobertas até o queixo, e quedou encolhido, olhos abertos, espiando na meia escuridão. Mas nimbos começaram a fugir-lhe das pupilas, auréolas flamíneas que se destacavam e desapareciam como absorvidas pela sombra, depois fagulhas como as que saltam nas crepitações das fogueiras. Cerrou os olhos apertando fortemente as pálpebras, mas as auréolas saíam-lhe com mais força, em maior cópia e, pequeninas, distendiam-se, distendiam-se como os círculos concêntricos que se abrem à flor das águas. Cesário roncava a mais e mais. Galos cantavam longe e perto, por fim de todos os poleiros partiram cocoricós estridentes. Era a madrugada.
Jorge, já moído, resolveu levantar-se. Sacudiu os lençóis e, furioso, atirou-se para fora do leito, procurando no móvel de cabeceira a caixa de fósforos. Tateava e, como um volume caísse no chão com um estalo seco, Cesário acordou de novo, sôfrego:
— Que é? Que é isso? Não dormes, homem?
— Qual dormir! Vou andar por aí. Sei lá que é isto! Vou andar.
Procurou com as mãos os chinelos debaixo da cama e, como os não achasse, saiu descalço, indo à sala procurar fósforos. O «filósofo», quando o viu entrar com a luz, espreguiçou-se.
— Horrível coisa, hein?
— Horrível!
Começou a vestir-se taciturno, frenético.
— Mas vais andar lá fora? Olha que está frio. Podes apanhar alguma...
— Qual! Que diabo fico fazendo aqui dentro? Ali ao menos refresco a cabeça que me parece querer estourar. Não sei que é isto.
Cesário mirava-o com pena, alisando a barba que se lhe derramava pelo peito.
— Deixa aquecer mais e mete-te num copioso banho frio. Isso é nervoso.
Bocejou e voltou-se de flanco. Jorge, atando os cordões do jupon que enfiara, caminhou lentamente para a sala e abriu a porta que deitava para o jardim.
O dia bruxoleava, um vento frio, picante, soprava; as montanhas, alvas de névoa, pareciam adormecidas. No céu ainda palpitavam estrelas e a lua pequenina não tinha o lindo fulgor, parecia exausta da vigília, modorrando dentro da neblina da manhã.
Carroças de capim passavam com um forte rumor de rodas solavancantes e bois mugiam.
Jorge arrastou para a porta o pliant e estendeu-se nele, diante do céu fosco, exposto à aragem fria, como à espera da luz. E com os olhos no alto pensava na visão impura, criticando intimamente a infame aberração do seu espírito, evocando, como para purificar a alma, a infância de Sarita as noites meigas que passara com ela ao colo, sentindo em torno do pescoço o elo dos seus dois bracinhos e no rosto a carícia dos seus cabelos louros, a dedicação incomparável da criança quando, abandonado pela mulher, sentiu a grande dor que vem das ingratidões e o inconsolável suplício do silêncio ao vermos vazio um lugar outr'ora ocupado por alguém que nos possuía inteiro, em cujo coração esvaziávamos tristezas, queixas e confidências, cujos olhos eram o oriente de onde nos vinha a luz, cuja boca, transbordante de beijos, esparzia sobre os nossos desalentos as palavras balsâmicas da esperança e pedia por nós e chamava-nos e acariciava-nos com os termos que só o amor inventa e ameniza.
Mais tarde o desabrochamento gradativo da mulher, a indecisão da puberdade surgindo dia a dia, lenta e graciosa, demonstrando-se nas curvas do corpo, no brilho dos olhos, na tonalidade da voz, no amaneirado da compostura, na graça feminina, recatada e púdica, quando a criança começa a moderar as corridas deixando em paz a borboleta, esquecendo a boneca despenteada e nua para frisar um cacho, para brunir uma unha ou simplesmente para pensar. E a ternura com que ela o recebia sempre e sobretudo a inocência, a confiança com que o beijava. Toda essa reconstrução do passado concorria para tornar ainda mais negro o pensamento ignóbil, que o não deixava, perseguindo-o com a insistência pertinaz de um remorso.
Leves tintas radiantes, estrias de sangue, mosqueavam o céu empavesando-o garridamente. A névoa esgarçava-se e a lua, a mais e mais pálida, ia sumindo. Pombos passavam no ar puríssimo e leve e na rua homens de trabalho seguiam, falando alto, rindo. Clareava. Jorge sentia as pálpebras pesadas, uma sensação de fadiga em todo o corpo e no espírito. Foi cerrando os olhos molemente, num torpor de narcótico, e adormeceu. Ia alta a manhã quando Cesário apareceu à porta, pasmando de ver o amigo adormecido em pleno sol, como um sáurio friorento. O jardineiro passava o alfange pelo gramado, cantando e Miss Kate, na varanda, lia levantando os olhos de vez em quando para ver Diana, aos saltos, ganindo aflita, à caça de uma borboleta.
Cesário, dando com os olhos na escocesa, como estava em mangas de camisa, recuou púdico, compondo a abertura para que não lhe aparecesse o peito cabeludo e bradou:
— Jorge! Eh! parsi. Eh!
Jorge abriu os olhos e fechou-os deslumbrado pelo grande sol.
— Levanta-te, homem! Olha que a Cegonha está a contemplar da altura o teu tíbia felpudo.
Jorge levantou-se estonteado e, apertando o jupon, recolheu-se.
— Que horas são?
— Oito. Como diabo conseguiste dormir aí como uma planta, ao sol...?
— Felizmente! Não me foi possível conciliar o sono na cama. Não sei que tinha. Felizmente dormi aqui um pouco. Mas estou como se tivesse viajado léguas: derreado, palavra de honra, derreado!
— Descansa um pouco e vamos ao banho frio, que ficas reconstituído. Não há como uma boa ducha, esta é a verdade. Não há como uma boa ducha.
O «filósofo» pôs-se a passear ao longo da sala esfregando as mãos. Jorge passou à câmara e de dentro perguntou:
— Sais hoje, Cesário?
— Não! Ao domingo as minhas solas não se maculam na lama macerada pelo flor-ao-peito.
Como Jorge aparecesse com uma toalha ao ombro, Cesário estendeu o braço para a mesa e, solene, com os olhos brilhantes: — Vou tentar... Está um dia esplêndido, hein? Quero fazer o grande sacrifício de o dar inteiro à história, à civilização, ao livro.
Vendo Jorge encaminhar-se para a porta, precipitou-se: — Espera, homem, deixa ao menos que eu vista um casaco e apanhe o meu paninho. Espera.
E, com as grandes pernas, em três passos, ganhou a câmara comum.
Saíram para o banho. Diante do chalezinho, apesar das instâncias de Jorge, Cesário negou-se a entrar primeiro, a pretexto de que ainda não recebera a bênção higiênica das árvores, e afastou-se, as mãos para as costas, a toalha ao ombro, indo até à cerca onde começava o bosque. Voltou, sem mesmo levantar os olhos para as árvores e, diante do galinheiro, deteve-se olhando as aves; um grande peru caminhava empanturrado, a cauda aberta, bufando. Cesário pôs-se a assobiar e o peru grunhiu desmanchando-se, a andar tonto dum lado e doutro. O «filósofo» dobrava as gargalhadas, e mal o peru começava a enfunar-se, assobiava para ouvir o grunhido.
Estava tão entretido que foi preciso que Jorge o chamasse da porta do banheiro:
— Ó Cesário!
— Aí vou!
Assobiou ainda uma vez e riu quando a ave, espichando o pescoço rubro, respondeu.
— Ah! meu amigo! Se ainda não viste a imagem do fanfarrão, do traga-mouros, vai ali assim ao poleiro admirar aquele peru. É um pobre diabo que até das galinhas chocas apanha bicadas, mas vai ver que orgulho! E entrou para o chalé rindo e grunhindo.
Jorge, retemperado, sentia um grande alívio; demais, a ideia da volta de Sarita na tarde desse dia, punha-o de bom humor. Para evitar os olhos de Mademoiselle, entrou por uma porta baixa que levava ao gabinete de toalete e, cerrando-a, despiu o jupon, atirando-o abandonado a um canto. Abriu um dos gavetões procurando a roupa branca, e em grande azafama, enfiou as ceroulas, vestiu a camisa de meia e diante do espelho, vertendo num copo verde gotas de dentifrício, mirou-se. Olheiras fundas cercavam-lhe os olhos, os ossos apontavam-lhe à flor da pele, como se a quisessem estalar e, apesar da cor fictícia ganha na frescura do banho, a palidez voltava.
— Estou magro... — murmurou e, com um ríctus, levou a escova à boca, começando a fricção.
Cesário apareceu purpúreo, tiritante, e olhando-se no grande espelho do guarda-casacas, a esfregar a calva, chamou o amigo:
— Olha, meu velho... — E, mostrando-lhe as barbas gotejantes: — Dize... não pareço um rio da mitologia?
Mas esfregava-se com fúria «para a reação» e, cansado, lembrou o café: — Se tomássemos uma xícara, que dizes? Jorge, com as bochechas infladas, indo e vindo, acenou afirmativamente. O filósofo correu a calcar sobre um botão elétrico para chamar o criado.
— Excelente água! mas fria a valer. Saí roxo como um petiz que nasce. Fria a valer!... E arrepelava as farripas com a toalha, alisava a barba, limpava os olhos, atafulhava os dedos nos ouvidos. Falaram fora.
— Café, Inocêncio, e já!...
O «filósofo» ainda acrescentou:
— Bem quente, Inocêncio.
Jorge escancarou o guarda-casacas e tirou calças, coletes, casacos. Cesário, sempre a esfregar-se, acudiu:
— Vais sair com tudo isso?
— Não, quero umas calças. Não estão aqui.
Achou-as por fim: — Ah!
E, encostando-se à parede, enfiou-as.
— Palavra, eu não seria capaz de manter tanta cachemira. Acho que o homem deve ser como os animais que só têm uma pele. Para que tudo isso? Quem aproveita? O alfaiate.
Jorge passou à câmara e Cesário, diante do espelho, escancelava a boca, esticava o pescoço, examinando-se: — Diabo! Eu marco os anos com os dentes. Estou ficando com a boca despovoada de autóctones e convenço-me que não há remédio senão recorrer ao imigrante. É uma desgraça! poucos e em que estado!
— Olha o café, Cesário!
O «filósofo» passou à câmara.
O almoço correu alegre e Cesário, para fazer rir, interpretou um sonho de Mademoiselle, que se vira em um campo vasto, coberto de flores, mas sem uma árvore, chato, monótono e verde.
O «filósofo» garantiu que iam começar dias prósperos para a professora. Sendo o verde a cor da esperança, é sempre de bom augúrio nos sonhos. A ausência de árvores significa que sombra alguma toldará a felicidade que os espíritos da noite anunciaram. Felicidade tão grande, Miss, como esse campo vasto que viu. Riram. Cesário, apesar do imenso desejo de lançar as bases da sua obra, deixou-se arrebatar por Mademoiselle para o gabinete do piano e fez o quilo gabando Beethoven e Chopin, esse grande elegíaco; Jorge, porém, chamou-o convidando-o para uma volta pela cidade. O «filósofo», diante da escocesa, fez um momo: Sentia deixar aquele ambiente artístico para ir meter-se na lama infecta das ruas. Mas, como Jorge dissesse:
— Fica...
Cesário arremeteu:
— Não, vou contigo.
E, para Mademoiselle:
— À noite, Miss. À noite cá estarei para o maravilhoso Beethoven.
Miss sorriu graciosa, correndo de leve o teclado e os dois desceram.
— Que diabo vais fazer tão cedo à cidade, com este sol?
— Buscar Sarita.
— Mas não disseste que pretendias buscá-la à noite?
— Não; à tarde.
E, numa volta brusca:
— Homem, parece-me que estás com vontade de ficar com a professora...?
— Eu? Ensandeceste, homem!? Não posso com a música por atacado. Um bom trecho arrebata-me, uma ópera adormece-me. Estás doido!... Um dia inteiro plantado junto ao piano!
Diante da mesa, como Jorge tomasse o chapéu, Cesário demorou-se contemplativo, os olhos na resma de papel: — Palavra de honra! Não sei quando começarei esta coisa. E eu que a todos vou dizendo que estou nos últimos capítulos. Um Brás, aí de um jornal, quis anunciar a obra, detive-o em tempo.
E Jorge, tomando a bengala:
— Mas eu já li qualquer coisa sobre a tua História da civilização. Já li...
— Sim, leste uma pequena notícia. Dei-a eu mesmo para comprometer-me com o público. Foi na Gazeta, em janeiro. Creio até que lá se dizia: que já entrara para o prelo. Essa é minha.
Saíram.
Na cidade Cesário tomou o grande ar austero, o passo grave de íbis pensador; mas no Paschoal, como caíssem em pleno grupo de políticos, o «filósofo» desmantelou-se esbravejando contra o governo, trazendo velhas tiranias para confronto com os atos ignóbeis dos contemporâneos e, com o copo de cerveja a tremer-lhe nas mãos, anunciou futuros dias de sangue, de excídio e de miséria, concordando, por fim, com a necessidade das medidas enérgicas, sem as quais não há respeito nem moral nas sociedades, e esbaforido levantou-se para acompanhar o amigo à casa das Moretti.
Durante a viagem altercou com um homem que se lhe sentara sobre a aba da sobrecasaca, mas diante do mar toda a ira dissipou-se.
— Olha agora, Jorge, e vê se a grande luz não é mais linda sobre as águas do que nas montanhas e nas matas. Deus fez o sol imenso para a imensidade dos mares. Mas olhando o homem de esguelha, procurava a aba da sobrecasaca.
As Moretti receberam-nos com lástima:
— Tão cedo!
Mas Sarita, depois do beijo meigo, subiu para arranjar-se, confessando que já estava com saudade. As pequenas faziam sala e quando a velha Moretti apareceu, com os seus bandós brancos, cheia de queixas — porque Jorge havia esquecido a sua casa as pequenas, trêfegas, sairam. Cesário, casmurro, examinava as paredes, examinava os tapetes cofiando a barba, e como a velha o interrogasse sobre o livro:
— Quase pronto, minha senhora. Quase pronto.
— Deve-lhe ter dado muito trabalho, sr.
Cesário...?
— Muito, minha senhora. Muito...
O «filósofo» sentia-se disposto a contar toda a história do seu esforçado labor, quando Sarita apareceu abraçada com Heloísa. Os dois homens puseram-se de pé.
— Deixe-a ficar mais um dia, doutor. Iremos levá-la amanhã — pediu Heloísa.
Mas Sarita, que compreendia o padrasto, relanceou à amiga um olhar severo:
— Não, preciso estar em casa — disse.
Beijaram-na muito, acompanharam-na à porta.
Jorge desanuviou-se, exultava e tudo parecia-lhe mais belo o céu, o mar harmonioso, as ruas e, acompanhando Sarita, brincava com a bengala, a sorrir à felicidade íntima.
Como parassem à espera do bonde, Cesário interrogou-o:
— Viste, pelas paredes, as glórias do finado Moretti? É louro que farte. É por isso, talvez, que as pequenas são tão loureiras.
Jorge encarou o filósofo indignado:
— Ó!
Cesário...
— Deixa passar, não foi de propósito: saiu-me como um arrevesso. Irra! Olha que enjoa...!
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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