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Inverno em Flor

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Inverno em Flor

Capítulo 11 · Inverno em Flor

Segunda Parte — VI

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Só, em face da noite radiante, brandamente embalado pelos sons do piano, Jorge foi, aos poucos, cedendo ao influxo sugestivo do ambiente, sentindo-se invadido pela melancolia que parecia descer do céu na luz aérea do luar.

Como se todas as suas forças vitais caíssem em letargo gradativamente, em amortecimentos sucessivos, crescentes, perdia a sensação do corpo e, espírito somente, pairava acima da matéria inerte que o êxtase prostrara. Os olhos, fitos no céu, turbavam-se de vez em quando como se uma nuvem densa os empanasse rasgando-se, por momentos, para deixar aparecer a amplidão estrelada. Os sons do piano enfraqueciam como se os levasse, em rumo oposto, a brisa da noite balsâmica; por vezes, porém, vibravam nítidos.

Mas o desprendimento foi-se fazendo a mais e mais e, no enlevo, alheio a tudo que tinha em torno, insensível à vida que o cercava, Jorge ficou inteiramente esquecido, num arroubo de sonho. Era a tortura tremenda, a melancolia que o prostrava na inconsciência, nesse estado de sofrimento passivo, à falta absoluta de energia para combatê-lo.

O negro vácuo do cérebro foi, aos poucos, enchendo-se de aparições indecisas, indistintas, que ele via introvertidamente como se olhasse para o seu íntimo. Ideias, porém, apareceram, fatos completos e a memória começou a exumar o dia, com todas as particularidades, com todos os incidentes ocorridos e, como se o movimento das horas passadas, horas que haviam morrido com o sol, revivesse dentro dele, começou a ver e a ouvir tudo que vira e ouvira nesse dia de tédio e de lazer indolente: pessoas e coisas moviam-se-lhe no cérebro como em uma arena e ressoavam vozes e risos, todo o rumor alegre com que as Moretti haviam enchido a casa. Mas, dominando todas as vozes, a de Sarita vibrava com intensidade.

E, como à repulsa violenta de uma força misteriosa, tudo mais foi-se desvanecendo, ficando só, dona absoluta do espírito, enchendo-o com a fulgurante e viçosa beleza do seu corpo, com a melodia lânguida e cheia de carícia da sua voz, com a claridade altiva dos seus olhos, com a púrpura úmida da sua boca, Sarita viva no sonho, viva e perfeita, que ele via, ora longe, como se estivesse no céu, caminhando pela estrada diáfana da Via Láctea, ora perto como se estivesse encostada à balaustrada, olhando-o, falando-lhe, ou que ele sentia tão aconchegada como se o houvesse penetrado e estivesse debruçada aos seus olhos como uma sonhadora no balcão de um solar antigo, sob os corimbos em flor da ogiva gótica. De visão em visão transportou-se à casa das Moretti e via-a, despreocupada e feliz entre as amigas, mirada pelos olhos voluptuosos e impúdicos que a desnudavam tirando, pelas linhas admiráveis do seu contorno esbelto, a sua plástica maravilhosa, rija e forte como a polpa de um fruto verde.

E, numa rápida precipitação de cenas, sem transição, viu-a na alcova, junto ao leito de Heloísa, estreito, nublado pela bruma do cortinado, de pé, despindo lentamente as roupas, com um vagar suplicante, deixando transparecer uma nesga de carne, cobrindo-a logo, num movimento escrupuloso de pudor virginal, encolhendo-se, os braços juntos, apertados ao colo, como num arrepio de frio. Por fim, resoluta, desfazendo os laços e deixando as roupas caírem-lhe aos pés como a folhagem viçosa de uma árvore cujos galhos o lenhador vai decepando... e, quase nua, mais linda, alucinadoramente linda, na alvura da camisa que lhe denunciava o corpo, linda como a manhã resplandecendo através da névoa sutil. Viu-a deitar-se e com ela, aconchegando-se-lhe ao corpo juvenil e tépido, carne contra carne, Heloísa amparando-lhe a cabeça no braço alvo e forte, a esplêndida cabeça, encantadora no desalinho dos cabelos derramados pela alvura dos travesseiros como ondas de um mar dourado beijando as areias alvíssimas das dunas.

Viu-a... mas uma nuvem obscureceu-lhe o olhar e todo ele vibrou num assomo de repugnância e de cólera. Teve um ímpeto, pôs-se de pé com violência, sorvendo a plenos pulmões o ar puro, passando a mão pelos olhos como para limpá-los da visão incestuosa.

E, como se despertasse, ouviu clara e distintamente sons do piano, tinir de cristais, vozes de criados e encaminhou-se para a porta.

O copeiro retirava os vasos para prateleiras junto às janelas, para que a folhagem recebesse o orvalho revivescente. Jorge chamou-o, pediu água.

O combate travava-se intimamente; a visão reaparecia de ímpeto, inopinada, ele repelia-a atordoando-se com outras ideias que rebuscava, insistia em fatos como para tomar todo o pensamento, a fim de que nele não mais entrasse essa alucinação súcuba e a sua fisionomia demudada contraía-se angustiadamente como nas ânsias de uma agonia. O copeiro apareceu com o copo em uma pequena salva. Jorge tomou-o e bebeu avidamente, a grandes tragos. E entrou para a sala seguindo o copeiro, como atraído por ele, por uma necessidade de companhia; deu volta à mesa, vagarosamente, cabisbaixo, enfiando os dedos pelos cabelos e, quase em inconsciência, foi direito ao salão. Parou apoiando-se a uma cadeira, ouvindo o piano; mas Sarita obsediava-o.

Mademoiselle, ouvindo-lhe os passos, perguntou sem deixar o teclado:

— Quem é?

— Eu, Miss.

E, satisfeito por ter ouvido a voz da professora, com a mesma alegria que experimentaria um encarcerado ouvindo, do fundo da masmorra lôbrega, a voz de uma pessoa querida que lhe anunciasse a liberdade, adiantou-se até a saleta onde a escocesa acendera um bico de gás apenas e, com os braços sobre o piano, disse:

— Estava lá fora ouvindo, Miss.

— Ah! — fez Mademoiselle com um relâmpago dos óculos, mas baixou a cabeça, continuando o noturno.

Jorge sentiu que a visão ameaçava reaparecer e já lhe ia surgindo ante os olhos, sentada ao lado da professora, ela, Sarita, bela como ele a vira na indecisão da alcova imaginária.

Afastou-se lentamente pelo corredor ganhando de novo a varanda onde Bá, de pé, encostada ao umbral da porta, o rosto inclinado na palma da mão, olhava o céu distraída:

— Estás admirando a noite, Bá?

A negra suspirosa, sempre com o olhar perdido, respondeu cheia de saudade:

— Estava pensando em nhanhã... Faz tanta falta, coitada!

Sem responder, Jorge desceu a escada, encaminhando-se para os seus aposentos. Cesário, num fofo robe de chambre, os pés em chinelos, percorria o salão a grandes passos. Mal o viu entrar voltou-se:

— Oh!... Sabes, creio que desta vez consigo. Tenho o período inicial, os primeiros compassos do meu prelúdio, e sobre as notas que possuo dentro em poucos dias terei construído todo o capítulo da marcha dos arianos. Quero trabalhar bem para dar uma coisa digna, uma página monumental, à maneira do velho Flaubert, com abundância de acessórios: os grandes carros rangendo, os corais solenes de toda uma raça mobilizada — os homens cobertos de peles cerdosas, armados como para uma guerra; as mulheres cantando no fundo dos carros pesados, coroadas de flores nunca vistas, os olhos extasiados na contemplação dos céus vastos e dos volumosos rios. Que dizes? Achas que devo ficar no estilo sóbrio, empregando mais ciência do que imagens, ou entendes, como eu, que não devo sopitar o gênio? Atiro-me, que dizes? Mesmo porque não sei lidar com a frase seca dos didáticos. Gosto de ouvir a música dos períodos e não admito em arte a toilette preta: voos largos, voos largos, o colorido, o som, não achas?

Jorge estendera-se no pliant:

— Sim, penso como tu, e principalmente porque acredito que, sem imaginação, não conseguirás uma linha.

— Uma linha!? Uma palavra! Então achas que devo optar pelo grandioso?

— Certamente.

— Não imaginas como me fazem bem essas palavras. Confesso-te que estava hesitante porque, se há animal que me apavore neste mundo, é o crítico. Não imaginas! Creio que desapareceria da face da terra se um homem falasse mal de um só período meu... Se falasse de dois matava-o! Agora, sim, vou atirar-me ao trabalho com fúria. Se acordares cedo amanhã, chama-me... Não vou agora para a mesa, porque estou com o cérebro fatigado... e não há como a manhã para as grandes ideias. Chama-me cedo, bem cedo: às cinco.

Houve um curto silêncio. Cesário caminhava de um para outro lado; o robe de chambre abria-se de vez em quando escancarando as abas como duas asas enormes de morcego. Jorge, passando os braços por trás da cabeça, recostou-se.

— Estou vendo tudo! — exclamou Cesário de olhos baixos. — Estou vendo tudo, olho a grande multidão ariana do alto da minha imaginação como Moisés, de cima do monte Nebo, olhava o seu povo de Canaã, ao longe. Canaã é a glória, é o sucesso. Vejo tudo!

Estacou, o ar preocupado, e continuou:

— Homem, é verdade... e eu que vejo tudo quanto penso! Não será isto uma moléstia? É estranho. A imaginação é o olhar do espírito, que dizes? Acho estranho... Dá-se isto contigo?

— Sempre! Ainda há pouco estive a ver Sarita.

— Ora, tu és um saudoso. Tens essa enfermidade terrível. E toma cuidado! Olha que não há nada pior para um coração do que a saudade. Pareces-me um chacal, porque não fazes outra coisa senão desenterrar cadáveres no coração para cevar-te neles. Toma cuidado! Que diabo de preocupação, deixa a menina! Diverte-se. Queres que ela desterre a mocidade nesta tristeza? Porque, afinal, dizendo a verdade, isto não deve ser nada agradável para uma criança cujo coração começa a pulsar. Para nós é magnífico, para nós e para a Cegonha, que já desesperou de encontrar um coração que compreenda o seu, mas para ela... Tem paciência. Deixa-a espairecer. Pareces um noivo, que diabo! Nem tanto. Vamos cuidar de letras. Vem daí ajudar-me a conduzir o meu rebanho. Convido-te para meu colaborador, dá-me o braço e vamos entrar, como dois bons amigos, na Posteridade. Queres pensar?

— Não. Estou a cair de sono. Vou dormir.

— Dormir... a esta hora!? Ó homem, vai amanhã ao consultório do teu médico para que ele te examine. Dormir? E que hás de fazer da manhã, desgraçado? Não penses nisso. Vamos, esquece o sono. Vou ler-te uma boa página. Que queres: filosofia ou uma tragédia? Escolhe: Schopenhauer ou as Coéforas. Tenho Ésquilo e o pessimista à mão.

— Vou deitar-me. Estou mole, aborrecido... tédio. Vou deitar-me.

Levantou-se estendendo os braços num longo espreguiçamento e, como se encaminhasse morosamente para a câmara, Cesário, que o acompanhava com o olhar piedoso, lastimou-o:

— Pobre homem! Dormir às dez e meia da noite...

Alteando a voz, chamou:

— Ó desgraçado! E não tens medo da insônia matinal?

Mas, vendo-o desaparecer, encaminhou-se para a porta e fechou-a, fechou as janelas e atirou-se ao pliant com um estrondoso bocejo. Cruzou as mãos no ventre e imóvel, os olhos fixos, ficou a pensar, mas cerrando as pálpebras lentamente, adormeceu roncando com estridor na sala vasta e silenciosa.

Inverno em Flor

Sinopse

Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.

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