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Inverno em Flor

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Inverno em Flor

Capítulo 21 · Inverno em Flor

Terceira Parte — V

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Veio, por fim, o sábado; um dia lívido e tristonho, de grande frio. Para a tarde uma chuva fina de inverno começou a cair. As árvores, batidas pela ventania, ruflavam e as goteiras marcavam monotonamente, num tic-tac de pêndula, um longo crepúsculo insípido e gelado. A casa, entanto, resplandecia como para uma festa. Bá acendera todos os bicos de gás e nas poças do jardim, na areia encharcada, a luz refletia-se. Na varanda, diante da porta principal da sala, o grande globo fosco espalhava uma claridade doce, cor de leite, pelas paredes, pelo ladrilho. O jantar correu triste apesar das grandes tiradas de Cesário, que estava em um dos seus dias de bom humor. Fez a apologia do casamento como principal fator da sociedade e ingerindo, sempre a deduzir, entrou a atacar o celibato clerical, achando-o absurdo contra a higiene e contra a moral. Os padres, como depositários da doutrina, deviam ser os primeiros a dar o exemplo como faziam os patriarcas antigos. Abraão, para seguir o preceito de Jeová, vendo que Sara era uma estéril, queixou-se ao Senhor, que permitiu a poligamia consentindo-lhe que tomasse Agar. Moisés não vivia só. David, esse até abusou das concessões. Salomão... e pela Bíblia adiante todos os grandes ungidos do Senhor não bramiam solitários. Os levitas que levavam a arca eram chefes de família e os sacerdotes de todas as religiões tinham as suas mulheres. Só os padres cristãos vivem isolados, numa castidade impudica, pior do que as devassidões do turco, que mantém serralhos. Tolice! Afinal eles não seguem a imposição dura, até porque a carne é exigente — deixam-se arrebatar pelos ímpetos do sangue, amam, pecam. A Igreja sufoca não só o instinto como o sentimento. Não é só o ardor que é atormentado, também a ternura, porque não permitem ao sacerdote o filho. Esterilizam a monja. Para mim todas essas neuroses que perseguem a humanidade vieram dos mosteiros. São as alucinações histéricas dos frades e das freiras que sopitavam os impulsos amorosos por obediência à santa Ordem. Se Deus disse: «Crescei e multiplicai-vos!» para que vem a Igreja esterilizar? Não compreendo. Para mim a Mulher toma o seu lugar no mundo quando se torna Mãe. Então sim. Nela o que eu mais admiro e mais respeito é a Mãe. Belezas... banalidades. Não admito que um homem viva oscilando entre olhos azuis e olhos negros... Só a Maternidade é grande. Sarita, vergonhosa, evitava todos os olhares, Miss martirizava o guardanapo. Jorge ouvia calado.

— Tenho as minhas doutrinas, mas não as quero exibir aqui; mas, em suma: eu, que defendi o casamento, acho-o contrário à lei natural — o homem é polígamo. E o «filósofo» ia escandalizar o auditório com a exposição da sua doutrina quando Miss pediu licença para levantar-se.

Sarita acompanhou-a. A professora ia ofendida com a dissertação, indigna de ser ouvida por uma senhora.

Sarita, lindíssima na sua toilette de soirée, sorria à ama, que não se fartava de gabá-la enternecida, mirando-a dos pés à cabeça, ansiosa também, como ela, pela chegada do «moço».

Sarita efetivamente estava desassossegada, mal disfarçava a impaciência e, como Jorge voltasse os olhos para vê-la, adiantou-se com um momo, queixosa e triste, atribuindo à ausência das amigas, que convidara mas ouvindo acordes de piano, disse baixinho:

— Vou para onde está Miss Kate.

Cesário, inclinando a cadeira, disse para enfezá-la:

— Está aflita, hein? confesse. Descanse, ele não tarda. Nem que chova raios...

— Ah! — fez Sarita, amuada, fugindo para a sala.

— Uma mocetona, realmente! — exclamou o «filósofo». — E há de ser feliz: tem o gênio dócil, é inteligente. Vai dar uma esplêndida esposa. Mas, passando a mão pela fronte: — Que diabo! Não é que estou atordoado...?! Pois olha, nem por isso bebi tanto. A velhice! a velhice... Vamos dar uma volta, apanhar um pouco de ar, que estou esbaforido.

Jorge, sempre mudo, levantou-se e, pelo braço do «filósofo», caminhou lentamente para a sala, onde as duas senhoras haviam atacado os primeiros compassos da Dança Macabra. Passava insistentemente um lenço pela fronte como se limpasse o suor. No salão o «filósofo» deixou-o no grande sofá medieval e, abrindo uma das janelas, recebeu no rosto o ar frio da noite chuvosa, tamborilando na vidraça para acompanhar o poema musical que Sarita e a governante executavam. Súbito, voltando-se, anunciou:

— Estão aí os homens!

Houve uma parada instantânea; logo, porém, continuaram. Cesário voltou-se então para Jorge:

— Eles aí estão.

— Recebe-os... — disse o enfermo do seu canto, e Cesário ia para a saleta quando viu Inocêncio, em farpela nova, que chegava com uma grande rinchadeira de sapatos. A música ia morrendo no piano. As duas senhoras, esquecendo o teclado, passavam em revista a toilette e, como não tinham espelho, arranjavam-se reciprocamente: Miss cravando um grampo que fugia dos cabelos louros da discípula; Sarita compondo o laço da gargantilha da professora. O próprio «filósofo», sempre indiferente às roupas, dava puxões à lapela da sobrecasaca, punha-se à vontade no alto colarinho. Espiava, e vendo os dois homens despirem os pardessus e aparecerem corretamente encasacados, teve um sorriso desdenhoso, mas adiantou-se para recebê-los muito firme, num passo cerimonioso e grave.

Barroso relanceou os olhos pela sala e pareceu estranhar a ausência de convidados, mas como Cesário fizesse uma grande mesura diante do companheiro, apresentou-o.

— Meu amigo, Dr. Loureiro. Dr.

Cesário Alves.

Os dois homens trocaram um aperto de mão e Barroso encaminhou-se para Jorge, e, como o visse esforçando-se para levantar-se, estendeu a mão:

— Deixa-te estar, deixa-te estar; e, sem grandes cerimônias, adiantando o protegido, apresentou-o. As senhoras, de pé, estenderam as mãos ao noivo, que sorria vexado, enquanto Barroso, antes de ferir o assunto da visita, anunciava a próxima chegada da companhia lírica.

Sarita, vermelha e trêmula, balbuciou algumas palavras e levantou-se seguida de Miss.

Cesário seguiu-as para dizer no corredor que não deviam deixar a sala; mas a menina, sem responder, atravessou rapidamente a passagem e desapareceu na sala de jantar.

Jorge, pálido, fitava o Dr. Loureiro, belo tipo de homem, em pleno viço, sadio e forte. Moreno, os cabelos encaracolavam-se graciosamente e um bucre caía-lhe ao meio da fronte rebelde e muito negro, reluzindo. Os grandes olhos tinham altivez e doçura, vertiam meiguice, eram dominadores e terríveis, mas a voz era afável, serena, de uma pausa preguiçosa e lânguida, e, sempre sorrindo, deixava entrever a linha certa dos dentes muito alvos sob a sombra dos bigodes negros. Os três homens pareciam vexados.

Barroso esfregava as mãos e o Dr. Loureiro passeava os olhos pela sala, admirando, como se quisesse guardar de memória minuciosamente todos os ornatos da casa em que ela vivia.

Jorge, como para animar-se, chamou o «filósofo»:

— Porque não vens para cá? Estás aí apanhando frio.

— Não; estou bem.

Barroso, então, inclinando-se, sussurrou:

— Meu caro Soares, já sabes o motivo da nossa visita... — E, gaguejando, os olhos de um para outro: — Aqui está o Dr. Loureiro e... como o meu encargo está terminado, ele que fale contigo...

E, para quebrar a austeridade, atirou a rir:

— Sim, ele é que é o candidato feliz.

Jorge, sisudo, encarou o doutor e, lentamente, dificilmente, as palavras caíram-lhe dos lábios:

— Pois não, doutor. O meu amigo Barroso falou-me em seu nome. Não tenho objeção alguma... Não respondi imediatamente porque queria consultar a menina. Ela aceita-o e só desejo que sejam felizes, tanto quanto merecem.

O doutor levantou-se, comovido, para beijar a mão do enfermo, mas, como o visse a chorar, recuou. Ele, entanto, sorriu.

— Não se incomode, meu amigo: sou um fraco. E deve compreender: essa menina tem sido a minha companheira, tomei-a no berço, é como minha filha. É o pranto da felicidade — disse através de um sorriso, com duas grandes lágrimas descendo-lhe pelo rosto. — Receio apenas ter de acabar em solidão, isso é que me faz chorar, mas não se incomode. Faça-a feliz e as minhas lágrimas far-se-ão bênçãos. E estendeu a mão trêmula que o doutor apertou comovido.

— Cesário!

— Hein!? — fez o «filósofo» da janela.

— Porque não vens para cá?

Barroso adiantou:

— Estamos decididos, doutor.

Cesário então, saindo do seu canto, veio majestosamente e estendeu a mão ao Dr. Loureiro:

— Parabéns, doutor.

Parou um instante contemplando Jorge e, com a voz presa, falou:

— E tu, meu velho... dá cá um abraço!

O enfermo teve forças para levantar-se e, agarrando-se ao «filósofo» soluçava enquanto ele lhe dizia meigamente, contendo a emoção:

— Há de ser feliz, homem! Há de ser muito feliz.

Barroso e o doutor, impressionados pelo grupo dos dois velhos que pareciam não se querer deixar, levantaram-se mudos, enternecidos.

Cesário, por fim, conseguindo desprender-se dos braços de Jorge, disse como em uma grande alegria:

— Bem, agora vou também abraçar a linda noiva, se me permitem... E quero para mim a honra de apresentá-la ao seu futuro esposo.

E foi-se pelo salão pigarreando, no seu grande passo bamboleado de pernalta. Vieram licores à sala. O Dr. Loureiro falou então da moléstia de Jorge, aconselhando a eletricidade, e Barroso, sempre alegre, ajuntou que com o casamento entrava para a família um portador de saúde, e anunciou o restabelecimento completo do enfermo: «que ainda o havia de ver passeando pela casa a ninar os netos.» Mas Cesário reapareceu triunfante, dando o braço a Sarita que sorria tímida e já de longe, com os olhos no Dr. Loureiro, que se havia levantado para recebê-la. O «filósofo» deixou-a diante de Jorge que a chamou enternecido, oferecendo-lhe um lugar no sofá, a seu lado. Barroso queria felicitá-la e ela recebeu os cumprimentos correspondendo com um sorriso discreto. Jorge disse-lhe então que era noiva e, passando-lhe um braço pelo ombro, pôs-se a afagá-la. Falava baixinho, amimando-a, e Sarita sentia a ânsia do seu coração, todo o sofrimento que ele padecia em segredo; as suas mãos estavam frias, de gelo, e a sua voz era trêmula e comovida. Por fim, impelindo-a docemente, aconselhou-a:

— Bem, vai agora conversar com teu noivo.

E, com uma alegria forçada:

— Trata de animar a noite, já que a chuva não permitiu que viessem as tuas amigas. Vai.

Sarita obedeceu e o Dr. Loureiro, que a esperava, ofereceu-lhe uma cadeira e os olhos de Jorge cravaram-se em ambos. E quando Sarita, para responder a uma pergunta do noivo, ergueu os lindos olhos, o enfermo teve um estremecimento forte, as suas pupilas chamejaram e, como para interromper aquele colóquio idílico, chamou-a:

— Minha filha, por que Miss não vem tocar um pouco?

Cesário ofereceu-se para ir buscar a professora e saiu do salão.

Barroso começou a falar de política, lamentando a marcha que levavam os negócios públicos, augurando guerras, prevendo grandes desastres financeiros.

Jorge mal respondia, os olhos sempre fitos nos dois jovens que pareciam extasiados um no outro, mudos de comoção feliz, falando apenas com os olhares que pareciam contar a história amorosa das longas vigílias apaixonadas. Por fim o «filósofo» apareceu.

Miss acompanhava-o e veio direito ao sofá para cumprimentar o enfermo, dirigindo-se em seguida aos noivos, e, como Barroso lhe pedisse um pouco de Chopin, a escocesa teve um sorriso de aquiescência e encaminhou-se para o piano.

Cesário, a pretexto do vento gelado que entrava pela sala em grandes bufadas, fechou a janela, vindo sentar-se junto de Jorge, e à primeira lamentação de Barroso, que via um futuro de calamidades para o Brasil, irrompeu anunciando a grande revolução dos humildes.

Não vinha longe o dia da desforra; a besta humana começava a rugir no eito, ameaçando com a sua força toda essa oligarquia rural, feita de carrascos e de sensuais. O Brasil não podia progredir enquanto não deixasse de ser um grande cárcere. Felizmente as represas estavam cedendo à força invasora; as grandes levas aí vinham transbordando das senzalas, com todos os seus sofrimentos acumulados, com todas as suas dores contidas para uma vindita tremenda. Ai! daqueles que a onda encontrasse pelo caminho! A escravidão era humilhante para o Brasil. Não compreendia que ainda houvesse um povo que permitisse esses suplícios bárbaros que ensanguentavam as terras e contra os quais as leis nada faziam. E lembrou miudamente todos os episódios que conhecia das suas viagens pelo interior. Mães que eram despojadas dos filhos pequeninos, criancinhas abandonadas, nuas, chorando ao sol, como ovelhas perdidas. Escravos enfermos que caminhavam para os eitos perseguidos pelos feitores, outros que morriam torturados nos troncos, a honra das virgens ultrajada, todo o horror das coisas do cativeiro e mais que tudo: a ingratidão dos senhores contra o velho escravo e, comparando-os com o cartaginês Hamilcar, lembrou um episódio da Salammbô:

— Piores que Hamilcar, esses senhores pagam a dívida das campanhas do escravo com o abandono e com o desprezo e os velhos exauridos que já não têm braços para o serviço, esses séculos de carne e de cabelos brancos, são lançados ao abandono, a um vale de agonia entre a fome e o frio, como os bárbaros defensores de Cartago. São os valetudinários da terra, deviam, ao menos por gratidão, ter piedade deles. Mas não vem longe o dia da reivindicação. Aí estão os abolicionistas, como os profetas antigos, anunciando a próxima chegada dos vingadores. Esperemos por eles.

Barroso, entretanto, sorria; não acreditava nessa vingança.

— O negro está brutalizado. A canga amansa o touro, o suplício serviliza e enfraquece o homem. Demais, ainda dispondo da força, nada fariam à falta de um chefe que os dirigisse: se um homem se pusesse à frente, sim, então era bem possível que se operasse um movimento qualquer de represália, mas o negro não tinha iniciativa, estava habituado à obediência e contou que, estando em uma fazenda de S. Paulo, fora uma noite acordado por um dos filhos do fazendeiro, que lhe anunciava um levante de escravos, no quadrado. Eram mais de 200 homens válidos, pois o fazendeiro só, armado de um relho, saltou entre eles e com um brado desfez a revolta. E no dia seguinte, em vez do incêndio e do saque, havia uns vinte negros no tronco, quatro dos quais morreram. E concluiu com segurança:

— O negro não se revolta.

— No Egito era assim, acudiu Cesário, o egípcio não tinha noção de autonomia — habituou-se a obedecer e não protestava contra o bastão do chefe; mas não foram poucas as revoluções, muito sangue correu para o Nilo. Espere por ela, espere por ela...

Jorge ouvia a discussão dos dois homens, mas os seus olhos procuravam os noivos que arrulhavam. Sarita, mais íntima, já sorria francamente, e o Dr. Loureiro, radiante, falava sem ouvir as tiradas indignadas do «filósofo», todo enlevado no seu amor. Quando vieram chamar para o chá, Sarita quis conduzir Jorge e Cesário propôs que ele fosse levado pelos noivos. O enfermo não protestou e seguiu para a sala entre o Dr. Loureiro e a enteada. Bá esperava-os em caminho e, quando viu a moça, não pôde conter as lágrimas:

— Coitada de minha filha!

— Coitada por que, Bá?! Então não queria que ela casasse, hein?

— Não, nhônhô, mas a gente não há de sentir...? Então eu não criei ela?

Sem saber definir o seu sentimento a ama seguiu pelo corredor enxugando lágrimas.

Inverno em Flor

Sinopse

Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.

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