Universo da obra
Universo da obra
Suspenso o último quadro, arranjado o último bibelot, Sarita parecia encantada com a casa, já afeita à melancolia silente do arrabalde. Pela manhã, em leves cassas, um grande chapéu de palha à cabeça, descia com a palheta ou com um volume. Mademoiselle arrebatava-a para o «bosque» e, à sombra das árvores, os pés na relva úmida e macia, debuxando trechos de paisagem ou traduzindo poemas, interrompiam-se, às vezes, para acompanhar o caminhar tranquilo dos insetos que iam e vinham pisando levemente as folhas, rútilos ao sol, como gemas. Voltavam refeitas, alegres: Mademoiselle carregada de flores, gabando a grande vida das coisas, o silêncio sugestivo das matas, e da pujança dos velhos troncos partia imaginando a assombrosa majestade das selvas virgens que orlam os rios caudalosos do Norte, onde ainda subsiste a inocência das eras bárbaras: Oh! como deve ser imponente o Amazonas, o soberbo Amazonas, com as suas florestas, com os seus rios largos e profundos como os oceanos! E confessava que não hesitaria em trocar, por algum tempo, a vida confortável da cidade pela maravilhosa e surpreendente aventura de internar-se, com uma caravana, matas a dentro, por esses sertões maninhos onde vivem índios bravos, onde ainda não foi a cruz salvar as almas pagãs e reconciliar essa humanidade selvagem com o mundo civilizado. Sarita sorria contando à escocesa casos cruentos de tribos antropófagas: expedições inteiras que haviam caído varadas pelas flechas, em pleno bosque, cidades arrasadas e a dificuldade das travessias nos rios encachoeirados. E acrescentava lendas, rindo do pasmo da governante que, seduzida pelos perigos, parecia desejar com mais ânsia essa partida sonhada para o coração da floresta, onde o boré ainda ruge proclamando a guerra. Depois do almoço saíam à varanda e caminhavam, como a bordo, de um para outro lado, ao comprido, discreteando: a escocesa a falar dos parques floridos de Londres, dos tristes invernos e da miséria das cidades europeias, sempre a gabar a terra abençoada da América, enaltecendo os prados viçosos e o céu azul que não borrifa de neve as franças verdes. Sarita ouvia-a rindo das dificuldades de expressão, da linguagem promíscua que ela usava confundindo, no mesmo período, o inglês, o francês e o português, compenetrada e grave. E ao refrescar da tarde recolhiam-se à sala do piano e, até a hora da toilette, soavam acordes dolentes de Chopin, de Beethoven, de Schumann ou altivos trechos de Wagner. Bá ouvia. Encostava-se ao umbral da porta e, enternecida, acompanhava as grandes composições, gabando-as sempre — e que: «Nhanhã tocava de fazer chorar...» Sarita amofinava-se com os comentários da ama. «Não gostava de ninguém ali à hora da lição. Não estava tocando para ouvirem.» A negra saía resmungando. À noite faziam música e Mademoiselle gemia sentidamente «romanzas» italianas, derreada, os olhos em alvo, procurando traduzir a paixão. Jorge, a princípio o maior entusiasta das grandes sombras afáveis e do fresco arroio da chácara, mal levava os passos até junto da cerca. Raramente saía em passeio pelo jardim, indagando do progresso das mudas, se todas haviam vingado; e o jardineiro forçava-o a grandes giros em torno dos canteiros, apontando-lhe rebentos, gabando a terra. À primeira luz, depois do banho frio, estendia-se na comprida cadeira com um livro, à espera do café e dos jornais, ficando esquecidas horas entretido com a leitura ou com as recordações amargas do passado. Sucedia-lhe, não raro, demorar em uma página indefinido tempo; lia-a e, ao voltá-la, surpreendia-se, tão alheio estava ao episódio que nela havia como se o não tivesse lido e recomeçava, combatendo essa espécie de amnésia com aturado esforço de atenção, para repelir o devaneio em que se perdia tão repetidamente, chegando à inconsciência absoluta. Ele mesmo queixava-se:
— Às vezes não sei que leio. Volto páginas e páginas machinalmente, e quando chego ao fim do capítulo acho-me vazio, ignorante completamente do assunto. É a imaginação que me baralha o espírito. Se me concentro vem logo esse demônio do Passado perseguir-me.
A vida inerte concorria para esse afã incessante da imaginação, que nele vivia em constante exercício. De longe em longe escapava-se-lhe da pena um artigo, uma crônica, um estudo sobre o «antigo». Enquanto compunha parecia-lhe tudo magnífico, perfeito na essência e na forma, nobres períodos, originalíssimo remate e sobretudo a pureza da linguagem castiça e enérgica; mal terminava, porém, lendo, entrava a descobrir defeitos, asperezas, incorreções, galicismos, e repelia, contra as opiniões de Sarita e de Mademoiselle, que sempre achavam os trabalhos «excelentes». Não os publicava; um apenas, que lhe foi arrancado das mãos por Cesário Pires, saiu na primeira página de um jornal. Tratava de Nero e outro diário referiu-se, no dia seguinte, ao pseudônimo Salvaterra com que Jorge assinara o artigo. Sua alma, amolgada pelo sofrimento, estava de todo esterilizada: sem ambições, sem amor, sem esperanças, o que ainda a fazia vibrar era Sarita com a meiguice dos seus carinhos, e quando Mademoiselle notava que «até o sorriso do doutor era triste...», ele explicava dolorosamente, sem desvelar a sua chaga: «É como o fogo fátuo, Miss: lume, mas de sepultura.» Acessos de melancolia prostravam-no em profundas cismas estéreis. Encerrava-se fugindo aos olhos de todos, alienando-se da vida para ouvir, no silêncio, as pancadas do coração porque, só assim conseguia aliviar-se dessa estranha moléstia que ele chamava a sua «intermitência de loucura.» Consciente da sua constituição de enfermo, classificava-se entre os tristes da grande família dos neuróticos, tinha a sua psicose evidente e dela falava em palestra com Cesário Pires friamente como se tratasse de outro. Sobre a melancolia, explicando todos os fenômenos, dizia:
— Presinto a aproximação desse estado nervoso: posso anunciar o momento preciso da minha crise. Quando o demônio triste empolga-me experimento sensações morais, se assim ouso exprimir-me, tão extravagantes que, para dar ideia exata do que sinto, só recorrendo à analogia poderei conseguir fazer-me compreender: É como um empanturramento cibárico o que sinto no espírito: todas as minhas faculdades ficam constrangidas à pressão de uma ideia informe, complexa, confusa, embrionária, que se põe a rolar no meu cérebro como um alimento, que o estômago repugna, rola entre as paredes ansiadas, provocando náuseas. É exatamente a impressão que tenho quando caio nessa pesada inércia. Procuro expelir a ideia, evito-a, desvio, com esforço, o pensamento, mas tudo é baldado — a ideia impõe-se, cada vez maior, crescendo, inchando, por assim dizer, até que, abafando toda a vida espiritual, deixa-me sufocado sob o seu peso, num estado de imbecilidade e de abandono que vai além do cretinismo. Sinto a ausência da alma e esse abandono é que me aflige. Fico só, sob o domínio da pieuvre que me vai sugando todas as faculdades, e conservo-me nessa espécie de anestesia imbecil, longo tempo. Às vezes choro... por quê? se não penso, se não sinto, se não sofro! Uma lágrima desce-me dos olhos e cai sem que eu possa dizer a sua origem: de que saudade saiu, que agonia a derivou? Pouco a pouco a compressão vai desaparecendo — aspiro, sorvo ansiosamente o ar, como quem para de uma longa carreira, começo a ver e a sentir, ouço e então recomponho o tempo que passou e, francamente, chego a ter pena de mim. Mas, ainda assim, é preferível esse estado de inconsciência ao outro... E, calando-se, mergulhava em meditação até que Cesário Pires, sempre jovial, apesar do seu pessimismo negro, arrancava-o, com uma fanfarronada «à espessidão moral.» A tristeza era uma muralha que vinha abaixo com uma boa pilhéria, com uma boa sátira; bastava uma página de Rabelais para aluir toda essa cinta constritora da alma. Ele que tivesse sempre à mão, como um calmante, o seu Rabelais, ou esse volume de chalaça escancelada do imortal Tabarin. Ou então que voltasse os olhos para o mundo e contemplasse a grande imbecilidade humana — esse estrume que há de gerar a maravilhosa flor do futuro.
Sarita, se lhe constava que Jorge caíra com os seus blue devils, como dizia Mademoiselle, descia para exorcizá-lo com a algásarra jocunda do seu bom humor. Tomava-lhe as mãos, afagava-lhe a cabeça e ria, encostando o seu rosto macio e morno à face fria do padrasto, procurando descobrir em casos passionais a origem da melancolia, e ria mais alto, ria:
— Apaixonado! Com tantos cabelos brancos... Quem seria a formosa dona que assim o trazia amofinado?
Ria e, insistindo com ele, arrastava-o para a sala do piano e, chamando a professora, atordoavam-no com as «novidades musicais», cuja execução Sarita interrompia às vezes para rir do ar sisudo de Mademoiselle, que andava com os olhos do teclado para a pauta com tal ligeireza que os óculos saltavam-lhe no nariz adunco. Bá intervinha também, discretamente, com os olhos sempre cheios de piedosa ternura, recordando as dores antigas, cuja lembrança era a causa da tristeza de «nhônhô». E lastimava-o «Coitado!» ajuntando que «havia dias em que ela também ficava assim triste, só com vontade de chorar, quando se lembrava de Sinhazinha.» Sarita carregava o sobrolho, fazendo-lhe sinais para que se calasse. A negra estendia o beiço, sorria e ficava a olhar enternecidamente, em silêncio, extasiada nas graças de Sarita, rindo quando a moça, esticando-se no banco, fazia caretas à Mademoiselle, que voltava páginas de álbuns, procurando músicas.
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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