Leia agora
Inverno em Flor

Universo da obra

Inverno em Flor

Capítulo 13 · Inverno em Flor

Segunda Parte — VIII

13 de 24 ≈ 19 min de leitura

Quando Bá entrou na câmara com a bandeja do café Sarita ainda dormia, encolhida, a face repousada nas mãos postas, como se houvesse adormecido a rezar. A camisola entreaberta desvendava-lhe o colo branco e túmido. O pescoço, roliço como um trecho de coluna, tinha torsais dourados de cabelos finos aflorando-o, e farta, dum louro quente, a trança estirava-se no travesseiro, em ondas. Um raio de sol, insinuando-se por uma frincha da janela, cheio de um pólen vivo, infletia em diagonal sobre o pelego onde as sandálias, juntas, aconchegadas, como duas pequeninas barcas em ajoujo, esperavam os pezinhos passageiros. Sobre um divã as roupas amontoavam-se em desordem; o colete aberto jazia sobre o tapete; as saias, no chão, faziam como uma grande flor, meio desabrochada. Morno e suave perfume errava docemente no ar.

A negra afastou o cortinado e ficou algum tempo cheia de enamorada ternura, contemplando os relevos do corpo que os lençóis cobriam desenhando todas as curvas. Baixou-se e, inclinando a cabeça, espiou como se desconfiasse daquela inércia mansa, mas convenceu-se de que efetivamente dormia. Então, baixinho, a medo, com pena de interromper o sono calmo, chamou-a:

— Nhanhã!

Ficou um momento à espera. Insistiu:

— Nhanhã! Nhanhã!

E, como a chorar:

— São onze horas! Acorda, nhanhã!

Sarita descerrou os lindos olhos, mas logo os fechou, e esticando os braços, estrincando os dedos, voltou-se para o lado oposto, mastigando, uma perna encolhida, outra esticada, em oblíqua, o pé nu, rosado e fino, quase fora do leito. A negra teimou:

— Nhanhã... são onze horas. Acorda! Olha o café!

— Deixa, Bá! Que aborrecimento!

A negra, descansando a bandeja na mesinha de cabeceira, choramingou:

— Eu tenho que fazer, nhanhã. Olha o café que esfria. São onze horas...

— Ah!

Bá! Não quero café... Leva isso daqui! Você também! Parece que tem inveja quando vê a gente sossegada. Não quero café! Estou com sono...

— São onze horas.

Sarita soltou um muchocho, voltou-se rolando na cama, e encarando a negra que sorria, disse frenética, sentando-se:

— Você, Bá! Que coisa! Como não dorme, não deixa ninguém dormir.

Enrolou a trança no sinciput, cravou um pente contendo a massa opulenta dos cabelos e, estremunhada, olhos semicerrados, indagou:

— Que horas são?

— Onze horas, nhanhã. Pois eu não disse?

— É mentira.

E, abotoando a camisola, queixosa:

— Quase não dormi. Passei a noite toda a rolar na cama.

— Vosmecê não dormiu? fez a negra com ironia.

— Não dormi mesmo. Não sei que é que tanto estala nesta casa. Parecia que estavam forçando as janelas.

— Ah! nhanhã, é o vento. Tanto medo também! Medo de que! Quem é que vem aqui?

— Pois sim!

Estendeu as mãos; a negra passou-lhe a bandeja e Sarita pousou-a entre as pernas cruzadas, começando a sorver o café lentamente, a pequenos goles. A negra, incomodada com o desarranjo do quarto, pôs-se a ajuntar a roupa; por fim baixou o ferrolho de uma das janelas abrindo um dos lados.

O sol entrou num jato violento iluminando a câmara, forrada de verde, fazendo cintilar o dourado dos pequenitos móveis de luxo que ornavam o dormitório. Sarita, cerrando os olhos, revoltou-se:

— Oh!

Bá! Que mania!

E, passando-lhe a bandeja, indignada, atirou-se de novo à cama, puxando os lençóis até o queixo:

— Pois agora, por desaforo, não me levanto. Não me levanto, quero ver.

A negra, amuada, tomou a bandeja e arrastava os passos para a porta, quando Sarita a chamou:

— Bá!

Miss já está de pé?

— Quem? Mademoiselle? Ainda era escuro e já estava lá embaixo com os livros.

— Mentirosa!

— Mentirosa... Vosmecê pensa que todo o mundo tem preguiça como vosmecê? Então isso são horas de alguém estar na cama? Onze horas... E, depois de mirá-la, com a voz lacrimosa:

— Levanta, nhanhã... que coisa!

Sarita, para enfezá-la, meneou com a cabeça no travesseiro e pausadamente, em tom de mofa:

— Não, tia Bá...

— Pois então fique. Bem me importa. Vosmecê é quem perde; há de ver como fica velha de pressa. Pensa que isso faz bem à saúde? Dia alto e uma menina criança metida na cama... Até Deus castiga; é mesmo. Depois começa a dizer que está doente, esse calor é que põe a cabeça branca. Vosmecê há de ver como num pouco fica com a cara cheia de pés de galinha. Não quer levantar? melhor! Eu é que não posso ficar aqui o dia todo. O serviço está lá embaixo chamando por mim..

Ia saindo quando Sarita chamou-a de novo:

— Vem cá, negra velha!

Bá mostrou apenas o rosto na porta entreaberta:

— Então... você teve muitas saudades de mim?

— Não tive, não.

— Nem eu! — disse Sarita abandonadamente.

— Ah! vosmecê fala brincando. Eu sei mesmo que vosmecê nem pensa em Bá... Eu, sim, é que fico aqui como uma tola quando vosmecê sai. Mas deixa estar, eu hei de aprender à minha custa. Pensa que não acredito? Ora! vosmecê é assim mesmo! e esticou o beiço desconsolada. Mas deixa estar: Bá não há de durar toda a vida. Quero ver quem é que há de ter com vosmecê a paciência que eu tenho. Nem tudo o dinheiro paga, nhanhã! Pensa que há de achar outra Bá, tola como eu? pois sim! E, mostrando o busto, tocou de leve os ombros com a mão livre: — P'ra cá, mais p'ra cá!

Sarita olhava-a sorrindo e, como fizesse uma careta, a negra calou-se, olhando-a carrancuda, com um grande beiço. Mas aos momos da menina não se conteve, desatou a rir e, entrando de novo, pediu lamurienta:

— Levanta, nhanhã. São onze horas. Chega de cama. Vosmecê sabe que eu tenho de estar lá embaixo, porque Inocêncio não sabe fazer nada. Levanta!

Como Sarita meneasse de novo com a cabeça, a negra pousou a bandeja e avançou para a cama, os dedos aduncados em garras:

— Ah! Não levanta? Não levanta? Pois espera...

Mas Sarita encolheu-se enrolando-se nos lençóis e, sentindo os dedos da negra no flanco, começou a gritar, nervosa, torcendo-se às gargalhadas:

— Não, Bá! Não, Bá! eu levanto-me. Espera!

A negra percorria-lhe o corpo com os dedos e ela contorcia-se rindo até que, sacudindo os lençóis, saltou do leito, corada e linda, ameaçando a ama com um travesseiro.

Mediam-se como adversárias: Sarita sempre em atitude hostil, o travesseiro pronto para atirá-lo sobre a negra, caso ela investisse. Bá, porém, vendo-a de pé, observou com acrimônia:

— Vosmecê levanta da cama quente e põe os pés no chão, nhanhã! Não se emenda... depois começa aí a gemer. Tomou as sandálias e, debruçando-se sobre a cama desfeita, passou-as a Sarita:

— Toma, nhanhã; calça. Vosmecê sabe que não pode apanhar friagem. Depois Bá é que tem que ver.

Sarita, atirando o travesseiro à cama, deixou a estreita passagem em que se refugiara e, correndo um leve reposteiro que velava a porta do gabinete de vestir, chamou a ama:

— Vem cá, Bá!

Era uma sala vasta. Duas janelas altas abrindo sobre o jardim iluminavam e arejavam o interior ainda em penumbra. Os passos emudeciam no tapete de grandes ramagens que forrava o soalho. Quando a negra abriu as janelas o sol invadiu o aposento flamejando no grande psiché de pau rosa.

Cesário, que chamava ao leito de Sarita «o mar Jônio, donde todas as manhãs, num constante renascimento, Vênus saía dentre as espumas das rendas», referia-se, com entusiasmo, ao gabinete de toalete, onde ela o introduziu depois dos últimos arranjos, para ouvir a sua opinião. O «filósofo», sempre indiferente à vaidade e às coisas vans do mundo, não se conteve, mal pisou a pele de raposa que se esparrimava no limiar da porta. Lançou um grande olhar do soalho ao estuque rendilhado do teto e, seguidamente, correndo todos os móveis do lavatório, vasto como um altar, até o guarda-vestidos, em três corpos, «grande bastante para conter as três mil saias dessa ignóbil Isabel inglesa», do divã de seda carmesim, que Sarita bordara, copiando, de uma gravura antiga, o episódio idílico da noite de Verona, aos quadros de assuntos meigos, até aos Saxes minúsculos: fidalgas dos tempos graciosos, erguidas na ponta afilada dos pezinhos, as saias tomadas nos dedos, risonhas, em mesura galante como a dançarem o passo brando e fugitivo do minuete; pajens, pastorinhos, zagalas entre ovelhas; bronzes claros de Bizâncio, placas ebúrneas e, sobretudo, destacando-se das paredes claras, um grande cruzeiro de ébano, onde empalidecia um maravilhoso Cristo medieval como o concebiam os trágicos artistas da grande era da Agonia: o peito reentrante, cavado, desenhando a ossada curva, o rosto magro, contraído num espasmo de suprema aflição, a barba longa, pastosa, os cabelos rolando pela fronte, pelas têmporas, os dedos crispados, a boca em hiato, os olhos imensamente abertos, voltados para o céu onde pareciam buscar o grande alívio da Morte.

Um esplêndido porta-joias, um genuflexório, estilo de Boulle e, ao centro, a secretária pequena, sobre a qual um busto magistral da Mater Dolorosa tinha duas lágrimas na face lívida e gelada. Cesário gabou sem reservas o retiro, levando a curiosidade a ponto de tocar nos frascos, nas caixinhas que havia sobre a pedra rósea do lavatório e nas prateleiras do psiché; declarando, por fim, que não se espantava de que fosse sempre tão formosa quem saía daquele ateliê de beleza.

E, diante do alto espelho, falou, nessa memorável manhã de exame à casa: «A mulher tem obrigação de ser bela para que possa aparecer no mundo; a sua força consiste na graça. A mulher deve domar a sua carne para conservá-la sempre jovem e viçosa à imitação do que fez Ninon, a sempre moça, dona do corpo sobre o qual os anos passaram como passam os sóis sobre os gelos da Jung-Frau.

Sarita, de pé junto à pequenina secretária, mirou-se inteira no espelho do psiché e, aproximando-se, começou a examinar-se detalhadamente, alisando as faces, voltando-se de flanco, curiosa, entretida, com uma travessura de olhos incansável:

— Que dizes, Bá? Sou bem feita, não achas?

A negra esticou o beiço:

— Não sei que parece: de camisola diante do espelho! Isso é feio, nhanhã.

E, lamuriando:

— Anda, nhanhã, eu tenho que fazer...

Mas Sarita sentia prazer em ver-se assim refletida como um cisne na água; extasiava-se. Descia a minuciosas análises faceiras, arrebitando os lábios para ver os dentes pequeninos, alvos, intatos, repuxando as pálpebras, derreando a cabeça para admirar o pescoço. Tocou a face sobre os molares, tocou os ombros procurando as clavículas com dois dedos, abriu a camisola para examinar o colo, andando com os olhos dum a outro lado e franzindo a fronte:

— Estou emagrecendo, não achas?

— Quê emagrecendo, nada! Então vosmecê está magra com umas cadeiras assim? É melhor ficar de uma vez como a mulher do seu Sampaio, que não passa naquela porta.

— Cruzes! antes uma boa morte. Que horror! Aquilo até parece moléstia, hein, Bá?

— Coitada! Deixa ela.

E a negra jeremiou de novo, impaciente:

— Mas anda, nhanhã. Eu tenho que fazer. Vai tomar seu banho.

— Espera, negra! Tu estás com inveja, fala a verdade. E, apertando com ambas as mãos a cinta, pôs-se a mirar-se como se estivesse espartilhada.

— Mas olha bem, Bá... vê... não estou magra?

— Ah! deixa de luxo...

Sarita, porém, que parecia estudar atitudes, voltou-se de repente e, sem tirar as mãos da cinta, arrepanhando a camisola nos quadris, a cabeça erguida com altivez, começou a passear pelo quarto majestosamente, como uma rainha:

— Hein, Bá... que dizes? Não sou elegante? Fala! E, cantarolando, entrou a voltear sozinha, numa valsa rápida, os braços estendidos para a ama, que se agachava rindo. A camisa, inflada, parecia um balão e o espelho refletia as pernas admiráveis de Sarita, que ora se juntavam, ora se apartavam nos passos sutis e rápidos da valsa. Por fim, cansada, atirou-se no divã, os braços abertos no respaldo em concha, o colo arfando:

— Ah!

Bá! Há quanto tempo não danço! Estou-me sentindo pesada... Decididamente paizinho precisa levar-me a um baile.

— P'ra que? Que é que vosmecê tem que fazer nos bailes? O seu baile é aqui em casa.

E Sarita, numa voz cheia, atirando os braços:

— Preciso ver os rapazes...

A negra fez um momo:

— Nhanhã também parece que não pensa em outra coisa. Isso até não é bonito na boca de vosmecê. Vosmecê não tem nada que fazer nos bailes. Nhônhô faz muito bem.

Como a negra continuasse a resmungar, Sarita interpelou-a:

— Ó Bá, se eu casar tu vais comigo?

— Eu! fez a negra curvando-se e batendo em cheio no peito. Eu! para seu marido me enxotar de casa? Eu, não! Estou muito bem onde estou. Deus me livre! E, noutro tom, irônica: — Huê! vosmecê não diz que Bá é um caco, p'ra que é que está perguntando se ela vai com vosmecê? E, resoluta: — Eu, não! Fico com nhônhô. Ele sim, ele é que me estima. Que é que vosmecê dá à Bá? Nem um trapo. Até um vestido velho que eu peço, vosmecê acha que é porque sou pedinchona, que quero tudo p'ra mim. E porque tá... tá e porque té... té... Eu, não! Vosmecê há de achar. Olha, negras não faltam. Seu marido que se arranje.

Sarita ouvia tranquilamente bambaleando a perna, a cabeça descaída sobre o respaldo do divã. Quando a negra terminou, levantou-se molemente e curvando-se, as mãos nos quadris, disse com preguiça, depois de um bocejo:

— Pois sim, negra... mas vai arranjar meu banho.

E, de novo, diante do espelho, cantarolando baixinho a ária da cega da Gioconda, mirava-se enrolando no chignon a trança de ouro.

A negra demorou-se ainda um momento, por fim, correndo o reposteiro, desapareceu resmungando.

Diante do espelho, enlevada na própria beleza, Sarita começou uma cena de garridice como uma atriz que estudasse uma personagem para apresentá-la perfeita nas mais ligeiras minuciosidades.

Olhava serena e, repentinamente, carregando o sobrolho, fingia uma grande cólera e logo sorria, os lábios unidos; descerrava-os para que aparecessem na límpida e brilhante brancura de jaspe todos os dentes: falava para ver as diferentes modificações da sua fisionomia e, por fim, intimamente convencida da sua beleza, disse baixinho como se se dirigisse à própria imagem: «Não, mas eu sou bonita.» E, calada, começou um estudo comparativo, pondo o seu corpo em confronto com o de Heloísa, que ela conhecia todo porque, por vezes, o surpreendera, durante o sono da amiga, quase inteiramente nu sobre os linhos, como essas mulheres orientais tratadas pelos pintores, que fazem as suas sestas de amor estiradas molemente em tapetes de Esmirna, dormindo, com o âmbar do narguilé ainda perto dos lábios; e achava-se mais graciosa e mais linda.

Desabotoou a camisola e os seios, rijos, fortes, tinham a perfeição dos mármores antigos; arregaçou as mangas e, esticando os braços admirou-os, sorrindo, numa alegria triunfadora e sem malícia, apenas levada pela sedução da faceirice, colocando uma perna sobre um pufe, apertou as carnes, sentindo-as rijas como as das estátuas, a de Diana, por exemplo, que num canto do jardim, à sombra de um sabugueiro, parecia chamar o seu bando de ninfas, excitando-as para as temerárias corridas pelo lombo das serras, atrás dos gamos e dos javalis.

Mas um estranho pensamento atravessou-lhe o espírito e se alguém a surpreendesse ali, naquela quase nudez, a mirar-se? Se alguém penetrasse sorrateiramente ficando a espiá-la por trás do reposteiro, numa curiosidade indecorosa como a dos velhos bíblicos? E nomes, imagens de homens conhecidos passaram-lhe pela memória: rapazes com quem dançara, outros apenas entrevistos num bonde, na rua do Ouvidor, e principalmente Cosme Moretti, com a sua barbinha rala, os olhinhos miúdos e impertinentes, magrinho, enfezadinho, mirando-a com a gana de uma fera que prepara o bote.

Voltou-se rápida, descendo a camisola, e com os olhos cheios de espanto, avançou para o reposteiro, espiando de um lado e doutro, o coração aos pulos. Não havia ninguém; tranquilizou-se, tornando lentamente para o divã onde se deixou cair.

Uma voz meiga, de uma suavidade elegíaca, começou a cantar perto. Sarita, espalmando a mão, bateu na parede; do outro lado responderam com pancadas surdas e Bá apareceu à porta do gabinete:

— Ó Bá! Como disseste que Miss já havia descido se ela ainda está no quarto...? Agora mesmo bateu na parede.

A negra ficou a encará-la.

— Está no quarto... Então vosmecê não sabe... que ela faz assim sempre? Está lendo, mas já andou lá embaixo. E, noutro tom:

— Vamos, nhanhã, seu banho está pronto e anda que o almoço já vai para a mesa.

— Vamos... E tu vens esfregar-me as costas, sim, Bá?

— Anda, nhanhã.

A negra foi ao grande lavatório, tomou a saboneteira e uma esponja. Sarita passou à câmara. Quando a ama apareceu, já ela laçava os atadores do jupon.

— Vamos, Bá.

Saíram para o corredor, e como Sarita passasse diante da porta do quarto de Miss Kate, bateu de leve:

— Bom dia, Miss.

— Bom dia!

A porta abriu-se. A governanta apareceu risonha e ia falar quando Bá interveio:

— Mademoiselle, vosmecê já não esteve lá embaixo?

— Sim, já... por que?

— É que nhanhã não acredita no que eu digo.

— Ora, Bá! — fez um momo e, afagando a mão delgada da professora: — Então?

Miss, no mesmo tom, correspondendo às carícias:

— Então? Agora é que se vai banhar?

— Agora... — sorriu e despediu-se: — Até já!

A negra tomara a frente e já tinha aberta a porta do banheiro esperando Sarita.

— Anda, nhanhã...

Sarita foi a correr e entrou para o quarto de banho. Uma grande banheira de mármore fumegava, já a meio d’água. A menina, para tomar a temperatura, mergulhou dois dedos e logo fechou as torneiras:

— Vamos, Bá!

Despiu o jupon. A negra, de costas, como para não lhe ver o corpo nu, fingia arranjar a toalha e a saboneteira e só quando ouviu o murmulho d’água onde Sarita penetrara, voltou-se. A menina encolhia-se, atirando mancheias d’água aos ombros, o cabelo repuxado à nuca. Com o frêmito d’água o seu corpo parecia tremer no fundo da banheira, tão alvo como o mármore. A negra ajoelhou-se e, tomando a esponja, começou a esfregar-lhe as costas levemente, maciamente.

— Olha o cabelo, Bá...

— Deixa estar, nhanhã. Não precisa recomendar tanto.

— Não precisa... Eu sei... se já estou sentindo água no pescoço.

— Está bom, nhanhã...

E a negra começou a ensaboar-lhe as espáduas.

Flocos de espuma alvíssima desprendiam-se e caíam na água flutuando como ninfeias. Sarita esfregava o ventre, as pernas, mas sentindo cócegas começou a bambalear-se rindo:

— Não, Bá! Oh! esfrega direito...

— Ah, nhanhã! Tanto luxo também... Eu estou fazendo cócegas? E passeava a esponja ao longo do dorso, mergulhando o braço.

Por fim ergueu-se. Sarita, porém, em voluptuosa inércia, gozava o banho tépido esticando e encolhendo as pernas, até que a negra impaciente choramingou:

— Anda, nhanhã... Isso faz mal.

Deu-lhe as costas abrindo o jupon e Sarita, encolhida, os braços cruzados, saiu friorenta e risonha, estendendo os braços para as mangas que a ama lhe apresentava.

— Que frio, Bá!

— Frio quê, nhanhã!

E começou a friccioná-la. Depois, ajustando a gola e entregando-lhe os atilhos, abriu a porta do quarto.

— Vamos, nhanhã... E agora é vosmecê não começar com faceirice diante do espelho, porque o almoço já vai para a mesa.

Sarita saiu encolhida atravessando o corredor a tiritar de frio.

Inverno em Flor

Sinopse

Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.

Inverno em Flor

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Inverno em Flor

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Inverno em Flor Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 13 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Inverno em Flor

Capa de Inverno em Flor
Continue a leitura Segunda Parte — VIII Capítulo 13 · 13 de 24 · ≈ 19 min
Todos os capítulos 24 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir