Universo da obra
Universo da obra
Cesário, que avançara, não teve tempo de ampará-lo e, quando o viu estendido, agarrou-o pelo tronco abraçando-o e, esforçando-se para levantá-lo, escancarava as pernas; por fim conseguiu erguê-lo e, dobrando de esforço, a murmurar: «Ó senhor! isto afinal é sério...», levou-o meio arrastado até à cadeira, conseguindo deitá-lo.
— Jorge!
Jorge! Mas este homem está bem doente... isto é sério...!
Jorge! Agitava-o, tomava-lhe o pulso e ele mal respirava, empalidecendo a mais e mais.
Cesário correu ao tímpano e premindo-o, atarantado, voltou para junto do amigo, chamando-o de novo: Jorge!
Jorge! ó senhor!
Jorge!
O copeiro apareceu à porta.
— Chama a Bá, depressa! E continuou procurando despertar o amigo: Jorge! então que é isso? Tomava-lhe o pulso seguidamente, arranjava-o mais a cômodo na cadeira e, como a cabeça oscilasse, susteve-a.
Ouvindo passos, voltou-se: era a negra que entrava arranjando a trunfa e da porta, como o visse a lidar com o amigo, indagou assustada:
— Que é, nhô Cesário? Que é que aconteceu?
E precipitou os passos. Diante de Jorge, vendo-o pálido, imóvel, desatou a chorar:
— Ah! nhônhô! Que é que ele tem, nhô Cesário? Ah! minha Nossa Senhora!
— Espera, Bá! Espera... não faças bulha, isto passa. Não quero que a menina saiba. Vamos, ajuda-me primeiro a levá-lo à cama, isto é que é necessário... Vamos...!
O «filósofo» azafamado agachou-se para tirar as botinas ao enfermo, mas erguendo-se logo: Espera, Bá... Corre lá em cima e manda o copeiro chamar um médico qualquer. E, como a negra fosse saindo:
— Olha, mas recomenda-lhe segredo: que não diga nada à menina. Anda depressa e vamos ver se o deitamos.
A negra saiu aflita e Cesário começou a despi-lo desabotoando-lhe o colete, as calças, precipitadamente, a tremer. Isto, afinal de contas, já não é uma coisinha... Ora vejam! são síncopes sobre síncopes e fica que parece um cadáver...! Mirou o rosto do desfalecido e, como se nele percebesse alguma contração que denunciasse a volta dos sentidos, pôs-se a chamá-lo: Jorge! Jorge! Demorou-se a olhá-lo, mas desanimado, sacudiu o braço num gesto de desespero: Qual! A negra reapareceu:
— Já foi, nhô Cesário.
— Vamos, Bá. O melhor é deitarmo-lo. Aqui nem ele está à vontade, nem mesmo o médico pode examiná-lo! Vamos: segura-lhe os pés, vê lá... Vamos!
Os dois, lentamente, foram carregando o enfermo para a cama, repousando-o no leito, sobre as cobertas lisas. Cesário correu a acender o gás, enquanto Bá arranjava os travesseiros.
— Coitado de nhônhô! Mas que foi isso, nhô Cesário?
— Não sei, Bá; não sei.
Cesário, com um lenço encharcado em perfume, adiantou-se para o leito, tomando na mão a cabeça do amigo, chegando-lhe o lenço ao nariz para que aspirasse. Bá, receando pela morte, aconselhou por entre lágrimas que era melhor chamar nhanhã. E impondo carinhosamente a mão sobre a fronte pálida do enfermo:
— Nhonhô está tão frio...
— Qual o quê! Que é que nhanhã vem aqui fazer? Vem chorar e não é com choro que o havemos de pôr bom. Nada de mulheres. Vamos tratar de aliviá-lo das roupas.
Puxou as calças atirando-as à Bá e, aflito, sem desviar os olhos do rosto de Jorge, passou a mão por baixo da camisa, começando a esfregar-lhe o peito. Vamos, Bá... esfrega-lhe os pés. O que é preciso é calor. A negra correu solicita e, tomando quase ao colo um dos pés de Jorge, esfregando-o, balbuciou:
— Mas nhônhô nunca teve isso... é a primeira vez.
— Qual primeira vez! Eu é que não tenho querido dizer. Há dias quase rebentou a cabeça de encontro às grades da varanda. Ele é que é teimoso, vive a dizer que é estômago, sem querer procurar um médico. Hoje então foi de repente: estávamos a conversar e não sei mesmo a que propósito eu perguntei-lhe se tinha algum parente louco... Começou a empalidecer, a tremer e caiu redondamente sem dar-me tempo de ampará-lo.
A negra avançou para o meio da câmara soluçando:
— Ah! nhô Cesário... Ah! nhô Cesário... foi isso!
O «filósofo» voltou-se e vendo os olhos assombrados da ama, que o recriminava comovidamente: «Ah! nhô Cesário...» indagou:
— E que tem? que tem isso...?
— Ah! nhô Cesário... foi isso mesmo que matou nhônhô... foi isso mesmo, nhô Cesário.
— Isso, que? insistiu o «filósofo».
— Essa pergunta que vosmecê fez. Foi isso, nhô Cesário.
Os olhos do bom homem abriram-se desmedidamente e fitaram a negra que soluçava com o rosto nas mãos. Avançou por fim e, tomando-a por um pulso, interrogou-a:
— Por que, Bá... Então algum dos parentes...?
— A mãe dele, nhô Cesário...
— Acabou louca...?! interrogou o «filósofo» quase num grito.
— Foi, sim, senhor!
Cesário cruzou os braços e, voltando-se para Jorge, fitou-o enternecido e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos em grandes jorros abundantes.
A negra ia e vinha, sem uma ideia, soluçando, e Cesário, como atordoado por uma forte bordoada, parecia alheio a tudo, esquecido inteiramente de Jorge que continuava regelado e hirto como um cadáver, mas inopinadamente, voltando-se, avançou para o leito, com a voz trêmula, ressentida, começou a falar com precipitação como para atordoar-se.
— Enfim! mas que culpa tenho eu? sim? que culpa tenho eu? podia lá adivinhar?! Mas nada lucramos com isso, o essencial agora é chamá-lo à vida. Nada de perder tempo. E esse médico? Que diabo! Com certeza o copeiro foi por aí fazendo estação em todas as vendas. Ó Bá! vê se me arranjas um pouco de mostarda. Vamos aplicar-lhe um sinapismo, porque isso está me parecendo uma congestão. Manda à farmácia.
A negra, como se não atinasse com a porta, começou a andar pela câmara doidamente, às tontas, resmungando:
— Eu vou mesmo, nhô Cesário. Eu vou mesmo.
— Então vai e vê se encontras esse maldito copeiro por aí, porque afinal...
A negra saiu a correr e Cesário ia para junto do leito quando ela reapareceu:
— Nhô Cesário... Aí tem farinha de mostarda. É para fazer sinapismos?
— Sim, Bá, mas avie-te. Estamos aqui a perder tempo com risco para a vida do pobre homem.
A negra desapareceu e Cesário, sentando-se à beira da cama, tomou ao colo os pés de Jorge e começou a esfregá-los na palma com força:
— Que horror! Só a mim! Mas que diabo! eu não adivinho! Ora esta! Pobre rapaz! Isso, entretanto, não é de hoje, sim, não é de hoje. Anda preocupado com essa saudade voluptuosa, o sistema nervoso agitado, predisposto e com esse choque... Isso sim. Que culpa tenho eu? Podia lá adivinhar. Que lhe disse eu, há dias? sim, que lhe disse eu? É moléstia.
Palavras tais passavam pelo espírito do «filósofo» que redobrava de esforço esfregando os pés gelados do amigo, mas sentindo-os sempre frios, correu a procurar lãs, revolvendo todos os cantos, escancarando móveis: Nem um cobertor, nem uma manta. Achou por fim uma pesada capa espanhola, correu com ela para o leito atirando-a sobre os pés do enfermo, embrulhando-os, aninhando-os; e foi de novo ao pulso. As pulsações enfraqueciam sensivelmente, o calor desaparecia do corpo, a vida mal se acusava e parecia ir aos poucos fugindo, sem que um último lampejo acendesse as pupilas paradas do moribundo para um derradeiro olhar de despedida. Cesário, sem desesperar, temia entretanto e, ansioso pelo médico, saiu à sala justamente na ocasião em que a ama reaparecia com um prato:
— Está aqui, nhô Cesário. Ele não está melhor?
— Ainda não! Isso não vai assim. E panos, Bá? Vai arranjar panos — insistiu o «filósofo», tomando o prato das mãos da ama.
A negra correu à câmara e, lançando um piedoso olhar ao leito onde o enfermo mantinha a mesma atitude rígida, passou ao gabinete de vestir, donde, sem grande demora, saiu rasgando tiras:
— Vamos, Bá... Vamos.
Os dois, então, sobre a grande mesa de trabalho, começaram a arranjar os sinapismos; a ama sempre lastimando, Cesário a falar:
— Não é nada, Bá. Eu tenho visto horrores... isto não tem valor; maior é o susto. A menina ainda não desconfiou?
— Não, senhor.
— Nem é conveniente que saiba. Se ainda nos pudesse auxiliar de algum modo, bem; mas vem para aqui chorar e então é que não arranjamos nada. Assim é melhor. Levantou os olhos para a porta:
— Nada de médico. Com certeza o copeiro anda por aí de pagode com outros. Isso é uma cafila!
Tomou as pastas do sinapismo:
— Vamos com isto; há de melhorar por força. E enquanto se espera o médico, vamos tentando. Se não lhe fizer bem, mal também não lhe fará.
Seguiram para a câmara.
— Segura-lhe os pés que eu aplico a mostarda.
A negra obedeceu e Cesário, aplicando o revulsivo, passando as ligaduras, trêmulo, quase sem as poder atar, dizia:
— Palavra... mas com tal violência nunca vi. Foi fulminado... Fulminado. Conversávamos e de repente... e, como tivesse as mãos ocupadas sacudiu com a cabeça num movimento louco: Nunca vi assim.
— Quem sabe se não está morto?! suspirou a negra.
— Qual morto, Bá! Pois não vês que respira...? Mas como se lhe ocorressem suspeitas pousou a mão sobre o peito de Jorge para sentir o coração e animado:
— Bem vivo! Isto é um instante. Agora com os sinapismos vais ver como tudo desaparece.
E embrulhou-lhe os pés na pesada capa. O diabo é o médico; já podia estar aqui. Bem, agora vai para cima senão a menina desconfia e adeus! Vai.
A negra, porém, negou-se garantindo que Sarita estava na sala jogando com Mademoiselle.
— Sim, mas pode chamar-te e, se não te acha lá em cima, desce. Não, Bá, acho melhor que vás; eu fico com ele; vai descansada. E continuava a arranjar a capa de modo a aquecer os pés gelados do enfermo. Mas a campainha do portão tiniu com força, os dois voltaram-se ao mesmo tempo:
— Está aí o médico. Vai recebê-lo, Bá; vai depressa que ele pode subir e, se a menina o vê... Anda!
E impelia a negra. Bá precipitou-se levando os pés de rasto numa corridinha cansada e chegava à porta justamente quando o médico aparecia seguido do copeiro.
— Faça o favor de entrar.
Cesário adiantou-se:
— Entre, doutor.
Era um velho alto, robusto, de espessas barbas brancas. O «filósofo», tomando-lhe o chapéu, segredou para que a ama não ouvisse:
— É um caso de apoplexia, creio eu.
O médico mirou-o. Venha ver. Há quase meia hora que está desacordado.
O médico desabotoava o sobretudo e Cesário, apressado, ansioso por ouvi-lo, passou-lhe um braço pelos ombros: Venha, doutor. Parece um cadáver. E penetraram a câmara.
Bá, pé ante pé, contendo os soluços, foi encostar-se à porta para ouvir as palavras do médico, balbuciando baixinho, com enternecimento:
— Coitado de nhônhô! Meu pobre sinhô!
O médico, caminhando lentamente, relanceou um olhar curioso pela câmara. Cesário precedia-o chamando-o com os olhos cheios de aflição e, quando o viu parar diante do leito, numa atitude grave e recolhida, começou a historiar precipitadamente, em sussurro, o acidente:
— Estávamos conversando ali na sala. Foi de repente: caiu fulminado. Trouxemo-lo para aqui, eu e a ama e, até agora, está como vê. E como o médico tomasse o pulso ao enfermo, o «filósofo» imitou-o: Está gelado... E explicou: Lembrei-me de aplicar um sinapismo nos pés. Que acha o doutor? Em ocasiões como esta lança-se mão de tudo...
O médico parecia surdo, mas como Cesário insistisse em querer saber se andara bem, meneou com a cabeça dizendo em tom benevolente:
— Não faz mal.
Esfregou as mãos e, encarando-o, afirmou:
— Pois é justamente o que o senhor pensa.
— Apoplexia!?
— Pois não; claramente manifestada.
Voltou-se para os pés do leito:
— Está ainda com os sinapismos?
— Ainda.
— É conveniente deixar.
Ergueu-se:
— Vamos fazer a receita.
E foi saindo. Atravessava a porta quando a negra, que se mantivera quase colada à parede, ouvindo com uma atenção ansiosa, perguntou tímidamente, as mãos postas, em voz humilde e trêmula:
— Ele está muito doente, nhônhô? Não escapa?!
O médico, que não dera por ela, voltou-se e, olhando-a em face, carregou o sobrolho:
— Está mal, está.
E caminhava; mas a negra, quase de rasto, seguia-o:
— Mas não escapa, nhônhô?
— Espera, Bá; tem paciência. Há de ficar bom; interveio Cesário repelindo-a delicadamente e ali ficou estatelada olhando a câmara, silenciosa e fúnebre como se a morte já a houvesse penetrado.
O médico sentou-se à mesa e Cesário, abrindo a pasta atochada, rebuscava uma folha de papel quando o médico, puxando uma tira, declarou que aquilo mesmo servia e procurava com os dedos uma caneta. Mas Cesário, que percebera na tira linhas escritas em letra miúda, a lápis, arrancou da pasta uma folha de almaço, estendeu-a diante do médico, salvando o rascunho. Afastou-se e, no meio da sala, com a tira muito chegada aos olhos, procurou decifrar o escrito. Eram notas sobre antigas eras, nomes de instrumentos, expressões exóticas e um começo de paisagem serena, fresca de orvalho, ao sol nascente que alourava outeiros. Dobrou a tira, meteu-a no bolso e caminhou para a mesa. O médico meditava com a fronte na mão, a pena parada sobre o papel. Cesário alisou as barbas, nervoso, deu uma volta, olhando em torno, apalpando-se como se procurasse alguma coisa; por fim dirigiu-se para a câmara.
Bá ajoelhara-se junto da cama e chorava. Logo que sentiu o «filósofo» voltou-se angustiada, de mãos postas, numa atitude de desesperança e de súplica:
— Nhô Cesário, ele morre! não escapa! É melhor chamar nhanhã.
— Ora, Bá! Que vem ela cá fazer? atrapalhár mais. Qual morre! Isso é um ataque; passa.
Foi até a porta, lançou um olhar ao salão e, vendo o médico na mesma atitude meditativa, coçou a cabeça, frenético: E ainda por cima trazem um pedaço de zebra que nem formular sabe. Um homem a morrer e o estafermo a esperar a inspiração de Esculápio. Onde diabo terá o moleque afuroado essa alimaria?! Tornou à porta e, alongando o olhar, demorou-se à espreita, resmungando arreliado: Ora isto! E não lhe sai uma droga. Atirou os braços num gesto de abandono desesperado: Isto nem alveitar é... Nem para burros! Ora vejam! E, cruzando os braços, caminhou para junto da cama e ficou contemplando o corpo inerte do amigo: Morre. Assim há de morrer... Mas, assaltado pelo conselho que ouvira, falou à ama: Vê os sinapismos, Bá. E se essa veneranda cavalgadura continua empacada, vou eu mesmo buscar um médico. E, de olhos no teto: Uma hora para escrever três linhas...!
Passos soaram no salão e Cesário precipitou-se ao encontro do médico que experimentava na unha a lâmina de uma lanceta.
— Vai sangrá-lo, doutor?
— Um golpe na mediana cefálica... Depois um drástico.
A negra, descobrindo a lanceta, que reluzia, levou as mãos à cabeça.
O médico abeirou-se do leito e Cesário descobriu o braço ao enfermo, sempre imóvel. O médico alisou-o como em afago e, lentamente, premindo-o, engurgitando a veia, apontou a lanceta. Bá voltou o rosto aterrada e Cesário, de olhos muito abertos, contendo a respiração, dominava-se, quando o sangue esguichou. O «filósofo» estremeceu e o médico, desviando-se, ficou algum tempo a olhar, retirando-se depois vagarosamente, limpando o ferro.
— Não estanca o sangue, doutor?
— Não é necessário. Agora o clister, depois um drástico. Vamos ver.
Cesário repousou no travesseiro o braço de Jorge. O sangue coagulava-se em placa na cisura e em retículas pelo braço; a toalha estava toda manchada. Quando Cesário saiu à sala, o médico, de mãos para as costas, examinava atentamente o aposento, passeando os olhos pelas paredes, pelos cantos, com uma curiosidade fria. Cesário abordou-o:
— Doutor, mas não lhe parece mau sintoma essa insensibilidade...?
— Não, é natural! disse, voltando-se lentamente.
O copeiro apareceu à porta e Cesário investiu com a receita:
— Vai depressa, a correr. E ao voltar, como visse o médico parado diante do cavalete onde repousava o retrato de Sarita, não se conteve: Um médico! com um doente grave... francamente! resmungou, e ia para falar quando ouviu chamarem Bá, aos gritos. Torceu as mãos e, quase a correr, passando por diante do médico desatinadamente, entrou na câmara:
— Olha, Bá, a menina chama-te. Vai! Mas vê lá, limpa os olhos. Não lhe apareças chorando. Vai depressa, anda.
A negra, porém, insistiu:
— Nhô Cesário, nhônhô está muito mal, tanto sangue! É melhor dizer a nhanhã. É melhor que ela saiba, nhô Cesário. E, fitando-o com os olhos molhados, esperava a resposta.
Cesário hesitou algum tempo; resignando-se, por fim, bradou com grandes gestos:
— Queres dizer, dize! Eu sempre quero ver o que ela vem aqui fazer. Queres dizer, dize de uma vez...! Pouco me importa!
E saiu acompanhando a negra que caminhava arrastando passos apressados como se, desesperada da salvação de Jorge, quisesse que Sarita ainda o encontrasse com vida para a despedida final.
O médico, ao ver Cesário, sorriu com bonomia e, estendendo um braço para o cavalete, indagou:
— É sua filha?
— Não, senhor.
Preocupado com o doente, coçava a cabeça frenético, cruzava, descruzava os braços, sungava as calças aos repelões, medindo a sala a largas passadas. Súbito, irritado com a impassibilidade do médico, plantou-se-lhe à frente, carrancudo:
— Mas afinal, doutor... é preciso ver. Ele está mal, quase sem pulso, frio, inerte.
O médico fez um gesto vago, despreocupado e, sentando-se no pliant, acendeu tranquilamente um cigarro.
— Já mandou à farmácia?
— Sim, senhor.
— Então esperemos. E não tenha receio, é assim mesmo.
— É que... Eu sei lá...!
Passos precipitaram-se à porta e Sarita entrou alucinadamente, seguida de Miss. Cesário precipitou-se-lhe ao encontro:
— Não é nada, menina. Está aqui o doutor. Foi uma síncope, já está melhor.
O médico, que se levantara, confirmou:
— Não se assuste, minha senhora. Já o mediquei. Está bem. Não convém perturbá-lo.
— Mas não posso vê-lo, doutor?
— Por enquanto, não...
Sarita abriu olhos enormes e, como se quisesse espremer o segredo em que se fechavam os dois homens, fitava-os percucientemente. Por fim irrompeu em decisão voluntariosa:
— Não, doutor, tenha paciência: hei de vê-lo.
Cesário interveio:
— Ora, menina... Logo, porém, abrandando-se:
— Pode vê-lo...
O doutor fala porque entende que ele precisa de repouso. Pode vê-lo...
Disse e precipitou-se para a câmara, atirou a toalha sobre o braço nu do enfermo, tomou-lhe o pulso, depois, mais animado, chamou-a: Pode entrar. Sarita avançou como impelida e, mal atravessou a porta, rompeu aos soluços.
Diante do corpo rigido do padrasto desfez-selhe toda a energia e as lágrimas rolaram-lhe dos olhos em grossos fios.
Miss, que se adiantara em pontas de pés, ficou diante do leito a olhar, tranquila e, como visse a desolação de Sarita, acudiu para consolá-la, passando-lhe o braço pelos ombros, atraindo-a com meiguice, animando-a, encorajando-a, apedir o testemunho do médico. Mas foi Cesário quem a arredou de junto do leito e, como chegasse com ela à sala, deu de face com o copeiro que esperava, junto à mesa, com um embrulho nas mãos.
— Vai lá dentro, homem. Entra!
— Ele está morto, senhor Cesário! Diga a verdade, pelo amor de Deus! Para que há de iludir-me!
— Qual morto! Não vê a menina que é um ataque? Então nunca viu um ataque? Deixe-se disso, não chore...
— Então deixe-me ficar junto dele. Que tem que eu fique lá?
— Não, agora não é conveniente; o médico precisa estar à vontade. Fique aqui, eu estou também aqui. Não há perigo, descanse; não há perigo. Sabe que não costumo mentir.
— Mas o senhor não queria que me chamassem.
— Não queria, não queria... para não incomodá-la. Isto já podia estar acabado se aqui estivesse outro médico, mas com este animal que descobriram não sei onde... Um homem que, em vez de ficar junto do enfermo, põe-se aqui na sala a olhar quadros e armas e a fumar!...
Vendo, porém, o médico à porta, de mangas arregaçadas, voltou-se:
— Quer alguma coisa, doutor?
— Sim, a ama? onde está a ama?...
Cesário saiu para o jardim a correr, bradando:
— Bá!
Bá!
— Já vai! gritaram de fora.
Miss lembrou-se do tímpano e o médico, imperturbável, animou Sarita: «Que descansasse. Não havia risco.»
E, como desaparecesse, Sarita, sempre incrédula, chamou a professora:
— Ah!
Miss! pelo amor de Deus, pergunte a senhora. Eu sei que eles não me dizem a verdade. Pergunte a senhora, pergunte!
Cesário reapareceu e, logo em seguida a ama, a correr, com um jarro, espantada, a voz trêmula, consolando e chorando:
— Não chore, nhanhã. Deus é grande! Não chore!
Quase se ajoelhou diante da menina, mas como Cesário a impelisse para a câmara, partiu no seu passinho trêmulo. Miss então, para tranquilizar Sarita, dirigiu-se a Cesário e afastaram-se. O «filósofo», caminhando em direção à porta, gesticulava, parando de instante a instante a olhar com grandes olhos, os braços abertos em cruz. A moça não perdia um só dos seus movimentos, procurando interpretá-los e, quando a escocesa serenamente caminhou para ela, intimou-a:
— Então, Miss! pelo amor de Deus! Eu sei que ele está perdido. E a Cesário:
— Porque não manda chamar outro médico? Esse parece que não entende nada; tão mole! Mande chamar outro. Mas Bá apareceu à porta, sorrindo, contente:
— Ah! nhanhã, graças a Deus!... Nhonhô está voltando a si. Ah! minha Nossa Senhora!
Cesário atirou-se para a câmara recomendando a Miss que ficasse junto de Sarita.
O enfermo reabria os olhos lentamente, movendo-se no leito manchádo de sangue e, quando o médico, adiantando-se, dirigiu-lhe a palavra, tremeram-lhe os lábios, os olhos rolaram com agonia dentro das órbitas e sons indistintos, surdos, fugiram-lhe da boca flácida. Cesário lançou um olhar de inteligência ao médico:
— É natural. É a afasia que sobrevém à perturbação provocada pelo insulto.
— Então, doutor, acha que essa moléstia terá ainda duração?
— Naturalmente. Ele está com a paralisia de todo o lado direito. É fácil de observar... E, adiantando-se, tomou o braço direito de Jorge e estendeu-o perpendicularmente ao corpo, sobre o leito.
Cesário esperava, com ânsia, que o enfermo fizesse um movimento: o médico, porém, convencido, afirmava «que não retiraria o braço daquela posição» e foi ele mesmo quem o recolheu, estendendo-o de novo ao longo do corpo imóvel do enfermo que olhava com uma infinita melancolia nos olhos.
Bá, encostada ao respaldo do leito, não arredava os olhos do amo, e como o médico dissesse que Sarita podia entrar, saiu suspirando para chamar a menina. Cesário abandonou a câmara apreensivo, condoído, e foi-se para o jardim. A noite ia muito alta, estrelada; o silêncio era apenas interrompido, de longe em longe, pelo trilar dos grilos na erva. O «filósofo» começou a passear por entre os canteiros em solilóquio desesperado:
— Aí têm o final de uma vida: a imbecilidade. A imbecilidade e a prisão dentro do próprio corpo. Um homem algemado pelos próprios nervos. Aí tem a vida. E tudo isso porque?...
O médico apareceu à porta do salão e a sua silhueta destacava-se na claridade.
Cesário adiantou-se apressado, quase a correr.
O salão estava deserto; as senhoras haviam passado à câmara para fazer companhia ao enfermo e o «filósofo», aproveitando o ensejo, quis ouvir do médico a sentença terrível que devia ferir para todo o sempre o pobre amigo.
— Doutor, com sinceridade, acha que o podemos salvar?
— Não garanto. As exceções são raras, raríssimas; em todo caso é possível a vitória sobre a morte, mas os estigmas ficam.
— A imbecilidade, a hemiplegia?...
— Sim. Demais, creio que estamos diante de um caso de amolecimento cerebral. Todos esses colapsos de que me falou o senhor, essa inércia, essa vontade morta, essa memória indecisa, são sintomas claros. A cura será, quando muito, do corpo, porque o espírito há de ficar ressentido do choque. Não viu a dificuldade de expressão com que lutava quando lhe dirigi a palavra? Parecia ter consciência nítida de tudo, mas os termos fugiam-lhe, embaraçavam-se-lhe na língua. Ainda assim, na minha clínica, tenho tido casos milagrosos de cura quase completa. Vamos tratar de combater a moléstia na sua sede e, mais tarde, lentamente, iremos restabelecendo as funções, acordando células entorpecidas. Por enquanto o que importa é a vida.
O «filósofo» ouvia sem ousar uma palavra, aterrado, sucumbido. Tinha os olhos brilhantes e os dedos trêmulos perdiam-se-lhe na grande barba que lhe caía abundante sobre o peito. Por fim atreveu-se, quase a chorar:
— Demais, doutor, a mãe desse pobre amigo acabou louca...
O médico levantou os olhos cheios de espanto e ia falar quando Sarita apareceu, os cabelos em desordem, a fisionomia demudada:
— Doutor... doutor! Que tem paisinho? Não me reconhece, evita-me; não me responde. Que tem ele, doutor?...
— Nada, minha senhora; nada de perigo. Está num estado de inconsciência, como um homem que rolasse de um andaime e batesse com o crânio na calçada. Comoção. É mesmo conveniente que a não reconheça. Por enquanto não me assusta o seu estado, mas pode sobrevir algum acidente grave e, para o evitarmos, vamos andar com prudência. Acho melhor que V. Ex.ª volte aos seus aposentos, mesmo porque carece de descanso e amanhã verá que seu pai não a desconhece. É prudente deixá-lo agora em absoluta tranquilidade. A própria ama podia sair do quarto.
— Pois não... concordou Cesário. Que faz ela? Está ali a chorar e a lastimar-se. É melhor que saia.
E caminhou para a câmara. Jorge, com a entrada de Cesário, abriu de novo os olhos. O «filósofo» não se conteve: depois de o contemplar carinhosamente, aproximou-se do leito:
— Então, velho, que foi isso?
O enfermo fez um leve movimento com o braço esquerdo, batendo com as pálpebras e grunhidos fugiram-lhe da boca:
— Bem, mas não fales. Nada de falar, descansa. Vê se dormes, sim? Vê se dormes... E baixinho, à Bá e à Miss:
— Vamos agora despi-lo... e... Mas não prosseguiu, porque as duas mulheres, compreendendo, sairam em pontas de pés, deixando o «filósofo» na câmara, em face do enfermo, os braços cruzados, contemplando-o.
A noite correu tranquila. O médico estirou-se na chaise-longue, o colete aberto, as pernas estendidas e roncou, porque Cesário não o deixou sair, esperando sempre um novo assalto da moléstia e, de mãos para as costas, pôs-se a passear ao longo dos aposentos, parando de vez em vez diante do leito para olhar o enfermo. Já não o afligia a ideia da morte.
Varrera-se-lhe do espírito o grande terror, mas as palavras do médico perseguiam-no: “...os estigmas ficam” e torturava-o a certeza de que aquele lúcido espírito caíra em trevas mais densas do que as da ignorância. Ia e vinha sem poder aceitar a sentença cruel, procurando sempre uma objeção; parecia-lhe impossível que aquilo se désse, tão impossível, tão absurdo como uma metamorfose como as de que falam os clássicos, narrando os prodígios das feiticeiras antigas. Monologava, sacudia gestos. Passando diante do médico que dormia tranquilamente, tinha ímpetos de despertá-lo para o interrogar de novo, mas agitava-se em ira, coçava a cabeça e prosseguia, frenético, desesperado, duvidando da ciência e dos sábios.
Já começavam a aparecer nuvens cor de rosa; a noite morria e Cesário, sempre a ruminar a mesma ideia, caminhava. Mas a fadiga venceu-o. Parou junto à mesa e, remexendo em tiras esparsas, encontrou uma grande folha de papel, onde havia, em letras enormes, o título: História da civilização. Fitou os olhos muito tempo nas duas palavras escritas pelo seu punho, olhando-as sem vê-las. Por fim, repelindo o papel, exclamou desesperado:
— Antes a morte, palavra de honra! Antes a morte! E foi para a porta olhar a madrugada que ensanguentava o céu.
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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