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Inverno em Flor

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Inverno em Flor

Capítulo 17 · Inverno em Flor

Terceira Parte — I

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As portas e as janelas do salão, abertas de par em par, deixavam entrar o sol de um dia magnífico, alegrando o interior no qual passara um longo mês taciturno. Em face de uma das janelas, estirado numa chaise-longue, um braço ao colo, os olhos tristemente esmaecidos, o rosto contraído num ligeiro ricto, Jorge passava as horas mais quentes do dia entre Cesário e Sarita, que levara para o salão o seu bastidor e as suas talagarças.

Magro, cadavérico, os olhos fundos, cercados de olheiras denegridas, ficava como em letargo, encolhido, a ouvir as conversas dos que o cercavam abrindo, de vez em quando, os olhos, onde parecia haver uma eterna visão macabra que os espantava. Andava com eles de um rosto para outro, fixava-os em um ponto e, lentamente, de novo, as pálpebras caíam.

Quando falava, as palavras saíam-lhe frouxas, moles, numa emissão balofa; às vezes era o termo que lhe faltava, como se o tivesse perdido de memória. Sarita e Cesário acudiam, lembrando coisas, dizendo nomes, mostrando objetos até que o enfermo acenava com a cabeça aflitamente, com um sorriso no rosto deformado. Às vezes, estendendo o braço para Sarita, procurava-a afetuosamente; a menina aproximava-se e Jorge, afagando-a, começava a grunhir, sorrindo para os seus lindos olhos azuis, sorrindo para Cesário que o contemplava enternecidamente.

Como o médico insistisse na necessidade dos exercícios até que pudessem começar com as aplicações de eletricidade, pela manhã e à tarde, faziam-no sair em curtos passeios pelo jardim, às vezes até à orla do “bosque”, onde ele parava, lançando às árvores um grande olhar cheio de melancolia. Caminhava apoiado a Cesário, uma perna mole, bamba, quase de rasto, um braço flácido, bambeando ao flanco.

Era o «filósofo» quem lidava com ele para levantá-lo da cama, para deitá-lo, para vesti-lo. Jorge, assim que o perdia de vista, afligia-se e, nos primeiros dias, Cesário mal podia arredar-se da alcova porque o enfermo entrava em agitação, ansioso, lançando olhares de ódio a todos que o cercavam. Pouco a pouco, porém, melhorando, essa obstinação foi desaparecendo e parecia distrair-se mais com a presença de Sarita do que com o amigo que o não deixava, ora propondo-lhe leituras, ora expandindo-se sobre o seu famoso livro sem que ele mostrasse interesse, porque, não raro, no correr dos discursos do «filósofo» adormecia e Cesário caminhava para a mesa abrindo grandes volumes, enquanto Sarita ia pela trama bordando.

Miss descia para indagar das melhoras do enfermo, olhava-o algum tempo e sentava-se com um livro, esquecendo-se na leitura longas horas. Entretanto as melhoras acusavam-se ainda que demoradamente. Uma manhã, ao deixar a cama, Cesário viu, com espanto, Jorge firmar-se sobre a perna direita e, como se faz às crianças que ensaiam passos, começou a lidar com ele para que tentasse andar: «Vem daí! um esforço; não tenhas medo. Caminha.» E estendia-lhe os braços, aos recuansos. Jorge, porém, não conseguiu levantar o pé do soalho, como se o tivesse pregado às tábuas e, redobrando de esforços, vacilou, teria caído de encontro ao leito se Cesário não acudisse a tempo.

— Vai indo! Vai indo! Agora com um pouco de eletricidade é um instante. E então? Dentro em breve estás andando como eu; a questão é não ter medo. Vamos.

A vida física despertava, mas o cérebro permanecia em torpor.

A memória estava obscura, negava-se a todo apelo. Não raro pedia um objeto por outro; pronunciava termos estranhos que Cesário buscava decifrar, seguindo-lhe o olhar e cenas curiosas desenvolviam-se no salão entre os dois homens: o «filósofo» a mostrar objetos, o enfermo a resmungar agitando a cabeça negativamente. Pouco a pouco, porém, Cesário foi-se afazendo às expressões, às algaravias de Jorge, entendendo-o quase sempre, com grande espanto de Sarita e de Miss.

Os passeios foram-se tornando mais longos, e, uma manhã, seguiram todos, acompanhando o enfermo, a caminho do bosque.

O solo, acamado de folhas, farfalhava; uma brisa suave e cheirosa passava por entre os ramos onde cantavam pássaros, e a água do córrego punha no silêncio do arvoredo uma nota de melancolia.

Jorge aspirava a plenos pulmões o bom ar dos matos, e, de quando em quando, como se cansasse, encostava-se aos grossos troncos, deixando os olhos errarem pela folhagem das copas altas. Sarita e Miss procuravam distraí-lo, apanhando flores nas moitas, parasitas nos galhos, e ele recebia-as, cheirava-as e agradecia sorrindo.

Cesário levava-o até o banco e, sentando-o, entrava a falar à escocesa da selva da primeira idade, donde haviam partido as grandes levas humanas carregadas de deuses, levando aos ombros os seus altares e estabelecendo bases de impérios e de reinos. Jorge distraía-se com as árvores; apanhava folhas, apontava casais de borboletas que passavam no ar, amorosamente e, como já lhe acudissem palavras, exprimia-se com lentidão, esforçando-se para pronunciar com clareza.

Ouviam-no mostrando interesse, cercavam-no e o «filósofo» interpretava-lhe o pensamento quando as senhoras custavam a penetrá-lo.

— Está falando das mangueiras. Das mangueiras, Miss...

Jorge acenava afirmativamente, satisfeito. Demoravam-se até que o copeiro, descobrindo-os, chamava-os para o almoço.

Uma manhã, como a ama penetrasse a câmara de Sarita, achou-a de pé, caminhando de um para outro lado, de olhos no chão, pensativa.

— Que é isso, nhanhã?! — indagou a negra com espanto.

A menina, porém, em vez de responder à interrogação, perguntou pela professora.

— Está lá em baixo. Vosmecê tem alguma coisa?

— Nada, Bá. Vai chamá-la. Preciso conversar com ela.

A negra mirou-a surpreendida e, com um momo, saiu puxando a porta. Sarita passou ao gabinete de toilette e, diante do espelho, maquinalmente, pôs-se a alisar os cabelos, de olhos perdidos.

— Pode-se entrar?

— Entre, Miss.

A escocesa entrou, sempre firme, a mão estendida, risonha.

— Que tem?

Sarita atirou-se para uma otomana e, sem preocupação da toilette matinal, a camisola com que se levantara, agarrou um dos joelhos e balançando-se:

— Ah!

Miss... tenho uma confissão de certa gravidade a fazer-lhe... e quero a sua opinião sincera e franca, a sua opinião de amiga.

Miss sentou-se, deixando na pequena escrivaninha o livro que trazia.

— Então que é? Tão séria é assim a confissão? — e, mostrando todos os dentes: — Trata-se de um casamento?

Sarita baixou os olhos sorrindo e disse:

— Quase!

— Oh! — fez a escocesa, arregalando os olhos.

— É exato, Miss: trata-se do meu casamento. Escreveram-me ontem: um moço, nosso vizinho, médico.

E, estendendo o braço:

— Mora aqui à direita.

A escocesa conservava o sorriso nos lábios, os olhos fitos no rosto de Sarita. Por fim perguntou:

— Mas como foi isso?

— Não sei, Miss. É sempre difícil dizer como essas coisas começam. Ele passa por aqui todas as tardes. Começou a cumprimentar-me e um dia falou-me.

Sarita sorriu, corando. Miss olhava inquisidoramente.

— Ontem — continuou Sarita —, enviou-me uma carta pelo Inocêncio, consultando-me, e termina dizendo que espera a minha resposta para fazer o pedido a paisinho.

Miss baixou, por sua vez, os olhos e Sarita, calada, mirava-a; por fim perguntou:

— Que acha?... Paisinho, no estado em que está, não pode responder, nem eu tenho coragem de tocar em tal assunto, quando ele, coitado! está ainda tão mal. Que acha? Dê-me um conselho.

Miss mordeu o beiço e respondeu tímida:

— Francamente, não sei que lhe hei de responder. Por que não consulta o senhor Cesário? Eu acho que a senhora deve falar, porque está em idade de pensar no seu futuro e, desde que o seu coração não é indiferente à proposta que lhe fazem, desprezá-la não me parece justo. Por outro lado há a moléstia do senhor e, como disse, não lhe fica bem fazer tal proposta agora; entretanto, sendo feita pelo senhor Cesário, é natural. Por que não conversa com ele?

Sarita sorriu vexada:

— Tenho vergonha. Não sei que parece ir agora falar disso ao senhor Cesário. Não! Compreende que não hei de dizer que recebi uma carta... Bem sei como ele é, começa logo a murmurar contra os namoros, a dizer que faço, que aconteço... Agitou a cabeça: Não! E levantou-se resoluta: Ora! tem muito tempo! Se quiser esperar que espere... Não hei de ficar solteira por isso. Falar ao senhor Cesário não, isso não!

Miss ria francamente, vendo o embaraço de Sarita:

— Mas, venha cá... por que não fala? Receia que ele lhe diga alguma coisa?

Sarita teve um assomo de orgulho:

— Ah! não, por certo. Mas começa com aqueles risinhos... Não! Depois não me fica bem, com paisinho doente. Levantou-se e, diante do espelho, a alisar de novo os cabelos, o ar amuado, cantarolava.

Miss, porém, ergueu-se e tomando da escrivaninha o livro:

— Façamos de outro modo...

Sarita voltou-se repentinamente:

— Como?

— Eu encarrego-me de falar ao senhor Cesário...

— Miss?

— Sim.

— Com uma condição: não lhe dirá que recebi a carta...

— Por que?

— Não quero!

— Pois sim: nada lhe direi sobre a carta.

Deu uma volta pela câmara e ia sair quando Sarita chamou-a:

— Veja lá: nem uma palavra, senão zango-me.

— Já prometi. Sabe que cumpro o que prometo.

— Então vá. Olhe, e pode dizer quem é: o Dr. Mendes, mora aqui ao lado, um moreno. Ele conhece. Mas, pelo amor de Deus, olhe lá, Miss...! Não é por nada, mas é que ele começa com aquelas coisas que me aborrecem; não gosto. Sou até capaz de tomar ódio ao moço se começam com pilherias.

— Descanse.

Miss, sorrindo, deixou a câmara, mas Sarita saiu ainda uma vez para recomendar-lhe o mais absoluto segredo sobre a carta.

A negra entrou para fazer a cama e, como a menina voltasse da porta, ela levantou a cabeça:

— Que é que vosmecê tem hoje, nhanhã? Não para!

— Ah!

Bá! queres que te diga uma coisa?

A negra, que puxava o lençol, adiantou-se curiosa, tomando a frente à menina, os olhos brilhantes.

— Queres que te diga uma coisa?

— Que é, nhanhã? fala de uma vez... Está aí só dizendo coisa à toa... Que é?

— Vou casar.

A negra estremeceu e avançou como impelida:

— Nhanhã! Vai casar? Com quem? Aqui não vem moço nenhum...

— Adivinha...!

— É com aquele lá do Catete, aquele da rabeca? Ah! nhanhã! um homem tão esquisito!

— O Cosme!? Ó Bá! pensas então que eu seria capaz de gostar de um homem que nem falar sabe? Deus me livre!

E, enfunada:

— É um rapagão! E tu o conheces!

— Eu?

— Tu, sim! Mora aqui bem perto. Olha.

E, abrindo uma das janelas, estendeu o braço para o arvoredo que rebrilhava ao sol:

— Estás vendo aquela palmeira ali?

A negra olhava piscando os olhos:

— Estou.

— Pois ele mora ali...

A negra ficou ainda algum tempo à janela e disse por fim, triunfante:

— É aquele moço que passeia a cavalo... Filho da viúva?

— E então, Bá?

— Ah! esse sim, nhanhã... E ele já pediu vosmecê?...

— Não. Vem pedir-me.

A negra desatou a rir e voltou de novo à janela para olhar a palmeira que se espanejava ao sol.

Inverno em Flor

Sinopse

Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.

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