Universo da obra
Universo da obra
Quando Cesário apareceu na sala de jantar conduzindo Jorge, Sarita precipitou-se para beijar o enfermo, evitando pudicamente os olhos do «filósofo» que pareciam procurá-la repreensivos, fulminantes de cólera. Miss saudou os dois homens respeitosamente e Sarita, pela maneira por que Cesário retribuiu o cumprimento, compreendeu que a professora ainda não lhe havia falado. Readquirindo a calma sentou-se, sorrindo ao enfermo que acenava com a cabeça como em interrogativas. Cesário, diante dos pratos fumegantes, tornou-se expansivo, desenrugando a fronte:
— Vais deixando esse duro inverno, hein? Já te sentes outro, com franqueza.
Jorge meneava com a cabeça e, como lhe servissem um prato, tomou um garfo e, indeciso, ainda trêmulo, pôs-se a espetar a carne que se escapava, às vezes saltando sobre a toalha.
— Em começando com a eletricidade ficas pronto.
E, com uma garfada erguida, quase à altura da boca:
— Palavra de honra, meu amigo, estiveste com o pé no outro lado. Palavra de honra!
E Miss, confirmando:
— É exato: o doutor parecia um cadáver. Quando entrei no quarto fiquei convencida de que não se levantava mais.
— Ah! — exclamou o «filósofo». — Quando a senhora lá esteve já havia passado o perigo. Pergunte à Bá, Miss. Pergunte à Bá.
Jorge baixava a cabeça e comia em silêncio, levantando, de vez em vez, os olhos para Sarita e, em uma das ocasiões, ainda tartamudo, falou-lhe «lamentando a vida que ela levava, ali encerrada: que saísse com a professora, que escrevesse às amigas, que fosse passar um dia com elas e, até se quisesse ir ao teatro com Miss, Cesário lhes faria companhia. Ele tinha Bá». O «filósofo», com a boca cheia, aprovou:
— Pois não. Quando quiserem.
Mas Sarita, com um momo:
— Estou muito bem. Que prazer posso achar em teatros e em festas com você doente, paisinho? Tem tempo. Havemos de ir todos juntos.
O enfermo teve um sorriso triste.
— É natural que se divirta, menina; a sua idade exige. Não é pela moléstia que ele não vai, dantes mesmo, deve lembrar-se quanto era difícil arrastá-lo daqui para um passeio, para um teatro. Também... que surpresas podemos nós achar no mundo? O homem só tem um tempo de impressões, é a mocidade; o mais é recapitulação — é o mesmo fato sempre, a vida não se modifica: é sempre a mesma; vista uma vez, está vista. A menina, não: precisa viver, precisa agitar-se, a vida mede-se pelas emoções. Nós já as experimentámos todas. Eu prefiro passar a noite na minha cama, com um bom livro, a passá-la na célula de um camarote ou no pelourinho de uma cadeira a ouvir ganidos de tenores ou tiradas trágicas; entretanto fui apaixonado dessas coisas, paguei o meu tributo.
Jorge acenava com a cabeça, afirmando.
— Pois quando quiserem, estou pronto. É só dizerem.
Levantaram-se. Cesário conduziu Jorge para a varanda, onde ele costumava passar meia hora sentado, ao mormaço tépido, ouvindo os canários, olhando as roseiras em flor. Miss rondava o «filósofo» e, como ele entrasse na sala para tomar um palito, disse-lhe algumas palavras. Sarita disfarçou cantarolando e seguiu para a sala, vendo que o «filósofo» oferecia uma cadeira à professora. O seu pequenino coração batia com força e toda ela tremia, sentia-se quente. Refugiou-se na saleta do piano e começou uma gavota dolente, enquanto tratavam do seu futuro e o enfermo cochilava à sesta na temperatura acalentadora de um meio-dia de inverno, ao pleno ar. Passos soaram no corredor e Sarita teve ímpetos de fugir para esconder-se a fim de evitar os olhos do «filósofo», mal, porém, ergueu-se no banco do piano, deu de face com Cesário e com a escosseza. Sentou-se, baixando os olhos sobre o teclado e muda, trêmula, esperava que lhe falassem com o terror de quem vai ouvir uma sentença. Cesário também parecia hesitante, medroso, e foi a professora quem quebrou o silêncio chamando Sarita:
— Que é, Miss?
— Venha cá...
Ela, porém, não deixava o seu reduto e encolhia-se; mas Cesário adiantou-se:
— Então, menina, então? Receia dizer-me a verdade?
E, sentando-se junto dela, as mãos espalmadas nos joelhos:
— Vamos lá, diga-me tudo. Conte-me.
— Contar o quê? Eu nada tenho para contar. Pergunte a Miss — disse, de olhos baixos, passeando os dedos pelo teclado.
— Está bem, vejo que não tem confiança em mim.
— Não, tenho... mas que hei de contar?
Fechou o piano e, sorrindo, levantou os olhos para o «filósofo».
— Mas, afinal, vamos à verdade. A menina não me quer dizer o seu segredo, pois vamos lá, eu farei de confessor.
E, em tom sisudo, dedilhando no piano, começou:
— É natural, minha filha; é natural e louvo-a muito pelos escrúpulos que tem. Bem que isso seja a sua felicidade, sei que o pobre homem sofrerá no dia em que a vir sair pelo braço do esposo... Mas, que se há de fazer?
Os três olharam-se calados, e o «filósofo» continuou:
— A menina sente-se atraída por esse moço; eu conheço-o, parece-me um cavalheiro e só agora é que sei que é médico.
Sarita afirmou:
— É. Chegou da Europa, onde esteve praticando.
— Ah! Então conhece-lhe a história...! — disse Cesário com malícia.
— Eu, não! Foi Inocêncio que disse. Eu, não!
E, como visse um sorriso nos lábios de Cesário, levantou-se de olhos úmidos, muito vermelha, quase a chorar:
— Está bom, já começam! Eu não quero nada — e desatou a chorar, indo esconder o rosto no colo da professora. — Eu bem disse à senhora que não falasse.
— Mas venha cá, menina... Então que é isso? Por que chora? Descanse. Eu comprometo-me a falar, eu mesmo direi a Jorge o que há, não se amofine por isso. Acho, entretanto, que o casamento não se deve efetuar já, é melhor esperarmos que ele melhore, mas descanse, descanse. Quanto ao moço, irei ter com ele. E a demora, em casos tais, é ainda um prazer, porque o melhor do casamento é o noivado. Hoje mesmo falo a Jorge e tenho certeza de que, apesar do sacrifício de perdê-la, não criará embaraços à sua felicidade. Vamos, e não chore mais. Descanse e prepare-se para contar-me todo esse namoro misterioso...
Sarita balbuciou como uma criança amuada:
— Não houve namoro...
— Ah! bem sei, bem sei: não houve namoro... Pois sim, nem eu tenho que me intrometer em casos de coração. Mas não chore. Hoje mesmo decide-se o caso. E saiu lentamente da sala, cofiando a barba densa.
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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