Universo da obra
Universo da obra
Foi encontrar o amigo numa paz preguiçosa, digerindo à sombra, os olhos cerrados, as mãos cruzadas no ventre, a cabeça derreada sobre a parede. Aproximou-se em pontas de pés, julgando-o adormecido, mas o enfermo, sentindo-o, abriu os olhos e fitou-o risonho:
— Boa sesta, hein?
Jorge meneou com a cabeça negativamente, e com a sua voz balofa e difícil entrou a falar: «Não dormia. Estava ali gozando o ar macio da varanda e aquela magnífica paisagem de montanhas, tão azuis como o céu. Lindo dia!» O «filósofo» concordou, depois de lançar um olhar largo em torno:
— Admirável!
Borboletas e lavandiscas cruzavam-se numa dança flabilia, umas buscando as rosas vermelhas, indo outras roçar a superfície do pequenino lago, mirando-se no espelho d'água. Um beija-flor, ruflando as asas, pairou no ar diante dos dois homens. Cesário mostrou-o a Jorge:
— Olha, se Bá estivesse aqui tínhamos já um augúrio.
A ave circulou rapidamente e partiu de arremesso. O enfermo ficou a olhar as altas montanhas e, de vez em vez, machinalmente, levantava um braço como para mostrar um ponto distante. Caía do céu, na quentura da hora, uma grande paz comunicativa — era a sesta meridiana da natureza. O ar estava vazio; raro em raro um pombo passava em voo tranquilo, e andorinhas, saindo dentre as telhas, trissavam e recolhiam-se. Longe, num campo fronteiro, um grande carro seguia por entre árvores, atulhado de capim, ao passo moroso de um touro, e sons longínquos de piano passavam, de vez em vez, através da serenidade dormente.
Bá apareceu à porta da sala e, vendo os dois homens juntos, recuou antes que eles a vissem. Cesário caminhou ao longo da varanda, alisando a barba, sempre com os olhos no céu, de um brilho de porcelana antiga; por fim sentou-se ao lado de Jorge, espichando as pernas, as mãos espalmadas nas coxas magras:
— Pois é verdade, meu caro...
E ficou a olhar os sapatos, num silêncio pensativo, os olhos fixos, a fronte sulcada.
— Pois é verdade...
O enfermo voltou o rosto de repente, curioso:
— Não tens trabalhado...
Sem compreender, tão dificilmente se exprimira o enfermo, Cesário inclinou a cabeça, a fronte franzida:
— Hein?
Jorge repetiu com esforço a pergunta.
— Ah! Sim... no livro? Quase nada. Tenho o meu plano e entendo que ninguém deve abalançar-se à execução de um trabalho como esse, todo de ciência, sem ter o subsídio completo. O armazenamento é que me está custando, porque já te disse que não pretendo vestir faustosamente os períodos, mesmo porque a obra moderna quer-se sóbria e nobre: nada de ouropéis, nada de lambrequins — estilo formoso e simples como o dos antigos, não te parece? Afinal que diabo de figura faz uma das nossas complicadas construções diante de uma simples coluna jônica? Arte não é artifício... Penso assim, e os meus cabelos têm embranquecido nesta teimosa preocupação: a forma simples, severa e rija. Alguma coisa que tenha a majestosa impassibilidade de um mármore clássico. Eu que consiga isto e então saberei procurar depois o ornato — um simples ramo de hera, um ramo verde de murta, um pouco de sol. A questão é o bloco. Escrever como Tácito: limpidamente. Nada de chirinolas, hein? Não te parece? Estou lendo antigos para expurgar-me dos vícios da civilização nos grandes monumentos da palavra escrita. E tu? Por que não lês?
Jorge fez um momo de enjoo.
— Pois olha: deixa lá falar o médico, a leitura há de fazer-te bem.
O enfermo, entediado, explicou: «Que não tinha memória, não podia fixar a atenção num assunto distraía-se. Às vezes, conversando, respondia uma coisa por outra. Não podia ler, qual!» E acenou num gesto lento, abanando com a mão para o longínquo: «Partir... viajar... Logo que pudesse caminhar não queria saber de outra coisa. Uma grande viagem.» Cesário concordou:
— Por certo. Hás de lucrar muito... E caiu de novo em meditação balançando as pernas; mas levantando a cabeça, meio a sorrir:
— Ó Jorge... e se casasses a menina? Ficavas como um lindo amor. Podias entregar-te ao largo universo, ver terras e mares.
Jorge olhou-o com espanto, os lábios trêmulos, como num grande acesso de ira:
— Casar Sarita... com dezoito anos? É muito cedo.
— Não acho. Ela está justamente na idade. Aparecendo um bom partido...
Jorge voltou-se todo para o amigo, carrancudo:
— Sarita?!
— Pois então?
— Pensa em casar?...
— Naturalmente! Em que pensam as donzelas?
Jorge baixou os olhos e, como se discutisse mentalmente, pôs-se a balançar a cabeça, resmungando:
— Mas como? — perguntou por fim, encarando o «filósofo».
— Não sei. A verdade é que há qualquer coisa com um vizinho, um médico recentemente chegado da Europa, filho de uma viúva. Deves conhecê-lo. Há alguma coisa, isso há e é melhor que esse rapaz entenda-se de uma vez contigo. É um homem de futuro, rico, de boa família, Mendes Loureiro. Conheces...? O pai foi banqueiro no tempo do Souto. E a menina, pelo que me disse a Cegonha, não lhe é indiferente. Assim pois, em vez de estarem essas duas criaturas trocando olhares por entre os ramos, é melhor que se entendam de uma vez. Não te parece?
Jorge encolheu os ombros resignado. Esteve um momento pensativo; por fim perguntou:
— E ele que é?
— Médico; pois não te disse?
— E já se falaram? — Súbito, porém, levantando a voz, exclamou: — Mas como foi, Cesário? Como foi isso?
— Não sei, meu velho. Ninguém sabe como os amores começam. Viram-se, aí tens; ele moço e bonito; ela formosa, que mais queres? Eu, nos teus casos, tratava disso; mesmo por ela. Afinal, bem sei que te não é fácil deixá-la, mas podes viver no casal. Que tem isso? Vives com eles, ajudando a fazer o ninho para os que hão de vir. Que tem isso? É difícil, bem sei, deixar partir uma criatura que se criou; mas, meu amigo, esta é a lei da vida. Ela, coitadinha, não queria que eu te falasse, insistiu comigo para que não te dissesse nada, mas isso era pior. Esse segredo não me pertence. Pensa e resolve.
Jorge parecia acabrunhado; o braço doente agitava-se de quando em quando, em frêmitos. Mudo, os olhos baixos, pensava, e Cesário, receoso de que sobreviesse alguma crise, levantou-se:
— Está bem. Não fiques agora aí a cogitar o dia todo. Vamos dar uma volta ao sol.
E ofereceu-lhe o braço. O enfermo levantou-se dificilmente, gemendo e, apoiado ao «filósofo», foi descendo a escada para o jardim. Embaixo, a caminho da álea central, parou e, com esforço, num suspiro, disse, sem tirar os olhos do chão:
— É muito cedo. É muito cedo... — Noutro tom, porém: — Demais, Cesário, eu não conheço esse moço.
— Sim... mas não penses nisso. Olha, vamos por aqui, vais ver que beleza de rosa! Não penses nisso... noivos não faltam. Achas que é cedo? Pois não se fala mais em tal e a menina não faz senão a tua vontade. Bem sabes como é dócil. Não falemos mais nisso. Vamos às nossas flores. Mas vê lá se podes caminhar, porque o tal solzinho de inverno abrasa deveras. Olha que já estou com a cabeça a arder. Vamos.
E seguiram para um canto do jardim, um retiro ensombrado por uma moita de jasmineiros onde havia um banco.
Jorge ia sorumbático, fechado. Como o «filósofo» baixasse a cabeça para penetrar esse recesso íntimo, de muralhas frescas e verdes, de folhas e flores que exalavam docemente, o enfermo resistiu a pretexto da umidade que devia haver ali. Tortulhos brotavam junto ao banco de pedra que tinha na base uma orla de limo verde; mas Cesário atraía-o:
— Estavam ali como em um tabernáculo. Ninguém os descobriria: poderiam conspirar à vontade.
Jorge cedeu e, lentamente, apoiando-se ao amigo, deixou-se cair no banco frio.
— Não tarda muito a cigarra e vamos ter aqui um pouco de Teócrito. Olha que lindeza!... Lança os olhos por aí fora, hein? Maio, grande mês!
Jorge tinha no espírito as palavras de Cesário sobre o casamento de Sarita; parecia-lhe impossível, não se conformava com a ideia de a deixar sair pelo braço de outro homem. Sabê-la de alguém, só, numa alcova, desnudando-se vagarosamente diante de um homem... Sabê-la nos braços de outro, aos beijos, corpo contra corpo, em enlace de amor... Não! Não...!
— Mas, Cesário — disse, como se acordasse —, ouve: por que não posso ser eu o marido de Sarita? Há tantos exemplos. Bem vês, estou uma ruína, preciso de alguém que vele junto a mim, que compreenda e traduza o meu pensamento, que seja o meu arrimo, uma mulher que tenha amor e caridade, que seja amparo e meiguice, alguma coisa entre filha e esposa. Por que há de ser de outro e não minha, Sarita que eu criei desveladamente? Afinal, Cesário, esse escrúpulo seria natural se houvesse uma só gota de meu sangue nas suas veias, mas não temos outras afinidades senão as do coração — a mesma que eu tinha com Laura, minha mulher, nada mais. Então pelo fato de eu a ter visto criança, estou impossibilitado de desposá-la? É um absurdo, não te parece?
— Para mim — disse o «filósofo», que o ouvira entre espantado e piedoso, o absurdo é que faz a maioria das leis dos homens; a própria civilização é um absurdo, mas tu não sais nu à rua, não te deitas na erva como fazem os bois, que respeitam os instintos, e um homem que corresse com a sua sede de amor para saciá-la na primeira praça, ao sol, diante do povo, como fazem impunemente os cães, seria corrido à pedra e a tiro. Entretanto, o natural é aquilo que se vê nas bestas simples; nós usamos das hipocrisias púdicas, reservamo-nos, quer para a crença, quer para o amor. Não te parece que devíamos adorar o Senhor como os antigos, ao clarão do sol, num grande campo, junto d'água clara, mais agradável e mais bela à vista do que essas pias sórdidas? E aí estão as igrejas e o culto é feito discretamente, quase em segredo. Absurdo, civilização.
O enfermo ouvia o «filósofo» com ar aparvalhado.
— Mas que é, Cesário, que é?
— É a verdade. Acho que não deves pensar nisso. Que diabo! O que alegas não destrói o incesto, penso eu. A paternidade é um acidente, não importa. A verdadeira paternidade é a que vem do longo contato; para uns o homem começa a ser pai junto do berço. E tu tomaste essa menina dos braços da mãe, ela mal falava. Foste o seu pai e ela assim considera-te. Que diabo! Repugna! — fez o «filósofo» com uma cara de nojo. — Repugna! Ver a gente a seu lado a criança, porque essa é a verdade, has de ter sempre diante dos olhos a pequena que se te agarrava aos joelhos, babujando-te o rosto com os beijos melosos. É fatal... e repugna, francamente: repugna! Demais há a grande desigualdade de anos — ela é uma criança cheia de vida, sangue forte e ardente a borbulhar nas veias, carne viçosa; tu vais para o declínio, enfermo...
E, involuntariamente, em um ímpeto, Cesário deixou escapar:
— É ridículo!
Jorge olhou-o arvoado.
— É como te digo, para usar de franqueza: é ridículo. Vais fazer a infelicidade de uma criatura, digo-to eu, a infelicidade, porque essa moça... Homem, não sei. Não tenho nada com isso. Faze lá o que entenderes. Para mim é quase um crime. Que diabo!
Levantou-se, foi até à entrada do caramanchel, a fronte franzida, cofiando a barba. Voltando-se, disse:
— Trata de ti, trata de ti.
— Mas ridículo por quê?
O «filósofo» encarou-o:
— Homem, é como se eu nada tivesse dito. Sim, porque em suma, és homem, não precisas de conselhos, nem os pediste. Eu acho ridículo, mas isso que monta?
Repentinamente, porém, cruzou os braços:
— Mas não vês que é cômico!
E riu às gargalhadas. Jorge teve um sorriso diante da jucunda expansão do «filósofo», como se a alegria do amigo se lhe houvesse comunicado à alma.
— Não vês que é cômico?! Deixa-te dessas coisas. Trata da saúde e põe-te a andar, que já é tempo, e a mocidade que busque a mocidade, os corações fortes que se juntem e olha lá a fábula das panelas.
E riu estrondosamente da pilhéria.
— No fundo eu sei que tudo isso é ainda resultado do teu grande amor. Queres prendê-la para sempre e então lanças mão desse meio extravagante... Mas, filho, eu já te disse que tudo se pode conciliar: casam-se os pequenos e ficam aqui contigo, debaixo do mesmo teto, então?
Mas Jorge, de olhos baixos, meneou com a cabeça negativamente:
— E por quê? Palavra que não te compreendo.
O enfermo recaiu na tristeza; fez um esforço para levantar-se.
— Queres sair?
— Não, deixa-me.
— Vamos ao nosso passeio.
Jorge não respondia, os olhos sempre baixos. Cesário adiantou-se e percebeu soluços:
— Quê! Estás chorando? Ora!...
E, docemente, delicadamente, sentando-se no banco, tomou-lhe a fronte na mão, atraiu-o, amimando-o como se fora uma criança:
— Então... então? Que é isso?
E o enfermo, com voz surda, por entre lágrimas:
— Tens razão, tens razão, Cesário! É mesmo um crime. Vamos, quero falar à Sarita, quero dar-lhe o meu consentimento. É natural, é moça, formosa. É natural. Vamos. Tens razão, Cesário; tens razão! E, soluçando, esforçava-se por levantar-se do banco.
— Espera, homem; deixa-te estar sentado. Onde queres ir? Essas coisas fazem-se com calma. Afinal, esse moço ainda não te falou; como é que vais consentir em um casamento quando nem mesmo conheces o noivo? Isso não. Vamos com calma.
As lágrimas rolavam pela face do enfermo. Súbito, porém, levantando a cabeça, cravou os olhos num ponto do jardim.
— Que é aquilo, Cesário?
O «filósofo», seguindo-lhe o olhar e nada descobrindo, perguntou:
— Aquilo quê?
— Nada! Não sei que tenho.
— Ora, que tens! Ficaste nervoso com essa história. Não te preocupes mais. Vem daí; vamos dar uma volta pelo jardim.
E, oferecendo-lhe o braço, levantou-o e, lentamente, saiu com ele do caramanchel. O sol ia alto e quente; cigarras chiavam. Os dois homens seguiam em silêncio. Como passassem diante da varanda, uma voz meiga chamou-os:
— É por gosto que estão apanhando essa soalheira!
Jorge levantou a cabeça e deu com os olhos em Sarita que se debruçara à balaustrada sorrindo. Mirou-a enternecido:
— Pois você, paisinho, com um sol assim?
— É a vida, menina; deixe-o andar. O sol não lhe faz mal: é a vida...
Jorge acenou, chamando-a.
— Quer falar comigo?
— Sim...
— Que vais fazer, homem? Que vais fazer? — sussurrou o «filósofo», apertando-lhe o braço.
— Que tem? É melhor falar.
Sarita desceu as escadas apressadamente, cantarolando, e diante de Jorge, sempre risonha, indagou de novo:
— Que quer, paisinho?
— Vamos conversar...
E acenou como a pedir-lhe o braço. Sarita achegou-se e passou-lhe um braço pela cinta lançando ao «filósofo» um rápido olhar repreensivo. Cesário encolheu os ombros, amuado.
— Então? Tem alguma coisa a dizer-me?
— Há tanto tempo que não conversamos! Não é justo que eu tenha saudades de ti?
— Mas eu estou sempre em casa... Por que não me chama?
Cesário olhava para os lados, fingindo-se distraído. E chegaram ao salão. Jorge estirou-se no pliant e o «filósofo», a pretexto de ver umas «esquisitices», saiu para o jardim.
Sarita ficou algum tempo diante do próprio retrato, mirando-o atentamente, enlevada.
— Ah! Se eu fosse assim?
— Senta-te aqui perto de mim, Sarita.
A menina arrastou uma cadeira para junto de Jorge e, sentando-se:
— Então, que é que tem a dizer-me? — E, tomando-lhe uma das mãos, começou a acariciá-la brandamente.
O enfermo encarou-a.
— Tu é que tens novas a dar-me, não eu. Vamos, fala: que tens a dizer-me? Já sei que não mereço mais a tua confiança. Antigamente era eu o primeiro a saber os teus segredos... adoeci, já não valho nada para a filha ingrata.
Sarita, que compreendera tudo, baixou os olhos e balbuciou:
— Mas... eu não tenho segredo algum, paisinho.
— Sim, sim... pensas que, por não poder mover-me, ignoro o que se passa nesta casa? O coração está sempre vigilante.
— Mas que sabe você?
— Queres que te diga?
— Quero.
— Sei que estás apaixonada.
— Apaixonada! Quem? Eu! Ora! E desatou a rir.
— Não rias. Sei que estás apaixonada... e que há alguém que pensa em pedir-me a tua mão.
— Foi o senhor Cesário quem lhe disse! — exclamou Sarita.
— Não, não foi ele — respondeu Jorge com grande calma. — Não foi Cesário.
— Foi, sim! Você é que não quer dizer. Ah! também não guarda nada! — disse com um amuo. E, baixinho, em voz trêmula: — Eu não estou apaixonada. Que culpa tenho de que um moço goste de mim? Sim, que culpa tenho?! Se disse ao senhor Cesário foi para que ele me desse um conselho...
— Então preferes os conselhos de Cesário aos meus? Já não confias em mim?
— Não é não confiar, paisinho; mas eu sabia que se dissesse alguma coisa sobre isso você ficava triste; não quis...
— Triste?! Por quê? Triste com a tua felicidade? Isso não, minha filha.
— Não, mas... Já uma vez você disse-me que havia de sentir muito quando eu saísse.
— E pensas em sair? Sair, por quê? Não podes continuar a viver comigo?
— Posso...
— Então?
Houve uma grande pausa. Cesário apareceu à porta com uma rosa, vermelho do sol, o rosto reluzente de suor.
— Olhem esta maravilha!
E mostrava a flor em triunfo.
Mas Sarita recebeu-o hostil:
— Para que foi o senhor falar a paisinho? Eu não lhe pedi tanto...?
Cesário ficou algum tempo embaraçado, a fronte franzida:
— Ora, Jorge...
— Que tem?
— Que tem... Mas se eu te disse que havia jurado à menina, mais do que isso, que lhe havia dado a minha palavra de honra...? Francamente...
— Mas eu pedi tanto, senhor Cesário! — suspirou Sarita.
— Pois não, pois não, não nego. E eu disse que havia de guardar segredo absoluto por enquanto; pois não. Mas... homem, não sei, menina. Isso precisa ter uma solução e foi melhor assim; foi melhor assim. Mais hoje, mais amanhã ele havia de saber — foi melhor assim.
Jorge corroborou:
— Por certo... Demais, uma filhinha meiga não deve ter segredos para seu pai quando sabe que ele a estima, não é verdade?
Sarita balbuciou, comovida:
— Isso é...
— Assim é melhor — insistiu Cesário —, e agora é tratar disso para que esta casa tenha o que lhe falta: um petizote que ponha tudo isto em polvorosa.
Sarita ficou amuada com o gracejo do «filósofo» «Não gostava daquelas brincadeiras.» Mas Cesário insistiu.
— Pois, menina, é a verdade. O que falta a esta casa é justamente um petizote. A criança é um raio de sol junto da velhice. Casa sem crianças é lar sem lume. Nós já estamos tiritando, agachados na saudade, sem energia, sem esperança; precisamos aquecer a alma ao contato de um pequenito. Ser avô é reviver. É preciso que alguém nos anime. A velhice isolada é desesperadora. Olhe, até eu, que sou pior do que esse Tímon misantropo, ofereço os braços para carregar o pequenote. Upa! Upa! Hein? Que dizes? Avô! Ahn? Que dizes? E quero ver a tua energia quando Átila infante invadir os domínios da sabedoria, esfarrapando filósofos e juristas. Hein, avô?!
Riram por fim.
Sarita achava graça, não podia guardar seriedade diante de Cesário que espernegava como um aranhiço, virando um dicionário, atirando-o ao ar como se brincasse com uma criança. Vendo que as suas palavras produziam efeito, tornou-se mais loquaz, descrevendo toda a infância do pimpolho que havia de espancar as nuvens de tristeza que pesavam sobre aquela casa. Jorge parecia resignado; afagava a mão de Sarita, olhava-a enternecido e, como Cesário pousasse o dicionário, disse:
— Pois não há dúvida, minha filha. Não há dúvida. Queres, não é?
Sarita baixou os olhos sem responder, martirizando os dedos.
— Pois não há de querer, homem?
O enfermo insistiu:
— Queres, não?
E ela, tímida, com voz quase imperceptível:
— Quero...
— Pois sim — suspirou Jorge, deixando-lhe a mão.
A menina voltou-se subitamente, os olhos amedrontados:
— Está zangado comigo?
— Zangado! eu? por quê?
— Não quero que se zangue, paisinho; isso não.
— Não estou zangado, filha. Zangar-me, por quê? Vais para a felicidade, é o teu coração que te impele, deves segui-lo e eu sempre estarei contigo.
Houve uma grande pausa. Sarita levantou-se para que Jorge não lhe visse as lágrimas, foi até à porta e Cesário, com os olhos de um para outro, vendo-os comovidos, avançou de braços abertos:
— Antes assim, meu velho. Isto é que é! — E apertou o enfermo nos braços. — E agora, menina, o herói que se apresente. Não deve mais esconder-se no «maquis», venha francamente para que esta casa entre em nova fase. Um noivado é sempre alegre.
Mas Sarita saiu precipitada, soluçando, e os dois homens ficaram de novo sós: Jorge sempre pensativo, Cesário a passear ao longo do salão, ruminando palavras:
Decididamente não dava para aquilo. Era melhor não o chamarem mais para conselhos porque, enfim, se dizia a verdade sempre achavam coisas para contrapor. Deixassem-no com os seus livros. Jorge chamou-o:
— Ouve, Cesário, não te zangues...
Mas o «filósofo» irrompeu furioso:
— Pois não. Afinal, para que haviam de estar ali com histórias? Pois não era melhor que se entendessem de uma vez? Tinha alguma coisa a dizer, não queriam o casamento por isso ou por aquilo, falassem logo, mas estarem de caras amarradas, lacrimejando como duas crianças era até ridículo. A culpa era dele, porque tinha a mania de meter-se em tudo; bem feito.
Jorge procurava sorrir para atrair o «filósofo», que caminhava para o jardim enfezado.
Só, o enfermo cruzou as mãos sobre as pernas. Apesar de procurar o amigo com os olhos sentia-se bem nesse abandono; podia pensar à vontade. Cesário pigarreava fora e ele, num bem-estar preguiçoso, deixou-se ir pelo sonho, não como antigamente, a fantasia jocunda em que se via feliz, amado, em paços de fausto antigo, rodeado de mulheres que vestiam como as odaliscas turcas, musselinas e sedas mais excitantes que a própria nudez. Via o futuro, o futuro angustioso que ia atravessar, desde que Sarita aparecesse com o véu de noiva, pronta para acompanhar o homem que a devia possuir. E penetrava com o casal a alcova esponsalícia, vendo todos os enleios enternecidos, vendo as carícias que se faziam, ouvindo os beijos que trocavam... tudo, tudo, esse tremendo suplício que lhe estava reservado e, como se fosse verdade quanto sonhava, teve um gesto violento como para repelir o pesadelo do coração.
— Apre! Mas por que não há de ser? Por que não? Em que se funda Cesário para dizer que é quase um crime? Quem é capaz de amá-la como eu? Sim, por mais que esse moço a queira não há de amá-la tanto como eu... Isso não! Mas caiu numa prostração mental, ficou sem pensamento, o cérebro vazio, opaco. A carne vivia apenas incendida numa paixão erótica. O seu amor apresentava-se nitidamente, claramente, como um apetite bestial: sentia o cheiro da carne de Sarita, compunha-lhe todo o corpo num desnudamento vagaroso, da nuca aos artelhos; via-lhe a carne, de uma brancura de leite, a forma impecável do colo turgido, os braços alvos, torneados como fustes de colunas, sentia-lhe o hálito. De repente, num despertar doloroso, cravava os olhos num ponto da sala, pensando que todo aquele conjunto de belezas, toda aquela carne moça e virgem ia torcer-se em espasmos de amor nos braços de outro homem e o sangue parecia transbordar-lhe do coração, sentia a cabeça atordoada e gemia como numa tortura. «Que tenho eu com o que se possa dizer? Sim, que tenho eu? Não é minha filha, é uma moça que criei. Porque tenho mais anos que ela, porque estou doente? Ora, outros com mais cabelos brancos e em piores condições têm feito casamentos assim. Que tem? Ora essa! Criei-a, é com o que lhe dão... criei-a... Ora!»
Cesário entrou justamente quando o enfermo, nervoso, atirava um murro a uma das braçadeiras do pliant. Vendo-o carrancudo não lhe dirigiu a palavra, e, encaminhando-se para a mesa, começou a revolver papéis, acumulando-os; procurava, remexia, resmungando. Por fim, voltando-se inopinadamente para o amigo:
— Não viste aqui um volume do Taine? Um que eu estava lendo, um meu...?
— Não.
— Deixei-o aqui. Não faz mal, irá depois com as outras coisas.
— Irá para onde?
— Para onde? Para o hotel, comigo.
— Vais para o hotel? — perguntou Jorge, espantado.
— Hoje mesmo. Já! Tenho lá um cômodo e... preciso trabalhar.
— Que vais fazer no hotel, Cesário? Tens alguma coisa...
— Se tenho alguma coisa... Achas pouco?... Quem é que pode viver aqui com tanto choro!? São lágrimas desde a manhã até à noite e caras amarradas, maus modos. Eu, afinal, estou velho, não dou para isso. Que diabo! Não me consultem! E resoluto: Demais, eu não tenho nada com isto; que se estrangulem. Já não é pouco o que tenho a cuidar. És tu para um lado, a menina para outro, e eu que viva como uma espécie de caduceu. Afinal tens as tuas ideias e não quero que, mais cedo ou mais tarde, saias dizendo que aconteceu isso ou aquilo por minha causa, porque me meti com a tua vida. Nada! E, sempre arrumando, ajuntando as folhas de papel que andavam esparsas pela mesa: Sou só, em qualquer canto arranjo-me e, na minha idade, a paz de espírito é indispensável. Se posso viver tranquilo, porque hei de procurar aborrecer-me? Estimo-te muito e justamente por isso não quero ficar aqui. Para que havemos de andar com discussões por futilidades? Nada! A paz antes de tudo, acima de tudo. E, sacudindo a cabeça, atirando uma castanhola: Piro-me! Volto às minhas quatro paredes.
Jorge, com muita brandura, falou:
— Não tens razão. Que vais fazer? Então agora é que me queres deixar?
— Não te quero deixar! — bramiu. — Não te quero deixar, mas deves compreender que também não posso estar aqui todos os dias a ouvir indiretas e a ver carrancas. Enfeza! Não tenho sangue de barata. Não querem? Pois não façam. A mim tanto se me dá que casem como não; pouco me importa. Eu nada sabia, para que me vieram pedir conselhos? Sim, para que me vieram pedir conselhos? Agora é: porque o senhor Cesário é que tem culpa, porque se mete onde não é chamado... Eu bem ouço! Bem ouço! Faço-me de tolo quando quero. E, assomado:
— Até a Cegonha! Até a Cegonha, essa grandíssima sonsa... Estava, ainda há pouco, ali na varanda, a fazer cara de desconsolo. Já não sou criança nem estou disposto a servir de joguete a governantas, esta é a verdade. Vou-me embora! Ou quem sabe se essa Miss pensa que estou aqui por não ter onde descansar a carcaça? Está muito enganada!
— Mas ninguém pensa isso, Cesário: todos conhecem-te, consideram-te...
Mas o «filósofo» arremeteu de novo:
— Está muito enganada! Não me faltam casas. Tenho ainda o necessário para um buraco onde possa repousar a cabeça. Que tal? Está muito enganada! Pensa que vivo escravizado à sopa da casa... Os teus próprios criados fazem-me caras. Esse moleque principalmente. Ontem disse-lhe que me passasse uma escova nas botinas e o mariola... nem caso! Pois agarro-o por uma orelha que o deixo a tinir. Não estou disposto!
— São desconfianças tuas, Cesário. Todos aqui querem-te muito. Estás em tua casa, bem sabes.
— Em minha casa, isso não! Em minha casa, não; se assim fosse já esse moleque tinha voado pela porta com as costas amassadas. Admito lá que um negrinho meta-se a engraçado comigo! Tinha voado!
— Mas não te zangues, despeço-o hoje mesmo. Não te zangues.
Cesário abrandava. Deixara os papéis sobre a mesa e passeava de um lado para outro, alisando a barba, quando Bá apareceu com a bandeja do café; tomou uma das xícaras, enquanto a negra, carinhosamente, oferecia outra a Jorge.
— Inocêncio está em cima, Bá?
— Está sim, senhor.
— Manda-o aqui.
— Que vais fazer? — indagou Cesário.
— Despedi-lo.
A ama olhava espantada e ousou perguntar se o pequeno havia feito alguma coisa.
— É um atrevidaço... — rugiu o «filósofo». — É um atrevidaço! Mas não o despeças; deixa-o por minha conta. Eu mesmo hei de ensiná-lo. Dou-lhe tamanho pescoção que ele não sabe onde vai parar. Deixa-o por minha conta.
A calma restabeleceu-se e nessa noite Cesário declamou o primeiro capítulo da História, esvaziando toda a sua erudição vasta para dar uma amostra do que havia de ser essa grande obra de ciência e de estilo que ele meditava desde os vinte e cinco anos.
Era a sua esposa. Amava-a com estremecimento, dedicando-lhe toda a alma e toda a fidelidade do seu coração, virgem de outros amores. Os capítulos que ia concluindo mentalmente eram outros tantos filhos desse conúbio do espírito com a ciência, e ele costumava dizer, sempre que presumia ter completado as notas para um novo capítulo: «Tenho um novo rapaz!» E as bibliotecas eram as amas, onde os «petizes intelectuais» iam beber a vida e a força.
Leia gratuitamente Inverno em Flor, romance de Coelho Neto publicado originalmente em 1897. Esta edição em PT-BR moderno foi preparada a partir do fac-símile público da segunda edição de 1912, preservado pelo Wikimedia Commons, com 24 capítulos, restauração editorial, capa nova no padrão Literúnico e acesso integral no Aurora.
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