Universo da obra
Universo da obra
Inesperadamente, uma noite, tinindo a campainha, Inocêncio interrompeu uma erudita declamação de Cesário apresentando a Jorge um cartão de Aurélio Barroso. O enfermo carregou o sobrolho, meditando, com o cartão diante dos olhos. Lembrando-se, porém, ordenou ao criado que fizesse entrar para os seus aposentos a pessoa e, instantes depois, um homenzarrão grisalho, de óculos, fez estrugir no limiar uma saudação alegre. Jorge apresentou-o a Cesário:
— Dr. Aurélio Barroso, meu amigo — e declarou o nome e os méritos do «filósofo». Antigo condiscípulo de Jorge, deixara atirada a um canto, no canudo de lata, a carta de bacharel, preferindo negociar em café a tratar de causas nos tribunais, lidando com a gente das fazendas em vez de alistar-se no batalhão dos forenses. Era uma surpresa essa visita posto que, nos outros tempos, fosse um dos mais assíduos comensais da casa. Gordo e rubicundo, mal lembrava o estudante lépido que vivia a rimar líricas e a saltar muros, sempre comprometido em amores e em dívidas. Foi toda uma noite de recapitulações alegres as bambochatas noturnas, a república da Mooca, os versos de Tibério Gama, os folhetins políticos do Salústio, as monas do Cavadinho e a formosa Beatriz, que fora a musa de toda a geração do tempo, sabendo dispensar a todos o mesmo calor, o mesmo dengue, jurando fidelidade eterna em todos os travesseiros de estudantes. Mas o motivo principal da visita de Aurélio Barroso era mais sério: ia tratar do casamento de Sarita. O Dr. Mendes Loureiro encarregara-o de falar sobre o assunto, sabendo ser ele íntimo de Jorge, por não ousar apresentar-se na casa sem ter o consentimento do pai. E Barroso fez a biografia do pretendente vindo dos grandes avós, homens de reputado nome, conquistado em campos de guerra, diante de armas mouras, nas terras de Portugal e outros, mais pacíficos, trabalhando honradamente a leira, acumulando fortunas. E por parte da mãe, os Menezes, estancieiros no sul, de uma intrépida raça de revolucionários. Mostrou, como num mapa, toda a riqueza do jovem médico: as terras de cultura e as apólices que tinha; aludiu às notas que alcançara na academia e à brilhante figura que fizera nos hospitais de França e da Alemanha. Por fim descreveu o futuro da menina com aquele moço de tantos dotes, tão dócil, tão meigo que era como uma dama no trato íntimo.
Jorge ouvia-o, aprovando sempre e, como Barroso emudecesse, espalmando as mãos nas coxas, encarado nele à espera duma resposta, murmurou: «Que ia falar à Sarita. Não queria fazer um casamento contra a vontade dela. Ia falar e mandaria a resposta ao escritório logo que ouvisse a opinião da menina.» Mas Barroso, que ia informado, sorriu maliciosamente:
— Então estava tudo decidido porque os dois amavam-se, sabia ele. Nem o rapaz o encarregaria de tal comissão se não contasse com a menina. Não era tolo e, certo da vitória, prometeu para o próximo sábado a apresentação do noivo, para que aquilo ficasse decidido quanto antes, a fim de que, em setembro, pudesse partir para a Europa, deixando o afilhadinho em plena lua de mel. E entraram a falar dos anos que corriam. Estavam velhos, ele avô duas vezes. E, como Cesário o achasse ainda forte e jovem, com uma fisionomia de rapaz, disse-lhe, estendendo um grande beiço:
— Que já ia para os cinquenta e seis — e, batendo de leve no ombro de Jorge, perguntou: — E tu? Deves andar por aí ou estás mais longe?
— Cinquenta e sete.
Rejubilou. E como ia alta a noite levantou-se, prometendo a visita para o próximo sábado. Jorge deixou-se levar pelo «filósofo» para a câmara, molentemente, como uma criança vencida pelo sono. Do leito pediu ao amigo que desse toda luz ao gás a pretexto de que não podia conciliar o sono sem ler uma página e tomou de cima do velador uma brochura, abrindo ao acaso enquanto Cesário despia-se rusmungando contra os mosquitos que trombeteavam pelo aposento.
— Isto aqui parece um pequeno Josafá cheio de demônios que sopram fanfarras. Não sei donde vêm tantos mosquitos. Tenho de cobrir a cabeça para dormir. É um horror!
Em robe de chambre deu as boas noites caminhando para o gabinete onde arranjara a «sua tenda». O enfermo, só, ouvindo, de espaço a espaço, uma praga do «filósofo» que lutava com os mosquitos, deixou cair o livro e, com os olhos no baldaquino, onde a figura da Noite tinha rebrilhos e fulgurações tocadas pela luz do gás, começou a recompor todo esse dia de luta para o seu coração. Sentia-se abandonado, vítima de todos e de tudo. Os amigos revoltavam-se, outros vinham-lhe pela casa dentro como meirinhos arrancar-lhe o bem precioso e ela, longe de protestar, deixava-se levar pelos usurpadores. Ingrata! Ingrata! Ingrata! O silêncio era completo; o «filósofo» adormecera. Jorge atirou para cima do velador o volume para entregar-se aos seus pensamentos. Tinha ideias desencontradas, reminiscências vagas que lhe apareciam. Pensando em Sarita, no seu casamento próximo, via-se transportado à Mesopotâmia, saltando muros ao apelo da negra que o levava, através da noite sossegada, às senzalas onde as mucamas esperavam-no palpitantes. Mas, subitamente, um grito agudo repercutia dentro dele; arregalava os olhos cheios de espanto, circulava o quarto com a vista assombrada e via passar, como uma fúria arrancada ao passado triste, a mãe, louca, desalinhada, os olhos injetados, brandindo os braços em acessos furiosos. E vinha-lhe então uma calma dolorosa. E se ele acabasse como ela? Se aquele mal se transmitisse ao seu espírito entenebrecendo-o, brutalizando-o?
A mãe começara junto de um cadáver e ele era junto da própria alma ferida que sentia a aproximação da loucura. Aquelas indecisões, aquelas inércias, a memória que lhe fugia como se lhe apagassem sempre os fatos da véspera como, para uma nova operação, apagam-se numa pedra os números escritos, as crises de tristeza, todo aquele indefinível estado da alma não seria preparado para receber a loucura? Abriam-lhe um grande vácuo no cérebro como se lhe estivessem a fazer a cova para a alma. Era a loucura, a triste herança. Trouxera-a do ventre materno, sugara-a no leite vital, ganhara-a nos carinhos. O estigma vivia dentro dele adormecido, enroscado como uma víbora e agora distendia-se e ia aos poucos tomando conta do espírito, intoxicando-o com o seu veneno terrível. A que estava morta penetrava-o, ele sentia a obsessão da finada, tinha-a no corpo, era como um possesso tomado pela alma materna e, pensando, sofria dolorosamente prevendo o fim triste que lhe estava reservado — a jaula, a célula e todo ele demudado, hirsuto, a bramir, confessando, na inconsciência, a sua paixão criminosa, porque tinha certeza de que, ainda louco, não esqueceria essa dominante, absorvente ideia amorosa, que o mantinha ainda, como uma parasita forte mantém um tronco carcomido e podre.
Mas esmaecendo esse pensamento sinistro, Sarita voltou a ocupar-lhe o espírito. Entrou a compor o noivo, a imaginá-lo: um lindo rapaz novo e forte, belo como Apolo, afagando-a com o seu braço possante de homem sadio, beijando-a e recebendo na boca o seu beijo, o seu primeiro beijo de virgem, tímido, medroso e os dois unidos, num silêncio infinito, indo pelo grande amor, esquecidos do mundo, esquecidos da vida, como levados pela derivação branda de um rio de leite, enquanto ele, agarrado às grades da prisão de louco, bramia, vendo-os como dois anjos bem-aventurados que ganhavam a Altura feliz, espalhando beijos. E Barroso, a contemplá-los, gozando com a felicidade de ambos, aconselhando-os, felicitando-os. Essas estranhas ideias baralhavam-se — uma cena imaginada era subitamente interrompida por um episódio cômico que aparecia sem razão e confundia tudo. Agitava-se como para afugentar a visão pertinaz, mas debalde, porque o seu espírito era pródigo e criava-as continuamente, incessantemente em grandes lampejos de miragens que apareciam e desapareciam. Cerrou os olhos, mas a claridade atravessava-lhe as pálpebras numa coloração vermelha como de sangue. Abria-os, fechava-os de novo, com força. Vinha-lhe o sono. Ia dormindo quando de repente, viu o Dr. Loureiro de pé, junto ao leito, armado como um facínora, ameaçando-o. Abriu de ímpeto os olhos, espantado, pronto a gritar, mas a câmara estava deserta. Cesário roncava tranquilamente no gabinete.
— Ah! meu Deus! — suspirou, passando a mão pelos olhos. — Que horror! Isto é um suplício... Que horror! Afinal preciso resolver de uma vez a minha vida, isto não pode continuar assim: é um sofrimento atroz que se vai prolongando. É mesmo melhor que ela vá, é melhor. Longe, poderei esquecê-la facilmente. É melhor! Viver com ela, sentindo-a feliz ao lado de outro homem... Mas Sarita apareceu-lhe de novo criança, meiga nos seus oito anos quando, aterrada, a chorar de medo, saltava da cama em camisa e ia procurá-lo, dormindo com ele, agarrada ao seu peito, a cabecinha enterrada nos travesseiros, confiada e tranquila, certa de que ali não iriam persegui-la as sombras más. Via-a nesse tempo e porque não havia de amá-la como a amava então, com o sentimento de pai, antevendo o seu futuro ela casada, carinhosa e meiga, cercada de anjinhos que viriam para os seus braços, para o seu leito, dormir com ele como a maman outrora? Porque não havia de amá-la assim? com esse amor sereno, todo espiritual em que entra apenas a alma?
Cesário era um esquisito, mas tinha razão no que dizia. Era todo um passado de ternura que ele sonhava destruir num momento, atirando-se bestialmente àquele corpo que havia visto crescer e que trouxera do berço, pequenino, inocente até àquela idade. Havia, por certo, algum espírito mau que lhe inspirava ideias tais era a Loucura, era a alma tenebrosa da finada que o penetrava arrastando-o de alucinação em alucinação, de torpeza em torpeza, para a absoluta inconsciência, para o desrespeito, para a falta de escrúpulos, para o crime. Sentia-se dominado por uma força perversa que o impelia às aberrações. Devia ser a alma da morta que tomava conta do seu espírito, e, num arrojo de crença infinita, como se, efetivamente, tivesse diante dos olhos a alma perseguidora, falou-lhe: «Ó minha mãe! minha mãe! Que hei de fazer, minha mãe?!» Depois, calado, os olhos fitos, cheio de uma grande ternura de sofrimento, começou a chorar. E medroso, sentindo-se muito só na vastidão da câmara, silenciosa como um sepulcro, bradou pelo «filósofo»:
— Cesário!
Cesário!
— Que é! Que é?! — acudiu o amigo, aparecendo, quase no mesmo instante, à porta, o robe de chambre aberto, os olhos esgáseados. — Que é? Que é? Que tens?
Jorge ansiava rolando os olhos, aflito; por fim suspirou:
— Ah! Imagina... vi minha mãe ali na porta, de pé, olhos enormes, muito branca...
Instintivamente olhou para a porta onde o reposteiro caía pesado e sombrio.
— Sonhos, sonhos! — disse Cesário. — Sonhaste. Vê se concilias o sono. Andas sempre a pensar em coisas extravagantes. Estou a ver que um dia apareces espírita. Também nada mais te falta. Dorme, deixa-te de visões. E bocejou com estrondo.
— Palavra de honra, Cesário; palavra de honra: vi.
— Pois sim, mas eu fico agora contigo; sempre quero ver se aparece alguma alma.
E sentou-se aos pés da cama. Jorge, animado com a presença do amigo, tornou-se loquaz, confessando o terror secreto que, de vez em quando, o acometia: terror da loucura. Sentia que já não era o mesmo, tinha grandes lacunas, falhas sensíveis no cérebro, prostrações, ideias disparatadas. Quando pensava na mãe vinha-lhe a certeza tremenda de que havia de acabar como ela, nas mesmas contorções, na mesma inconsciência. Acreditava na hereditariedade e, consultando livros que tratavam conscienciosamente da loucura, achava todos os fenômenos que sentia descritos entre os primeiros sintomas da anarquia mental. Não tinha dúvidas sobre o seu destino. Os césares tinham, nas horas do triunfo, um homem que os seguia salmodiando o memento: «Lembra-te que és mortal.» Ele tinha no coração uma voz que, a todo instante, lembrava-lhe a loucura. Tinha aquilo como um caso julgado. Esperava o momento com a calma com que um convicto espera a visita do carrasco. Que havia de fazer? Era um rebento de mandrágora, fatalmente, mais dia, menos dia, havia de produzir o veneno. Preferia a morte. Antes tivesse sucumbido à apoplexia — estaria em paz, na grande paz infindável, porque a vida já lhe pesava, tanto lhe custava arrastar o próprio corpo, que parecia agrilhoado pela paralisia. Tinha algemas fortes que o prendiam eram as suas ideias, eram os seus movimentos. Demais, no dia em que a loucura inundasse o seu espírito, antes que perecesse todo aquele inferno que ele tinha no coração, muito havia de sofrer. E se lhe ficasse viva, dentro da noite da Loucura, uma só ideia? Que tormento! que suplício... Antes a morte! Cesário ouvia-o impassível, e como ele suspirasse cheio de desânimo, interveio:
— Tu o que tens é uma grande dose de fantasia. Fala, isso é bom. Mas que diabo tens a fazer nesses livros de medicina? Meu amigo, eu que aqui estou já sofri uma famosa hipertrofia do fígado, porque, à falta de leitura, quando andei pelas serras mineiras, atirei-me a uma patologia interna e descobri que tinha a tal moléstia. E não foi só essa: tive todas, todas, identifiquei-me com o compêndio. Pois, meu caro, se não fechasse o livro em tempo, teria morrido de todas as moléstias e o meu certificado de óbito seria um índice. Queres saber qual é o pior bacilo? É a imaginação. Um médico que estudasse Argan faria mais do que todos esses que vivem a procurar infinitamente pequenos. Descubram a circunvolução cerebral onde reside a doida que faz os poetas e os heróis, extirpem-na e o mundo ganhará uma calma imperturbável. Convence-te disso: a imaginação é obra satânica. Deus não faria esse alucinante presente à sua criatura. A imaginação é que produz todas as miragens. Tenho ideia de consagrar no meu prólogo uma página forte à Imaginação, porque, em verdade, foi ela que fez a civilização dos mundos. A religião, Deus... Quem é Deus? A imaginação dos aterrados. Foi o pavor que criou a divindade. Assim tu... Estavas para aí sem sono, pensando em tua mãe, tiveste medo — o medo é criador — e viste-a... Ali? Ali na porta? Não, viste-a na própria retina. Acompanha o desenvolvimento científico, o desenvolvimento artístico: o primeiro astrônomo? Um pastor da Caldeia; o primeiro artista? Um arquiteto de túmulos — os dois mistérios: a harmonia das esferas e o Além. És cerebrino. O que predomina em ti é a imaginação com prejuízo das outras forças cerebrais. Eu bem vejo, eu bem vejo. E olha que podes enlouquecer, não por antecedentes ou hereditariedade, mas por preocupação. Isso sim. Manda à fava Lombroso se não queres perder o juízo. E dorme. Vai ao homem do campo e pergunta-lhe pelos ascendentes, ele dirá que veio de uma mulher, sem entrar em análises de psicologia: se a mãe era uma histérica, se o pai era um matoide, e é feliz na ignorância. Nós, não. Como se não bastasse o cuidado que devemos ter com a nossa alma, ainda vamos desenterrar psicoses de ávitos: que manias tinha o tataravô, como pensava a avó, que ideias dominavam o espírito do nosso pai, em que consistia a moléstia da maman e procuramos até nos padre-nossos que ela rezava junto do nosso berço a forma mística de uma degenerescência. É estopante, hás de convir. Olha, meu pai foi um valente soldado, distribuiu golpes tremendos, teve cicatrizes gloriosas; e eu? Vivo a pedir a paz e um livro; detesto as guerras, no entanto devo ter nas veias o sangue desse soldado. Qual hereditariedade, não penses nessas coisas! A vida não é assim tão alegre para que procuremos constantemente entristecê-la com imaginações. Dorme, e deixa lá a alma de tua mãe em paz.
Jorge ouvia atento e, quando Cesário, cansado da loquacidade, deixou a cama, chamou-o como se receiasse perdê-lo.
— Não vou, descansa. Fico aqui contigo. Estás como uma criança. Vê lá se queres que te conte uma história de fadas e de príncipes encantados. Dorme; não é cedo. Vai ganhando forças, porque o médico quer que comeces com a eletricidade agora no princípio do mês. E já é tempo para acabares de uma vez com essa história.
— É possível que seja como dizes, é bem possível que seja imaginação, mas a verdade é que muito me faz sofrer. Quando não é uma coisa é outra. Felizmente vamos decidir essa dificuldade...
— Que dificuldade?
— O casamento de Sarita.
— Ahn! — fez «o filósofo».
— Ela quer, o rapaz está em condições de a fazer feliz, que se casem e eu vou por aí correr mundo em busca de saúde e de tranquilidade. Estou envelhecendo, sinto. Já me faltam forças. Calou-se, concentrou-se, os olhos imóveis, fulgurantes.
Cesário distraíra-se, balançando a perna, os olhos na treva da sala, em frente. E o enfermo, extasiado, revia o seu sonho. Era Sarita. Agora, porém, não eram somente os olhos que participavam da visão, era todo o seu corpo. Sentia um bem-estar voluptuoso como se fosse mergulhando num banho tépido; frêmitos corriam-lhe a flor da pele, o sangue afluía-lhe em jatos ao cérebro, o pulso precipitava-se como num acesso de febre. E a miragem venusta molentemente, ora nítida, quase palpável, ora fluida, ia e vinha eterizando-se como uma bruma que se dilui. Os olhos do enfermo dilatavam-se, tremiam-lhe os lábios, por fim as pálpebras caíram e um suspiro fugiu-lhe da garganta.
Cesário voltou-se e vendo-o de olhos fechados, os braços abertos sobre os travesseiros, disse baixinho:
— Está dormindo...
— Não! — fez ele debilmente, abrindo os olhos amortecidos. — Não tenho sono.
E, como receando o olhar do amigo, num ímpeto de pudor, puxou os lençóis e voltou-se para a parede. Cesário ergueu-se e caminhou para o salão, abriu uma das janelas. Uma luz baça penetrou.
As roseiras, vistas através da bruma matutina, pareciam apenas esboçadas muito de leve numa tela de gáse. O céu brancacento, baixo, ameaçava chuva e, para o lado das montanhas, tudo era branco como se por ali houvesse rolado a lã tosquiada a um grande e claro rebanho de ovelhas. E fluía no ar em fumo a névoa rala e transparente. Não havia horizontes tudo guardava a cor da manhã fria e de chuva. Ouvia-se o farfalho das árvores distantes e o canto longínquo dos galos. Pássaros passavam como sombras através do nevoeiro denso e sentia-se o cheiro das magnólias que se fechavam pudicamente. Cesário aspirou com volúpia o bom ar leve e fresco da manhã e deixou que penetrasse o salão para purificá-lo. À meia luz encaminhou-se para a mesa, revolveu papéis e, achando um livro, tomou-o e seguiu, em pontas de pés, até o quarto. A luz do gás parecia amortecida, de um tom pálido; o ar era morno e denso. Jorge dormia, a boca aberta, ressonando, mas subitamente estremeceu, abriu os olhos, espantado:
— Cesário!
— Então! Já me tomavas por uma alma, hein...! Sabes que horas são? Cinco. Olha! — E, correndo o reposteiro, mostrou ao enfermo a luz nevoenta da manhã que entrava no salão. — Vê se dormes.
— E tu?
— Já tenho a minha conta: dormindo quatro horas estou satisfeito. Vê se dormes. E apagou o gás seguindo para o salão com o volume entre os dedos.
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