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Cantos à beira-mar

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Cantos à beira-mar

Capítulo 1 · Cantos à beira-mar

Uma lágrima

1 de 55 ≈ 4 min de leitura

Sobre o sepulcro de
minha carinhosa mãe.

E eu vivo ainda!? Nem
sei como vivo!...

Gasto de dor o coração
me anseia:

Sonho venturas de um
melhor porvir,

Onde da morte só pavor
campeia.

Lá meus anseios sob a
lousa humilde

Dormem seu sono de
silêncio eterno!

Mudos à dor, que me
consome, e gasta.

Frios ao extremo de meu
peito terno.

Ah! Despertá-los quem
pudera? Quem?

Ah! campa... ah, campa!
Que horror, meu Deus!

Por que tão breve — minha
mãe querida,

— Roubaste, oh morte,
destes braços meus?!!...

Oh! não sabias que ela
era a harpa

Em cujas cordas eu
cantava amores,

Que era ela a imagem do
meu Deus na terra,

Vaso de incenso
trescalando odores?!

Que era ela a vida, os
horizontes lindos,

Farol noturno a me guiar
p’ra os céus;

Bálsamo santo a
serenar-me as dores,

Graça melíflua, que vem
de Deus!

Que ela era a essência
que se erguia branda

Fina, e mimosa de uma
relva em flor!

Que era o alaúde do bom
rei — profeta,

Cantando salmos de
saudade, e dor!

Que era ela o encanto de
meus tristes dias,

Era o conforto na
aflição, na dor!

Que era ela a amiga, que
velou-me a infância,

Que foi a guia desta
vida em flor!

Que era o afeto, que
eduquei cuidosa

Dentro do peito... que
era a flor

Grata, mimosa a derramar
perfumes,

Nos meus jardins de
poesia, e amor!

Que era ela a harpa de
doçura santa

Em que eu cantava
divinal canção...

Era-me a ideia de Jeová
na terra,

Era-me a vida que eu
amava então!

Oh! minha mãe que
idolatrei na terra,

Que amei na vida como se
ama a Deus!

Hoje, entre os vivos te
procuro — embalde!

Que a campa pesa sobre
os restos teus!...

Como se apura moribunda
chama

À hora extrema da
existência sua:

Assim minha alma se
apurou de afetos,

Gemeu de angústias pela
angústia tua.

E não puderam minha dor,
meu pranto,

Pranto sentido que
jamais chorei,

Oh! não puderam te
sustar a vida,

Que entre delírios para
ti sonhei!...

E como a flor pelo rufão colhida

Vergada a haste, a se
esfolhar no chão,

Eu vi fugir-lhe o
derradeiro alento!

Oh! sim, eu vi... e não
morri então!

Entanto amava-a, como se
ama a vida,

E a minha eu dera para
remir a sua...

Oh! Deus — por que o
sacrifício oferto,

Não aceitou a
onipotência tua!?!...

Vacila a mente nessa
acerba hora

Entre a fé, e a
descrença...oh! sim meu Deus!

Estua o peito, verga
aflita a alma:

Tu me compreendes, tu
nos vês dos céus.

Vacila, treme... mas na
própria mágoa

Tu nos envias o chorar,
Senhor;

Bendito sejas! que esse
pranto acerbo,

É doce orvalho, que nos
unge a dor.

Lá onde os anjos
circundam, dá-lhe

Vida perene de imortal
candura:

Por cada gota de meu
triste pranto,

Dá-lhe de gozos divinal
ventura.

E à triste filha, que
saudosa geme,

Manda mais dores, mais
pesada cruz;

Depois, reúne à sua mãe
querida,

No seio imenso de
infinita luz.

Cantos à beira-mar

Sinopse

Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Cantos à beira-mar

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