Universo da obra
Universo da obra
Embora eu goste de
escutar sozinha,
O mago acento da ternura
tua:
Embora em meus
transportes eu te adore,
Embora sobre mim teu ser
influa;
Embora eu folgue por te
ver risonho,
Cativo ao meu querer, a
mim rendido;
Embora amor te abrase o
peito em sonho,
E meu peito o adivinhe
enternecido;
Embora venha a flor
desses teus lábios,
Essa frase sonhada, e
misteriosa;
Essa palavra mágica, que
enleva
Como perfume de
orvalhada rosa;
Embora em escutá-la eu
despertasse
Deste longo torpor, — desta
apatia;
Embora de meu peito
transbordasse
Em ondas de prazer louca
alegria;
Sepulta-a no mais imo da
tua alma,
Volvê-la à custo embora —
ao coração:
Imponho-te o silencio,
que me imponho,
Embora eu sinta por te
amar — paixão.
Talvez, sim, que
minh’alma te compr’enda;
Talvez que nos estreite
um só querer;
Talvez... mas, ah!
porque rasteira grama
Intentas, louco! de seu
leito erguer!...
Não sabes que isolada
ela vegeta
Deserdada por Deus de
afeto, e amor?
Ah! não lhe toques, — não
lhe dês teu pranto:
Deixa-a isolada,
emurchecer de dor.
A hora em que nasci
sumiu-se o disco
Do sol luzente — e uma
estrela pura
Não fulgiu no lençol
azul do céu,
Amenizando-me a
existência dura:
E avara de gozos foi-me
a infância,
Para os demais idade
venturosa...
A primeira expressão da
minha vida,
Foi do infindo pesar — dor
venenosa.
A custo hei arrastado os
longos dias
De penosa aflição já bem
eivados;
Custei-me a dominar — não
formo queixas
Contra o capricho de
meus agros fados.
Deixa que eu sofra sem
que o saibas tu,
Paixão ardente me ondear
no peito:
E que se exalte o
coração de afetos,
E que se estremeça por
amor sujeito.
Deixa em segredo repetir
minh’alma
Que o meu ouvido não me
escute o acento,
Que és o doce enlevo do
meu peito,
O bem que me absorve — o
pensamento.
Mas nunca intentes
arrancar-me aos lábios
De amor a misteriosa
confissão.
Impossível me fora...
oh! impossível! –
Sem que o saibas é teu —
meu coração.
Posso dar-te a
existência — a vida inteira;
Contigo partilhar
ventura, ou dor;
Mas, nunca a teus
ouvidos murmurara
Com mago acento esta
palavra — amor!
Embora em repeti-la eu
despertasse
Deste longo torpor,
desta apatia;
Embora de meu peito
transbordasse
Em ondas de prazer minha
alegria.
Sepulto-a no mais fundo
de minh’alma,
Volva-a a custo embora —
ao coração;
Imponho-me o silêncio
que te imponho,
Embora sinta por ti
amor, paixão.
Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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