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Cantos à beira-mar

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Cantos à beira-mar

Capítulo 44 · Cantos à beira-mar

À minha extremosa amiga

44 de 55 ≈ 3 min de leitura

D. Anna Francisca Cordeiro

Donzela, tu suspiras — esse
pranto,

Que vem do coração
banhar teu rosto,

Esse gemer de lânguido
penar,

Revela amarga dor — imo
desgosto:

Amiga... acaso cismas ao
luar,

Terno segredo de ignoto
amor?!...

Soltas madeixas
desprendidas voam

Por sobre os ombros de
nevada alvura;

Tua fronte pálida os
pesares c’roam

Como auréola de
martírio... pura,

Cândida virgem... que
abandono o teu?

Sonhas acaso com o viver
do céu!

Sentes saudades da
morada d’anjos,

D’onde emanaste?
enlanguesces, gemes?

É nostalgia o teu
sofrer? de arcanjos

Perder o afeto que te
votam — temes?

Ou temes, virgem — de
perder na terra,

Toda a pureza que tu’alma encerra!?...

Não, minha amiga — que a
pureza tua

Jamais o mundo poderá
manchar:

Límpida vaga a
melindrosa lua,

Vencendo a nuvem, que se
esvai no ar,

E mais amena, mais gentil,
e grata

Despede às águas
refulgir de prata.

Que cismas pois? por que
suspiras, virgem?

Por que divagas
solitária, e triste?

Delira a flor — e na
voraz vertigem

D’um louco afeto, té morrer persiste...

Pálida flor! o teu
perfume exalas

Nesses suspiros, que
equivalem falas.

Cismas à noite... que
cismar o teu?

Sonhas acaso misterioso
amor?

Vês nos teus sonhos o
que encerra o céu?

Aspiras d’anjos o
fragrante olor!?

Porque, não creio que a
esta terra impura

Prendas tua alma,
divinal feitura.

Não. É resumo dos afetos
santos

Que além se gozam — que
uma vez somente

À terra descem,
semelhando prantos.

Que chora a aurora sobre
a flor olente:

Meigos, sem mancha,
vaporosos, ledos,

Puros, — de arcanjos
divinais segredos.

Sentes saudades da
morada d’anjos!

Sentes saudade do viver
dos céus?

Ouves os carmes de
gentis arcanjos!

Soluças n’harpa teu
louvor a Deus!?...

Anjo! descanta sobre a
terra ímpia

Místicas notas de
eternal poesia.

Cantos à beira-mar

Sinopse

Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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