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Cantos à beira-mar

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Cantos à beira-mar

Capítulo 50 · Cantos à beira-mar

Desilusão

50 de 55 ≈ 3 min de leitura

É sempre assim a vida, —
mero engano:

Após o riso, lágrimas, e
dor,

Pungentes amarguras...

Um querer que renasce
louco, insano

E quebra-se no nada, sem
fragor,

Como sombras em ermas
sepulturas.

Assim compensa o mundo o
amor mais terno,

O doce sentimento de
afeição,

O mais fino sentir...

Embora! o amor não é um
gozo eterno,

Abrasa o peito, a alma é
um vulcão,

Pode tudo n’um’hora consumir.

Pode de cinza, e larvas
enastrar

O peito já cansado, — e
após a neve

Sobre ele chover:

Depois — da vida a tarde — o encontrar

Em apático existir já
morta a seve,

O gérmen, a esperança,
ou o querer.

Mas, seja fogo, ou gelo
a recompensa

Do amor: — esse extremo
não destrói

Outro mimo, outro afeto.

Malgrado tanto azar,
mesmo descrença,

Inda resta a amizade — a
quanto dói

Consolo, refrigério,
asilo certo.

Assim sonhei eu triste!
em meu cismar,

Depois que o amor, que
amei roubou-me a morte,

E em vão carpi!

Engano! Quem desfez o
meu sonhar?

Fatal desilusão!...
mesquinha sorte!

Como o amor também fugir
a vi...

Tudo... tudo esvaiu-se,
amor que amei;

Afetos melindrosos como
a flor,

Que nasce entre a geada:

Extremos tão ignotos que
eu sonhei,

Singelas afeições,
mimoso amor.

Tudo varreu-me a
tempestade irada.

Agora ao mundo presa na
aparência,

Sôfrega sorvendo o cálix
do prazer.

Só nele encontro fel!...

Da dor calou-me o peito
a acre essência,

Resumo inexplicável do
sofrer!

O mundo me acenou, — chamou-lhe
— mel.

Escárnio! Quanto dói
demais na vida.

De amor o esquecimento —
da amizade

A fria recompensa.

Tudo hei provado na
afanosa lida,

De uma louca, e cansada
ansiedade –

Delírio, sonho, engano —
árdua sentença!

Sem amor, sem amigos,
sem porvir.

Sem esperanças, ou
gozos: — sem sequer

Quem sinta a minha
dor...

Só no mundo — só...
triste existir!

Que me resta, meu Deus! —
que resta a ver,

Se tudo hei visto neste
longo error!!!...

Basta! basta minh’alma
... o teu sofrer

Infindo — o teu prazer
sem esperança.

Foi só o teu condão!...

Vai como a roda em
solidão gemer:

Da tempestade após vem a
bonança

Terás na campa a paz do
coração.

Cantos à beira-mar

Sinopse

Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Cantos à beira-mar

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