Universo da obra
Universo da obra
Dedicada ao meu prezado
tio — o Sr. Martiniano José dos Reis.
Tributo de amizade.
Lá, no marco da estrada
solitária,
Que o silêncio não
quebra a voz humana;
O mísero, infeliz, com
Deus sozinho,
A braços com seu fado
endurecido,
Implacável, mortífero — chorando,
Geme ferido de aflitiva
angústia...
Goteja-lhe das chagas incuráveis
O sangue, a vida, que
correr nem sente;
Porque lá no mais fundo
de sua alma,
Lá nas dobras do peito
amargurado,
Doloroso pungir de mil
desditas,
De duras privações, de
longas dores
O mesquinho existir lhe
vão minando...
Agudo espinho de cruenta
angústia
Penetra-lhe incessante o
peito opresso,
Por contínuo sofrer — ulcera
todo!...
Mas, a dor que seus
membros enregela,
A dor, que não tem
prantos que a mitiguem,
A dor, que funda rasga-lhe as entranhas,
E cava o seu sepulcro...
a dor mas agra,
Que ao mísero consome em
seu desterro,
Não é ainda assim
físicos males,
Úlceras, que destroem...
é dor mais lenta,
Mais cruciante — a de
viver sozinho,
De todos desprezado...
arbusto triste,
Que em terra pedregosa
habita ermo.
Enquanto humilde choça
além descerra
As portas — devassando o
seio limpo
De móveis, de riqueza — de
uma cama,
D’um ente, a quem o
triste se socorra;
Ele! a
fronte apoiada sobre um tronco
Anoso, e carcomido, já
sem ramas,
Que possa generoso amiga
sombra
Sobre teus membros
difundir um’ora.
Cruzadas sobre o peito
as mãos rugosas,
Sobre o peito dorido...
aí o dia,
A noite, o pôr do sol, —
a tempestade,
Do raio o sibilar, luzir
dos astros,
Luz, cerração, ou calma,
ou ventania,
Orvalho matinal, frio
noturno,
Encontram-no, atalaia
imóvel, muda,
Fundida no sofrer de
amargas dores!...
Que lhe resta na terra?
amargo pranto!
No extremo do sofrer
mesquinha cova
Sumida, e triste na
espessura agreste!
Ainda assim exígua, sem
letreiro,
Cavada pela mão da
caridade;
Sem cruz, sem lousa, que
recorde um dia,
Com mágoa — ao viajor — que
aí se escondem
Os despojos mortais d’um
desgraçado...
E só sobre essa campa
solitária
Virão da mata as
dessecadas folhas
Rolando enovelar-se — e
o vento rijo
Sacudi-las iroso...
Porque um pranto
De coração, que o ame
enternecido,
Nascido da saudade — não
viria
Rorejar-lhe na campa o corpo inerte!...
Família! esposa, irmãos
e filhos caros,
Que amava com ternura — último
elo
Da cadeia de amor, que o
prende à vida,
Longe deslizam seus
formosos dias.
Coitado! lá no ermo de
sua vida,
Eivada de amargura — ele
cogita
Os meios de revê-los...
mas — suspende
Esse louco desejo. E
desvairado,
Errante, sem descanso
almeja o dia
Fatal, e derradeiro! É
triste vê-lo,
Medonho espectro
gotejando sangue!...
Mais tarde fatigado,
esmorecido,
Receando — infeliz! dar
desagrado
Com a terrível presença
aos que o esmolam;
Vai com lânguido passo,
os olhos baixos,
Escondido no monte
escuro, e negro
Que a noite desdobrou
por sobre a terra;
Vai mísero, abatido, e
titubeante
Ao casal mais vizinho — o
pão amargo
Pedido entre soluços — recebendo!
E logo volve à desolada
estrada,
Ao tronco anoso se
reclina — e morre!...
Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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