Universo da obra
Universo da obra
Oferecida ao Ilmo. Sr.
Dr. Henrique Leal como prova de profunda e sincera gratidão.
Como era meiga a
donzela!
Tão puros os lábios
dela,
Tão virgem seu
coração...
Seu sorriso lisonjeiro,
Seu doce olhar tão
fagueiro,
De tão celeste
expressão!
Era ingênua, era
inocente,
Como a flor que
brandamente
De manhã desabrochou;
Que por ser cândida e
pura,
Ter aroma, ter frescura,
Dela — o sol — se
enamorou.
Mas foram graças
ligeiras,
Como promessas
fagueiras,
Que se não realizou ...
Como risonha esperança,
Que vem funesta mudança
Matar o que se esperou.
Agora sumiu-se no
trépido ocaso
Por entre negrumes seu
astro do dia;
Fugiu-lhe dos lábios o
riso tão puro,
Secou-se-lhe a fonte de tanta alegria.
Agora devagar nos campos
sombrios,
Se entranha nos bosques,
procura a solidão...
E pálida a face, e
mórbida a fronte,
No peito lhe ondeia
pungente aflição.
Agora secou-se-lhe a fonte do pranto,
Agora envenena-a
profundo sofrer...
Agora na vida de gozos
tão nua,
À triste só resta da
morte o prazer.
Agora expirou-lhe seu riso inocente:
Seus lábios tão puros
perderam o rubor...
Agora lamenta seu triste
abandono,
Agora em silêncio se
nutre de dor.
Se prantos tivesse que a
dor orvalhasse,
Se um triste gemido
pudesse exalar...
Se ao menos a chaga, que
sangue goteja
Pudesse-lhe a vida
penosa acabar...
Se aos ventos que
passam, se a brisa, se as flores
Pudessem em segredo seu
mal confiar!
Mas, ela receia... que a
todos escuta
Sorriso de escárnio que
a pode matar.
Coitada — perdida! qual
ave sem ninho,
Vagando na terra, qual
concha no mar.
Se doce esperança
procura afanosa,
No extremo da vida só
pode encontrar.
E ela mendiga de
andrajos coberta,
As faces retintas de um
triste palor,
O pão que lhe esmolam de
lágrimas rega,
Subindo-lhe ao rosto do
pejo o rubor.
No peito, que existe tão
puro qual era
Ondeiam-lhe chamas ardentes de amor;
E ela recorda seus dias
de outr’ora,
E sente su’alma partir-se de dor.
É triste, coitada!
ludíbrio da sorte,
Afaga uma ideia — delírio,
loucura!
Revê-lo um momento — revê-lo
um só dia,
Embora mais funda lhe
seja amargura.
É fundo o desejo que
nutre em silêncio,
Que ateia, que acende,
que abrasa a paixão;
Embalde ela invoca dos
céus o auxílio,
Embalde ela almeja
guiar-lhe a razão.
Se prantos tivesse,
coitada, mesquinha,
Que a dor lhe pudesse do
peito abrandar,
Se esse a quem ama, que
cega idolatra
Quisesse suas frágoas, sua dor desterrar...
Mas, triste, — afligida,
ludíbrio da sorte,
Afaga uma ideia... que
longo sofrer!
É vê-lo um momento — provar-lhe
os extremos,
Que na alma lhe cavam
contínuo morrer.
Ah! ele? quem sabe?
talvez se partisse,
Um dia somente viveu-lhe
o amor...
Foi terno, foi breve,
foi vida d’um’hora,
Fugiu como a grata
fragrância da flor.
Mulher, que de teus pais
eras o encanto,
Primor da criação... por
que murchaste?
Essas frases dolosas,
sedutoras,
Por que na flor dos anos
— escutaste?
Não vias que eras flor —
e a mariposa,
Roubava-te o perfume em
beijo impuro?
Não vias que uma nuvem
eclipsava
Teu belo, luminoso,
áureo futuro!?!...
Passa a brisa namorada,
Rouba da rosa o odor,
Ela sentida — definha,
E morre de dissabor.
Assim por linda donzela
Passa o torpe sedutor,
E seus mimos, seus
encantos,
Rouba infame e sem amor.
E ela, em triste
abandono,
Sem consolo ou
esperança,
Chora seu agro destino,
Sem nele sentir
mudança...
E vai chorosa, afligida
À sacra etérea mansão:
Porque só Deus
compreende
Que é puro seu coração.
Mulher, que eras tão
pura como a rosa,
Tão meiga a tua voz — tão
doce o olhar,
Como céu que esmaltou
gentil aurora
Como trépida a fonte a
murmurar.
Por que escutaste de sua
voz o acento,
E palpitou o teu coração
de amor!?!
Porque no teu delírio
d’um momento
Trocaste pelo opróbrio o
teu candor!
Qual Eva no Éden saída
apenas
Das mãos do Criador, — mimosa
e pura,
E logo no pecado
submersa
Eivado o coração pela
amargura.
Agora o que te resta
sobre a terra,
Se aos
teus afetos não compensa amor?
Que de esperanças — ou
de gozo resta
À bela, e triste
abandonada flor!?!...
Teus pesares, teus ais a
quem comove?
Quem sente o pranto teu —
de coração?
Quem nos seios da alma
te lamenta?
Quem ouve o teu soluço
de aflição!?
Tu eras tão bela!
mudou-se o teu fado!
Só dor, e remorsos
torturam-te a alma.
Ai! mísera, triste de
andrajos coberta,
Divagas sem tino no
frio, e na calma.
E ele esquecido de tudo —
é feliz,
Nem lembra a florzinha,
que aos pés maltratou!
Entanto ela o segue....
ventura ou acaso...
Um dia seus olhos nos
dele fixou.
E ele volveu-lhe sorriso
de escárnio,
E ela uma queixa sentida
murmura,
Tão débil, tão fraca,
com tal desalento,
Que bem revelava
profunda amargura:
— Apenas a sombra já vês
do que fui...
Ah! não te comoves?
coitada! ela diz.
— Que extremos por
ver-te... que extremos de amores!
E tu me repeles? Cruel!
que te fiz?
E ele tornou-lhe: —
Mendigas sem pejo?
Que vício tão torpe! não
tenho o que dar.
Mulher! o desprezo do
mundo é partilha,
Que deve caber-te, que
deves cobrar.
De novo a voz se ouviu, —
era tão débil,
Que semelhara doloroso
anseio...
Mas era entre os soluços
proferido,
Um nome que a pesar aos
lábios veio.
— Cruel! por que te amei
com tanto extremo,
Por quê? Perdão, meu
Deus! eu fui tão louca!
Rendi meu coração aos
teus afetos,
Infame me tornei, criei
remorsos...
Ouvi meu pai
amaldiçoar-me... ouvindo
Os sarcasmos do mundo; —
e apesar d’isso
Por amar-te eu sonhava
uma esperança!...
Vaguei mendiga, sofrendo
dores,
Fiel ao sentimento de
minh’alma,
Amando-te inda mais que
te amava,
Com mais ardor, com mais
paixão imersa:
E teu desprezo, que mais
dói que a morte,
E todo o prêmio que
cobrar devia!?!...
Homem cruel! acaso tens
no peito,
Alma de tigre?...
coração de gelo?!...
— Mulher!
Tudo acabou! Foi dura a
prova.
Amor, venturas,
esperanças loucas
Tudo a sorte desfez...
Ela calou-se.
— Vai-te, mendiga, disse
— e o lábio impuro
Um sorriso formou de
agro desprezo.
E foi-se. O coração era
de mármore
Ela de pejo e dor
estremeceu:
O peito lhe ofegou
dorido arfando,
Nem um suspiro lhe
escapou — morreu!
O
volúvel
Vagueia o teu coração
Sem pesar, sem aflição,
Como a sutil viração,
Ou como as ondas do mar;
Com o leque dos
Palmares,
Como um átomo nos ares,
Como Infante em seu
folgares,
Como a virgem em seu
cismar.
Como a leda mariposa,
Que sobre a florzinha
pousa,
E que de louca e vaidosa
Não se prende a seus
amores;
Ou como nuvem ligeira,
Quando a aurora vem
fagueira,
Que se desfaz
lisonjeira,
Em tênues, ledos
vapores.
Ou como areia agitada,
Fria, sutil, prateada,
Que se ergue alevantada,
Ao sopro da viração;
Que volúvel, — incessante,
Vai deste, àquele lugar;
Sem jamais poder parar,
Da praia — na vastidão.
Mas, um dia, sem
pensares,
Da sorte tristes azares,
Talvez te tragam
pesares,
Talvez te causem
aflição,
Que na vida um só
tormento,
Um dolorido sofrimento
Nos afixa o pensamento,
Nos magoa o coração.
Então, nem a mariposa,
Que liba o suco da rosa,
E depois, já descuidosa,
Vai outra flor ameigar;
Nem à palma melindrosa,
Nem à nuvem vaporosa,
Nem à areia tão mimosa,
Poderás te assemelhar.
Porque então já não
vagueia
Teu pensamento — e
anseia
Teu peito, que a dor
mareia,
Tu’alma que sofre tanto...
Adeja, adeja por ora.
Sê borboleta uma hora,
Beija mil flores agora,
Que depois só resta o
pranto.
Há — de amargar-te a
existência,
Na penosa inclemência,
De vã sonhada inocência,
Que em vão almejas
gozar;
Terás remorso pesado,
Desse teu viver passado,
Tão mimoso, e
descuidado,
Como de infante o
folgar.
Já não serás mariposa,
Que liba o suco da rosa;
Nem a brisa perfumosa
Entre as flores a
brincar;
Nem a palma requebrada,
Nem a nuvem prateada;
Porque a vida passada,
Poderás jamais gozar.
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