Leia agora
Cantos à beira-mar

Universo da obra

Cantos à beira-mar

Capítulo 43 · Cantos à beira-mar

Itaculumim

43 de 55 ≈ 5 min de leitura

As praias descanto,

Que tem tanto encanto –

— que ameiga meu pranto

Do belo Cumã!

A lua prateia

Seus cambras d’areia,

A vaga passeia

Na riba louçã.

Fronteiras a elas

Se ostentam tão belas

Desertas singelas

As praias de além;

Há nelas penedos,

Enormes rochedos,

Que escondem segredos...

Eu canto-as também.

Eu creio que irmã

Deus fez o Cumã

Da praia louçã

Do Itaculumim.

A vaga anseia

Além — e vagueia

Que nestas ondeia,

Eu creio por mim.

Não vedes as praias
fronteiras?

A quem Se estende o
formoso Cumã lisonjeiro:

Além se dilatam de Itaculumim

As praias saudosas, o
morro altaneiro.

O índio em igaras — vencia
esse espaço,

Juntava-se em turbas — amigos
queridos;

Após os folgares, as
breves canções,

Valente p’ra guerra
marchavam reunidos.

Mas, foram esses tempos
de paz, e sossego

E tempos vieram de
guerra, e de morte..

E sempre ao irmão, — e
sempre o penedo

Qual firme atalaia — vigiam
no norte.

Os íncolas tristes, — a
raça tupi

Deixando suas tabas,
fugindo lá vão,

Que mais do que a morte
no peito lhe custa,

A fronte curvar-se-lhes à vil servidão.

O índio prefere no campo
da lide

Briosos guerreiros a
vida acabar:

Ver mortos seus filhos,
seus lares extintos

Do que a liberdade
deixar de gozar.

Sua alma que é livre não
pode vergar-se,

Por isso seus lares aí
deixam sem dor;

E vão-se prudentes — altivos
— jurando

Que a fronte não curvam
da pátria ao invasor...

Ceder só à força, que
poucos já eram,

Que os mortos juncavam
seus campos mimosos...

Deixaram estas praias
que tanto queriam,

Fugiram prudentes — mas
sempre briosos.

Depois, lá bem longe...
nas noites de inverno,

Ouvindo nas matas gemer
o trovão,

E os ecos saudosos, e os
ecos sentidos

Quebrados, chorosos na
erma soidão,

Lembravam com prantos,
que amargo lhes eram

As praias amenas do belo
Cumã;

O morro altaneiro de Itaculumim,

Os combros d’areia na
riba louçã.

E ermo, e saudoso das
ninfas, que amou,

Das crenças, que teve
descanta o pajé;

Os outros escutam seu
canto choroso

Que fala das crenças,
que vida lhes é.

Ele começa com voz
soluçada:

— Nas praias do norte
nascidos tupi;

Existem palácios no mar
encantados,

No leito das águas de Itaculumim.

Ah! quanto é formoso seu
vasto recinto,

Oh! quanto são belas as
virgens d’ali!

O teto, que as cobre de
conchas de neve,

O solo das perlas mais
lindas que vi.

O colo das virgens é
branco, e aéreo;

As tranças de ouro
rasteiam no chão;

O canto é sonoro — tem
tal harmonia

Que prende de amores qualquer
coração.

Seu corpo mimoso semelha
à palmeira,

Que troca coa brisa seu
ledo folgar:

As meigas palavras, que
caem dos lábios,

Parecem harmonias
longínquas — do mar.

Saudades que eu sinto de
tudo que amei,

Se triste recordo seus
mimos aqui...

Saudades do belo Cumã lisonjeiro,

Saudade das praias de Itaculumim...

Deixamos as tabas de
nossos avós...

As águas salgadas, que
tinham condão!

Deixamos a vida nos
lares queridos,

Vagamos incertos por
ínvio sertão.

Entre suspiros cessa o
triste canto;

Mais não disse o pajé!

Um silêncio dorido
sucedera

Ao seu canto de dor...

Ele! tão feliz... ele,
ditoso

Eu seu doce folgar;

Em palácios dourados
repousando,

Em instantes de amor...

Agora na soidão — agora
longe

Dessas deusas do mar;

Agora errante, triste, e
sem destino

Sentia a aguda dor...

Por isso era canto bem
sentido

Lá por ínvios sertões!

Perdera as salças praias, arenosas,

Perdera o seu amor!

Lastimava seu fado — e
se carpia

Das praias do Cumã.

E de Itaculumim
se recordava

Com suspiros de dor...

E muitos prantos
soluçados vinham

De saudades — quebrar a
solidão!

Depois, era um silêncio
amargurado,

Depois, suspiro fundo de
aflição...

Prosseguem entanto sem
destino, aflitos,

Prosseguem marcha
duvidosa, errante:

E aqui campeia do Cumã as praias,

E Itaculumim
gigante.

Cantos à beira-mar

Sinopse

Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Cantos à beira-mar

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Cantos à beira-mar

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Cantos à beira-mar

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Cantos à beira-mar Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 43 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Cantos à beira-mar

Todos os capítulos 55 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir