Vagando entre a vida
me encontro inerte
No peito a ferida
não há quem conserte
Seus olhos: lembrança
que não se despede
Sua boca: o gosto
que não se descreve
Seus braços seguros
já não me pertencem
Memórias tão vívidas
ainda me entretêm
no entanto,
não canto
nem danço,
me espanto
Neste efêmero conto
a minha princesa,
não deixou o sapato
perdeu o encanto.
#desafio 365/238
#Desafio 255
Arquivos Vivos
Nossas vozes
dormiram:
arquivos frios
poeira sobre nomes
desprezo sobre memórias.
Rasgadas dos livros
alijadas da ciência
apagadas da política
silenciadas na literatura.
Mas nós voltamos.
Voltamos como trovão
voltamos como incêndio
voltamos como faca
que corta o esquecimento.
Fogo na palavra
ferro na memória
grito que não cabe no peito
e escorre pelos dedos.
Respiramos nas brechas
nas rachaduras da história
nas bocas que insistem em abrir-se
flores selvagens rompendo o cimento.
Estamos na mulher que escreve
na que descobre
na que governa
na que inventa
na que se sustenta
vendendo seu corpo
sufocando sua alma
e ainda assim sendo luz.
Somos pulsos nas sombras do instante
Sopro que curva séculos
Eco que se recusa a desaparecer.
Mesmo quando tentam nos apagar;
mesmo quando tentam nos calar;
mesmo quando tentam nos matar.
Não fomos criadas da costela
somos substância e verbo
vértebra e raiz
sustento do mundo
maré que recolhe ausências
raio que atravessa a escuridão.
Não pedimos licença.
Não.
Não mais.
Exigimos
EXIGIMOS
E X I G I M O S
JUSTIÇA.
Cr💞s Ribeiro
Você faz eu me sentir como se eu estivesse falhando o tempo todo,
em um ciclo interminável de culpa
e inadequação.
Talvez eu não seja assim tão estranha e desmedidamente incapaz;
talvez eu só estivesse plantada
no lugar errado.
Em um solo mal adubado,
até a flor mais simples de cultivar
se torna frágil e insuficiente.
Eu não sou o bastante pra amar
ou é você que não entende?
O meu jeito é diferente,
mas é tarde pra você enxergar.
#desafio 365/237
#Link365TemasLivros
#Desafio365Livros
Dia 85
Comente na Biblioteca em um livro onde os animais falam com voz humana, e suas histórias refletem nossas próprias dores, resistências e esperanças diante do destino.
(Vale comentário em marcação de Lido ou em Leitura e resenha, não esqueça de marcar a caixa de compartilhar no perfil)
#Desafio365Postagens
Dia 223
Vozes da Terra
Entre patas e asas,
ouve-se a voz do mundo.
Não é apenas o rugido,
nem apenas o canto,
mas a confissão de um destino
partilhado com o humano.
Um "bicho" é um espelho,
mostrando-nos frágeis,
expostos ao mesmo vento,
à mesma morte,
à mesma esperança de permanecer.
E se ouvirmos com cuidado,
veremos que no uivo,
no mugido,
no bater de asas,
há também poesia:
a da vida que insiste
em existir e não desistir.
Indicação: Bichos — Miguel Torga
@literunico
#resenhas #Bichos
📖 <a href="https://www.literunico.com.br/books/1083">Ver livro</a>
Transformar um amor em amizade
não é tão ruim assim;
pois a amizade também é amor,
só que sem expectativas.
É amar de forma genuína,
apesar dos pesares da vida.
#desafio 365/235
Este impulso de te mandar mensagem
do bom dia ao boa noite;
de te contar algo bobo,
de te enviar uma música
ou qualquer vídeo fofo.
Este impulso de querer
te encontrar de novo,
mesmo depois do fim;
este impulso é o amor
que ainda existe em mim.
Como uma presença que insiste
em se fazer notada,
o dia inteiro me encara,
às vezes até me esbarra.
Este impulso que guarda
o que o coração não fala,
me persegue e sequestrou
até a minha palavra.
Por isso, me perdoe por ela,
(essa poesia feita às pressas)
pois o impulso me obrigou
a escrever um poema de amor.
#desafio 365/234
#Desafio 254
Gosto da rua:
áspero.
Asfalto mastigando os pés.
Silêncio cheira a medo.
Sombras engolem pensamentos.
Nada se mexe.
Tudo tropeça.
Eu, mulher,
ando só.
Cada ruído
um soluço da alma.
Cada gato no breu
um alerta de olhos.
Te procuro nos vãos.
Mais uma vez:
sou eu por mim.
A rua não fala.
Só lembra que existir
é atravessar o breu
com os ossos expostos;
com o coração à mostra
sem ninguém
para segurar.
Cr💞s Ribeiro
#Desafio 253
Yin e Yang
Sou sombra e luz
silêncio e grito;
frio que me arde
peso que me leva.
Sou entrega
resistência;
riso que chora
mar calmo
onda que me quebra.
Tudo se encontra.
Tudo se opõe.
E eu me lanço:
sou inteira
sou nada.
Sou o instante
que não acaba.
Cr💞s Ribeiro
#Desafio 252
Cicatriz
Gerou
rasgou
bofetada
na pele:
ecoou
Ferida tosca
sorriu
ardeu
sumiu
Véu de vento
sussurro miúdo
linha tênue
pulsa muda
floresce sem dó
sem alarde
Anos queimam
tarde após tarde
riscou
rompeu
riu
enganou
me fodeu
explodiu.
Cr💞s Ribeiro
Rebelde demais
para ser dominada
sensível demais
para não ser amada
como uma fera enjaulada
com uma alma cansada
cansada demais para insistir
naquilo só que insiste
em me ferir.
#desafio 365/233
Será déficit de atenção?
Este tolo coração
vive olhando para trás;
se distraindo demais,
se torturando demais
com coisas que não voltam,
que não retornam,
não mais.
Esperança?
O vento leva...
ou é o amor
que se distrai?
#desafio 365/232
Depois de você
me recusei a escrever
qualquer palavra de amor,
como quem repudia sentir
mas se apega à dor
Só para te manter aqui,
nessa presença latente
que ainda pulsa vida,
vibra e arde
dentro de mim.
E cada batida em meu peito
é como se marcasse o tempo
Quantas ainda restam
até que você me abandone
também, aqui
do lado de dentro?
#desafio 365/231
#Desafio 251
Menina linda
cabelos em brasas
sardas salpicam, sapateiam, sussurram
tranças tricotam trapalhadas
Saltando de pedra em pedra
no céu baixo da infância
pula-pula, ploc-ploc
amarelinha rasgando o tempo
Pernas longas, leves
olhos que engolem o mundo
antes que ele acabe
Ela ri
e o chão se curva cativo
aos seus pés
O tempo se dissolve
tic-tac, tic-tac
em passos, pulos, inspirações
E tudo que existe
tateia, toca, treme, dá o timbre
se esconde
respira
vive dentro dela
Cr💞s Ribeiro
Que poema lindo 🤩! Durante a leitura, percebi uma cadência que mistura delicadeza e movimento, quase como uma amarelinha sonora, em que a cada estrofe se dá um salto.
#Desafio 250
Beijo
Sombras,
toques
Rosto
encostado
na brisa
Silêncio
que curva
o mundo
Lábios
que se encontram
sem pressa
Segredos
que a pele
entende
antes da boca
Leve,
doce
Você
sou
eu
Eternos
Cr💞s Ribeiro
*** O Beijo, de Edvard Munch
#Desafio 249
Ciúme
Sussurro inquieto.
Erva daninha
que aperta.
Acalme-se.
Amor
não é estufa;
é vento
que espalha sementes
sem forçar brotos.
O outro floresce
você também:
cada pétala
em seu tempo;
cada raiz
respirando.
Liberdade não seca;
aduba.
Alimente o próprio jardim
com a sombra
da beleza
que cresce
longe de você.
Afrouxe as correntes:
desamarre
as trepadeiras
que prendem o peito.
É leve amar…
sem cercas
sem estacas
que sufocam o caule.
Descubra
que o coração
é solo fértil,
onde tudo que se planta
cresce.
E nunca se esgota.
Cr💞s Ribeiro
*** Quadro Ciúme, de Edvard Munch
#Desafio 247
Gritou.
Nada respondeu.
Olhos vazios.
Mãos fechadas.
Silêncio que pesa.
Rugiu.
Animal antigo.
Corpo nu.
Pele riscava
a própria carne.
Sangue quente
escorrendo verdade.
Pisou no chão do mundo
que fingia não existir.
Cada passo, um golpe.
Cada marca, um juramento.
Ninguém socorreu.
Ninguém viu.
Ninguém podia.
A dor era dela.
A resistência, dela.
A vida, dela.
Respirou fundo.
Rugido contido.
Fogo no olhar.
Incandescente.
Invencível.
No silêncio do abandono,
ela se erguia.
Sempre.
Cr💞s Ribeiro
*** Quadro O grito, de Edvard Munch.
#Desafio 246
Abro o caderno
aponto o lápis
mordo a borracha
mastigo tédio cru.
O dia cinza-arrogante
tem um bebê chorando
o caminhão de lixo passando
um carro berrando
saldão imperdível.
Na pia
a torneira pinga.
Um compasso perfeito
para minha falta de inspiração
que tenta me convencer:
não tenho nada a dizer.
Mas, veja só
o peito me trai:
desperta ensolarado
como se houvesse
um azul lá fora
que nao recebeu
o memorando do caos.
Cr💞s Ribeiro
#Desafio 245
A Rosa Esquecida
Ninguém
me quis.
Lábios pálidos
demais
para o festim
dos olhos.
Pétalas poucas.
Sem a abundância
dos buquês de luxo.
Mas havia ventre.
Seiva ardendo
em silêncio.
Perfume febril
pedindo
bocas.
Caule
latejando:
coxa que espera.
Cravaram-me na terra,
abri-me em espasmos.
Raízes-dedos
buscando calor.
Gozei
o escuro.
Bebi
húmus.
Penetrei
a sombra.
Fome antiga.
Flores de vitrine:
Belas.
Rápidas.
Órfãs.
Vasos frios
sem orgasmo.
Sem raiz.
Eu, esquecida
Aprendi
a eternidade
na penetração
da terra.
Não sou ornamento.
Sou carne.
Úmida.
Sou boca.
Aberta.
Sou rosa.
Inteira.
Cr💞s Ribeiro