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@eduliguori

EDU LIGUORI
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@eduliguori
há 1 ano
Público
O relógio é uma réplica
mas tem esse jeitão do passado
sem ponteiro de segundos
traços fortes
moldura cor de madeira velha
um rachado colado
que lhe permite um ar histórico
os ponteiros rebuscados
movem-se quase imperceptíveis
contando o tempo
é falso brilhante
movido a pilha
não faz tic-tac
mas todas as noites
sobre minha cabeça
às costas
vai registrando
minha respiração
os suspiros
a fumaça dos cigarros
calado
ouve Nat King Cole
Miles Davis
Billie Holiday
não demonstra sentimento
segue impávido
não teme o futuro
não chora
auréola do espírito
que me toma
todas as noites
em que te espero

Edu Liguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
Os poetas as vezes enxergam anjos
com cachos dourados mas sem asas
adoram, amam, glorificam
mas são apenas lembranças
de que cada estrofe
reflete o sol do norte e seu calor
musas jovens e inspiração
pra viver mais um novo verão
então o poeta deita a tinta
em papel, papiro ou no chão
pra cantar a beleza mais pura
e a loucura da paixão
paixão dos sonhos
dos rios e mares verdes
dos olhos que brilham e encantam
ah os poetas
imaginam um mundo
onde havia apenas um simples sorriso
em mesquitas e igrejas
cantam fiéis pelos seus anjos
afinal crentes ou não
todos nós temos sonhos

Edu Liguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
Com o palco vazio
ela entrou silenciosa
rodopiou suavemente
olhou para os lados
procurou segredos
ocupou o espaço sem alarde
movimentos precisos
leve e flutuando no ar
foi ampliando sua presença cênica
mostrava seu talento, delicadeza
o olhar calmo
o sorriso aberto
os cabelos brilhando
a bailarina chegou
(ele sorriu sem que ela visse)
os braços ritmados
as pernas alongadas
os pés precisos
(encanto)
ela estava apenas se aquecendo
no silêncio do teatro ainda fechado
(mas no fundo sentia sua presença)
nesse balé enfeitiçado
cisnes negros e brancos
se encontram e descobrem
seus medos, seus amores
(ele está lá, mais perto do que ela pensa)

Edu Liguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
À boca o velho amigo que o mata devagar
sob a fumaça e os encantos da droga diária
vence o silêncio em tragadas profundas
o cinzeiro sujo é como relógio, marca as horas
pode ouvir o estalar das folhas queimadas
exala pelo nariz nuvens embaçadas de confusão
a visão da corrente de ar atravessa os óculos
pensamentos vem e vão desordenados
bate o bastão para colher as cinzas mortas
ritual sem sentido que acolhe seu vazio
enquanto escreve sua existência
se aproxima mais de seu fim
onde está o isqueiro?
mais um capítulo
um novo processo velho
repetido angustiado
traga a vida pela boca
entre os dentes amarelados
corrói os pulmões e preenche os espaços
assim passa o tempo
que o detém ou que convém
vício antigo do homem
que não se incomoda
com a longevidade
vive apenas das baforadas
que exalam sua ausência
e marcam o sofá com queimaduras
os dedos com nicotina
as unhas com o rancor
de uma dor desconhecida
fumou aquela vida
como se fosse a última

Edu LIguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
Tem um zumzum
aqui no peito que não me deixa
não é assim uma dor nem uma queixa
é só esse maldito zum zum zum zum zum
um ruído estranho, surdo, mas não é novo
ele vem de vez em quando, quando ele vem
é tipo moeda velha, cruzeiro, cruzado, vintém
vale mais nada, mas tá sempre vindo aqui, de novo
enquanto respiro, penso e solto um suspiro longo e fundo
as vistas então marejam, embaça a visão, os olhos já cansados
é como uma leseira sem idade, coisa típica dos poetas aparvalhados
o verso vai crescendo, saindo sem muito conteúdo nada muito profundo
só um zumzum
mais um

Edu Liguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
Que tempestades vivi
nesse universo infinito
que os tempos me opuseram
recolhi velas, fiquei a deriva
chorei lágrimas salgadas
por tantas noites incertas
descobri o sabor da solidão
o encontro do eu que nem
conhecia em mim
desafiei as grandes ondas
e a maresia fria que corroía
pele e ossos desestruturados
bússola girando em descompasso
os sentidos confusos
sem referência no horizonte
mas bravo por ser tão covarde
e não ter para onde escapar
deixei o vento soprar
entre correntezas continentais
desertos de águas escuras
senti o humano em mim
em farrapos os tecidos rotos
me desnudaram aos poucos
a alma esfacelada ainda viva
febres, calafrios, gemidos
os gritos de Netuno
e meu suor de sangue
meio século navegando
as incertezas e asperezas
da procura pelo nada
foram assim os piores
momentos e grandes
lamentos que escrevi
não nego que pela escotilha
cheguei a ver o sol
reluzente estelar
sempre soube de sua
existência e poder
sobre meu pulsar
mas como foram
confusos estes momentos
e me via ainda capitular
voei com as gaivotas
beijei alguns arco-iris
tive raras noites tranquilas
mas não havia em mim
a completude, a essência
o desapego
nada poderia me fazer
maior
era minúsculo em si
mas toda viagem
real ou fantasia
tem um fim
neste ancoradouro
que agora cheguei
me vi no espelho
finalmente!
me reconheci
tempestades
agora tem outro significado
não são mais meus pesadelos e medos
ao me encontrar
abri uma porta que desconhecia
sei que estou pronto
senhor de si
deixo atrás o marujo
independente
ergo as velas e miro o firmamento
sou eu senhor
sou eu capitão
vejo agora novas cores
abraço o ar com renovadas forças
navego sem mais receio
enfim formado
assim construído
meu barco hoje é um forte
(meu corpo fortaleza)
e então você pôde chegar
pois agora o outro
não me faz complemento
não necessita pagar
não está aqui para me curar
a cor do mar
está em seus olhos
somos encontro de oceanos
não nos necessitamos
não nos dependemos
apenas vivemos
juntos a fazer amar

Edu Liguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
Lhe envolvo
com todas as coisas desconhecidas
que não são
e por não serem
mal não fazem
aproveite esse mistério
olhe meu olho sério
e o outro sorrindo
pra ti meu remédio

Edu Liguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
Foi com o riso solto
que ela me prendeu
fiz tudo
fui tudo
me joguei
o rio correu solto
até o mar e se perdeu
dei tudo
contudo
me afoguei

Edu Liguori
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@eduliguori
há 1 ano
Público
Afundou em meio a seca do planalto
no asfalto negro a cinquenta e cinco graus
mergulhou a face na aspereza do piche entre pedras
sentiu a carne rasgar e o ranger dos ossos

A dor do tombo que leva todos ao martírio
dos sentimentos feridos e vilipendiados
um precipício próximo e nada incomum
era mais um a se ver vítima do concreto

Sem mais perspectivas ou ilusões chorou
na miragem da vida urbana e cívica
um dia sonhou com uma realidade possível
acreditou que entre os veículos havia um caminho

Morreu sozinho no tráfego dos corpos e almas
que se digladiam egoísmos e incompreensões
não há amor na metrópole cinza dos homens e mulheres
que são incapazes de aceitar, permitir e perdoar

Edu Liguori
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