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EDU LIGUORI
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@calorliterario_ Lidiane Queiroz Bastos
@rafaelaraujoescritor RAFAEL ARAUJO
Público
O medo abala
o medo abusa
o medo te usa
com medo não fala
se esconde durante o dia
não quer passar mais apuro
a noite vive no quarto escuro
sob as cobertas da covardia
sem forças para reagir
a vida se esvai vazia
no estômago azia
não consegue fugir
pobre vítima inocente
se sente horrível culpada
devidamente julgada
não se vê mais contente
hipócritas morais
julgamento sem defesa
batem na mesa
com seus gritos irracionais
impõem o medo com o dedo em riste
dominam sua presa
com uma única certeza
a impunidade existe
triste mundo esse aqui
em que um ser
acredita que pode ter
o outro para si

Edu Liguori
Público
Sou um homem comum
ordinário
igual a cada um
diferente de todos
resido no encontro das linhas
paralelas dos trópicos
busco justiça na terra da carestia
acredito num deus inexistente
submisso à força do caos universal
construo conjuntos
soluciono ocasionalmente equações
sou a mosca que pousou na sua sopa
aquele que escreve poemas
dividindo por zero

Edu Liguori
Público
Ela desce as ruas de paralelepípedo
seu sotaque de rouxinol azul
o sorriso largo livre no rosto
abraça os amigos em profissão de fé
senta no bar pela cerveja e a certeza
de que cada dia é apenas uma vitória
no corpo toda a poesia e malemolência
da menina mulher do mar e do céu
letrada sempre diz o que sente
chora muito porque a verdade é dolorosa
vive com a paixão dos que não se escondem
dos que temem, mas cantam mais uma melodia
ela é longilínea, esguia, quase gigante
esfinge sedutora sob os cachos dourados
marcada pelos eventos que a noite traz
toma o sereno da madrugada entre risos
e sempre amanhece doce
ela é a mulher que compõe minha parábola
uma história de amor sem início nem fim

Edu Liguori
Público
Queria ser Drummond
para saber das palavras, contar nossa história
em poesia ou prosa várias ventanias
sacudir teus cabelos e refrescar teu sorriso
mostrar apego, mas sem correntes
só massagem e química de pele e suor
um poeta certeiro, doce suave sem enjoo
sabor de bebidas e também tabaco
traduzir a força do dragão que me carrega
pelos céus deste mundão quando a tenho
o fogo todo que incendeia a alma, a vila
e a vida
trazer nos léxicos o conteúdo deste prazer
inexplicável do orgasmo que vivemos juntos
deleitar o corpo com passagens firmes
mãos ágeis e precisas, línguas safadas
ah os olhares na penumbra da noite fria
que contrastam com a pele quente friccionada
sob as tatuagens e os pelos, carne incandescente
da conjunção entre o rebelar e o sucumbir
talvez me negue as possibilidades de um jornal
fuja sim do cotidiano nefasto da era de aquário
mas me morda a carne em forma bissexta
abra a porta quando a quinzena chegar
criemos uma nova ortografia rebelde
fora dos padrões precisos da gramática
acentuada relação sem nexos ou réguas
borboletas em revoada breve no estômago aflito
sujeito e predicado em exclamação
queria ser Drummond!
teu autor dos acasos
o caso, teu caso
sempre quando for

Edu Liguori
Público
Quando a hora não passa
certamente algo está errado
já que devassa
como voa, quando algo está certo
quando a hora se apega
verdadeiramente algo está parado
nada se entrega
tudo congelado
tique-taque nem mais existe
é silêncio digital
nefasta fase terminal
me liga, me chama, me grita
me beija, me reconquista
quero a morte do tempo lento
quero carinho, abraço, rosto ao vento
contigo o tempo voa
me sinto vivo e à toa

Edu Liguori
Público
Quanto mais tarde
cedo fica
sem alarde
silêncio amplifica
não bastam os sons
nem as imagens
tampouco as letras
morrem os bons
pelas pastagens
secas e neutras
quanto mais tarde
arde a garganta
bebida covarde
que não adianta
vivem sós
pelas salas e dormitórios
se enroscam em nós
copos e cinzeiros inglórios
nas altas horas
não existem demoras
desistem calados
pobres exilados

Edu Liguori