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EDU LIGUORI
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Público
sou outro?
ou o mesmo?
sou outro
com o mesmo
mas em outro
procuro o mesmo
que outro?
se não o mesmo?
sem outro
não tenho mesmo
é outro
que me faz eu mesmo
por outro
luto mesmo
o outro
não é o mesmo
com outro
fico mesmo
sim outro
não mesmo

Edu Liguori
Público
observo de longe calmamente todos os seus movimentos
me chamam atenção partes que não costumam ser apreciadas
ossos e músculos, braços dançantes, cabelos e paramentos
um conjunto complexo que deixa minhas pupilas dilatadas


não importa a definição de arte, a mulher quando se move é poesia
o balanço da cabeça, o remexer dos quadris, o olhar disfarçado
você sabe que estou ali, estou sempre ali em completa paralisia
só o coração bate, os olhos captam e o cérebro analisa excitado

uma gota de suor escorre da fronte ao pescoço e é absorvida pela camisa
quase não me movo, apenas os olhos em agitada perseguição
na sua fronteira movimentos estudados, bonitos, um charme que avisa:
- admire, contemple, apaixone-se eu tenho pra você toda a emoção

da minha base costumeira, me derreto na degustação de tua beleza
é ato corriqueiro, mas nunca cansativo ou repetitivo em nenhum aspecto
todo sempre é novo, maravilhoso, vibrante, cheio de esperteza
é pássaro em dança de acasalamento, é multicolorido espectro

todos nós sabemos o que estamos fazendo, é parte de um processo
sedução, análise, teste, interpretação, como queira você agora chamar
fração de um grande e inacabado ato, estudo da possibilidade de sucesso
do encontro inevitável dos envolvidos nesta inevitável maratona do amar

Edu Liguori
Público
Hoje tive lembranças
de dançar na São João
amassar com o corpo bancas de jornal
longos beijos em shows de rock
o copo cair e molhar a roupa na cadeira
o xixi na beira da estrada
catuaba, Marlboro e litrão
suor, colo e muita paixão
noites arredias, purpurina
crianças vendendo doces
e teus sorrisos
ich liebe dich dizia
por muito tempo acreditei
Praça da República
metrô, Imigrantes, Paulista
marchamos, gritamos, choramos
o governo foi golpeado
junto com nosso amor

Edu Liguori
Público
então
ele primeiro disse adeus
depois rasgou os retratos
jogou fora as cartas
deu os cds e discos
prometeu esquecer
cortou o cabelo
fez uma nova tatuagem
comprou um livro
mudou de restaurante
planejou uma viagem
chorou escondido
bloqueou o face
cancelou o msn
visitou velhos amigos
jogou boliche
tomou sol
andou de bicicleta
trocou de carro
mas...
foi na cartomante
esperando que ela lhe contasse
que seu amor ainda voltaria

Edu Liguori
Público
Na calada da noite
percebo minha fraqueza
um trago, dois tragos
afastei a realeza


sou um órfão
não de mãe e de pai
mas de coração
perdi outro dia

amo sem resposta
vivo ainda esta vida
não tenho mais aposta
estou repleto de ilusão

porém sigo comigo
combato o inimigo
mas não reconheço
onde foi parar meu começo

sangrando do açoite
choro muitas lágrimas
sem muitos afagos
sofro minhas lástimas

daqui nada mais sai
é só uma lavanderia
roupa bem torcida
centrífuga exaustão

cansado do óbvio
em alongada solidão
sinto um pouco de ódio
mantenho minha retidão

Edu Liguori
Público
a coisa mais querida
outrora proibida
uma certeza contida
que agora permite desinibida


corre minhas veias em avenida
em busca de saída
é uma despedida
para uma nova partida

te quero atraída
assim atrevida
desperta e comovida
em meus braços acolhida

a coisa mais querida
és tu minha querida
em minha cama amanhecida
para sempre em minha vida

Edu Liguori
Público
Vou pra Marrakech
ou pra Xangrilá
uma terra onde se esquece
ou se deixa pra lá
tudo aquilo que passou
e que um dia magoou
vou levar comigo
tudo que tenho de querido
minhas filhas, meu amor
alguns utensílios e calor
uma viagem sem volta
pra deixar a alma solta
lá no novo destino
um casebre e sol a pino
um gramado e algumas flores
frutas de todos os sabores
a gente pequena reunida
esquecerá da última partida
pois é tudo novo
de novo
e desta vez
pela última vez

Edu Liguori
Público
Os dedos sujos de sal
o gosto de cerveja na boca
e um olhar marejado pela lua cheia
assim me encontro neste carnaval de julho
atemporal
feia é a fome que sinto
por não ter mais aquilo que me deixava extasiado
no ar uma maresia, cal e pedras de uma torre destruída
prosa ou poesia, medos, o bem e o mal
quantas rimas você pode encontrar em meus beijos
e nos relâmpagos que conquistaram castelos e fortalezas
apenas uma certeza
o tempo está acabando
e este poeta dirá adeus

Edu Liguori
Público
Quem inventou as regras
estava certo do que é correto
ou protegendo interesses
essa pergunta vem à tona
sempre que me pego confuso
que é certo
que é errado
amor é indivisível
união é concreto
desejo é compromisso
quantas dúvidas permeiam
viajam e esperneiam
quando negas
que te parece mais certo
incomoda mais vezes
por que queres derrubar a lona
afrouxar o parafuso
trazer para perto
aquela que deveria estar do teu lado
não ser um ser previsível
que aceita o decreto
de viver sempre submisso

Edu Liguori
Público
Após muitos afazeres e acomodações, ao entardecer ela sugeriu um café, foi ao fogão e pôs água para aquecer. A pose tradicional do pano de prato ao ombros, o pé apoiado na perna, como todos os mortais aguardam a água para passar um café.
Enquanto coava a bebida, pediu gentilmente que coletasse as xícaras, para isso ele passaria pelo corredor estreito onde ela estava e se Tesla ainda fosse vivo, ficaria alarmado com a energia que cintilou naquele pequeno espaço quando os dois corpos estiveram a poucos centímetros um do outro e certo que puderam respirar o mesmo ar que cada qual exalava.
Trêmulo, as pernas o traiam, retornou e beberam encabulados com o que havia atropelado a tarde na cozinha.
Agora, se fosse um filme, subiria uma música, uma canção, luzes mornas das cinco horas e o clima estaria perfeito para que definitivamente nossa história partisse para uma sólida trama.
Ao levar as xícaras para a pia, retornaria pelo mesma estrada em que os sinos badalaram minutos atrás, só que desta vez qual um condenado seguiu olhando firme nos olhos de sua sentença, a cada passo de aproximação a temperatura subia e apitos soavam ao longe, era como se Vivaldi estivesse compondo a primavera das quatro estações. Mais um metro, mais um passo e tão próximos estavam que seus lábios se tocaram.
O frenesi momentâneo e desconcertante deixou ambos surpresos e ele seguiu confuso ainda com a assinatura impressa dos lábios carnudos que acabara de saborear.
Não discutiram, comentaram ou revelaram seus pensamentos. Ele só sabia que havia muito tempo que não sentia o que acabara de brindar. Sequestrado pelo aroma, pelo toque mesmo que breve, compôs internamente a estrofe: se um poeta precisa estar vivo para escrever, nunca me senti mais poeta, após essa pétala que acabo de receber.
Como todos os homens encantados, frágeis se derretem e perdem seus poderes. Se tornou naquele horário, daquele ano, naquele dia e mês passageiro de um trem que o carregaria para onde desejasse, pois ela se tornara deusa, Afrodite, Perséfone e ele não diria não.

Nas datas que foram chegando e passando, houve carinho, abraços, mãos dadas, colo, sorrisos, revelações, sedução, cheiros e cafunés. Juntos e em todos os lugares onde as pessoas vivem, foram amigos, companheiros, confidentes, beberam, dançaram, choraram, riram, caminharam e distribuíram brincadeiras e provocações. Até que ele sentiu necessidade de afirmar que entre estes enlaces havia se apaixonado. Assim depressa, deste jeito sem filtros e afobado.
Havia uma reciprocidade silenciosa, se beijaram longamente algumas vezes, dormiram abraçados, cochicharam e se divertiram.

Entendia e lia que era perfeita. Tinha uma clareza imensa do mundo, culta, delicada, divertida, atrevida, inteligente, capaz, educada, consciente e belíssima. Iracema, Capitu, Gabriela, Diadorim e Pagu. Completa, absoluta e desejada.

Se aproximava a época mais temida, a partida. Me perdoe leitor por tê-lo omitido que ele estava em viagem. Ao se despedir choraram. Ele sentiu perder um membro do corpo, ou o coração. Embarcou despedaçado com receio do futuro não discutido.
Os primeiros próximos dias e por breve período foram de planos, intenções, provável partilha e sonhos. Seu coração estava emendado.

Mas as histórias nunca são assim, elas sempre tem uma revolução e a Bastilha caiu quando percebeu que a intensidade se esvaia com o tempo somado a distância.
Então com o impulso dos bravos decidiu lutar, sabre em mão que venham os dragões. E foi tentar buscar a fulô que o sequestrou.
E como diz aquele ditado, nada se perde, tudo se transforma.
A caminhada deu espaço para a razão, para os conselhos, para a visão, e por motivos até hoje não revelados, as lágrimas, a saudade, os planos foram resumidos na frase:
"Eu te amo, mas não desse jeito, não desta forma"

Edu Liguori