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EDU LIGUORI
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Público
À boca o velho amigo que o mata devagar
sob a fumaça e os encantos da droga diária
vence o silêncio em tragadas profundas
o cinzeiro sujo é como relógio, marca as horas
pode ouvir o estalar das folhas queimadas
exala pelo nariz nuvens embaçadas de confusão
a visão da corrente de ar atravessa os óculos
pensamentos vem e vão desordenados
bate o bastão para colher as cinzas mortas
ritual sem sentido que acolhe seu vazio
enquanto escreve sua existência
se aproxima mais de seu fim
onde está o isqueiro?
mais um capítulo
um novo processo velho
repetido angustiado
traga a vida pela boca
entre os dentes amarelados
corrói os pulmões e preenche os espaços
assim passa o tempo
que o detém ou que convém
vício antigo do homem
que não se incomoda
com a longevidade
vive apenas das baforadas
que exalam sua ausência
e marcam o sofá com queimaduras
os dedos com nicotina
as unhas com o rancor
de uma dor desconhecida
fumou aquela vida
como se fosse a última

Edu LIguori
Público
Tem um zumzum
aqui no peito que não me deixa
não é assim uma dor nem uma queixa
é só esse maldito zum zum zum zum zum
um ruído estranho, surdo, mas não é novo
ele vem de vez em quando, quando ele vem
é tipo moeda velha, cruzeiro, cruzado, vintém
vale mais nada, mas tá sempre vindo aqui, de novo
enquanto respiro, penso e solto um suspiro longo e fundo
as vistas então marejam, embaça a visão, os olhos já cansados
é como uma leseira sem idade, coisa típica dos poetas aparvalhados
o verso vai crescendo, saindo sem muito conteúdo nada muito profundo
só um zumzum
mais um

Edu Liguori
Público
Que tempestades vivi
nesse universo infinito
que os tempos me opuseram
recolhi velas, fiquei a deriva
chorei lágrimas salgadas
por tantas noites incertas
descobri o sabor da solidão
o encontro do eu que nem
conhecia em mim
desafiei as grandes ondas
e a maresia fria que corroía
pele e ossos desestruturados
bússola girando em descompasso
os sentidos confusos
sem referência no horizonte
mas bravo por ser tão covarde
e não ter para onde escapar
deixei o vento soprar
entre correntezas continentais
desertos de águas escuras
senti o humano em mim
em farrapos os tecidos rotos
me desnudaram aos poucos
a alma esfacelada ainda viva
febres, calafrios, gemidos
os gritos de Netuno
e meu suor de sangue
meio século navegando
as incertezas e asperezas
da procura pelo nada
foram assim os piores
momentos e grandes
lamentos que escrevi
não nego que pela escotilha
cheguei a ver o sol
reluzente estelar
sempre soube de sua
existência e poder
sobre meu pulsar
mas como foram
confusos estes momentos
e me via ainda capitular
voei com as gaivotas
beijei alguns arco-iris
tive raras noites tranquilas
mas não havia em mim
a completude, a essência
o desapego
nada poderia me fazer
maior
era minúsculo em si
mas toda viagem
real ou fantasia
tem um fim
neste ancoradouro
que agora cheguei
me vi no espelho
finalmente!
me reconheci
tempestades
agora tem outro significado
não são mais meus pesadelos e medos
ao me encontrar
abri uma porta que desconhecia
sei que estou pronto
senhor de si
deixo atrás o marujo
independente
ergo as velas e miro o firmamento
sou eu senhor
sou eu capitão
vejo agora novas cores
abraço o ar com renovadas forças
navego sem mais receio
enfim formado
assim construído
meu barco hoje é um forte
(meu corpo fortaleza)
e então você pôde chegar
pois agora o outro
não me faz complemento
não necessita pagar
não está aqui para me curar
a cor do mar
está em seus olhos
somos encontro de oceanos
não nos necessitamos
não nos dependemos
apenas vivemos
juntos a fazer amar

Edu Liguori
Público
Afundou em meio a seca do planalto
no asfalto negro a cinquenta e cinco graus
mergulhou a face na aspereza do piche entre pedras
sentiu a carne rasgar e o ranger dos ossos

A dor do tombo que leva todos ao martírio
dos sentimentos feridos e vilipendiados
um precipício próximo e nada incomum
era mais um a se ver vítima do concreto

Sem mais perspectivas ou ilusões chorou
na miragem da vida urbana e cívica
um dia sonhou com uma realidade possível
acreditou que entre os veículos havia um caminho

Morreu sozinho no tráfego dos corpos e almas
que se digladiam egoísmos e incompreensões
não há amor na metrópole cinza dos homens e mulheres
que são incapazes de aceitar, permitir e perdoar

Edu Liguori
Público
A rua virou um rio
corre água escura da chuva
um verão longo e triste
inundado de ausências
sem choro
observo a correnteza
sobre o asfalto a sujeira
carregada além
não mais lamento
estou parado na varanda
de uma vida sem sal do mar
sem brilho, sem sabor, sem cor
a rua virou um rio
que trocou o oceano pelos bueiros
que trocou o bolero pelo silêncio
sem choro, sem samba, sem música
uma vida que finda
e não tenho mais esperança
ela não dança
ela não vem

Edu Liguori
Público
Naquele mundo distópico
não havia amor passado
ninguém queria, ninguém sentia
amor virou instante
nada mais é filantrópico
sem o corpo amassado
nada mais intenso havia
morreu o tal romance
eles já não se encontram
a faísca é então digital
signos, pura semiótica
momentos de compreensão
no gozo solitário se concentram
perdeu-se o instinto animal
relação simples simbiótica
alívio sem rompantes de paixão
tudo em nome do medo
o receio de por fim viver
sempre é muito cedo
para deixar acontecer
evitam assim cicatrizes
não reproduzem emoções
atores e atrizes
elaboradas interpretações
não há mais amor
já temos outras dores
uma vida sem humor
muitas telas e computadores
a poesia tenta e resiste
com seu pedido desesperado
provoca e ainda insiste
em busca do último enamorado

Edu Liguori
Público
O único poema que me vem hoje a mente
ainda não foi escrito, fala do amor que não veio
e por isso a mão dormente não escreve, não sente
só imagino a hipótese de calado me aninhar em teu seio
sei que não há um sonho mais doce do que o que cometi
te cantei cem fábulas e me apaixonei deveras por ti
enfim reflito pausadamente sobre quão doce foi tua verdade
que mesmo ao dizer não, depositou carinho e realidade
esse poema desconhecido, jamais celebrado ou rimado
ficará para a história obscuro e não será lido ou amado
ele conta sem dizer nada a aventura deste poeta que ousou
conquistar sua amada pedindo que ela fosse livre (e ela voou)

Edu Liguori