O Filho Do Pastor Canções de um Sourdough · Capítulo 2 de 20
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O Filho Do Pastor

“Altiva me ergo entre cada terra irmã, paciente e cansadamente sábia,

Com o peso de um mundo de tristeza em meus olhos quietos, sem paixão;

Sonhando sozinha com um povo, sonhando sozinha com um dia

Em que os homens não violem minhas riquezas, maldigam-me e vão embora;

Fazendo meretriz de minha abundância, sujando a mão que deu —

Até que eu me levante em minha cólera, varra-lhes o caminho e os calque

dentro da cova.

Sonhando com homens que me bendigam, com mulheres que me julguem boa,

Com crianças nascidas em meus confins, com a maternidade radiosa;

Com cidades saltando à grandeza, com fama como bandeira desfraldada,

Enquanto derramo a maré de minhas riquezas no colo ansioso do mundo.”

Esta é a Lei do Yukon: que somente os Fortes hão de prosperar;

Que sem falta os Fracos perecerão, e só os Aptos irão perdurar.

Dissolutos, danados e desesperados, aleijados, paralíticos e mortos,

Esta é a Vontade do Yukon — vede! como ele a proclama sem rodeios.

O FILHO DO PASTOR

_Esta é a canção do filho do pastor, agachado sozinho em seu barraco,

Nas noites bravias e estranhas em que as Luzes do Norte disparam da

zona gelada,

E fazem sessenta abaixo, e, deitados na neve, os huskies famintos gemem._

“Sou um da irmandade ártica, sou pioneiro dos velhos tempos.

Vim com os primeiros — ó Deus! como amaldiçoei este Yukon — mas ainda

aqui me aguento.

Suei sedento em seu calor de verão, congelei e passei fome em seu frio;

Segui meus sonhos por seus mil riachos, mourejei e me afundei por seu ouro.

“Olhem meus olhos — duas vezes cegos de neve; vejam onde metade do meu pé se foi;

E esta cicatriz medonha na face esquerda, onde o demônio do gelo mordeu até o osso.

Cada uma é uma marca desta terra diabólica, onde joguei e perdi a partida,

Um destroço quebrado, louco por ‘hooch’, sem um só centavo em meu nome.

“Esta mineração é apenas jogo de azar; o pior vale tanto quanto o melhor;

Eu estava no meio do bando e podia ter saído lá no alto com o resto;

Com Cormack, Ladue e Macdonald — ó Deus! mas é um inferno pensar

Nos milhares e milhares que esbanjei em cartas, mulheres e bebida.

“Nos primeiros dias éramos poucos, e por ali caçávamos e pescávamos,

Nem sonhávamos, junto às nossas fogueiras solitárias, a riqueza que jazia sob a terra.

Negociávamos peles e uísque, e muitas vezes dormi à sombra

Daquela bétula solitária em Bonanza, onde se fez o primeiro grande achado.

“Éramos como uma enorme família, e cada homem tinha sua squaw,

E levávamos vida tão selvagem, livre e destemida, além do alcance da lei;

Até que, de súbito, veio um rumor, e enlouqueceu cada um de nós,

E eu entrei em Bonanza antes que começasse a grande corrida.

“Ah, aqueles dias de Dawson, e o pecado e o clarão, e a cidade escancarada!

(Se Deus me fez à Sua imagem, decerto deixou o diabo entrar por dentro.)

Mas todos estávamos loucos, bons e maus; e quanto às mulheres, bem —

Ponto nenhum do mapa, em tão pouco espaço, empurrou mais almas para o inferno.

“Dinheiro ali era como barro, fácil de ganhar e fácil de gastar.

Eu estava todo encrustado numa vadia de salão de dança, mas no fim ela me largou.

Isso me deixou torto, e por quase um ano não respirei sóbrio uma vez,

Até me ver na ala dos loucos, com uma concessão demarcada na morte.

“Vinte anos no Yukon, pelejando ao longo de seus riachos;

Errando por seus vales gigantes, escalando seus picos divinos;

Banhado em seus pores do sol flamejantes, lutando contra seu frio demoníaco,

Vinte anos no Yukon... vinte anos — e estou velho.

“Velho e fraco, mas não importa; ainda há ‘hooch’ na garrafa.

Amanhã atrelo os cães e sigo pela trilha até Bill.

É escuro por tanto tempo, e estou sozinho — vou só me deitar na cama;

Amanhã eu vou... amanhã... creio que jogarei no vermelho.

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