Os Pinheiros Canções de um Sourdough · Capítulo 6 de 20
Obra Menu

Os Pinheiros

As ondas falam de espaços oceânicos,

De corações bravios e valentes,

De lugares de cidades populosas,

De praias desoladas que elas banham;

De homens que partem em busca de ouro

Para afundar numa tumba de oceano.

O vento é um poderoso errante;

Manda-me conservar-me livre,

Limpo da nódoa da cobiça do ouro,

Rijo e puro como ele;

Apegar-me com amor à natureza

Como a criança ao joelho materno.

Mas as estrelas acorrem em sua glória,

E cantam o Deus que há no homem;

Cantam o Mestre poderoso,

O tear que Seus dedos abrangem;

Onde uma estrela ou uma alma é parte do todo,

E trama no plano maravilhoso.

Aqui, junto ao tremular da fogueira,

Enrolado fundo em meu cobertor,

Anseio pela paz da sombra dos pinheiros

Quando o rolo do Senhor se desdobra,

E o vento e a vaga se calam,

E mundo canta para mundo.

OS PINHEIROS

Dormimos o sono das eras, nós, os pinheiros sombrios e bárbaros;

O musgo gris nos cobre como a sábios, e mais cerradas travamos nossas fileiras,

E mais fundo nos agarramos pela penumbra gélida onde jamais um raio de sol

brilha.

Nos flancos das cristas rasgadas pela tormenta, nossos negros batalhões

se apinham;

Avançamos em hoste para a costa soturna, e cantamos no sopro do oceano;

Do império do mar ao império da neve, firmemente cingimos nosso império.

Às terras avaras fomos impelidos; entre deserto e inimigo estamos

encerrados.

A nós foi dado o Norte, nosso para fortificar e defender;

Nosso até que o mundo se fenda no estrondo do fim derradeiro.

Nosso desde o princípio sombrio, através dos éons de sono mortal;

Nosso desde o choque em que a rocha nua foi arremessada do abismo

sibilante;

Nosso através das idades crepusculares do cansado rastejar das geleiras.

Vento do Oriente, vento do Ocidente, errando para lá e para cá,

Entoai vossas canções em nossos ramos mais altos, para que os filhos dos homens saibam

Que o pinheiro sem par foi o primeiro a chegar, e o pinheiro será o último

a partir!

Sustentamos os salões da treva perfumada; emplumamo-nos onde as águias sobem;

O Vento do Norte se precipita do Polo meditativo, e nossos anciãos estalam

e rugem;

Mas onde um tomba das muralhas que se esfarelam, vinte rijos brotam no lugar.

Brotamos da sombra do ventre do cânion; no regaço do vale

jazemos;

Da franja branca de espuma onde as vagas se encolhem até os picos

que cravam presas no céu,

Subimos, e espreitamos no lago encerrado por rochedos, que fulge como

um olho de ouro, —

Galgamos a beira da crista em dorso de porco, onde a visão corre livre:

Pinheiros e pinheiros e a sombra de pinheiros até onde alcança o olhar;

Uma legião firme de cavaleiros robustos em império dominante.

Sol, lua e estrelas, respondei; não havemos de permanecer firmes

Como agora, para sempre, guardiões da praia mais selvagem,

Sentinelas da quietude, senhores da última terra solitária!

A HARPIA

_Houve uma mulher, e ela era sábia; dolorosamente sábia era ela;

Era velha, tão velha, embora seus anos somados fossem apenas vinte e três;

E sabia de cor, do fim ao começo, o Livro da Iniquidade._

Não há esperança para os que são como eu, na terra nem tampouco no Céu;

Sem amor vivo, sem amor morro, sem piedade, sem perdão;

Égua repulsiva, exerço meu ofício, profana e sem absolvição.

Pinto as faces, pois são brancas, e os homens odeiam faces de giz;

Faço brilhar meus olhos com vinho, para que os homens busquem e se fartem;

Com uma lâmpada vermelha por cima da cabeça, sento-me e espero.

Até que eles vêm, a escória noturna, de olhos bêbados em chamas;

Vossos namorados, vossos filhos, ó desdenhosos — sou eu quem conhece sua vergonha;

Os deuses que vedes são brutos para mim — e assim jogo meu jogo.

Pois a vida não é o que pensávamos, nem o que planejamos;

E a mulher, num mundo amargo, deve fazer o melhor que puder;

Deve ceder ao golpe, suportar o jugo e servir à vontade do homem;

Deve servir-lhe a necessidade e sempre alimentar a chama de seu desejo;

Quer seja amada só por amor, quer seja amada por paga;

Pois todo homem, desde que a vida começou, está maculado de lodo.

1/1
Menu

Fazer anotação