As mulheres da vazante A Cidade Debaixo d’Água · Capítulo 3 de 12
Obra Menu

As mulheres da vazante

A frase permaneceu no caderno até André fechar a página.

Quando tornou a abrir, o papel estava seco e sem escrita. Isadora fotografou a folha sob três ângulos. A câmera registrou apenas as linhas impressas. Escreveu de memória as duas frases numa página separada e pediu que André fizesse o mesmo sem olhar. As versões coincidiram.

— Isso já aconteceu antes? — perguntou.

— Escrita que some, sim. Com a letra de Celeste, nunca.

— Você tem registros?

— Tenho descrições. Foto e vídeo não seguram essas coisas.

Isadora olhou para o telefone antigo. A transmissão havia terminado quando a água alcançara a lente. No aparelho, o arquivo de vídeo mostrava a sala seca durante quarenta e sete minutos. Nenhuma batida do relógio, nenhuma água, nenhum movimento sob a superfície.

André guardou o caderno. — Dira vai estar no porto antes das cinco.

— Ela sabia que isso aconteceria?

— Sabe quando a maré deixa alguma coisa para trás.

— Essa é a maneira dela de responder ou a sua?

— Depois que a gente chega perto da água, certas respostas não saem inteiras.

Isadora pegou a caixa vedada no quintal. A chave continuava dentro, envolta no pano. A crosta dourada havia se espalhado pelos entalhes e desenhava linhas finas sobre a haste preta.

— Vou com você — disse.

André não demonstrou alívio. Conferiu os fechos da caixa, entregou a mochila a Isadora e apagou as luzes da casa. Antes de sair, ela tornou a cobrir o relógio.

O céu começava a clarear quando chegaram à margem. A cidade ainda estava entre a noite e o primeiro movimento das bancas. Trabalhadores descarregavam caixas, puxavam carrinhos e lavavam o piso. O cheiro de peixe, fruta madura, diesel e água barrenta se adensava perto das embarcações. André cumprimentou dois homens, ajudou a firmar uma prancha e conduziu Isadora até um trapiche menor, afastado do fluxo principal.

Isadora o seguiu entre caixas de isopor, paneiros e carrinhos que disputavam a passagem. Aos dezenove anos, atravessara aquele movimento com a certeza impaciente de que o conhecia por inteiro. Agora precisava observar onde pisava e imitava o ritmo dos outros para não interromper o trabalho. André tocava ombros, recebia avisos sobre vento e ajudava a reconhecer embarcações antes que a luz revelasse seus nomes. Ninguém perguntava por que ele carregava um caderno sob a camisa.

Perto de uma balança, uma mulher separava peixes por tamanho enquanto discutia o preço com um comprador. Ao ver André, apontou uma faca para o céu.

— Teu quarto pau sumiu de novo.

— Qual deles?

— O da curva. Ontem estava acima da água. Hoje só tem o prego.

André anotou a informação sem abrir o caderno. A mulher olhou para Isadora e reconheceu o rosto antes do nome.

— A neta de Celeste voltou.

— Para o enterro — respondeu Isadora.

— Enterro acaba cedo. O que fica depois dá mais trabalho.

Ela retomou a pesagem. André continuou andando.

— Que pau sumiu? — perguntou Isadora.

— Uma das réguas improvisadas que uso para comparar a altura da água. A corrente leva algumas. Outras aparecem cortadas sem marca de ferramenta.

— E você trata as duas coisas como o mesmo dado?

— Anoto a diferença. Celeste gostava de misturar. Eu separo.

Ele mostrou no telefone uma série de fotografias feitas sempre do mesmo ponto. Havia quatro estacas pintadas em branco, cada uma com marcas pretas em intervalos regulares. Na imagem mais recente, a terceira estaca terminava num corte plano pouco abaixo da superfície. Um prego enferrujado permanecia suspenso onde antes atravessava a madeira. Isadora ampliou. Não havia suporte visível para mantê-lo no ar.

— Você viu pessoalmente?

— Vi ontem à tarde. Na vazante, o prego cai. Na cheia seguinte, volta para o lugar.

— E ninguém mexe?

— Todo mundo aqui tem serviço demais para brincar com meu prego.

Chegaram ao trapiche menor quando uma embarcação encostava. Duas mulheres descarregaram paneiros de marisco cobertos por tecido úmido. Nenzinha recebeu um deles, conferiu o fundo e discutiu com a condutora sobre uma área onde as conchas haviam desaparecido. A conversa mencionava lama mais mole, gosto diferente na água e um trecho em que o remo voltara com uma película dourada.

Isadora esperou que terminassem.

— A película parecia óleo?

A condutora limpou as mãos no avental. — Óleo espalha. Aquilo juntou quando a gente tentou tirar.

— Guardaram uma amostra?

Nenzinha apontou para um frasco dentro do barco. — Guardamos porque André vive pedindo. Da outra vez virou água limpa antes de chegar aqui.

Isadora recebeu o frasco sem abrir. No fundo havia grãos dourados semelhantes aos encontrados sob as unhas de Celeste. Quando ela inclinou o recipiente, os grãos subiram pela lateral e se reuniram na altura de seus dedos.

— Isso apareceu hoje?

— Antes de dona Celeste morrer — respondeu a condutora. — A gente só soube da morte no caminho.

André colocou o frasco em outro saco e marcou o horário aproximado da coleta. Isadora acrescentou a posição descrita pela mulher. Pela primeira vez desde que chegara, seu procedimento encontrou um lugar entre ações que já existiam. As mulheres observavam água, fundo, vento e comportamento dos animais porque dali dependiam o alimento e o retorno. O extraordinário entrava no mesmo campo de atenção sem transformar o trabalho em cenário.

Dira, Nenzinha e Joana esperavam junto a uma embarcação de madeira azul. Os paneiros do velório estavam alinhados no fundo. Dira usava uma camisa de mangas compridas e amarrara o cabelo com um lenço vermelho. Nenzinha separava cordas. Joana falava ao telefone, de costas para o rio.

— Ela ainda está dormindo — dizia. — Deixei comida pronta. Quando acordar, pede que me ligue.

Desligou e guardou o aparelho num saco transparente.

— Minha filha — explicou. — Tem dezessete anos e acha que o dia começa depois das nove.

Isadora colocou a mochila no trapiche.

— Vocês sabiam que a casa ia encher?

Dira continuou verificando a rede dobrada aos seus pés.

— Casa fechada cria mofo. Casa vazia cria ouvido.

— Eu perguntei sobre água.

— E eu respondi sobre o que deixou ela entrar.

— A água apareceu numa gravação e não apareceu na sala. Isso tem relação com a chave?

Nenzinha levantou o rosto. — Mostra.

Isadora retirou a caixa da mochila. As três mulheres se afastaram da borda do trapiche antes que ela abrisse. Dira estendeu sobre uma caixa de madeira um pedaço de lona seca. A chave foi colocada ali com o pano, longe das poças deixadas por botas e peixes.

— Celeste deixou no caixão — disse Isadora. — Escreveu que eu devia levar meu nome.

Joana tocou a própria garganta. Nenzinha lançou um olhar para a água e cuspiu para o lado oposto.

— Não repete isso aqui — pediu Dira.

— Por quê?

— Porque uma palavra pode ser anzol mesmo quando a boca pensa que é só palavra.

Isadora conteve a resposta. Precisava distinguir crença, medo compartilhado e efeito observável. Apontou para os paneiros.

— O que vocês trouxeram ontem?

Nenzinha descobriu o primeiro. Dentro havia objetos embrulhados em tecido: uma colher sem cabo, um sapato infantil endurecido por sal, um cadeado coberto de limo, duas pulseiras sem cor e um vidro vazio com a tampa lacrada por cera.

— Isso era da minha avó?

— Passou pela mão dela — respondeu Nenzinha. — Ser de alguém é coisa que muda quando entra aqui.

Nenzinha abriu os embrulhos e colocou os objetos em fila sobre a lona. Conhecia a procedência de quatro. A colher pertencera a uma mulher que pedira que o marido voltasse a sentir o gosto da comida depois de uma doença. O cadeado viera de uma casa onde um rapaz desaparecia durante noites de chuva e reaparecia dormindo na própria cama. Uma das pulseiras, originalmente azul, havia sido usada por três crianças da mesma família antes de perder a cor. O sapato infantil ninguém aceitara reconhecer.

— E o vidro? — perguntou Isadora.

Dira virou o frasco sem tocar na cera. — Celeste guardava perto do peito quando a maré enchia.

— O que havia dentro?

— Cheiro de andiroba, no começo. Depois ficou com cheiro de quarto fechado.

— Foi entregue por alguém?

Dira aproximou a boca e parou. Entre as tábuas do trapiche, a água refletia metade de seu rosto. Ela cobriu a fresta com o pé e tentou outra vez.

— Chegou com uma mulher que precisava de mais três anos.

— Três anos de vida?

A garganta de Dira contraiu. A mulher pressionou a língua contra os dentes, porém o som que saiu foi o ruído de remo raspando em madeira. Nenzinha virou o frasco sobre a lona. Nenhuma das duas respondeu.

Isadora retirou da mochila a camisa encontrada na casa e mostrou o papel com o nome borrado. Dira reconheceu o tecido pelo bordado ausente. Passou os dedos sobre os furos na gola e fechou os olhos.

— Ela conseguiu uma tarde com o filho — disse Isadora. — A pessoa pediu que queimássemos o nome.

— Então queima longe da água — respondeu Dira.

— Quero saber o que o papel mantém antes de destruir.

— Mantém caminho. Caminho serve para voltar e serve para cobrar.

— A mulher disse que já pagou.

— Pagou o que ofereceu. Celeste guardou o caminho depois.

Isadora olhou para André. — Você sabia que os nomes podiam continuar ligados?

— Sabia que ela separava alguns papéis. Nunca explicou por quê.

— Ninguém aqui exigia explicação?

Nenzinha puxou o cadeado para perto. — A gente exigia. Às vezes Celeste respondia. Às vezes a água começava a sair da boca dela. Às vezes tinha uma criança febril esperando e a resposta ficava para depois.

— E o depois virou vinte e um anos.

Dira sustentou o olhar de Isadora. — Virou.

O reconhecimento direto retirou força da acusação. Isadora esperava lealdade à avó ou uma justificativa fundada em urgência. Encontrou cansaço. Dira e Nenzinha haviam participado o bastante para conservar objetos e tentar impedir novos pedidos, sem possuir a conta inteira.

Joana se aproximou da lona. Escolheu uma das pulseiras e a envolveu no próprio punho. O tecido cinzento recuperou uma faixa azul sobre a veia. Ela retirou a pulseira depressa.

— Era da Maiara? — perguntou Isadora.

Joana negou. — Era minha.

— O que você pediu?

Joana procurou uma parte seca do trapiche antes de responder. — Que minha filha voltasse para casa antes de eu dormir.

— Ela tinha desaparecido?

— Tinha seis anos. Seguiu uma prima, entrou num barco e atravessou sem ninguém ver. Acharam do outro lado depois de escurecer.

— O que você ofereceu?

Joana apertou os dedos vazios ao redor do punho. — Um dia sem ser mãe.

Isadora levou alguns segundos para compreender a frase como condição literal.

— Por isso ela deixa de reconhecer você?

— No começo, foi um dia inteiro. Depois voltou em pedaço sempre que Celeste usava a pulseira.

— Usava para quê?

Joana tentou dizer. A água entre as estacas estalou. Sua boca perdeu o movimento na segunda palavra.

Dira recolheu a pulseira e a colocou de volta na lona. — Essa é uma das perguntas que a porta precisa responder olhando para quem abriu.

Isadora tocou o saco que guardava a camisa. A mulher ao telefone aceitara uma despedida. Joana aceitara um dia. Alguém transformara condições particulares em objetos reaproveitáveis. A mão de Celeste estivera no meio de cada passagem.

Nenzinha pegou o cadeado coberto de limo e pediu que Isadora lesse a inscrição na base. Restavam três letras e um número. Isadora pronunciou cada sinal. Nenzinha ouviu com o rosto inclinado, à espera de uma combinação que não veio.

— Era o nome de uma enseada — disse. — Eu levava gente para lá desde menina. Sabia entrar de noite, com chuva, sem lua. Um dia pedi que meu irmão achasse o caminho de volta. Ele voltou, e eu nunca mais consegui dizer onde tinha ido procurar.

— Você esqueceu o trajeto?

— O braço lembra. A boca e o mapa perderam.

— Ainda consegue chegar?

— Quando não tento. Se alguém pergunta o destino, erro a entrada.

Nenzinha contou que passara anos desenhando o contorno da margem. Cada versão produzia uma curva diferente. As pessoas que conheciam o lugar discordavam sobre o nome e acabavam indicando outras enseadas. Durante certas vazantes, ela reconhecia uma árvore inclinada e um banco de lama. Ao apontar, a paisagem se rearranjava atrás do gesto.

Isadora pediu que simulasse o movimento sem olhar para o rio. Nenzinha fechou os olhos e conduziu no ar uma embarcação imaginária: duas correções curtas, uma curva longa, redução do motor. André comparou o gesto com um desenho do caderno. A sequência coincidia com uma rota anotada por Celeste, sem topônimo.

— O cadeado guardava o nome? — perguntou Isadora.

— Guardava a entrada. Celeste usou depois para segurar outra coisa fechada.

— Com sua autorização?

Nenzinha passou o polegar sobre o limo. — Ela pediu o cadeado emprestado. Eu pensei que emprestado ainda significava voltar igual.

O metal se abriu sozinho. Dentro do arco havia uma tira de papel enrolada. Dira impediu Nenzinha de retirá-la perto da bacia. Isadora fechou o cadeado usando o pano e o separou dos demais. Pela primeira vez, Nenzinha pareceu temer o objeto que carregara durante anos.

Dira abriu o segundo paneiro. Estava cheio de conchas fechadas com cera igual à que ela depositara no caixão. Cada uma tinha um nome escrito em letra pequena.

— São pedidos — disse Dira. — Gente que chegou na banca de Celeste pedindo cura, volta, esquecimento, dinheiro, filho em casa. Ela ouvia. Às vezes mandava a pessoa procurar médico, polícia, advogado. Às vezes entregava mistura de erva. E às vezes fazia a pergunta errada perto de uma bacia.

— Qual pergunta?

Dira se aproximou da chave. A crosta dourada brilhava no interior dos entalhes.

— Quanto você dá para ter isso de volta?

— Minha avó fazia barganhas com essas pessoas?

A palavra barganhas produziu um ruído baixo na água, como uma pedra arrastada pelo fundo. Joana virou o rosto e tossiu. Quando tentou falar, nenhum som saiu. Levou as duas mãos ao pescoço.

Nenzinha puxou uma garrafa de água potável, mas Dira impediu que Joana bebesse.

— Espera a palavra soltar.

Joana respirou pelo nariz. Seus olhos lacrimejaram. Depois de alguns segundos, conseguiu emitir uma voz áspera.

— Rede fechada em peixe grande aperta até quem está na margem.

Isadora observou a garganta dela. Não havia contração visível além do esforço para recuperar a voz.

— Você tentou dizer o quê?

Joana apontou para o rio e balançou a cabeça.

Dira pegou uma bacia de alumínio no barco e a colocou sobre o trapiche. Nenzinha despejou dois dedos de água do rio. O reflexo do céu ocupou o fundo.

— Longe daqui, Joana consegue contar mais — disse Dira. — Perto de água que devolve rosto, ela precisa andar pelas beiradas.

— Quero um teste.

— Celeste dizia que tu ia pedir.

Dira entregou a Isadora um pequeno espelho com manchas escuras. Pediu que o segurasse sobre a bacia. O rosto de Isadora apareceu entre nuvens e ondulações.

— Diz teu nome inteiro.

André se moveu atrás dela. — Dira, ainda não.

— Ela quer teste.

Isadora manteve o espelho firme. — Isadora Sampaio.

A água subiu pelas laterais da bacia sem transbordar. O reflexo mudou. Por um instante, o rosto era mais jovem, com o cabelo cortado na altura do queixo e uma cicatriz recente na sobrancelha. Isadora perdeu a força nos dedos. O espelho caiu sobre a lona.

— Eu tinha essa cicatriz aos treze — disse.

André se agachou para pegar o objeto.

— Foi na semana do alagamento.

— Você lembra?

— Lembro de levar você para casa.

— Eu acordei no colo da minha avó.

— Acordou depois.

— Depois de quê?

André olhou para Dira. A mulher mais velha fechou o segundo paneiro.

— Para mostrar fundo, a água cobra entrada — disse ela. — Para mostrar saída, cobra outra coisa. Hoje a gente só precisava saber se a porta ainda reconhecia você.

— A porta onde?

Nenzinha apontou para uma faixa de construções além da margem.

— Onde a parede acaba quando chove e continua quando seca.

— Isso não é um endereço.

— Endereço inteiro vira convite — respondeu Nenzinha. — A gente leva quando baixar mais.

Isadora abriu o terceiro paneiro. Estava vazio, exceto por uma fotografia presa ao fundo com quatro pregos. Celeste aparecia atrás de seu balcão, mais nova, com as mãos apoiadas numa fileira de frascos. Dira e Nenzinha estavam ao lado. Entre elas havia um espaço largo. Uma das mãos de Celeste repousava no ar, curvada como se envolvesse o ombro de alguém que a fotografia não mostrava.

— Era Joana aqui?

— Era minha irmã — disse Dira.

— O que aconteceu com ela?

Dira passou o polegar sobre o espaço vazio.

— Eu sei que tive irmã. Sei onde ela dormia, qual comida recusava, como prendia o cabelo. Quando tento lembrar da voz, escuto água entrando num casco.

— Ela morreu?

— Sumiu da fotografia antes de sumir de casa. Celeste conseguiu trazer o corpo. A voz ficou do outro lado.

Isadora tornou a olhar os objetos. O sapato infantil, o cadeado, as pulseiras e o vidro deixavam de parecer coleção de superstições. Cada peça guardava uma ausência que alguém conseguia descrever sem recuperar.

— Minha avó sabia o que estava fazendo?

— Sabia cada vez mais — respondeu Dira. — Isso não quer dizer que conseguia parar.

Joana retirou o telefone do saco. A tela acendeu com uma chamada de vídeo. O nome Maiara aparecia no alto.

— Minha filha acordou.

Atendeu sorrindo e virou a câmera para o rosto.

— Bom dia, dorminhoca.

Uma adolescente apareceu na tela, com o cabelo amassado de sono. Atrás dela, Isadora reconheceu uma cozinha pequena e uma rede presa acima da janela.

— Cadê minha mãe? — perguntou Maiara.

Joana riu. — Tô aqui, menina.

— Dona Dira, ela deixou o telefone com a senhora?

O sorriso de Joana desapareceu. Dira tomou o aparelho, mantendo a câmera voltada para as três.

— Tua mãe está comigo.

— Onde?

— Aqui do lado.

Maiara aproximou o rosto da tela. Olhou diretamente para Joana e franziu a testa.

— Quem é essa mulher?

Joana agarrou a borda do barco. O telefone no saco de Dira perdeu o nome do contato; onde aparecia Maiara, restou apenas o número.

Nenzinha observou a água entre as estacas.

— A vazante virou.

— Quanto tempo dura? — perguntou Isadora.

Joana tentou responder. A boca formou a primeira sílaba e travou. Uma linha de água escorreu de seu nariz. Ela limpou o rosto com a manga e apontou para as conchas fechadas.

Dira encerrou a chamada. — Até a maré devolver. Primeiro eram minutos. Agora passa de uma hora.

Isadora recolocou a chave na caixa. Sentia o reflexo de treze anos preso atrás dos olhos, mais nítido que muitas lembranças verdadeiras.

— Vocês querem que eu abra essa porta.

— A gente quer que você veja o que está pagando — disse Dira. — Depois escolhe com a conta inteira na frente.

André levou os paneiros para o barco. Joana sentou-se na proa com o telefone desligado entre as mãos. A filha ligaria de novo sem saber quem atenderia.

Isadora entrou na embarcação. Guardou a caixa entre os pés e segurou a lateral enquanto André soltava a corda.

Nenzinha empurrou o barco para longe do trapiche.

— Quando a parede aparecer — falou — ninguém diz o nome de Isadora até ela pedir.

— Por quê? — perguntou André.

Dira olhou para a chave dentro da caixa.

— Porque tem alguém lá embaixo usando o mesmo nome há vinte e um anos.

1/1
Menu

Fazer anotação