O nome no azulejo
As figuras atrás das janelas não possuíam olhos, boca ou nariz. Algumas tinham cabelos e roupas reconhecíveis. Outras eram apenas contornos pálidos cercados por objetos nítidos: um brinco, um chapéu, uma bolsa apertada contra o peito. Uma mulher segurava um bebê cujo rosto também havia sido apagado.
Isadora recuou da placa.
— Quem são eles?
A Cobradora ficou ao lado da inscrição. O rosto agora reunia a testa de Dira, a boca de Celeste e uma cicatriz que Isadora reconheceu da própria sobrancelha aos treze anos.
— Pessoas ligadas ao que foi trazido para adiar esta data.
— Todas pagaram pela minha vida?
— Todas estão ligadas ao adiamento.
— Elas concordaram?
— Algumas pediram outra coisa. Algumas entregaram sem compreender o destino. Algumas compreenderam o que desejavam receber.
— Isso não responde.
— Responde às três perguntas que você reuniu numa frase.
Isadora separou as perguntas, repetindo o procedimento aprendido na sala das fichas.
— Quantas dessas pessoas sabiam que o pagamento ajudaria a manter minha vida fora da cobrança?
A Cobradora percorreu as janelas com o olhar. Três figuras ergueram as mãos. Uma delas segurava um chapéu contra o peito; outra tinha uma colher presa ao cabelo; a terceira parecia vestir um uniforme hospitalar sem identificação.
— Três? — perguntou Isadora.
— Três continuam capazes de responder pelo conhecimento.
— As outras não sabiam?
— As outras não podem responder que sabiam.
— Porque esqueceram?
— Porque o conhecimento pode ter sido entregue, retirado ou nunca oferecido.
Isadora registrou a distinção no caderno. — Quantas foram informadas por Celeste sobre o destino do pagamento antes de aceitar?
Uma única figura manteve a mão erguida. Usava a pulseira azul que Joana carregara no trapiche. O rosto continuava vazio.
— Essa é Joana?
— Você associou o objeto a esse nome.
— A figura representa Joana Farias?
— Representa a parte de uma pessoa ligada ao objeto trazido.
— Joana foi informada?
A Cobradora virou a boca para a janela e perdeu a voz de Celeste. — Ela ouviu que deixaria de ser mãe durante o tempo aceito.
— Ouviu que a perda seria reutilizada?
A mão da figura baixou.
— Ninguém foi informado do uso repetido — disse Isadora.
— A informação não foi apresentada por quem a possuía.
André escreveu a resposta. O verbo possuía se transformou numa mancha dourada. Isadora olhou para as dezenas de janelas. Em algumas, as pessoas mantinham postura de espera; em outras, os corpos pressionavam o vidro como se tentassem ouvir.
— As partes delas estão presas aqui?
— Estão presentes onde a conta consegue localizá-las.
— Se a dívida for paga, voltam?
— O pagamento encerra uma obrigação. Não desfaz o que já foi entregue.
— Então quitar minha vida não devolveria a voz de Dira, o nome perdido por Nenzinha ou os dias de Joana?
— O que foi cumprido pertence ao cumprimento. O que permanece em uso pode deixar de ser usado.
A resposta abriu uma diferença que Isadora ainda não conseguia medir. Havia perdas concluídas e parcelas mantidas em circulação. A contestação talvez interrompesse o uso repetido sem restaurar aquilo que cada pessoa entregara conscientemente. Ela sublinhou as duas condições no caderno.
André puxou o cordão. O excesso continuava estendido sob o barco de azulejos, onde nenhuma das pontas deveria chegar.
— Isadora, a gente precisa voltar.
— Primeiro quero saber se essa cobrança pode ser contestada.
A Cobradora passou o dedo sobre a data. O limo se abriu ao redor da unha.
— Toda conta pode ser apresentada diante das testemunhas.
— Que testemunhas?
— As que pertencem à conta inteira.
— André é uma delas?
O rosto da mulher perdeu as feições dele e assumiu as de uma desconhecida com os dentes separados.
— André Cordeiro ouviu a abertura e permaneceu depois dela.
— Ouviu o quê? — perguntou Isadora.
— A água não repete gratuitamente o que uma testemunha decidiu guardar.
André enrolou outra porção do fio no braço. — Eu conto fora daqui.
— Conta agora.
— A porta está mudando.
A placa se afastava. A parede estreita havia ganhado duas janelas entre Isadora e a inscrição. O cordão vermelho passava sob as fachadas e reaparecia preso à mão de uma menina no outro lado da rua.
Ela tinha cabelos curtos, a cicatriz na sobrancelha e a mesma roupa que Isadora usava numa fotografia do verão em que se afogara. A menina fechou os dedos ao redor do fio e deu um passo para trás.
Isadora sentiu o nó apertar seu pulso.
— Quem é ela?
— A ponta que vocês deixaram esperando — respondeu a Cobradora.
Dira havia sido precisa: se uma das pontas estivesse amarrada em outra pessoa, deveriam voltar sem perguntar quem ficara. Isadora tentou puxar o cordão. A menina resistiu com os dois pés apoiados no calçamento. O rosto infantil contraiu-se num esforço que Isadora conhecia sem lembrar de tê-lo feito.
— Solta — pediu André.
A menina levantou a cabeça. — Você demorou.
Era a voz sob o assoalho.
André atravessou a rua e alcançou apenas água. A menina apareceu junto ao barco, ainda segurando o fio. Depois surgiu atrás de uma janela acesa. Cada mudança acrescentava uma volta ao cordão.
Isadora seguiu em direção a ela. A Cobradora não impediu.
— Se eu alcançar essa menina, recupero o que aconteceu?
— Você alcançará o lugar onde ela está.
— Recupero minha lembrança?
— Lembrança retirada não é objeto abandonado no chão.
— Onde ela foi colocada?
A Cobradora apontou para as fachadas iluminadas. — Em parcelas que Celeste julgou menores que você.
Uma porta abriu no edifício da placa. A menina entrou. Isadora correu antes que André pudesse segurar seu braço. O cordão conduziu os dois a uma escada revestida de azulejos brancos. Cada degrau trazia um nome. Alguns estavam inteiros; em outros restavam duas ou três letras. A água escurecia à medida que desciam.
No primeiro patamar, Isadora encontrou Dira riscado sobre uma peça quebrada. No segundo, Joana Farias aparecia em três azulejos separados. Ao tocar o sobrenome, ouviu Maiara perguntar quem era a mulher na tela. Retirou a mão.
— Não encosta — repetiu André.
— São as pessoas das fichas.
— A gente não sabe o que acontece quando tira alguma coisa daqui.
— Sei o que acontece quando deixamos.
No fim da escada, o corredor dividia-se em cinco direções. Isadora não hesitou. Virou à direita, abaixou a cabeça antes de uma viga e escolheu a passagem mais estreita. André tropeçou ao acompanhá-la.
— Como você sabe o caminho?
— A menina virou aqui.
— Eu não vi menina nenhuma desde a escada.
Isadora parou. O cordão saía de seu pulso, contornava a viga e seguia pela passagem que escolhera. A outra ponta ainda estava presa a André. O trecho que deveria levar à menina terminava num nó ao redor de nada.
O corredor estreito abriu-se numa sala revestida de azulejos verdes, iguais aos do primeiro limiar. Havia marcas de altura numa das paredes. Datas acompanhavam os riscos, registrando o crescimento de crianças desconhecidas. Uma linha mais funda chegava à altura do ombro de Isadora. Ao lado dela, alguém gravara quatro letras com uma lâmina:
DORA
No chão, uma caixa de madeira ocupava o canto sob as marcas. A tampa tinha um desenho de cajus semelhante ao bordado do pano que cobrira o relógio. Isadora se agachou sem tocá-la. Pela abertura lateral, viu um elástico de cabelo, uma peça de jogo, dois lápis apontados com faca e um caderno escolar inchado pela água.
— Isso era meu — disse.
— Você reconhece os objetos? — perguntou André.
— Reconheço a caixa. Ficava embaixo da minha cama.
— Celeste disse que jogou fora depois do acidente.
Isadora usou a ponta do próprio sapato para afastar a tampa. As páginas do caderno se abriram sozinhas. Havia exercícios de matemática, cópias de poemas e desenhos de casas. Em várias folhas, uma menina desenhara o mesmo corredor de azulejos verdes. A data era anterior ao afogamento.
— Eu já via este lugar antes de entrar?
André permaneceu junto à porta. — Nunca me mostrou esses desenhos.
Em uma página, Celeste aparecia diante de uma bacia. A avó era reconhecível pelo cabelo preso e pela gola amarela da camisa. A figura de Isadora ocupava o outro lado, com o nome Dora escrito sobre a cabeça. Entre as duas, a criança desenhara uma porta dentro da água.
A Cobradora surgiu no reflexo dos azulejos, sentada atrás da caixa.
— Quando fiz isso? — perguntou Isadora.
— Antes da abertura que você recorda como afogamento.
— Houve outra?
— Houve aproximações suficientes para que você aprendesse o caminho.
— Celeste me trouxe?
— Celeste colocou água numa bacia. Você olhou.
— Ela sabia que a porta me reconhecia antes do acidente.
— Celeste sabia que você reconhecia a porta.
Isadora virou outra página usando a régua caída ao lado da caixa. O desenho seguinte mostrava uma mulher feita de pedaços de rostos. Abaixo dela, a menina escrevera: ela responde só uma coisa cada vez.
— Eu conhecia você.
— Você me conhecia dentro da função que conseguiu nomear.
— E minha avó apagou isso depois.
— Celeste retirou o caminho.
O caderno infantil se fechou. A caixa recuou para dentro da parede até desaparecer. Restou uma marca retangular no limo, acompanhada de quatro furos onde antes havia pés de madeira. Isadora soube que nenhum dos objetos sairia dali porque já tinham sido usados para construir o lugar que a cercava.
A dor atingiu seu maxilar antes de alcançar o peito. Isadora levou a mão à boca. Sentiu gosto de sangue, areia entre os dentes e dedos apertando a parte de trás de seu pescoço. Viu Celeste ajoelhada numa água negra, chamando-a por aquele nome. A imagem durou o tempo de um piscar.
— Minha avó me chamava assim?
André ficou junto à entrada. — Chamava.
— Depois do afogamento também?
— Nunca mais na minha frente.
Isadora tentou tocar as letras. A mão parou a poucos centímetros da parede. A água entre seus dedos e o azulejo endureceu como vidro.
A Cobradora surgiu refletida na superfície verde.
— Este nome permanece em garantia.
— Garantia de quê?
— De que a vida devolvida ainda pode ser localizada.
— Meu nome não é Dora.
— Agora, não.
— Foi minha avó que tirou?
— Celeste retirou o caminho entre esse nome e suas lembranças.
— Devolve.
— Você não trouxe pagamento para essa abertura.
Isadora bateu contra a camada endurecida. O azulejo rachou atrás dela. Um fragmento com as letras DO se desprendeu e caiu. André o segurou antes que tocasse o chão.
Todas as luzes da cidade se apagaram.
O cordão vermelho encolheu com violência. Isadora foi puxada pelo pulso. André perdeu o fragmento, que desapareceu na escuridão, e chocou-se contra ela. A água tornou a ter peso. O teto pressionou seus ombros, embora estivesse metros acima.
— A maré — disse ele.
A voz saiu em bolhas. Isadora tentou inspirar e recebeu água nos pulmões. Tossiu, engasgou e agarrou a camisa de André. Ele a empurrou para o corredor por onde haviam entrado.
As cinco passagens mudaram de posição. O caminho da escada terminou numa cozinha cheia de copos sem flores. Outra passagem abriu diante da sala das fichas. Isadora procurou o óleo de andiroba, porém o cheiro surgia de todas as direções.
No escuro, a voz de Celeste chamou:
— Dora, vem pela beira.
Isadora virou à esquerda. André tentou puxá-la para o lado oposto.
— É a Cobradora.
— Eu sei onde fica o degrau quebrado.
Seguiu a voz até encontrar uma parede. Passou a mão pelos azulejos, localizou o espaço vazio e se abaixou. Um túnel baixo começava ali. Isadora entrou de joelhos. O corredor da porta não tinha túnel quando chegaram, e ainda assim seu corpo lembrava da largura, da curva e de uma pedra solta perto da saída.
André veio atrás, ligado pelo fio. A água o arrastava contra as paredes. Isadora alcançou a pedra, empurrou-a com o ombro e encontrou luz.
A porta estava deitada no chão.
Do outro lado, Dira e Nenzinha apareciam acima deles, distorcidas pela superfície. Isadora bateu na madeira. Dira agarrou seu pulso e puxou. A passagem girou enquanto ela atravessava. Saiu no corredor do depósito de costas, com água escorrendo da boca. Nenzinha ajudou André. Assim que o cordão vermelho passou pelo limiar, a porta se ergueu, bateu e recuperou a textura de tijolos.
O encaixe da fechadura desapareceu com a chave ainda dentro.
Isadora ficou ajoelhada na lama, respirando. A chuva havia terminado. A luz do lado de fora era mais clara do que quando entraram.
— Quanto tempo? — perguntou.
Joana mostrou o telefone. — Uma hora e vinte e seis.
— Lá dentro foram menos de trinta minutos.
— Aqui a maré chegou antes de vocês — disse Nenzinha.
André abriu o caderno. As páginas estavam secas. Todas as anotações feitas na cidade haviam sumido, exceto quatro letras impressas no papel como uma marca de ferrugem: DORA.
Joana ligou para a filha. Maiara atendeu na primeira chamada.
— Mãe, onde a senhora está? Liguei um monte de vezes.
Joana sentou-se no barco antes que as pernas cedessem. Encostou o telefone na testa e chorou em silêncio.
Isadora procurou o cordão. A ponta presa ao seu pulso estava coberta de limo. Dentro do nó havia um fragmento branco. Retirou-o com a unha. O pedaço de azulejo cabia na palma e trazia as duas letras que André tentara salvar: DO.
Dira envolveu o fragmento em cera e tecido. — Coisa que sai de lá continua procurando onde encaixar.
— Vou levar para a casa.
— A casa já começou a encher por sua causa.
— É onde estão as fotografias e os documentos de Celeste.
André limpou a lama do caderno. — A placa dizia amanhã.
— Na primeira preamar — completou Isadora. — Temos menos de um dia para descobrir o que ela fez.
Voltaram sem o motor. A vegetação havia fechado a passagem, e André usou o remo até alcançar água livre. Joana ficou ao lado de Dira, ouvindo a filha reclamar da comida esquecida sobre a mesa. Nenzinha contou as conchas. Uma delas estava aberta e vazia.
Na casa de Celeste, Isadora colocou o fragmento sobre uma toalha seca. André trouxe as caixas do quarto. Procuraram registros anteriores ao afogamento: cadernos escolares, receitas médicas, fotografias, cartas e contas guardadas por décadas. Em três boletins, o nome aparecia como Isadora Celeste Sampaio. No ano seguinte ao acidente, a escola passara a registrar Isadora Sampaio. Um envelope de cartório continha cópias de uma retificação requerida por Celeste. O campo destinado à justificativa estava coberto por uma mancha de água.
Isadora telefonou para o cartório usando o número impresso no documento. A atendente localizou o protocolo pelo ano e pelo nome atual, mas encontrou uma divergência: o livro físico indicava uma averbação; o sistema digital mostrava que nunca existira nome intermediário. Isadora pediu uma certidão de inteiro teor. A mulher informou que o livro correspondente estava em restauração depois de um vazamento.
— Quando ocorreu o vazamento?
— A ficha diz que foi há quinze anos.
— O livro continua em restauração há quinze anos?
A atendente tornou a consultar. — Aqui agora aparece que foi retirado ontem.
— Por quem?
— O campo está vazio.
Isadora solicitou que registrasse formalmente a consulta e enviasse o protocolo por correio eletrônico. A mensagem chegou sem o nome do cartório. O anexo abria uma página em branco. Ela fez capturas da tela e copiou à mão o número fornecido.
André procurou no caderno os registros do mesmo período. Encontrou três idas de Celeste ao centro, todas próximas de maré alta. Na terceira, anotara: papel aceita nome menor; água conserva o inteiro.
— Você escreveu isso?
— Celeste ditou. Eu tinha dezesseis anos.
— Ela alterou o registro civil e o que existia aqui.
— Tentou alterar. A placa continuou com o nome inteiro.
Isadora separou os boletins, a cópia da certidão e o protocolo. A operação da avó envolvera médicos, escola e cartório, além do mecanismo fantástico. Celeste criara uma explicação administrativa para a lacuna que produziria na memória da neta. Cada documento sustentava o seguinte; nenhum revelava a causa.
Num caderno de despesas, encontraram pagamentos à médica mencionada na declaração. Os valores continuaram por oito meses depois da retificação. O nome da profissional desaparecia quando Isadora aproximava o fragmento. Sem o azulejo, as letras voltavam incompletas, trocando a ordem das vogais.
— Ela também pagou? — perguntou André.
— Ou foi usada como testemunha.
Isadora marcou o registro para investigação posterior. O tempo até a cobrança impedia que seguissem cada pessoa naquele momento, porém a existência de terceiros envolvidos no apagamento mudava a escala. O segredo de Celeste exigira participação material de gente que talvez acreditasse apenas estar tratando uma adolescente traumatizada.
— Ela tirou o próprio nome do meu — disse Isadora.
André separou uma fotografia. Isadora tinha treze anos e estava diante da casa, com a cicatriz ainda vermelha. Celeste aparecia atrás dela, uma mão em cada ombro da neta.
— Foi depois que você voltou — disse ele.
Isadora colocou a fotografia ao lado do fragmento. As letras DO escureceram. Uma faixa de água atravessou a imagem de baixo para cima.
Celeste desapareceu.
A casa, a adolescente e o portão permaneceram nítidos. Atrás de Isadora restou um espaço com a forma do corpo da avó. As alças da blusa continuavam comprimidas por duas mãos que a fotografia já não mostrava.