O livro das marés A Cidade Debaixo d’Água · Capítulo 9 de 12
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O livro das marés

A frase de Celeste desapareceu quando Isadora fechou o livro de reuniões. As linhas destinadas à assinatura de Joana permaneceram vazias.

Dira pediu que Jandira reunisse os objetos trazidos pela água num lugar seco e mantivesse cada peça junto ao nome lembrado pela família. Isadora entregou a ela um dos sacos com cópias. Explicou que os papéis podiam conservar fatos mesmo quando a relação desaparecesse. Jandira aceitou o material sem retirar a desconfiança do rosto.

— E o que fazemos com ela? — perguntou, indicando Joana.

— Ela dorme na casa dela — respondeu Dira.

— A casa é de Maiara.

— Joana construiu metade e pagou a outra.

Jandira consultou a adolescente. Maiara observou a segunda rede, as roupas e o prato sobre a pia. Concordou que Joana ficasse até amanhecer, desde que Dira também permanecesse. A palavra mãe não voltou.

Joana entrou na casa por último. Pediu autorização para abrir o armário e retirou lençóis do lugar exato onde Maiara não os encontrara. Sabia qual janela emperrava, qual lâmpada precisava de dois movimentos no interruptor e onde a filha escondia dinheiro para emergências. Cada acerto aumentava a inquietação da adolescente.

— Quem contou essas coisas para a senhora? — perguntou Maiara.

— Tu — respondeu Joana. — Uma por uma, durante anos.

Maiara olhou para Dira. — Ela pode ter vindo aqui antes.

— Veio todo dia — disse Dira.

Joana separou na mesa os objetos que identificava como seus: uma escova com fios presos, uma caneca lascada, remédios prescritos em seu nome e a chave da porta. Maiara conferiu documentos. O nome continuava legível nas embalagens, porém a fotografia do cadastro mostrava apenas uma mancha clara.

Isadora sugeriu que as duas registrassem o estado da casa sem forçar reconhecimento. Maiara escreveu que uma mulher chamada Joana Farias possuía chave, conhecia o interior e tinha roupas, documentos e objetos no local. Joana escreveu que Maiara permanecia sem reconhecer o vínculo entre elas. Jandira assinou como testemunha.

— Isso não obriga você a chamar ninguém de mãe — disse Isadora. — Preserva o que conseguimos confirmar hoje.

Maiara dobrou a folha. — E se amanhã eu achar que vocês me fizeram escrever?

Isadora entregou uma segunda cópia. — Escolha alguém fora desta casa e peça que guarde. Grave uma mensagem com suas palavras, se quiser. Evite falar perto da água.

A adolescente levou a cópia para uma vizinha e voltou com o telefone gravando. Declarou a data, os objetos conferidos e a presença das testemunhas. Quando tentou dizer que Joana afirmava ser sua mãe, o áudio falhou durante quatro segundos. O restante ficou intacto.

— Até a prova está sendo escolhida — falou Maiara.

— Por isso precisamos de formas diferentes — respondeu Isadora.

Joana armou a própria rede sem se aproximar da filha. A distância entre as duas ocupava a casa de modo mais visível que qualquer objeto recuperado pela água.

Isadora examinou o caderno de Celeste. As iniciais apagadas deixavam uma sequência de datas. Cinco períodos não correspondiam aos onze envelopes encontrados na casa. O primeiro começava quatro anos depois do afogamento. Os demais se concentravam nos últimos oito anos.

— Onde ela guardava os registros que não levava para casa? — perguntou.

Dira continuou ao lado de Joana. — Na banca, enquanto teve banca.

— Ainda existe?

— O balcão mudou de mão. O fundo é o mesmo.

Nenzinha levantou o cadeado coberto de limo. — Celeste deixou isso comigo quando fechou. Disse que uma hora a ferrugem ia lembrar a porta.

O cadeado recuperara parte da superfície metálica. Uma seta igual à do fragmento de azulejo aparecia sob o arco. Apontava para o outro lado do rio, na direção da cidade.

André calculou o tempo de volta e o intervalo provável até a preamar. O gráfico digital continuava sem marcações; seus registros em papel indicavam algumas horas. A mancha em seu braço chegara ao cotovelo.

— Se formos agora, chegamos antes do movimento mais pesado — disse.

Isadora separou uma cópia do testemunho de Joana e a entregou a Maiara.

— Leia outra vez se esquecer o que aconteceu hoje. Isso registra o que sua mãe viveu.

Maiara recebeu o papel. — Registra o que essa mulher escreveu.

Joana virou o rosto para a parede.

No barco, Isadora guardou a caixa vedada entre os pés. Nenzinha e André seguiram com ela. Dira ficou com Joana. O retorno ocorreu contra a corrente, e o motor exigiu mais força. A cada mudança de direção, o ponto do mapa saltava para uma rua diferente. André conduziu pela leitura das luzes, das margens e do movimento da água.

— A marca interfere no que você reconhece? — perguntou Isadora.

— Perdi duas vezes a entrada da comunidade.

— Por que não falou?

— Porque encontrei de novo.

— Essa resposta funcionou muito bem durante vinte e um anos.

Ele reduziu o motor perto de uma embarcação de carga. — Eu sei.

A corrente empurrou a proa para uma sequência de pilares. André corrigiu tarde e raspou o casco num pedaço de madeira. Nenzinha tomou o remo da lateral, afastou-os do obstáculo e mandou que ele mostrasse o braço.

A marca formava ramos finos acima do cotovelo. Um deles pulsava de acordo com as ondas, apontando para uma passagem estreita que não fazia parte do trajeto habitual.

— Isso está guiando você? — perguntou Isadora.

— Está puxando.

— E você seguiu duas vezes.

André desligou o motor. A embarcação continuou avançando para a passagem, contra o movimento superficial da água. Nenzinha cravou o remo no fundo e segurou o casco. Isadora envolveu o braço dele com uma faixa seca, cobrindo a marca. A proa perdeu força.

— Você não pilota mais sozinho — disse.

— Sei chegar ao mercado.

— Também sabia entrar na comunidade e perdeu duas vezes.

Nenzinha assumiu o leme. André passou a indicar as marcas de margem, enquanto Isadora comparava cada mudança com o caderno. O arranjo reduziu a velocidade e impediu que a marca decidisse a direção sem contraste.

— Celeste sabia que testemunha podia ser conduzida? — perguntou Isadora.

— Mandava eu cobrir o pulso nas noites de chuva. Pensei que fosse para não molhar o caderno.

— Ela reconheceu o risco e deu uma explicação incompleta.

— Era o jeito dela continuar tendo minha ajuda.

Isadora prendeu a última volta da faixa. — Você pode parar agora.

André observou Nenzinha no motor e a água ao redor. — Posso. Vou continuar sem fingir que consigo conduzir sozinho.

Foi a primeira decisão dele que não usou Celeste como medida.

Quando alcançaram a margem, trabalhadores já descarregavam caixas, gelo e paneiros. A chuva voltara fina. Nenzinha seguiu por corredores onde o piso era lavado e reorganizado para a manhã. Cumprimentou pessoas pelo nome, perguntou por uma mulher chamada Raimunda e recebeu indicações sem interromper o trabalho de ninguém.

Raimunda estava atrás de um balcão estreito, separando frascos e embalagens. Tinha herdado parte dos móveis de Celeste ao assumir o espaço. Reconheceu Nenzinha e André. Para Isadora, ofereceu um banco e um copo de água.

— Você tem o olho dela — disse.

Isadora mostrou o cadeado. — Minha avó deixou alguma caixa aqui?

Raimunda pousou o frasco que segurava. — Deixou uma gaveta que nunca abriu. Eu quis devolver. Ela disse que o fundo do balcão não pertencia a nenhuma de nós.

Isadora recusou o copo e pediu que o afastassem da mesa. Explicou o que acontecera na comunidade e mostrou apenas as cópias, mantendo os objetos fechados. Raimunda leu o testemunho de Joana duas vezes.

— Celeste sabia que isso podia acontecer? — perguntou.

— Registrou o efeito e voltou a usar a pulseira.

Raimunda sentou no banco oferecido a Isadora. — Eu trabalhei com ela nos últimos seis anos da banca. Quando alguém vinha desesperado, ela mandava eu buscar água. Depois começou a mandar que eu ficasse do lado de fora.

— Você viu pessoas entregarem objetos?

— Vi deixarem coisas para conserto, mistura, oração, consulta. Ela nunca chamou de pagamento na minha frente.

— Alguma pessoa saiu sem reconhecer algo que conhecia antes?

Raimunda pensou numa mulher que esquecera o caminho até o ponto de ônibus e num homem que deixara de distinguir o cheiro de duas plantas que vendia havia décadas. Celeste atribuía os efeitos ao cansaço e os acompanhava até em casa. Em seguida, fechava o balcão e fazia contas.

— Por que continuou trabalhando com ela?

— Porque também vi febre baixar, gente voltar, criança ser encontrada. E porque, quando perguntei sobre as contas, ela disse que eram dela.

— Parte era minha. O restante veio de pessoas que não sabiam.

Raimunda olhou o balcão que herdara. — Se o fundo guarda alguma coisa, eu quero ver antes que tirem daqui.

Isadora concordou e preparou uma folha. Registrou que Raimunda era responsável atual pelo móvel, lembrava de Celeste usando o compartimento e escolhia presenciar a abertura. Nenzinha e André assinaram como testemunhas do estado anterior. Nenhuma frase continha oferta, troca ou promessa.

O móvel estava preso à parede e tinha uma chapa metálica na base. Raimunda retirou caixas, panos e um recipiente com moedas. Atrás deles, um pequeno alçapão aparecia sob camadas de tinta. O cadeado de Nenzinha não servia no fecho. Quando o aproximaram, a ferrugem do arco desprendeu-se e percorreu a chapa como água. O desenho de uma fechadura surgiu no metal.

Isadora encaixou o cadeado inteiro. A chapa abriu para dentro.

O compartimento tinha profundidade maior que o balcão. Nenzinha introduziu o braço até o ombro e retirou um livro envolto em lona. A capa era de couro escuro, deformada pela umidade. Na lombada, Celeste escrevera marés com tinta branca.

Raimunda tentou ler e franziu a testa. — Está escrito alguma coisa?

— Só uma palavra — respondeu Isadora.

— Para mim, parece risco.

Isadora não abriu o livro sobre o balcão molhado. Levou-o para uma mesa de trabalho nos fundos, secou a superfície e pediu folhas limpas. Raimunda ficou, porque o móvel era dela e porque recordava Celeste guardando o volume. Isadora a registrou como testemunha da retirada antes de romper a cera que unia a capa.

As primeiras páginas tinham tabelas de maré e chuva. Celeste anotara ocorrências, endereços, pedidos e objetos durante vinte e um anos. As lacunas dos envelopes correspondiam às partes mais densas. Em cinco anos, havia cento e nove lançamentos ligados a quarenta e três pessoas. Nenhuma compartilhava sobrenome com Isadora ou Celeste.

Os registros seguiam um padrão que Isadora demorou a reconhecer. A primeira linha descrevia o pedido original. A segunda identificava o objeto ou a lembrança aceita. Linhas posteriores repetiam apenas um símbolo, um horário de maré e a quantidade de dias obtida. O mesmo pagamento aparecia várias vezes sem nova assinatura.

Ela criou uma folha por pessoa. Nenzinha leu os nomes longe da bacia; Raimunda conferiu quais reconhecia da banca; André procurou correspondências no caderno. Quando uma informação divergisse, mantinham as duas versões em vez de escolher a mais conveniente.

Dos quarenta e três nomes, Raimunda conhecia trinta e um. Nove haviam morrido. Seis tinham mudado. Três apareciam apenas por iniciais que coincidiam com mais de uma pessoa. Celeste marcara quatro registros com a palavra recusou e continuara usando o objeto associado em datas posteriores.

— Recusou o quê? — perguntou Raimunda.

Isadora encontrou a explicação na margem: recusou novo uso.

Nenzinha apertou o pano ao redor do cadeado. — Então ela perguntava de novo para alguns.

— E registrava a recusa antes de ignorá-la.

Uma das pessoas recusantes era um homem que pedira o retorno do irmão. A praça que ele deixou de reconhecer aparecia em onze adiamentos. Outra era a costureira que perdera a lembrança do casamento. Celeste reutilizara a perda até a mulher deixar de reconhecer o próprio vestido nas fotografias.

Raimunda localizou uma caixa de pedidos antigos. Encontrou recibos com nomes completos, telefones e endereços. Isadora comparou os dados sem retirar os papéis do estabelecimento. Alguns números ainda podiam funcionar; outros pertenciam a parentes. Formaram uma lista de contato, identificando claramente os casos em que a pessoa original já não poderia consentir.

André abriu uma página marcada por Celeste com tinta vermelha. — Aqui diz “reserva”.

Havia oito objetos sem pedido associado, apenas descrições: uma cor que identifica a casa, o nome usado na infância, o som que acorda antes do amanhecer. Celeste mantivera essas perdas disponíveis para cobranças urgentes.

— Ela armazenava sem destino imediato — disse Isadora.

— Como mercadoria — respondeu Raimunda.

Isadora fechou a página. O balcão ao redor continuava recebendo trabalhadores, fregueses e mercadorias. Celeste havia inserido o mecanismo predatório num espaço de confiança cotidiana, entre atendimentos legítimos e necessidades reais. A familiaridade protegera o segredo melhor que qualquer fechadura.

Isadora percorreu as colunas. Uma costureira entregara a lembrança do próprio casamento por quinze dias sem alagamento na rua. Um vendedor perdera o reconhecimento de uma praça para que o irmão voltasse de uma viagem. Uma mulher oferecera o som do riso do filho em troca de uma noite sem dor. Celeste registrara cada perda e destinara uma fração ao adiamento de Isadora.

— Eles pediram ajuda para outras coisas — disse Raimunda.

— E minha avó desviou parte do pagamento.

— Ela fazia isso aqui?

Nenzinha apontou para uma bacia guardada sob a mesa. Raimunda a retirou. O fundo estava coberto por círculos dourados.

— Ela me deu junto com o balcão. Nunca consegui limpar.

Isadora contou os círculos. Quarenta e três.

Colocaram a bacia sobre um pano seco e compararam a posição dos círculos com a ordem das pessoas no livro. As marcas não formavam linhas regulares. Algumas se sobrepunham, como se a mesma área do metal tivesse recebido mais de uma parcela. Raimunda reconheceu no centro uma mancha que tentara remover com sal, sabão e areia.

— Celeste não deixava ninguém tocar quando tinha água — disse. — Nos outros dias, parecia só sujeira.

Isadora cobriu metade da bacia e abriu o livro numa página escolhida ao acaso. Um dos círculos descobertos acendeu. A linha correspondente descrevia uma colher usada quatro vezes. Ao virar para outro registro, a luz passou para uma marca diferente.

— A bacia funciona como índice — disse.

— E como lugar de aceitar — respondeu Nenzinha. — Era onde ela fazia a pergunta.

Raimunda lembrou que Celeste pedia a certas pessoas que colocassem o objeto no fundo, cobria com água e mandava repetir o pedido olhando para o próprio reflexo. Em seguida, retirava o objeto, secava e registrava. Ninguém recebia cópia.

— Eu achava que era uma forma dela ouvir com atenção — falou.

— Era a forma de produzir testemunha e resposta no mesmo lugar — disse Isadora.

Ela registrou o relato de Raimunda sem pedir que reproduzisse qualquer frase. A mulher descreveu apenas os gestos, a posição dos objetos e o que Celeste fazia depois. André confirmou ter visto a mesma bacia na primeira abertura.

Ao somar os cento e nove lançamentos, Isadora encontrou períodos que se sobrepunham. Celeste usava mais de uma parcela para atravessar a mesma cobrança, como reforço, e guardava outras para marés futuras. O total de dias registrado ultrapassava o intervalo real de cinco anos. A diferença correspondia às reservas e às reutilizações.

— Ela acumulava quando conseguia mais do que precisava — disse Isadora.

Raimunda lembrou semanas em que Celeste atendia apenas pedidos simples e outras em que convocava clientes antigos para devolver ou rever objetos. A atividade crescia antes de certas chuvas. O calendário de marés determinava quando a pressão por novas perdas aumentava.

André cruzou as datas com o próprio caderno. Os períodos de maior coleta coincidiam com portas aparecendo em pontos diferentes da cidade. Celeste não tratava apenas de uma data distante; reagia a cada sinal de que o adiamento enfraquecia.

— Ela viveu esperando a próxima cobrança — disse.

— E fez outras pessoas viverem dentro dela sem saber — respondeu Isadora.

As duas afirmações permaneceram lado a lado. Compreender o medo de Celeste não reduzia o número de nomes na bacia.

As páginas finais mudavam de formato. Em vez de nomes, traziam condições escritas em duas caligrafias: a de Celeste em tinta vermelha e outra formada por marcas que pareciam pressão de água. O título era GUARDA DA PORTA.

Isadora leu em voz alta, longe da bacia.

— “A guarda suspende a apresentação da vida beneficiária enquanto oferecer parcelas aceitas a cada ciclo de cobrança.”

André ficou atrás dela. — Celeste assumiu a guarda depois do primeiro prazo?

— Antes. Aqui diz que começou no quinto ano.

— Então os quatro primeiros foram pagos com os anos dela.

— E depois ela abriu o balcão para recolher de outras pessoas.

Nenzinha virou a página com um pano seco. A segunda condição dizia que a guardiã podia atender pedidos, determinar objetos e conservar uma parte de cada pagamento. A terceira exigia que a função passasse voluntariamente a alguém capaz de abrir a mesma porta. Se ninguém aceitasse, a vida suspensa voltaria à cobrança.

Uma quarta condição estava escrita no vinco e só apareceu quando abriram a lombada por inteiro: a guardiã responde pelo consentimento que declara, não pelo consentimento que omite.

— Isso permite que ela diga que todos aceitaram — falou Raimunda.

— Desde que não registre o que escondeu — respondeu Isadora.

— Celeste registrou.

— Em papéis separados da condição. A água trata cada frase como unidade.

André encontrou, entre as páginas, marcas de pressão sem tinta. Isadora sombreou uma folha sobreposta com o lado do lápis. Surgiram perguntas feitas por Celeste ao longo dos anos: se podia devolver um objeto depois de usá-lo, se a morte da pessoa encerrava a parcela, se uma lembrança copiada permanecia disponível. As respostas não estavam ali.

Nenzinha aproximou o livro da luz. — Ela arrancou as folhas de resposta.

Pequenos restos de papel continuavam presos à costura. Eram mais escuros e tinham cheiro de água parada.

— Ou guardou em outro lugar — disse André.

Isadora enumerou as perguntas. Mesmo incompletas, provavam que Celeste investigara limites específicos e compreendera problemas que depois apresentou às pessoas como inevitáveis. O conhecimento aumentava sua responsabilidade sem apagar a urgência da primeira escolha.

— Se eu aceitar a guarda, sou obrigada a repetir a omissão? — perguntou Isadora, ainda antes de a água cobrir a mesa.

O livro respondeu sozinho. Uma linha úmida surgiu abaixo das condições: a guarda exige parcelas aceitas; a explicação não integra a exigência.

— Posso explicar tudo e aceitar somente ofertas conscientes — disse ela.

Outra linha apareceu: pode.

— E se ninguém aceitar depois de compreender?

A vida protegida retorna à apresentação.

O mecanismo não dependia do segredo, embora o segredo o tornasse abastecível. Uma guarda transparente ainda colocaria a sobrevivência de Isadora diante de pessoas desesperadas, transformando cada pedido em pressão para que alguém cedesse. Ela reconheceu a versão mais limpa do mesmo sistema e rejeitou a diferença como solução suficiente.

— É por isso que ela deixou a chave para você — disse André.

— Deixou duas escolhas preparadas. Eu morro ou faço o que ela fez.

Uma lâmina de água cobriu a mesa. O livro continuou seco. No reflexo, a Cobradora apareceu sentada diante de Isadora. Seu rosto tinha os olhos de Raimunda e a boca de Joana.

— Há uma escolha registrada e uma cobrança anterior — disse.

Raimunda recuou. — Quem está falando?

— Você consegue ver? — perguntou Isadora.

— Vejo uma mulher na água.

— Então fica longe da bacia e escuta.

Isadora voltou-se para o reflexo. — Se eu assumir a guarda, Joana será lembrada?

— A parcela recolhida retorna ao estado de suspensão.

— A filha reconhecerá a mãe?

— Enquanto a parcela permanecer suspensa.

— A guarda pode ser dividida entre várias pessoas?

— A porta reconhece uma guardiã por vez.

— As decisões sobre parcelas podem ser coletivas?

— A guardiã pode consultar quem quiser. A impressão que abre cada ciclo é uma.

— Então participação coletiva não distribui a responsabilidade da escolha.

— Responsabilidade é uma palavra de vocês. A porta localiza a impressão.

— Posso aceitar por um único ciclo e recusar antes do próximo?

— A guarda termina quando outra pessoa capaz aceita ou quando a vida protegida volta à cobrança.

— Posso fechar esta porta enquanto sou guardiã?

— A guarda conserva a porta que alimenta.

— Posso impedir novos pedidos?

— Pode manter a porta fechada. Cada ciclo ainda exige parcela aceita.

— Ou seja, mesmo sem atender ninguém, eu teria de encontrar alguém disposto a entregar alguma coisa para continuar viva.

— Sim.

— Posso usar apenas a mesma parcela, com consentimento renovado?

— Cada uso cobra novamente o que ainda existir nela.

Raimunda ouviu com as mãos afastadas da água. — Foi assim que uma perda pequena cresceu.

— Foi assim que Celeste repetiu — disse Isadora.

Ela prosseguiu com perguntas sobre transferência. A guardiã seguinte precisaria abrir a mesma porta, conhecer a condição e marcar voluntariamente a página. Parentes não herdariam a função. Uma pessoa incapaz de responder pelo próprio nome não poderia aceitar. A Cobradora confirmou que Celeste preparara Isadora porque ela já era reconhecida pela abertura anterior.

— Se eu morrer sem aceitar, outra pessoa vira guardiã?

— A vida é recolhida. A porta aguarda quem a abrir por outro pedido.

— E as parcelas suspensas?

— Retornam aos pedidos ou permanecem sem uso, conforme a escolha original.

— Então minha morte encerra esta guarda sem exigir sucessora.

— Encerra a guarda de Celeste Sampaio depois de recolher a vida protegida.

A morte era uma saída para o mecanismo, embora custasse o benefício inteiro. A contestação buscava encerrar a guarda sem permitir que a porta tratasse as perdas alheias como preço inevitável de Isadora.

— E para mantê-la assim, preciso entregar novas perdas?

— A guarda mantém a conta em movimento.

— Posso pagar apenas com coisas minhas?

— Pode oferecer o que possui e pode atender quem procurar a porta.

— Meus objetos e lembranças bastariam pelos anos que restam da minha vida?

A Cobradora sorriu com os dentes de uma pessoa que Isadora vira sem rosto na cidade submersa. — Celeste ofereceu o que possuía. Você leu o resultado.

— Se eu recusar a guarda e apresentar a conta diante das testemunhas, o que acontece?

— O benefício recebido volta ao risco. A dívida inteira precisa ser nomeada por quem a sustenta.

— Todas as quarenta e três pessoas?

— Quarenta e três aparecem neste livro.

— Quantas existem fora dele?

— Você ainda não perguntou por todos os livros.

Isadora manteve o olhar no reflexo. — Quantos livros físicos registram parcelas desta guarda?

— Um livro permanece sob esta banca. Onze envelopes permaneceram na casa. Objetos conservaram usos sem página. Pessoas conservaram perdas sem objeto.

— Existe outro volume escrito por Celeste?

— Nenhum volume escrito por Celeste Sampaio permanece inteiro nesta conta.

— Ela destruiu registros?

— Celeste queimou, molhou e separou páginas. O uso não desapareceu com a escrita.

— Quantas pessoas foram usadas além das quarenta e três deste livro e das que aparecem nos envelopes?

A Cobradora assumiu o rosto da senhora que entregara o vestido infantil na comunidade. — O número muda quando uma perda sem nome encontra testemunha.

— Existe um número atual.

— Existe o que a guarda consegue localizar e o que ainda está sendo reconhecido.

— Você sabe o total usado por Celeste.

— A cidade sabe cada vínculo. Você pediu um número antes de apresentar todos os vínculos.

Isadora reconheceu outra armadilha de escala. Se anunciasse quarenta e três como conta inteira, deixaria de fora as pessoas cujas páginas Celeste destruíra ou nunca escrevera. A contestação precisaria admitir prova externa ao livro.

— Uma perda ausente dos registros pode ser apresentada por testemunhas independentes?

— Pode.

— Quantas testemunhas?

— As suficientes para separar a perda de um pedido inventado durante a cobrança.

— Defina suficientes.

— Duas fontes que não dependam da mesma lembrança, ou uma pessoa afetada com objeto que a porta reconheça.

— Fotografia e livro de trabalho contam como fontes diferentes?

— Se foram produzidos em momentos diferentes e conservam o mesmo espaço.

Raimunda anotou cada resposta. Nenzinha lembrou dos objetos surgidos na comunidade e das lacunas nas fotografias. Aqueles casos poderiam entrar mesmo sem correspondência nas quarenta e três marcas da bacia.

— E se ninguém conseguir dizer o nome? — perguntou Isadora.

— Apresentem a perda, o vínculo e a ausência. O nome permanece aberto.

— Uma pessoa sem nome ainda conta como pessoa.

— A água localiza pelo que permanece ligado.

Isadora pediu que a Cobradora confirmasse que ausência de registro não significava ausência da conta. A mulher repetiu a frase. Raimunda e André registraram em folhas separadas.

— Agora pergunto por todos os livros — disse Isadora. — O que precisamos levar?

— Páginas, objetos, pessoas e espaços que conservam o que Celeste usou. A conta inteira será o conjunto apresentado, não o volume que você encontrou primeiro.

A resposta definiu o trabalho das horas seguintes. Procurariam os nomes do livro sem tratar suas margens como limite; abririam a contestação a perdas sustentadas por prova independente.

A água recuou da mesa. O reflexo desapareceu. Raimunda agarrou a borda do balcão.

— Existem outros?

Isadora tornou a abrir a última página. Uma linha nova havia surgido sob as condições da guarda:

PRÓXIMA GUARDIÃ: ISADORA CELESTE SAMPAIO

Abaixo do nome, o papel aguardava uma impressão digital.

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