O quarto ao lado O Segredo da Lua de Mel · Capítulo 3 de 15
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O quarto ao lado

Em casa, Caio ligou o álbum à primeira lembrança disponível: o cheiro de cola que Sônia espalhara pela sala durante os meses anteriores ao casamento. Disse que ela própria poderia ter trocado a fotografia e esquecido. Olívia levou o volume até o escritório e abriu o arquivo digital do vídeo. Encontrou a recepção, reduziu a velocidade e avançou quadro por quadro.

A mulher de uniforme apareceu durante vinte e sete quadros. Tinha o cabelo preso, um crachá oval e uma pasta cinza contra o peito. No primeiro momento, observava o salão. Depois fixava os olhos em Olívia, que conversava com uma tia perto da pista. No último quadro, começava a andar em sua direção.

Caio ficou de pé atrás da cadeira.

— Pode ser qualquer funcionária.

— O serviço do casamento foi contratado pela Rede Ferraz.

— Centenas de pessoas trabalham para a rede.

— O uniforme do Mirante tinha a mesma faixa clara na cintura.

Olívia capturou o melhor quadro e ampliou o rosto. Os pixels apagaram os olhos e a boca, deixando apenas o formato do queixo e uma sombra junto à têmpora. Caio pegou o álbum, soltou com cuidado os quatro adesivos e retirou a fotografia impressa. No verso havia uma etiqueta de laboratório com data posterior à montagem das outras páginas.

— Três meses depois do casamento — disse ele.

— Minha mãe não fez essa troca.

— Alguém pode ter enviado outra cópia e ela substituiu.

— Você acredita nisso?

Caio devolveu a fotografia à mesa.

— Eu acredito que perguntar para sua mãe será mais útil do que escolher uma resposta agora.

Olívia guardou o quadro ampliado na pasta protegida. A imagem ocupou a tela ao lado da fotografia do pátio. Faltava nitidez para afirmar que era a mesma mulher; sobravam semelhanças suficientes para impedir que ela fechasse os arquivos.

Durante a noite, tentou localizar a fotografia instantânea da chegada ao hotel. Procurou nas mensagens enviadas a Sônia, no armazenamento do telefone antigo e nas cópias da viagem. Encontrou cento e oitenta e quatro imagens dos quatro primeiros dias: a estrada cercada de mata, o mar visto da varanda, as mãos de Caio segurando duas xícaras, uma garça no mangue, o quarto depois da arrumação, o vestido branco usado no primeiro jantar. A fotografia do saguão fora produzida em papel e jamais digitalizada.

Olívia abriu uma imagem da suíte. Sobre a escrivaninha, perto de um vaso com folhas compridas, aparecia um retângulo de borda branca.

Foi assim que se lembrou do dia em que a fotografia sumiu.

O Mirante do Sal surgira depois de uma curva da estrada, acima de um muro coberto por trepadeiras. O casarão principal ocupava a parte alta do terreno, voltado para uma enseada estreita. Tinha janelas altas, varandas de ferro e telhas escurecidas pela maresia. Duas alas mais novas desciam em direção ao jardim, escondidas por árvores e passarelas de madeira.

Caio estacionou diante da escadaria e desligou o carro. Durante alguns segundos, os dois permaneceram sentados, ouvindo o motor esfriar.

— Senhora Ventura — ele disse.

Olívia virou o rosto.

— Não troquei de sobrenome.

— Senhora Sampaio que casou com o senhor Ventura.

— Piorou.

Caio tirou o cinto e se inclinou sobre o console para beijá-la. Cheirava a café de posto e ao protetor solar que passara antes de sair de São Paulo. Olívia encostou a mão em sua nuca e sentiu a tensão da estrada ceder sob os dedos.

— Podemos voltar — falou ele. — Ainda dá tempo de desfazer tudo.

— O casamento?

— A reserva. O casamento vai exigir advogado.

Ela riu. Caio saiu do carro e abriu os braços diante do hotel. Atrás do casarão, o mar alcançava uma linha limpa no horizonte.

Um funcionário desceu para buscar as malas. No saguão, o piso de ladrilho conservava desenhos verdes e dourados. Uma meia-lua aparecia no centro de cada composição e se repetia nos puxadores, nos botões dos uniformes e nas capas dos cartões magnéticos.

Augusto Ferraz os recebeu antes que chegassem ao balcão. Era um homem alto, de cabelo grisalho cortado rente, terno claro e um anel largo no indicador direito. Beijou a mão de Olívia, apertou a de Caio e anunciou que a suíte fora trocada como cortesia.

— A Vértice tem sido uma parceira importante da nossa família — disse. — Vocês merecem privacidade.

Olívia conhecia o nome dele dos relatórios mensais da conta. A equipe que atendia a Rede Ferraz ficava em outro núcleo da consultoria, e ela participara apenas de duas reuniões com a presidência. Lembrava-se de Augusto ao fundo de uma videoconferência, sem abrir a câmera ou fazer perguntas.

— A reserva original estava ótima — respondeu.

— A 307 tem a melhor varanda da ala antiga. Considere um presente.

Caio agradeceu. Augusto chamou um rapaz para acompanhá-los e pediu que uma funcionária tirasse uma fotografia. A jovem trouxe uma câmera instantânea guardada sob o balcão. Pediu que o casal ficasse junto à escada, diante de uma janela voltada para o jardim.

O primeiro disparo falhou. A câmera expeliu um papel inteiramente branco. A funcionária abriu o compartimento, ajustou o filme e tentou de novo. Enquanto esperavam a imagem aparecer, Augusto falou sobre o jantar, as piscinas naturais e um passeio de barco reservado para a manhã seguinte.

A fotografia ganhou cor aos poucos. Olívia e Caio surgiram junto à escada, ambos bronzeados pelo vidro do saguão. No reflexo da janela, uma mulher de uniforme escuro atravessava o jardim externo com uma pasta cinza nos braços.

— Ficou bonita — disse a funcionária, entregando o papel a Olívia.

No terceiro andar, o corredor estreitava perto da suíte 307. O quarto vizinho tinha uma placa pendurada na maçaneta: Manutenção: acesso interno restrito. A porta fora pintada recentemente, e o número 306 brilhava mais que os demais.

— Problema de umidade — explicou o rapaz das malas. — Essa parede recebe muita água quando venta.

Caio tocou o reboco junto ao rodapé. Estava seco.

— Faz tempo que está fechado?

— Algumas semanas.

O funcionário abriu a suíte e mostrou os cômodos. Havia uma sala pequena, quarto, banheiro de mármore e varanda voltada para o mar. Uma cesta de frutas aguardava sobre a mesa. O balde de gelo estava vazio, cercado por duas taças e uma garrafa de espumante.

Olívia colocou a fotografia instantânea na escrivaninha, apoiada contra o vaso. Abriu as portas da varanda e deixou o vento entrar. Caio apareceu atrás dela, envolveu sua cintura e encostou o rosto em seu ombro.

— Privacidade — murmurou.

— Foi o que ele prometeu.

— Você sempre desconfia de presente?

— De presente oferecido por cliente, sim.

Caio a virou e desamarrou o lenço de seu cabelo. O tecido voou para dentro do quarto. Eles entraram rindo, tropeçaram numa das malas e deixaram a varanda aberta até o fim da tarde.

Nos dois primeiros dias, o hotel correspondeu à versão entregue no saguão. Tomaram café diante do mar, caminharam por uma trilha até uma praia pequena e almoçaram sob árvores que derrubavam flores amarelas nas mesas. Caio nadava para longe e voltava com conchas fechadas na mão. Olívia lia na varanda, marcando páginas que raramente retomava.

No passeio de barco, um homem cortou o pé ao descer numa pedra coberta por cracas. Caio interrompeu o mergulho, lavou a ferida com a água potável do barco e improvisou um curativo usando gaze do estojo do guia. Falava com a mesma tranquilidade usada na emergência, pedindo que o homem descrevesse a dor e mantivesse o peso no outro pé. Olívia assistiu da areia. Caio executava cada ação antes de anunciar a seguinte.

Na volta, ela comentou que sempre se sentia segura ao vê-lo trabalhar.

— Segurança é uma palavra perigosa para médico — respondeu ele. — Quase sempre significa que alguém ainda não recebeu a notícia difícil.

Olívia encostou a cabeça em seu ombro. O barco avançava devagar entre pequenas ilhas, deixando uma faixa de espuma que desaparecia poucos metros atrás. Caio segurou sua mão durante todo o percurso, inclusive quando o telefone dele tocou dentro da mochila e o guia avisou que poderia atender.

— Hoje ninguém me encontra — disse.

No hotel, Olívia encontrou três chamadas da Vértice. Um diretor da Rede Ferraz queria orientação sobre fotografias feitas dentro de uma unidade do grupo. A mensagem mencionava exposição de hóspedes, fornecedor terceirizado e necessidade de resposta urgente. Ela leu apenas a prévia e desligou o aparelho.

Caio percebeu o nome na tela.

— A cortesia já começou a cobrar?

— Minha equipe resolve.

— Você quer retornar?

— Quero tomar banho e jantar com meu marido.

Ela guardou o telefone no cofre da suíte. Enquanto fechava a porta metálica, viu no jardim a mulher da fotografia instantânea. O uniforme escuro era semelhante ao das funcionárias da recepção, com uma faixa clara na cintura. A mulher atravessou a passarela inferior, olhou para a varanda da 307 e parou ao reconhecer Olívia.

Por um instante, pareceu que levantaria a mão. Um homem surgiu atrás dela e tocou seu cotovelo. Os dois seguiram para uma passagem coberta por plantas.

Olívia contou a Caio durante o jantar.

— Talvez queira outra foto — disse ele.

— Talvez quisesse falar comigo.

— Então vai procurar você.

— O homem a levou para dentro.

Caio cortou um pedaço do peixe e colocou no prato dela.

— Amanhã perguntamos na recepção. Hoje você prometeu jantar comigo.

Olívia aceitou a comida. Depois caminharam pelo jardim, beberam na varanda do bar e voltaram de mãos dadas. Perto da escada de serviço, encontraram um carrinho encostado na parede. Havia lençóis limpos na prateleira superior e, embaixo, uma caixa de arquivo fechada por elásticos. O mesmo símbolo de meia-lua dos cartões fora desenhado na tampa com caneta dourada.

Caio empurrou o carrinho para liberar a passagem. Uma das rodas estalou ao girar.

— É o carrinho da madrugada — disse Olívia.

— Todos devem usar o mesmo modelo.

Quando chegaram ao terceiro andar, o elevador abriu para o corredor vazio. A placa do 306 balançava, embora nenhuma janela estivesse aberta. Olívia fotografou a porta. Na imagem, uma faixa fina de luz atravessava o piso sob a madeira.

À noite, conversavam sobre o apartamento que procurariam em São Paulo. Caio queria uma cozinha maior; Olívia queria um quarto onde pudesse fechar a porta durante reuniões. Escolheram bairros, discutiram o tamanho da dívida aceitável e inventaram nomes ruins para um cachorro que ainda não tinham. O casamento parecia caber nessas conversas sem exigir esforço.

Na segunda madrugada, Olívia acordou com um ruído atrás da parede. Três batidas curtas, uma pausa e o som de madeira correndo sobre metal. Olhou o relógio: três e dezesseis.

Caio dormia de costas. Ela encostou os dedos em seu ombro.

— Tem alguém no quarto ao lado.

Ele levantou a cabeça e ouviu. O ruído se repetiu, mais baixo.

— Deve ser tubulação.

— Tubulação não abre gaveta.

Caio saiu da cama, vestiu uma bermuda e foi ao corredor. Olívia permaneceu junto à porta aberta. A placa de manutenção ainda pendia na maçaneta do 306. Ele aproximou o ouvido da madeira. Uma faixa de luz aparecia sob a porta.

— Tem luz acesa — disse ela.

— Pode ser o corredor de serviço.

Caio bateu duas vezes.

O som cessou.

Esperaram. Um elevador se abriu na extremidade do corredor e uma camareira saiu empurrando um carrinho vazio. Era madrugada, e mesmo assim a mulher usava uniforme completo. Ao vê-los diante do 306, reduziu o passo.

— Precisam de alguma coisa?

— Ouvimos barulho aqui dentro — respondeu Caio.

A camareira olhou a placa.

— A manutenção trabalha cedo.

— São três da manhã — falou Olívia.

— Posso pedir à recepção que verifique.

A mulher seguiu com o carrinho. Uma das rodas produzia um estalo a cada volta. Caio tentou a maçaneta; a porta estava trancada. A luz sob a madeira se apagou enquanto sua mão ainda tocava o metal.

Voltaram para a suíte. Antes de fechar, Olívia olhou o corredor. A camareira desaparecera, embora o elevador permanecesse parado no andar e não houvesse outra saída visível.

Na manhã seguinte, Augusto aproximou-se da mesa durante o café.

— Soube que tiveram incômodo durante a noite.

Caio limpou a boca com o guardanapo.

— Havia alguém no 306.

— Equipe técnica. Estamos trocando parte da fiação.

— Às três da manhã?

Augusto puxou uma cadeira vazia e sentou sem ser convidado.

— Em prédio antigo, escolhemos os horários que afetam menos os hóspedes. Vou garantir que suspendam o serviço até a saída de vocês.

Olívia observou o anel largo no indicador. O desenho misturava ondas e penas sobrepostas.

— A camareira também fazia parte da equipe? — perguntou.

— Qual camareira?

— Uma mulher passou com um carrinho.

Augusto sorriu e se levantou.

— Temos funcionários a noite inteira. Aproveitem o passeio de barco. O mar está especialmente calmo.

Quando voltaram à suíte depois do almoço, a fotografia instantânea havia sumido da escrivaninha. O vaso permanecia no mesmo lugar. As folhas estavam voltadas para a varanda, como Olívia as deixara ao fotografar o quarto.

Ela abriu as gavetas, procurou sob a cama e retirou os livros da mala. Caio telefonou para a recepção. A governanta veio acompanhada da funcionária que fizera a arrumação. Ambas afirmaram que nenhum objeto fora retirado.

— Talvez tenha caído atrás da mesa — disse Caio, depois que ficaram sozinhos.

Olívia já havia afastado o móvel da parede.

— Alguém entrou aqui e levou.

— A equipe de limpeza entrou.

— A fotografia não parece valiosa para uma camareira.

— Talvez estivesse entre papéis jogados fora.

Olívia mostrou a lixeira vazia.

— Você sempre oferece uma explicação antes de decidir se acredita nela?

Caio abriu a varanda. O vento inflou as cortinas e derrubou um folheto da mesa.

— Estamos na lua de mel. Eu queria passar um dia sem investigar o hotel.

— Então alguém escolheu a suíte errada.

Ela telefonou para Augusto. Ele pediu desculpas, prometeu procurar a imagem e ofereceu outra sessão fotográfica. Olívia recusou. Passou o restante da tarde conferindo fechaduras, fotografando a posição dos objetos e guardando documentos numa pasta com zíper.

Caio saiu para correr antes do jantar. Voltou quarenta minutos depois, suado e com os tênis cobertos de terra vermelha. Ao procurar uma camisa, abriu o compartimento interno de sua mala e encontrou a fotografia.

O bolso estava fechado por um zíper. Caio guardava ali dinheiro e uma cópia do passaporte.

— Você colocou isso aqui? — perguntou.

Olívia pegou o papel. Uma dobra nova atravessava o canto inferior. No reflexo da janela, a mulher de uniforme continuava no jardim. Agora havia um círculo feito a caneta em torno de sua mão. Entre os dedos, ela segurava algo pequeno e escuro.

— Parece um cartão — disse Caio.

— Ou um telefone.

— Quem abriu minha mala?

Olívia verificou o dinheiro e os documentos. Nada faltava. Guardou a fotografia na pasta com zíper e levou a pasta consigo para o jantar.

Naquela noite, pediram que trocassem a fechadura eletrônica da suíte. Um técnico apareceu às onze, testou o leitor e informou que não havia falha. Mostrou no aparelho três entradas registradas durante o dia: a camareira às dez e nove, o casal às duas e quarenta e sete e o cartão de Caio às seis e trinta e dois.

— Ninguém mais abriu — garantiu.

— A fotografia entrou na mala depois das duas e quarenta e sete — disse Olívia.

O técnico recolheu o equipamento.

— Talvez a porta tenha ficado aberta durante a limpeza.

Caio pediu o relatório das entradas. O homem respondeu que apenas a gerência podia fornecer. Augusto telefonou cinco minutos depois e afirmou que o sistema guardava dados técnicos, sem relatório individual para hóspedes.

Olívia dormiu com a pasta sob a cama. Às duas e cinco, o telefone da suíte tocou. Caio atendeu.

— Alô?

Uma voz feminina disse alguma coisa que Olívia não compreendeu. Caio pediu que repetisse. A ligação caiu.

— O que ela falou?

— Perguntou se estava tudo no lugar.

— Exatamente assim?

— Acho que sim.

O balde de gelo sobre a mesa estava vazio. Caio tentou ligar para o serviço de quarto e recebeu sinal de ocupado. Vestiu a calça, calçou os sapatos sem meia e pegou o cartão da suíte.

— Vou buscar gelo no bar — disse.

— Agora?

— Estou acordado. Você quer alguma coisa?

Olívia olhou o relógio. Eram duas e dezoito.

— Quero que volte rápido.

Caio beijou sua testa e saiu. Ela ouviu seus passos até o elevador. Depois escutou o motor descendo pelos andares.

Durante três minutos, o corredor permaneceu quieto. Olívia abriu a pasta sob a cama e retirou a fotografia. Aproximou-a do abajur. A mulher circulada no reflexo tinha o braço levantado. O objeto entre seus dedos possuía um canto dourado, semelhante ao emblema dos cartões do hotel.

Um sinal eletrônico soou do lado de fora.

Olívia olhou para a porta da suíte.

O leitor apitou outra vez. A luz verde apareceu na fresta inferior.

Alguém baixou a maçaneta usando um cartão que não pertencia a Caio.

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