O quarto de núpcias
A maçaneta desceu até o fim. Olívia fechou a pasta, empurrou-a sob a cama e se levantou. A porta abriu apenas o espaço de um braço. Uma mulher entrou de lado, puxou a madeira atrás de si e manteve o cartão encostado ao peito.
O relógio sobre a mesa marcava 02h21.
Era a funcionária refletida na fotografia.
O uniforme escuro estava molhado na altura dos ombros e rasgado junto ao bolso. A faixa clara da cintura tinha uma mancha avermelhada. A mulher respirava pela boca. Uma linha de sangue descia da têmpora até a mandíbula.
— Tranque — pediu.
Olívia continuou perto da cama.
— Quem é você?
A mulher girou a trava e passou a corrente. Depois encostou o ouvido na porta. No corredor, o elevador começou a subir.
— Apague a luz.
— Saia do meu quarto.
— Ele sabe que eu vim falar com você.
Olívia ouviu o motor alcançar o terceiro andar. As portas do elevador se abriram. Um passo pesado tocou o piso do corredor, seguido de outro mais lento. A mulher recuou até a parede, segurando o cartão com tanta força que o plástico se curvou.
— Quem sabe? — perguntou Olívia.
A desconhecida apontou para o interruptor.
Olívia apagou o abajur. A suíte ficou iluminada apenas pela luz do banheiro e pelo reflexo da lua no vidro da varanda. Os passos passaram diante da porta, chegaram ao 306 e cessaram. Uma fechadura eletrônica emitiu dois sinais. Em seguida, a parede recebeu uma pancada curta.
A mulher soltou o ar e fechou os olhos. Tinha menos de trinta anos. Olívia reconheceu o queixo estreito, a curva do nariz e o cabelo preso baixo. O uniforme e a distância haviam ocultado o rosto no casamento; ali, a poucos metros, a lembrança encontrou forma.
— Você estava na minha festa — disse.
— Tentei falar com você.
— Por quê?
A pasta cinza devolveu a Olívia uma sequência que o vídeo do casamento deixara na margem. Durante o jantar, uma funcionária aproximara-se da mesa dos noivos e fora interceptada por Sônia. Olívia vira apenas a mãe receber um envelope, conferir a ausência de nome e chamar alguém do cerimonial. Minutos depois, Augusto apareceu junto à mesa para anunciar o corte do bolo.
Na lembrança, a funcionária aguardara perto da coluna, ainda segurando a pasta contra o corpo. Sônia dissera que presentes sem identificação seriam conferidos no escritório. Olívia concordara enquanto um fotógrafo pedia que ela virasse o rosto para a luz. Quando procurou de novo, a mulher já havia desaparecido.
— Minha mãe pegou seu envelope — disse.
— E entregou a Augusto.
— Você viu?
— Vi numa tela. Ele abriu, fotografou as folhas e mandou procurar as cópias.
Olívia tentou lembrar se Augusto permanecera no salão depois do bolo. Restavam imagens dele junto ao bar, cumprimentando Sônia e tocando o ombro de Caio. Em nenhuma lembrança aparecia o envelope.
— A pasta. Onde está a pasta?
Olívia olhou para baixo da cama. O movimento dos olhos bastou. A mulher atravessou o quarto, ajoelhou-se e puxou o zíper. Retirou a fotografia instantânea e virou-a para a luz do banheiro.
— Você marcou isto? — perguntou Olívia.
A mulher tocou o círculo feito a caneta.
— Achei que fosse olhar com atenção.
— Foi você que abriu a mala do Caio?
O nome produziu uma interrupção mínima. A mulher levantou o rosto e encarou Olívia. Depois voltou a ouvir a parede.
— Ele saiu sozinho?
— Você conhece meu marido?
— Quanto tempo ele demora para voltar?
O rosto de Olívia aqueceu. A pergunta, a fotografia dentro da mala e a ligação recebida minutos antes apontavam para Caio. Ele atendera a voz feminina. Dissera que a mulher perguntara se tudo estava no lugar. Vestira a calça e saíra para buscar gelo num bar fechado.
A desconhecida abriu a fotografia e a pasta sobre a cama. Procurava alguma coisa entre os envelopes.
— O que você colocou aqui? — perguntou Olívia.
— Uma chance de você me reconhecer.
— Caio pediu que viesse?
Outra pancada atravessou a parede. O vaso da escrivaninha vibrou. A mulher segurou o braço de Olívia e a puxou para longe da janela interna do banheiro.
— Fique fora do reflexo.
Olívia soltou o braço. Uma marca arroxeada circundava o pulso da mulher. Quatro dedos haviam apertado a parte interna.
— Qual é seu nome?
— Rebeca.
— O que aconteceu com você?
Rebeca olhou para o relógio digital. Eram duas e vinte e três.
— Eu preciso entregar uma coisa. Depois vocês escolhem o que fazer.
— Vocês quem?
Rebeca levou a mão ao bolso rasgado do uniforme. Retirou um pequeno cartão de memória envolvido em plástico transparente. Havia um número escrito na embalagem: 306.
— Isto estava no quarto ao lado — disse. — Se encontrarem comigo, vão dizer que eu roubei hóspedes, que bebi, que entrei aqui atrás de dinheiro. Já prepararam tudo.
— O que tem no cartão?
— Quartos. Datas. Pessoas.
— Fotografias?
Rebeca assentiu.
O telefone da suíte tocou. As duas olharam para o aparelho junto à cama. O som pareceu mais alto no quarto escuro. Olívia deixou chamar quatro vezes e tirou o fio da parede.
— A mensagem da Vértice era sobre você? — perguntou.
— Qual mensagem?
— Fotografias feitas dentro de uma unidade da rede.
Rebeca guardou o cartão na palma da mão.
— Então eles já começaram a limpar.
— Quem são eles?
— Seu escritório trabalha para a família. Você conhece quem pode publicar, quem pode investigar, quem consegue impedir que tratem isso como caso de funcionária ressentida.
Olívia acendeu o abajur. Rebeca cobriu o rosto por instinto e se voltou para a parede.
O pedido atingiu o centro exato do trabalho de Olívia. Na Vértice, um documento só adquiria força quando chegava acompanhado de remetente confiável, cronologia, confirmação independente e uma primeira resposta pronta. Rebeca entrara ferida, sem testemunha visível, usando um cartão clonado e carregando arquivos retirados de um quarto. Augusto já possuía a versão capaz de desarmar cada prova.
— Se eu levar isto à imprensa agora, a rede dirá que você roubou imagens de hóspedes — falou Olívia.
— Eu sei.
— Precisamos de alguém que confirme a instalação.
— Davi confirma os acessos. Vera confirma a governança. Os nomes estão no cartão.
— Eles concordaram em aparecer?
— Concordaram em guardar partes.
— Isso é diferente.
Rebeca apoiou a mão na escrivaninha.
— Foi por isso que escolhi alguém que trabalha com diferença.
Olívia reconheceu a frase como desafio e avaliação. Quis perguntar há quanto tempo Rebeca estudava sua empresa. A pancada na parede interrompeu.
— Você entrou no quarto de um casal durante a madrugada, mexeu na mala do meu marido e esperou que eu entendesse um círculo numa fotografia.
— Eu entreguei um envelope no casamento. A mulher que estava com você guardou junto dos presentes.
Sônia recebera dezenas de envelopes naquela noite. Passara a madrugada conferindo nomes e valores, ligando no dia seguinte para quem esquecera o cartão. Olívia não se lembrava de nenhum pacote sem identificação.
— O que havia nele?
— Uma lista de quartos e duas imagens. Uma era deste hotel.
— Minha mãe teria me contado.
— Alguém recolheu antes.
— Como sabe?
— Porque me fizeram assistir.
Rebeca ergueu o braço e apontou para o detector de fumaça acima da porta da varanda. O aparelho tinha uma lente escura perto da grade. Olívia viu um brilho vermelho que desapareceu quando mudou de posição.
— Isso é uma câmera?
— Uma delas.
O cartão de Olívia estava sobre a mesa de cabeceira. Ela o pegou e aproximou uma cadeira do detector. Rebeca segurou seu cotovelo.
— Se tirar agora, ele entra.
— Quem?
Às 02h25, o leitor da porta apitou.
Rebeca apagou a luz. A maçaneta se moveu, impedida pela corrente. Uma voz masculina chamou o nome de Olívia do corredor.
Era Caio.
— Abra. Esqueci o telefone e meu cartão parou de funcionar.
Olívia se aproximou da porta. Rebeca segurou o cartão de memória e recuou para o banheiro.
— Você disse que ele saiu sozinho — sussurrou.
— Ele saiu.
— Então alguém usou o cartão dele depois.
Caio bateu.
— Olívia?
Ela retirou a corrente. Quando abriu, Caio entrou carregando um balde de gelo embrulhado num pano branco. Tinha o rosto molhado e uma mancha de terra no joelho da calça.
— O elevador travou no segundo andar. Tive que usar a escada de serviço.
Ele viu Rebeca junto ao banheiro. O balde inclinou em sua mão, e dois cubos caíram no tapete.
— Quem é ela?
Caio parou com a boca aberta e o balde inclinado. O susto podia vir da presença daquela mulher ou do fato de encontrá-la ali. Rebeca encarou o balde, depois a mancha de terra.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou.
— No bar. Quem é você?
— O bar fechou à uma.
Caio colocou o balde sobre a mesa.
— Um funcionário me encontrou no corredor.
— Qual funcionário?
— Eu não pedi o nome.
Rebeca passou por Olívia e examinou o pano em torno do balde. O emblema dourado da meia-lua estava bordado num canto. Junto à borda havia uma mancha escura, semelhante a graxa.
— Foi no segundo andar? — perguntou.
— Perto da escada. Ele disse que o elevador voltaria em alguns minutos.
— Ele viu você entrar aqui?
Caio olhou para Olívia.
— Vocês se conhecem?
— Ela trabalhou no casamento — respondeu Olívia.
— Eu tentei entregar uma coisa antes que vocês viajassem — disse Rebeca.
Caio retirou o telefone do bolso e verificou a tela. Não havia sinal. Caminhou até a varanda, ergueu o aparelho e esperou. Rebeca acompanhou cada movimento.
— Afaste-se da porta — pediu ela.
— Por quê?
— Tem uma câmera acima de você.
Caio examinou o detector de fumaça. Aproximou-se, subiu na cadeira e passou o dedo sobre a lente.
— Pode ser sensor.
— Tenho imagens deste quarto — falou Rebeca.
Ele desceu.
Rebeca cambaleou ao mudar o peso de uma perna para a outra. Caio deixou o telefone sobre a mesa e assumiu a voz usada com pacientes.
— Olhe para mim. Você perdeu a consciência?
— Não sei.
— Vomitou?
— Não.
— Sabe que dia é hoje?
— O quarto dia da sua lua de mel.
Caio pediu que ela acompanhasse seu dedo. A pupila direita respondeu mais devagar. Quando tentou examinar o corte, Rebeca segurou seu pulso.
— Quem fez isto? — perguntou ele.
— Jonas me encontrou no 306. Augusto fechou a saída.
— Bateram sua cabeça?
— Contra o móvel.
— Você precisa de hospital.
— Preciso sair com o cartão.
Caio pediu uma toalha limpa. Olívia trouxe uma do banheiro, e ele a dobrou sem tirar os olhos de Rebeca. Ela aceitou pressionar o tecido contra a têmpora. O gesto de cuidado não reduziu a vigilância entre os três.
— Imagens nossas?
— De hóspedes. De funcionários. Algumas ficam separadas por cliente e por assunto.
— Quem guarda isso?
Rebeca olhou para a parede do 306.
Uma voz masculina atravessou o telefone desconectado.
— Senhora Sampaio, abra a porta, por favor.
O aparelho permanecia sem fio. A voz saía do pequeno alto-falante na base, baixa e perfeitamente reconhecível. Augusto repetiu o pedido.
Caio pegou o balde e o colocou diante da porta como peso inútil.
— Ele consegue falar por esse aparelho sem linha?
— O quarto inteiro passa pelo 306 — respondeu Rebeca. — Telefone, câmera, fechadura. Eles sabem quando você saiu e quando voltou.
Olívia mostrou o cartão de memória.
— Isto contém as imagens?
Rebeca fechou os dedos sobre o plástico.
— Contém parte do índice e algumas cópias. O arquivo principal fica em outro lugar.
— Entregue para mim.
— Quero ver você sair daqui com ele.
— Você entrou para pedir ajuda. Agora está impondo condições?
— Já vi o que sua empresa faz com prova entregue pela metade.
A voz de Augusto voltou pelo aparelho.
— Doutor Caio, sei que também está aí. Uma funcionária entrou no quarto de vocês usando um cartão subtraído. A segurança precisa recolhê-la.
Caio se aproximou da porta.
— Chame a polícia — respondeu em voz alta.
— Já estamos cuidando.
Rebeca riu uma vez, sem humor. O movimento abriu o corte da têmpora e uma gota alcançou seu pescoço.
— Foi isso que ele disse sobre a primeira cópia — falou.
— Que primeira cópia? — perguntou Olívia.
Rebeca levou a mão à cabeça. Suas pernas perderam força, e ela se apoiou na escrivaninha. Caio se aproximou por reflexo. Rebeca ergueu o cartão como se pudesse afastá-lo.
— Não toca em mim.
Ele parou.
— Você está sangrando e pode ter sofrido uma concussão. Preciso ver seus olhos.
— Você devia ter ficado longe daquela porta.
Olívia olhou para Caio.
— Que porta?
— A escada do segundo andar — disse Rebeca. — Ele mandou o gelo para tirar você daqui.
Caio virou o balde. Entre os cubos havia uma pequena peça preta com dois fios rompidos. Tinha a cápsula e os fios de um microfone. Rebeca a reconheceu e empurrou o recipiente para longe.
— Deixe isso no chão.
O gelo se espalhou pelo tapete. A água começou a escurecer as fibras. Caio pegou um cubo com o pano e examinou a peça sem tocá-la.
— É um transmissor?
— É o suficiente para registrarem sua voz quando o telefone está fora do gancho.
Alguém bateu na porta. Três pancadas lentas, com o intervalo que Olívia ouvira através da parede na madrugada anterior.
— Senhora Sampaio — chamou Augusto. — Abra. Podemos resolver isto sem exposição.
Rebeca encolheu os ombros ao ouvir a palavra. Ela procurou uma saída com os olhos: porta, banheiro, janela. A varanda ficava acima do pátio lateral. Um gradil separava a suíte da sacada estreita do 306. Entre as duas, havia menos de um metro de vazio.
— O quarto ao lado tem acesso ao corredor de serviço? — perguntou Caio.
Rebeca assentiu.
— A porta de lá abre por dentro. Se eu chegar à varanda, consigo passar.
— Você está tonta — disse Caio. — Esse caminho vai derrubar você.
— Ficar aqui entrega o cartão.
Olívia segurou o braço dela.
— Dê a cópia para mim e espere a polícia.
— Você ainda acha que ele veio aqui por causa do seu marido.
Rebeca leu a resposta no rosto de Olívia. Seus dedos afrouxaram ao redor do cartão.
— Foi isso que você entendeu?
Olívia olhou de Rebeca para Caio. Durante os minutos anteriores, cada pergunta alimentara a mesma hipótese: a ligação feminina, a mala aberta, o gelo inventado, a intimidade com que Rebeca pronunciava o nome dele. Caio observava o cartão nas mãos de Rebeca e a reação de Olívia sempre que a Vértice era mencionada. A suspeita circulava entre os dois sem encontrar uma frase direta.
— Você conhecia Olívia antes do casamento? — perguntou Caio.
— Conhecia o trabalho dela.
— Ela sabia que você estava lá?
— Se soubesse, eu teria conseguido entregar.
Caio voltou-se para a esposa.
— Por que ela escolheu você?
— Porque a Vértice atende o hotel.
— Ela falou como se já tivesse tentado outras vezes.
Rebeca apertou a toalha contra a cabeça.
— Vocês têm uma pessoa usando a porta do lado e continuam procurando um segredo um no outro.
A trava mecânica raspou do lado de fora. A corrente esticou mais um elo.
A fechadura emitiu um som prolongado. A luz sob a porta passou do verde ao vermelho, depois voltou ao verde. A corrente começou a tensionar como se alguém usasse uma chave mecânica pelo lado de fora.
Rebeca correu para a varanda.
Caio alcançou a cortina antes dela. Olívia fechou a mão sobre o bolso rasgado do uniforme. O tecido cedeu com um estalo, e o cartão de memória caiu no tapete molhado.
Rebeca abriu a porta de vidro. O vento lançou chuva para dentro do quarto.
Do outro lado do gradil, a varanda do 306 estava iluminada.
Uma sombra esperava junto à porta.