Duas versões O Segredo da Lua de Mel · Capítulo 10 de 15
Obra Menu

Duas versões

Caio repetiu a frase sem abrir o notebook.

— Entreguei o envelope a Augusto.

Na sala, as cadeiras ainda estavam afastadas pela dança. Havia pratos sobre o aparador, taças com restos de vinho e cartões de lembranças espalhados na mesa. Olívia retirou o cartão das 22h17 do adaptador e o guardou na embalagem plástica.

— Quando?

— Depois que Rebeca falou comigo. Ele apareceu perto do corredor da cozinha e disse que era documentação da rede.

— Você sabia quem ela era?

— Uma funcionária do evento.

— Ela disse que precisava chegar à sua mulher antes que ele encontrasse.

— O vídeo começa no meio da conversa.

— O que veio antes?

Caio olhou para o paletó guardado no armário da sala. A música havia parado, embora a luz do aparelho continuasse acesa.

— Ela perguntou se eu era o noivo. Disse que tinha informações sobre o hotel da viagem e precisava falar com você. Eu respondi que aquela noite era impossível. Ela insistiu. Depois segurou meu braço.

— E você pegou o envelope.

— Para entregar a você quando a festa terminasse.

— Entregou a Augusto três minutos depois.

Caio foi até a cozinha e voltou com dois copos de água. Colocou um diante de Olívia. Ela não tocou.

— Ele disse que Rebeca estava tentando prejudicar a empresa — continuou. — Mostrou uma credencial vencida e falou que ela já tinha abordado hóspedes. Eu estava com duzentas pessoas na sala e as alianças tinham desaparecido meia hora antes. Entreguei para o responsável pela equipe.

— As alianças nunca desapareceram.

— Na minha lembrança, desapareceram.

Olívia reuniu os cartões que os convidados haviam preenchido. Encontrou o do pai de Caio, onde ele afirmava que as alianças estiveram em seu bolso, e o da amiga que culpava o cerimonial. Colocou os dois ao lado do notebook.

— Uma crise inventada ocupou você enquanto Rebeca tentava entregar provas.

— Está dizendo que Augusto escondeu as alianças?

— Estou dizendo que ele sabia distribuir problemas.

Caio sentou-se e percorreu os cartões com o dedo, voltando sempre ao primeiro ponto em que outra decisão ainda teria sido possível.

— Eu esqueci a conversa — disse.

— Você a retirou da história.

— Você também a viu na festa.

— Vi uma funcionária com uma bandeja.

— E guardou a imagem em que ela aparecia.

— O álbum chegou pronto.

— Sua mãe disse que você aprovou a seleção.

Olívia se lembrava de uma tela aberta no escritório durante a semana seguinte ao casamento. Sônia passara fotografias enquanto a filha respondia a mensagens de clientes. Em cada página, perguntava “esta?” e recebia um sim. Olívia aprovou cento e vinte imagens sem ampliar nenhuma. Quando o álbum chegou, elogiou a cor e o papel.

— Eu aprovei as fotografias do casal — disse. — Não mandei retirar Rebeca.

— Eu entreguei um envelope sem abrir. Você aprovou um álbum sem olhar. Ainda estamos escolhendo qual distração vale como desculpa.

Olívia pegou um bloco da Vértice e escreveu no alto: 22h17. Abaixo traçou duas colunas. Na primeira colocou o nome de Caio; na segunda, o próprio.

— Conte tudo desde a cerimônia — pediu.

— Agora?

— Temos quarenta e oito horas.

Caio começou às vinte e uma, quando os convidados entraram no salão. Olívia anotou lugares, pessoas e objetos. Ele perdeu as alianças antes da cerimônia, encontrou o pai perto do bar, recebeu a informação de que o problema fora resolvido. Depois do jantar, Rebeca o abordou junto à porta de vidro. Augusto apareceu pelo corredor da cozinha. Caio entregou o envelope. Foi ao banheiro procurar uma flor nova para a lapela.

— Quem colocou a flor? — perguntou Olívia.

— Uma mulher do cerimonial.

— Nome?

— Não sei.

— Uniforme?

— Preto. Talvez azul.

Na coluna de Olívia, a mesma faixa começava com Sônia chamando-a para a fotografia do bolo. Ela viu Caio no corredor, conversando com Augusto. Perguntou o que acontecera. Caio respondeu que faltava vinho no bar.

— Eu disse isso? — perguntou ele.

— Disse que o fornecedor errara a quantidade e Augusto resolveria.

— Não lembro de vinho.

— Havia seis caixas extras na cozinha na manhã seguinte. Minha mãe reclamou de ter pago e não usado.

Olívia encontrou no e-mail a nota do fornecedor. Às 22h24, o cerimonial pedira reposição urgente de doze garrafas. A mensagem saíra do endereço de Augusto e fora cancelada às 22h31, quando o vinho já estava no elevador de serviço.

— Sete minutos — disse ela. — O tempo necessário para tirar você do salão, receber o envelope e justificar a conversa se eu aparecesse.

Caio escreveu “vinho” na própria coluna. A palavra ocupou o lugar onde antes havia apenas o banheiro.

Passaram para a chegada ao hotel. Olívia lembrava a fotografia instantânea presa ao espelho e o carrinho diante do 306. Caio lembrava duas taças de espumante sobre a mesa e uma porta de serviço fechando no fim do corredor. Na versão dele, Augusto carregava uma pasta preta. Na de Olívia, tinha as mãos vazias.

— A pasta podia conter o envelope — disse Caio.

— Quatro dias depois do casamento?

— Podia conter as fotografias que estavam nele.

Chegaram à madrugada da queda. Às 02h18, Caio saiu para buscar gelo depois que o telefone tocou. Ele afirmava ter ouvido um homem da recepção oferecendo reposição do balde. Olívia lembrava uma voz feminina perguntando se “estava tudo no lugar”.

— Você estava no banheiro — disse Caio.

— A porta estava aberta.

— Eu ouvi “podemos levar gelo ao quarto”.

— Você respondeu “ela está aqui”.

— Respondi “estamos aqui”.

Olívia escreveu as duas frases. Uma letra transformava o telefonema em armadilha dirigida a Rebeca; outra, em serviço de quarto.

— Seu depoimento diz que não houve chamada — falou ela.

— Nosso depoimento diz muita coisa.

Às quatro da manhã, as colunas tinham sete divergências: a voz no telefone, a pasta de Augusto, a posição do cartão de memória, o momento em que a câmera do pátio foi percebida, a cor do uniforme da mulher que recolocou a flor, os sapatos de Caio e a última frase de Rebeca.

Olívia acrescentou uma terceira coluna, intitulada registro. Para a voz, havia o áudio; para o cartão, a marca de umidade no forro da mala; para os sapatos, as fotografias da polícia; para a câmera, somente lembranças. Nos espaços vazios, o casal havia escrito certezas que nenhum registro sustentava.

Caio pediu que ela criasse uma quarta coluna para decisões. Ao lado de cada divergência, escreveram o que fizeram apesar de discordar da memória: esconderam o cartão, alteraram o horário, aceitaram a limpeza e assinaram o depoimento. As ações coincidiam com mais precisão que os relatos.

Caio lembrava “cópia”. Olívia lembrava “culpa”.

— Ela disse cópia — afirmou ele. — Perguntei onde estava.

— Eu ouvi culpa.

— Você estava a dois metros.

— E você tinha chuva no ouvido, sangue nas mãos e medo.

Olívia abriu a gravação feita por acaso no bolso do robe. O arquivo começava com o ruído do detector na parede e terminava quando ela interrompia o áudio no pátio. Algumas vozes estavam cobertas pela chuva. Outras apareciam com clareza suficiente para corrigir os dois.

Às 02h18, o telefone tocava. A voz dizia: “O gelo está no segundo andar. Ela está esperando.” Caio respondia: “Estamos aqui.” A primeira palavra confirmava a lembrança de Olívia; o pronome dele confirmava a própria versão.

— Ele sabia que Rebeca vinha — disse Olívia.

— Ou Vera estava esperando com o balde.

— Você saiu depois de ouvir “ela”.

— Saí porque o gelo estava no segundo andar.

Na sequência da suíte, Rebeca pronunciava “ele sabe que eu vim falar com você”. O áudio preservava apenas a resposta de Olívia. Quando Caio entrava, a gravação captava o balde caindo, o transmissor e a voz de Augusto através da porta. Depois vinha a corrida.

No pátio, às 02h47, Rebeca dizia uma palavra com duas sílabas. Caio aumentou o volume. O primeiro som podia ser um C. O final desaparecia sob o trovão.

— Cópia — disse ele.

Olívia ouviu quatro vezes. Na última, percebeu um segundo ruído, mais baixo, logo após a palavra: a voz de Vera dizendo “a porta”. Nenhum dos dois guardara essa lembrança.

— Vera estava perto antes de Augusto mandar chamar pelo rádio — disse.

— Então a equipe já sabia da queda.

Olívia acrescentou a frase às duas colunas. O áudio corrigia a lembrança e deixava outra pergunta. Não decidia por que os dois obedeceram, nem transformava medo em coerção física. Eles ainda haviam voltado por escolha.

Passaram aos minutos dentro da suíte, entre 02h52 e 02h57. Caio lembrava-se de exigir que Augusto chamasse a polícia. No áudio, sua voz perguntava apenas quando a ambulância chegaria. Olívia lembrava ter recusado a versão escrita. O arquivo registrava sua sugestão para substituir “hóspede não identificado” por “funcionário em ronda”.

— Eu melhorei a mentira — disse ela.

— E eu dei linguagem médica para ela.

Caio escreveu ao lado do próprio nome: pulso e respiração espontânea às 02h53. A frase constava no relatório como se aquele tivesse sido o primeiro exame.

— Eu movi doze minutos — disse. — Usei um dado verdadeiro numa hora falsa.

Olívia encontrou outro ponto. Sua versão do depoimento dizia que permanecera no quarto enquanto Caio descia. O áudio captava a voz dela junto ao pátio. Augusto ouvira o arquivo inteiro antes de propor a declaração; por isso escolhera uma mentira que o telefone de Olívia poderia destruir.

— Ele deixou a prova conosco — disse. — Precisava que soubéssemos que também podíamos nos incriminar.

— Você a escondeu durante um ano.

— E você preferiu não perguntar se ainda existia.

Caio leu as duas colunas. Durante um ano, ambos repetiram as partes iguais do pacto. As diferenças ficaram em objetos separados: o áudio oculto por Olívia, o recibo guardado por Caio, a fotografia enviada a Malena, o vídeo entregue por Augusto.

— Vamos gravar — disse ele.

Olívia abriu o telefone e apoiou sobre a mesa.

— Um relato conjunto?

— Dois relatos. Sem ouvir o outro primeiro.

Caio foi para o quarto. Olívia permaneceu na sala. Gravou quarenta e três minutos, começando no casamento e terminando no momento em que assinou o depoimento. Disse que guardara o cartão, ocultara o áudio e autorizara a nota. Quando chegou aos dezenove minutos, teve de parar duas vezes para beber água.

Caio gravou cinquenta e oito minutos. Entregou o arquivo sem pedir acesso ao dela. Olívia copiou os dois para cartões distintos e lacrou as embalagens com fita. Um seria entregue a Malena; o outro, a um advogado que nenhum dos dois conhecesse da Vértice ou da Rede Ferraz.

Antes de lacrar, cada um escreveu três perguntas para o outro. Olívia perguntou quando Caio percebeu que a ambulância ainda não fora chamada, por que guardara o recibo do gelo e em que momento decidiu acreditar na versão da enfermeira. Caio perguntou quando ela escondeu o áudio, por que autorizou a nota uma semana depois e se reconhecera Rebeca antes da fotografia chegar.

Trocaram as folhas sem responder. As perguntas seguiriam com os relatos, para impedir que a primeira leitura servisse de preparação à segunda gravação.

Às seis e vinte, Malena respondeu à mensagem. Pediu que levassem os relatos à oficina e avisou que encontrara uma sequência maior do vídeo do casamento.

Quando chegaram, Renato Abranches, o fotógrafo, estava sentado diante da mesa iluminada. Trazia um disco rígido numa bolsa acolchoada. Malena explicara a morte de Rebeca e mostrara a imagem retirada do álbum. Ele concordara em abrir o arquivo físico na presença dos três.

— O técnico que esteve no estúdio apagou o diretório de trabalho — disse Renato. — Sobrou o backup das prévias porque estava num computador antigo.

As prévias tinham resolução baixa e marca d’água, porém preservavam a ordem completa. Às 22h17, Rebeca falava com Caio. Às 22h18, ele segurava o envelope. Às 22h20, Augusto recebia o pacote perto da cozinha. Às 22h21, uma mulher prendia outra flor na lapela de Caio.

Malena ampliou o último quadro. A mulher usava uniforme azul e estava de costas. Um crachá pendia da cintura.

— Não é do cerimonial — disse Renato. — Nossa equipe usava preto.

Na imagem seguinte, a mulher entrava no elevador de serviço com Augusto. Virava o rosto por um instante.

Olívia reconheceu a camareira que trocara o tapete da suíte 307.

Renato abriu os metadados. O crachá estava ilegível, embora o horário aparecesse com precisão. Malena comparou o rosto com fotografias públicas do hotel e encontrou uma funcionária chamada Vera Bastos. Trabalhara no Mirante do Sal durante nove anos e saíra três semanas depois da morte de Rebeca.

— Ela estava no casamento e no quarto — disse Malena.

— Foi a mulher que ficou com Rebeca no pátio — respondeu Caio. — Augusto disse que era enfermeira.

Malena anotou o nome.

— Onde ela mora?

— O perfil está sem atualização há onze meses.

O telefone de Renato tocou. Ele atendeu e perdeu a cor antes de dizer qualquer palavra. Colocou no viva-voz.

Uma voz masculina falou com calma.

— Senhor Abranches, a exclusão dos arquivos foi incompleta. Posso enviar um técnico para corrigir.

Renato olhou para Olívia.

— Quem está falando?

— Augusto Ferraz. A senhora Sampaio sabe como me encontrar.

A ligação terminou.

No computador, todas as prévias ficaram pretas ao mesmo tempo. O disco começou a emitir estalos regulares. Malena puxou o cabo, e Renato desligou a máquina da tomada.

Olívia ainda tinha diante de si a última imagem aberta antes da falha: Vera Bastos entrando no elevador com Augusto.

No crachá preso à cintura, o número ampliado formava duas letras e dois algarismos.

M-17.

1/1
Menu

Fazer anotação