O hotel por dentro O Segredo da Lua de Mel · Capítulo 12 de 15
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O hotel por dentro

O homem de camisa bege não tentou segui-los quando deixaram a rodoviária. Ficou na plataforma falando ao rádio, o rosto voltado para o ônibus de Vera. Malena fotografou-o através do vidro traseiro e enviou a imagem ao advogado antes que o carro alcançasse a rodovia.

— Augusto sabe que temos a chave — disse Caio.

— Sabe que encontramos Vera — respondeu Olívia. — A chave estava dentro da bolsa.

— Então voltamos para São Paulo.

Malena abriu no notebook a declaração de Vera e os registros de Davi.

— Rebeca escondeu a gaveta para que alguém chegasse até ela.

— Rebeca morreu tentando chegar — disse Caio.

Olívia observou a placa que indicava a Costa Verde. O hotel estava a menos de duas horas. Augusto preparava o quarto porque esperava que o medo os fizesse recuar ou que a culpa os levasse diretamente à entrada principal. As duas reações davam a ele a primeira decisão.

— Vamos entrar com nossos nomes — disse ela.

Caio diminuiu a velocidade.

— Ele acabou de mandar um homem nos esperar.

— Se usarmos uma reserva falsa e desaparecermos numa área de serviço, ele controla o registro. Quero câmeras na chegada, recibo, funcionários e hóspedes vendo nós três.

— E depois?

— Mandamos uma cópia da documentação ao advogado com liberação programada. Se ficarmos sem contato por uma hora, ele procura a polícia de São Paulo e a imprensa.

Malena fechou o notebook.

— Eu faço a reserva.

O Hotel Mirante do Sal tinha quartos disponíveis em todas as categorias, exceto a suíte 307. No site, ela aparecia bloqueada para uma preparação especial. Malena reservou dois quartos comuns com os nomes verdadeiros e pagou antecipadamente. Olívia enviou confirmação, localização e fotografias dos cartões a três pessoas. Caio compartilhou a viagem com o diretor do pronto-socorro, dizendo que investigava uma possível omissão médica ligada a um caso antigo.

Malena criou uma rotina de confirmação a cada trinta minutos. Uma mensagem vazia significaria que estavam circulando pelo hotel; uma fotografia do próprio pulso, que alguém os acompanhava; ausência completa por sessenta minutos liberaria os documentos. Caio achou o código frágil.

— Ele pode obrigar qualquer um a enviar uma fotografia — disse.

— Por isso a imagem precisa mostrar o relógio e a pulseira de Rebeca.

Malena retirou da caixa uma pulseira de contas verdes encontrada entre os pertences da irmã. Usaria no braço esquerdo durante toda a entrada. O objeto pertencera a uma viagem das duas a Paraty, seis anos antes. Rebeca comprara duas; a de Malena arrebentara no ônibus de volta.

— Se a pulseira aparecer no braço direito, saiam e chamem a polícia — explicou.

Olívia fotografou a regra junto dos recibos.

Chegaram pouco depois das dez. O céu estava limpo, e sem a tempestade o casarão ocupava menos do horizonte. As janelas abertas refletiam o mar. Hóspedes tomavam café na varanda, crianças corriam em torno da fonte e um funcionário oferecia toalhas frias perto da entrada.

Augusto esperava no saguão.

Usava um terno claro e o mesmo anel no indicador. Ao ver Malena, inclinou a cabeça como se a conhecesse de outro evento.

— Senhora Sampaio, doutor Ventura. É uma surpresa recebê-los no aniversário.

— A reserva está em nome de Malena Nogueira — disse Olívia.

Augusto não desviou os olhos.

— Preparei a suíte antiga de vocês. Imaginei que desejassem encerrar a lembrança no lugar em que começou.

— Reservamos dois quartos comuns.

— Cortesia da casa.

Malena colocou o documento sobre o balcão.

— Quero os quartos pagos.

O recepcionista digitou durante alguns segundos. Augusto sorriu e mandou entregar as chaves 214 e 215. Antes de se afastar, colocou sobre o balcão uma fotografia instantânea. Era a imagem retirada do álbum da lua de mel: Olívia e Caio diante da fonte, quatro dias antes da morte de Rebeca.

— Isto pertence a vocês — disse.

Olívia virou a fotografia. No verso havia uma frase escrita recentemente: O 306 continua vazio.

— Você entrou no nosso apartamento — disse Caio.

— Sua sogra enviou material para a homenagem. Talvez a fotografia estivesse entre as cópias.

— Minha mãe nunca teve essa imagem.

Augusto ajeitou os punhos da camisa.

— Memórias familiares costumam circular por caminhos inesperados.

Malena guardou a fotografia num saco plástico.

— Onde está Jonas Moraes?

O sorriso de Augusto desapareceu.

— Nossa equipe de segurança não fornece informações pessoais a hóspedes.

Ele se afastou antes que Malena respondesse.

Os quartos 214 e 215 ficavam na ala nova, longe do corredor técnico. Olívia e Caio deixaram uma mala em cada um, fotografaram as portas e testaram o sinal dos telefones. Malena montou no quarto 215 uma estação de cópia. Três cartões vazios, dois discos externos e um modem independente ficaram alinhados sobre a escrivaninha.

Às onze, enviaram ao advogado a documentação reunida. O arquivo incluía os relatos separados, os registros de Davi, a declaração de Vera, as imagens do álbum e a fotografia do homem na rodoviária. A mensagem de liberação automática foi programada para a uma da manhã.

— Se perdermos contato, ele envia — disse Malena.

Caio verificou a chave de serviço. O metal trazia marcas recentes nos dentes, sinal de que alguém a testara ou copiara.

— Entramos antes do jantar — sugeriu. — Com movimento nos corredores.

— A rouparia fica perto do salão — respondeu Olívia. — À tarde haverá funcionários. Depois da meia-noite, Jonas espera que durmamos.

Passaram o dia como hóspedes. Almoçaram no restaurante, caminharam pelo jardim e pediram informações sobre a história do casarão. Olívia reconheceu três funcionários da lua de mel. Nenhum sustentou seu olhar. A camareira que arrumou o quarto 214 deixou toalhas extras e um bilhete sem assinatura sob a bandeja.

A parede da rouparia foi fechada. Procurem o armário de incêndio.

Malena fotografou o bilhete e queimou a borda sobre a pia para confirmar o tipo de papel. Era o mesmo bloco usado pela governança.

A camareira voltou vinte minutos depois com sabonetes que ninguém pedira. Chamava-se Ivone e trazia no crachá a mesma meia-lua dourada vista nos uniformes antigos. Mantendo a porta aberta para a câmera do corredor, falou sobre a previsão de chuva. Quando entregou a caixa a Malena, pressionou o polegar contra o fundo.

Havia um cartão de papel escondido sob os sabonetes: `INCÊNDIO 2B: empurrar, girar, puxar`.

— Você conheceu Rebeca? — perguntou Malena.

Ivone alinhou os frascos sobre a pia.

— Ela conferia até toalha que já tinha virado pano.

— Viu o que aconteceu naquela noite?

— Vi Jonas recolher os celulares. Depois vi a água correr vermelha perto do ralo do pátio.

Ivone pediu que seu nome ficasse fora da mensagem automática até a chegada da polícia. Tinha dois filhos empregados na rede. Antes de sair, olhou para a pulseira verde no braço de Malena.

— Rebeca usava uma igual quando veio fazer a última auditoria.

No corredor da ala antiga, uma exposição apresentava reformas do hotel. Fotografias em preto e branco mostravam a construção das varandas, a antiga lavanderia e a instalação da rede elétrica. Malena encontrou numa imagem de dez anos antes uma porta onde agora havia parede. A legenda chamava o espaço de sala técnica da ala sul.

— O 306 já era técnico antes das câmeras — disse.

Olívia fotografou a planta exibida sob o vidro. O quarto se ligava à rouparia por um corredor estreito e possuía uma saída para a cozinha. Na reforma seguinte, as passagens desapareceram da versão pública.

Um funcionário idoso recolocava lâmpadas no teto. Quando viu a fotografia das 02h47 no telefone de Malena, pediu que guardasse.

— A família não gosta que hóspedes falem daquela noite — disse.

— O senhor trabalhava aqui? — perguntou Malena.

— Trabalhava antes de Augusto nascer.

Ele se chamava Anselmo e cuidava da manutenção dos jardins. Lembrava-se da ambulância e da ordem para lavar o pátio antes do amanhecer. Jonas fechara a ala antiga, recolhera os telefones dos funcionários e mandara todos assinarem que a chuva danificara as câmeras.

— O sistema voltou quando? — perguntou Caio.

— Nunca parou. Eu via a luz no 306 durante a tempestade.

Anselmo contou que Rebeca costumava chegar antes do turno para conversar com funcionários antigos. Perguntava quais paredes eram ocas e onde os cabos passavam. Na tarde anterior à queda, entregara a ele uma chave de armário e pedira que a levasse a Malena se algo acontecesse. Jonas revistou os bolsos de todos antes da saída; a chave desapareceu.

— Era vermelha? — perguntou Malena.

— A chave era comum. Vermelho era o barbante preso nela.

Antes de se afastar, Anselmo apontou para o armário de incêndio no segundo andar.

— A mangueira nunca funcionou. O fundo abre para dentro.

Às dez da noite, Augusto enviou uma garrafa de espumante aos dois quartos. O mensageiro pediu que assinassem o recebimento. Caio manteve as garrafas fechadas e guardou os recibos. Às onze e quarenta, o corredor silenciou.

Os três saíram por portas diferentes. Malena desceu pela escada principal; Olívia e Caio, pelo elevador. Encontraram-se no segundo andar e atravessaram o salão vazio. A rouparia tinha uma fechadura eletrônica nova e uma câmera sobre a porta. O armário de incêndio ficava quinze metros adiante.

Caio abriu a tampa de vidro. Atrás da mangueira havia uma pequena lingueta de metal. A chave de Vera entrou com resistência. Quando girou, parte do fundo do armário recuou.

Uma passagem estreita seguia entre as paredes. Cheirava a poeira, tecido úmido e fio aquecido. Malena entrou primeiro com uma lanterna de luz vermelha. Caio fechou o painel atrás deles.

O corredor subia por seis degraus e terminava diante de uma porta sem maçaneta. A chave abriu a trava mecânica. Do outro lado estava o quarto 306.

Não havia cama, cortinas ou infiltração. Três cadeiras giratórias permaneciam diante de uma bancada comprida. Monitores antigos ocupavam a parede. Cabos saíam de conduítes numerados e desapareciam em furos voltados para a suíte 307, o corredor e o pátio.

Malena começou uma gravação contínua. Disse a hora, o caminho percorrido e a posição de cada pessoa. Caio permaneceu junto à porta enquanto Olívia filmava o número dos conduítes. Nenhum deles tocou a bancada antes de registrar a camada de poeira e as marcas recentes deixadas diante da cadeira central.

Na parede havia um quadro de turnos com nomes apagados por solvente. Sob a luz lateral, ainda se distinguiam iniciais e horários. `A.F.` ocupava as noites do casamento. `J.M.` aparecia entre 22h e 4h. Uma terceira linha tinha apenas `R`, escrita a lápis e riscada com tanta força que o papel se rasgara.

Malena aproximou a câmera.

— Rebeca esteve incluída no turno ou alguém registrou quando ela entrou.

Olívia encontrou uma fotografia instantânea presa atrás do quadro. Mostrava a suíte 307 vazia antes da chegada do casal. Sobre a cama havia duas pastas, uma com seu nome e outra com o de Caio. No verso, Augusto anotara: suposições divergentes aumentam adesão.

Caio leu sem tocar no papel.

— Ele sabia que procuraríamos uma explicação um no outro.

Olívia acendeu apenas a lanterna. O facho encontrou etiquetas com datas, iniciais e números de quartos. Algumas eram anteriores ao casamento; outras tinham menos de um mês.

— Continua funcionando — disse Malena.

Caio tocou a lateral de um monitor. Estava morno.

Sob a bancada havia um servidor estreito. Duas luzes verdes piscavam. Malena conectou um dos discos externos e iniciou uma cópia sem abrir os diretórios. A tela pediu credenciais, porém o sistema permitiu acesso ao armazenamento local como manutenção.

O programa exibiu cento e doze pastas identificadas por quartos e datas. Algumas tinham um ícone de cadeado; outras, uma seta indicando envio externo. Malena fotografou a tela e fechou a visualização antes que miniaturas fossem carregadas.

— Não abram vídeo nenhum — disse. — Primeiro copiamos estrutura, nomes e registros. As pessoas filmadas continuam tendo direito de decidir quem vê.

Caio marcou no relógio o início da transferência. Olívia leu os destinos externos: escritórios de segurança, servidores sem nome e uma pasta compartilhada com iniciais que reconheceu como pertencentes ao núcleo da Vértice. O código aparecia em três anos diferentes.

Ela anotou as iniciais sem explicar naquele momento. Precisava confirmar quem utilizava a credencial antes de atribuir o acesso. A descoberta já ligava o hotel à empresa por um caminho mais direto que os contratos públicos.

Olívia examinou a parede voltada para a suíte 307. Atrás de uma grade de ventilação, enxergou o contorno do espelho do quarto. Outro orifício atravessava o detector de fumaça. Um microfone seguia pelo conduíte até o telefone.

No móvel de controle havia quatro gavetas cinzentas. Nenhuma vermelha. Caio retirou as cadeiras e encontrou trilhos no piso, indicando que o móvel podia ser deslocado. Os três empurraram juntos. A bancada avançou poucos centímetros e revelou uma placa presa à parede.

Malena soltou dois parafusos com a ponta da chave. Atrás da placa havia uma gaveta pintada de vermelho.

Dentro estavam o caderno desaparecido de Rebeca, dois cartões de memória, um conjunto de chaves e envelopes identificados com nomes de hóspedes. O primeiro envelope trazia o nome de Olívia Sampaio. O segundo, Caio Ventura. Um terceiro dizia Sônia Sampaio.

Olívia abriu o seu. Havia fotografias feitas na sala da noiva, uma transcrição de sua conversa com a mãe e uma página intitulada Vértice Estratégia: respostas possíveis. Augusto registrara frases que ela costumava usar com clientes e estimara quais adotaria se surgisse um acidente durante a viagem.

No envelope de Caio havia o histórico profissional, plantões, processos médicos arquivados e uma lista de decisões sob pressão. Ao lado de “vítima consciente”, alguém escrevera: tende a permanecer se houver responsabilidade direta da esposa.

— Ele planejou a escolha — disse Caio.

— Planejou como nos pressionar — respondeu Olívia. — A queda não estava prevista.

Malena abriu o envelope de Sônia. Encontrou recibos do casamento, mensagens com Augusto e as autorizações para corrigir o álbum. Havia também uma fotografia de Sônia entregando o primeiro envelope a ele às 22h20.

— Rebeca reuniu isso depois? — perguntou Caio.

— Parte é dela — disse Malena. — Parte estava guardada por Augusto.

O caderno vermelho separava as duas origens. Rebeca marcara em azul o que copiara do servidor; em vermelho, o que testemunhara. A última página completa tinha a data da queda. Nela estavam os números 306 e 307, o nome de Olívia e uma frase: Levar cópia. Original com Lena.

Malena passou o dedo sobre a linha.

— Eu nunca recebi o original.

— Talvez “original” seja outra coisa — disse Olívia.

O servidor emitiu um sinal. A cópia alcançara quarenta por cento. Um dos monitores acendeu sozinho. Mostrou a suíte 307 vazia, preparada com flores e espumante. A imagem vinha de cima do espelho.

Outro monitor despertou. Exibia o quarto 214, onde a mala de Olívia estava aberta sobre a cama. Um homem de luvas examinava as roupas.

O terceiro mostrou o quarto 215. Jonas Moraes estava diante da escrivaninha, desconectando o modem e recolhendo os cartões vazios.

— A mensagem automática — disse Malena.

Ela consultou o telefone. Sem sinal.

Caio puxou o cabo do disco antes que a cópia terminasse. O servidor disparou um alarme baixo. Na porta do corredor técnico, a fechadura girou pelo lado de fora.

Olívia recolheu a gaveta vermelha e os envelopes. Malena guardou o disco incompleto sob a camisa. Caio tentou a chave de serviço. Ela já não movia o mecanismo.

No monitor da suíte 307, Augusto entrou carregando a fotografia instantânea. Colocou-a sobre a cama e olhou diretamente para a lente.

Em seguida, sua voz saiu pelo alto-falante do 306.

— Agora podemos rever os dezenove minutos sem depender da memória de vocês.

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